Porandudas políticas

Postado às 15h45 | 06 janeiro 2021 |

Porandudas polìticas

Abro a primeira coluna do ano com uma historinha de Caruaru.

Uma infelicidade

Em Caruaru/PE, o coronel João Guilherme, senador estadual e chefe político, comprou a um matuto um cavalo de sela. Cavalo bonito, mas com a pálpebra caída. Cego de uma das vistas. Ao descobrir o logro, o coronel ficou indignado. Fez vir à sua presença o espertalhão. Ameaçou-o de cadeia.

- Você teve a coragem de me vender um cavalo cego dum olho! Isso é uma falta de seriedade! Você fez negócio com um homem e não com um tratante da sua laia! Por que você não teve a franqueza de me dizer que o cavalo tinha esse defeito?

- Mas, seu coronéu, vamincê me desculpe que eu lhe diga: o cavalo que eu lhe vendi não tem defeito, não!

- Não tem defeito? Não tem defeito? Então, você acha que um cavalo cego dum olho não tem defeito?

- Seu coronéu, vamincê me desculpe, mas eu acho que não tem não! Ser cego não é defeito: ser cego é uma infelicidade...

(Historinha de Leonardo Mota em Sertão Alegre)

2021 sob olhar desconfiado

Começa 2021. Os olhares diferem de foco e perspectivas. Uns olham para as cargas de vacinas que já chegaram e as que vão chegar. Há dúvidas sobre os rumos a seguir. O olho federal enxerga a imunização de um jeito. Os olhos de Estados e municípios não sabem bem para qual direção fixar sua atenção. Parcela da população nem pelas vacinas perde tempo, sob o descrédito da algaravia criada em seu entorno. O Brasil abre as cortinas do novo ano sob uma imensa sombra, que fecha os horizontes e turva a visão.

Que vacina tomar?

Alguns estão na dúvida: que vacina tomar? A pergunta que muitos fazem leva em conta a disponibilidade para escolher a vacinas. Pois vamos lá: não haverá essa possibilidade. Quem não tomar a que estará à disposição, perderá a vez. Daí a sugestão do bom senso: tome a primeira a que você, leitora/leitor, tiver acesso. Claro, depois de referendada pela agência de controle, a Anvisa. Se a eficácia for de 70%, vá em frente. Não espere a de eficácia de 95%. Um dia, uma semana ou um mês a mais poderá fazer diferença. E ninguém pode ser dar ao luxo de esperar pela vacina de maior eficácia. A segunda onda, pelo que se apura, está sendo mais perigosa do que a primeira.

Bolsonaro

O presidente continua a fazer muxoxo ante vacina a, b ou c. Está firme em sua posição - fazer aglomeração, não usar máscara ou usá-la apenas em eventos no Palácio do Planalto, considerar besteira essa ansiedade para tomar a vacina (no que é imitado por seu ministro da Saúde, Pazuello), não induzir ninguém à vacinação, muito pelo contrário. Seu foco é o encontro com as massas, uma escapada do Palácio ou um nado no mar para abraçar e ser abraçado pela galera na praia para ouvir o grito de guerra: mito, mito, mito.

É o mito

Jair Bolsonaro é um mito? Será que pode ser comparado a Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Getúlio Vargas, que tinham a admiração das massas? Está a léguas de distância. Não pode ser comparado nem aos generais dos tempos de chumbo, que tinham um programa a cumprir e até certo espírito democrático, como historiadores atribuíam, por exemplo, a Castelo Branco. Na verdade, o capitão está muito embaixo da régua do preparo e da competência, não apenas pela pequena formação obtida até o grau de tenente, sua patente antes de se aposentar, mas pela conduta que foge completamente à liturgia que deve cercar a figura do presidente da República e de um chefe de Estado.

Por que o mito?

Porque era a opção que o eleitorado enxergou para evitar a volta do PT ao poder. Ganhou em 15 Estados e no DF de Fernando Haddad. Encaixa-se na historinha: quem não tem cão caça com gato. Preencheu, ao mesmo tempo, o sonho da direita, que esteve recôndita ao longo de décadas. Valores tradicionais foram encarnados por Bolsonaro, que mediu o tamanho oceânico do vácuo entre a classe política e a sociedade. Tapou o buraco com sua presença. Mas o tampo não foi uma roda completa. Digamos que tenha sido uma roda um pouquinho maior do que a metade. Hoje, a maior parte da roda está contra ele.

Puxar o passado

Outra pergunta recorrente: e por que o capitão continua desaforado, xingando uns e outros, vituperando contra adversários, batendo em teclas de uma obsoleta máquina de escrever, quando todos (ou quase) preferem usar o teclado do computador? A imagem serve apenas para dizer que o presidente tem obsessão por coisas ultrapassadas. E não adianta dizer para ele que parceiros que gostam das mesmas coisas, como o ricaço Donald Trump, perdeu a eleição norte-americana por não querer ver traços de modernidade na sociedade e por um estilo arrogante com o qual passa a imagem de onipotente. Não é que, a essa altura, o cara ainda acha que ganhou a eleição no território da maior democracia do planeta?

Segurar a base

Mas não é apenas esse gosto de ressuscitar o passado, na forma de elogios e defesa da tortura e outras maluquices, que distingue a índole do capitão. Ele sentiu que uma base de apoio popular se faz necessária para criar o clima de campanha permanente. Nesse sentido, faz o que Lula, do PT, sempre fez. Campanha todo tempo, palanque como candidato e palanque como presidente. Bolsonaro precisa oferecer alimento para as galeras que o aplaudem. E veste-se com a roupa do homem comum, "uma pessoa como nós", que mergulha no mar, faz piadas, levanta e beija criancinhas, toma café na padaria, corta o cabelão com Mané Barbeiro, chega de surpresa nos ambientes e, sob os gritos de "é ele mesmo", puxa o laudatório "é o mito, é o mito, é mito". Refrão de campanha política. Equivale ao "Lula-lá" e ao "oPTei", criados pelo publicitário Carlito Maia, décadas passadas.

Aliás....

Essa mania de apontar o candidato ou o governante como sendo isso e aquilo faz tradição por nossas plagas. Gleiber Dantas de Melo, em sua dissertação de mestrado, (Análise Discursiva do Governo do Monsenhor Walfredo Gurgel-1966-1971), apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Avançado Profa. "Maria Elisa de Albuquerque Maia" (CAMEAM), como requisito para o título de mestre em letras, narra o seguinte sobre a campanha de 1965 para o governo do RN, disputada por Dinarte Mariz e Monsenhor Walfredo Gurgel.

É o velho, é o padre

- Não obstante serem Dinarte e Walfredo quase de uma mesma idade - aquele, nascido em 1903; este, em 1908 -, logo, e quase espontaneamente, se definiram os gritos da guerra eleitoral que estava por começar. Os correligionários de Dinarte, àquela altura com bastantes cabelos embranquecidos, gritavam: "É o velho, é o velho, é o velho!"; era mais fácil dizer assim do que repetir todo o slogan de sua campanha política: "O velho tinha razão!". Os eleitores de monsenhor Walfredo faziam a ofensiva, bradando: "É o padre, é o padre, é o padre!".

O velho outra vez

Mais uma de velho, desta feita com o mito Getúlio Vargas. Durante o Estado Novo (1937-1945), o retrato oficial de Getúlio Vargas, com a faixa presidencial, tirado em 1934, figurava também na parede dos lares, até de não-simpatizantes, por precaução. Com a deposição de Getúlio, após quinze anos no poder, o retrato saiu de cena. Mas, em 1950, Getúlio volta à chefia da Nação, agora eleito pelo povo, e o resultado foi uma marchinha de sucesso, cantada por Francisco Alves na folia de 51, conclamando a volta do retrato e ironizando os antigetulistas. (Letra: Bota o retrato do velho outra vez; bota no mesmo lugar; bota o retrato do velho outra vez; o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar; eu já botei o meu; e tu não vais botar; eu já enfeitei o meu e tu não vais enfeitar. O sorriso do velhinho faz a gente se animar).

O espírito do ano

Como fica implícito nas notas acima, o espírito do ano será impregnado pela política. Podemos prever o acirramento entre bolsonaristas e contrários. Poderia haver certo arrefecimento em caso de harmonia social, fruto, por sua vez, de economia alavancada. Essa possibilidade é remota. Será desafio o destravamento das engrenagens da economia. Os blocos partidários na Câmara e no Senado afiarão as suas espadas. O tom de beligerância seguirá em um crescendo até 2022.

Reforma ministerial

Para tentar adensar sua base política, o presidente deverá promover trocas de ministros. Não deu resultados, ministro cairá fora. A troca será constante, o que ocasionará muita desconfiança à esfera política. E à medida que o presidente vá esgarçando sua teia de apoio popular, os políticos tendem a se afastar do Palácio do Planalto. Olho por olho, dente por dente.

Enem

O Ministério da Educação acaba de apresentar o calendário do ENEM. Abaixo algumas pérolas dos testes do passado, enviadas por leitores:

- A fé é uma graça através da qual podemos ver o que não vemos.

- Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes da Mesopotâmia.

- O objetivo da Sociedade Anônima é ter muitas fábricas desconhecidas.

- A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva.

- O ateísmo é uma religião anônima.

- A respiração anaeróbica é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos.

- O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa unidade de tempo.

- Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto.

- Caráter sexual secundário são as modificações morfológicas sofridas por um indivíduo após manter relações sexuais.

- Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigênio.

- A harpa é uma asa que toca.

- O vento é uma imensa quantidade de ar.

- O terremoto é um pequeno movimento de terras não cultivadas.

- Os egípcios antigos desenvolveram a arte funerária para que os mortos pudessem viver melhor.

- Péricles foi o principal ditador da democracia grega.

- O problema fundamental do terceiro mundo é a superabundância de necessidades.

- A unidade de força é o Newton, que significa a força que se tem que realizar em um metro da unidade de tempo, no sentido contrário.

- Lenda é toda narração em prosa de um tema confuso.

- O nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro.

- A febre amarela foi trazida da China por Marco Polo.

Postado às 16h00 | 05 janeiro 2021 |

Porandudas politicas

Abro a coluna com Arandu, São Paulo.

Emprego pro prural

Arandu, em São Paulo, começou sua história como pequeno povoado, no bairro do Barreiro, no município de Avaré. Em 1898, um pedaço de uma fazenda leiteira da região foi doado para a construção de uma capela. Elevado a distrito de Avaré/SP, em 1944 recebeu na ocasião a atual denominação. Em 1964, conquistou a emancipação política. No primeiro comício, os candidatos a prefeito exibiam seus verbos. Dentre eles, o matuto José Ferezin. Subiu ao palanque e mandou brasa:

- "Povo de Arandu, vô botá água encanada, asfaltá as rua, iluminá as praça, dá mantimento nas escola...".

Ao lado, um assessor cochichou:

- "Zé, emprega o plural".

O palanqueiro emendou:

- "Vô dá emprego pro prural, pro pai do prural e pra mãe do prural, pois no meu governo não terá desemprego". (Historinha enviada por Marcio Assis)

Panorama visto da ponte

Da ponte entre a pandemia e os tempos tão esperados da pós-pandemia é possível distinguir traços do panorama: 1. Ela não irá embora, devendo dar as caras aqui e acolá, sem aviso prévio; 2. A Covid-19 deverá comparecer às urnas dentro da cabeça de eleitores medrosos, daí a previsão de que o índice de abstenção em 15 de novembro, junto aos nulos e brancos, deverá ultrapassar a casa dos 30%; 3. A campanha será nacionalizada nas capitais e grandes cidades, apesar do esforço de candidatos para deixá-la restrita aos espaços municipais; 4. O apoio de Bolsonaro a alguns candidatos será uma alavanca em rincões mais distantes, mas poderá se transformar um bumerangue (efeito contrário) em São Paulo, por exemplo. Tem mais pela frente.

Nuvens cinzentas

Ainda do meio da ponte da transição entre o Brasil pré e pós-eleição de novembro, são perceptíveis as nuvens cinzentas que baixam sobre alguns terrenos, como o da economia. A lei do teto deverá ser cumprida com muito esforço, após essa tentativa de reaproximação entre Paulo Guedes e Rodrigo Maia. O presidente da Câmara chegou a pedir desculpas por ter sido grosseiro com Guedes. E este saiu do encontro confortado com as palavras e compromissos assumidos por Maia e Davi Alcolumbre. Vai se arrumar maneira de conseguir um dinheirão para o Renda Cidadã. Provavelmente da seara do Imposto de Renda. Mas os pedidos de "me dá um dinheiro aí" vão se multiplicar. E ofuscar a escalada de obras previstas. Dívidas de curto prazo chegam a R$ 1 trilhão.

Debulhando a espiga

Vejamos o que mostra a espiga de milho sobre o quadro eleitoral em São Paulo, o maior colégio do país. São Paulo sedia as maiores classes médias, os maiores grupamentos de profissionais liberais, os mais densos contingentes de trabalhadores, em suma, o mais contundente rolo compressor contra o status quo, e que contém: corrupção, maus serviços públicos, governantes desastrados, inércia e inação, etc. O pensamento racional do país se desenvolve com força em São Paulo. E o que as pesquisas dizem? O maior índice de rejeição em São Paulo é o de Bolsonaro, com 46%, sendo o segundo de João Doria, 39%. Ora, colar o nome de um ou outro candidato aos perfis rejeitados pode ser um bumerangue, fazendo efeito contrário.

Rejeição

A rejeição é uma das maiores barreiras enfrentadas pelos candidatos, que tendem a olhar apenas para os índices de intenção de voto. Russomano, com 24%, e Bruno Covas, com 18% na pesquisa Ibope estão no limite do empate técnico. Daí a necessidade de se fazer acurada leitura sobre a rejeição, os blocos que a fazem, a tendência de polarização, as maneiras como trabalhar a campanha para diminuir seus impactos. Urge lembrar, nesse momento, que as classes médias e os núcleos de profissionais liberais exercem extraordinária importância na moldura eleitoral - em um ambiente polarizado - por sua identidade de "pedra no meio do lago". Jogue-se uma pedra no meio da lagoa e as ondinhas correrão até às margens. Essa é a capacidade de classes médias de influenciar o voto das margens.

Russomano e Covas

Celso Russomano construiu a imagem de defensor do consumidor com seus programas de TV ao longo de três décadas. Mas não entra bem no sistema cognitivo do meio da pirâmide, que o identifica como perfil demagógico, de viés oportunista. Já seu vice, o ex-presidente da OAB/SP, Marcos da Costa, poderá atenuar as bordas sujas da imagem russomânica. Bruno Covas tem o sobrenome do avô, Mário, cuja imagem é das melhores no campo dos valores. E enfrentou um câncer de maneira corajosa e até arrojada, merecendo o respeito da população. Mas não ganhou a lapidação do grande gestor, de um gerentão capaz de alavancar um forte programa de obras. Esses são alguns prós e contra dos dois candidatos que lideram a corrida municipal em SP.

Trumpinando

Esse presidente norte-americano, Donald Trump, é mesmo um fanfarrão. Recebeu a visita da Covid-19, mostrou medo, correu para um bom hospital, sob a assistência de médicos especialistas, tomou drogas fortes, recebeu doses de oxigênio, saiu no meio da sua "gripezinha" para um passeio em que acenou para simpatizantes, fechou os vidros do carro, com ameaça de contaminar os agentes secretos, recebeu alta e manda o recado: "não tenham medo desta Covid-19. Eu venci. Saiam às ruas". E deve usar a pandemia como arma contra Joe Biden. Pilantragem não tem só por aqui.

Razão sobre emoção

Se a razão vencer a emoção, Trump estará perdido. Mas as suas bases se mobilizam sob a corrente da emoção. Iguais às de Bolsonaro. O voto sobe à cabeça, sim, mas com certa lerdeza.

Guedes

Paulo Guedes está mais humilde e, se não houver mais nenhuma turbulência, ele aguentará o voo até 2022. Mas são fortes os comentários no entorno da cúpula de que o ministro da Economia está com o copo quase transbordando.

Amiúde

A estudantada está esperta. Dia desses, um aluno de um grupo de trabalho da Universidade Federal do ABC, que se destaca pela qualidade de seu professorado, inseriu em um texto o advérbio amiúde. Um colega retrucou: por que não substituir por "com frequência"? A grita foi geral. Choveram protestos sob mensagens que pediam a permanência do advérbio. E indicavam letras de musicas: Chão de Giz, de Zé Ramalho: "Eu desço dessa solidão/Espalho coisas sobre um chão de giz/ Há meros devaneios tolos a me torturar/ Fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde"; Geni e o Zepelin, de Chico Buarque: "De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/ Ela já foi namorada/ O seu corpo é dos errantes/Dos cegos, dos retirantes/ É de quem não tem mais nada/Dá-se assim desde menina/ Na garagem, na cantina/Atrás do tanque, no mato/ É a rainha dos detentos/Dos moleques do internato/E também vai amiúde".

O Brasil real

A nomeação do desembargador piauiense Kassio Nunes para o STF vai ser palatável com mais um pouco de tempo. Os evangélicos querem apenas fazer barulho e garantir a vaga de Marco Aurélio, aliás já prometida por Bolsonaro. O presidente percebeu que não governa sem articulação com o Congresso e o STF.

Em chamas

Pantanal, Amazônia, cerrado, caatinga nordestina sem água, o Brasil está em chamas. Perdas incontáveis. Meio ambiente só vai se recuperar em quatro a cinco décadas. O ministro Salles continua arrogante. A criminalidade chega ao ponto de combustão.

Brasil mais plural

Este consultor prevê na composição do primeiro andar do edifício político - prefeitos e vereadores - a construção de um Brasil mais plural, mais representativo das margens e do meio. A participação política de classes e categorias sociais será mais intensa e densa.

21 de outubro

Marcada para o dia 21 de outubro a sabatina de Kassio Nunes Marques no Senado. Passará tranquilamente. O desembargador é bom de articulação.

Campanha eleitoral

À guisa de ligeira orientação.

Conselho aos partidos

1. A negatividade costuma abrir campo nos espaços da mídia eleitoral. Procurem evitar campanhas negativas, caracterizadas por ataques e xingamentos a adversários.

2. Procurem compor programas eleitorais com exposições objetivas e propostas viáveis, demonstrando quanto custarão e de onde virão os recursos.

3. A procura de diferenciais para arrumar os perfis dos candidatos é uma meta desejável e todo esforço de marketing deve ser empreendido para consegui-la. É legítima a comparação de perfis quando dois ou mais contendores debatem suas diferenças no plano das ideias, não na esfera de vida pessoal.

Perfis à mostra

Tenho sido indagado sobre os perfis preferenciais do eleitorado. Cada região tem suas preferências. Há, porém, traços sobre os quais parece haver consenso:

passado limpo, vida decente - candidatos que possam exibir sua trajetória sem ter vergonha de mostrar aspectos de sua vida;

identificação com a cidade - candidatos que busquem vestir o manto da cidade, significando compromisso com as demandas das comunidades e as questões específicas dos bairros;

despojamento, simplicidade - candidatos despojados, simples, descomplicados, sem as lantejoulas e salamaleques que costumam se fazer presentes no marketing exacerbado. Candidatos não afeitos ao 'dandismo' - mania de querer aparecer de maneira diferente;

respeito, decência, dignidade pessoal - candidatos de postura respeitosa para com os eleitores e identificados com uma vida pessoal e familiar digna;

- transparência, verdade - candidatos que não temam contar as coisas como elas são ou foram;

objetividade, viabilidade de propostas, concisão, precisão - candidatos de expressão objetiva e concisa, capazes de fazer propostas viáveis e não mirabolantes. Precisos na maneira de abordar os assuntos.

Fecho a coluna com a Bahia.

Grande prole

Da Bahia, vem a historinha. José de Almeida, contador do Banco do Brasil, fazia o cadastro da agência. Um dia, chega Heroíno Pita, fazendeiro, que respondeu na bucha o formulário: nome, idade, imóveis, renda anual, dívidas. Aí vem a pergunta:

- Quantos filhos o sr. tem?

- 8 filhos

- Tudo isso? O senhor tem uma prole grande.

Heroíno, entre sorridente e cabreiro, faz o gesto com as duas mãos:

- Não, senhor. É normal. Normal.

Postado às 16h00 | 05 janeiro 2021 |

A DEUSA TÊMIS MORRE DE RIR

A mentira tem perna curta. O desembargador Kassio Nunes Marques certamente não imaginava que seu curriculum vitae e seus escritos fossem vasculhados pela imprensa. E sua verdade questionada. Teria ouvido palestras que apareceram como curso de pós-doutorado. Mesmo com perna curta, a mentira corre como gazela. De repente, Kassio viu seu conceito escapar pela janela da dissonância.

 

A não ser que o juiz piauiense indicado para entrar no STF na vaga de Celso de Melo tenha se inspirado em Brecht, que escreveu um ensaio sobre “cinco maneiras de dizer a verdade”. O momento e as circunstâncias poderiam, por exemplo, ter sido usados para reforçar sua bagagem acadêmica, ferramenta para alargar o tamanho do seu perfil.

Ocorre que o STF é a nossa mais alta corte. E deve ser composto por quadros de boa envergadura. É inimaginável pensar que teria dito que, para ser membro do Supremo, não é necessário ser advogado, mas pessoa de caráter ilibado. Deve ter se valido desse artigo da CF:

Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministrosescolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.

Parágrafo único. Os Ministros do Supremo Tribunal Federal serão nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.”

Na polêmica aberta com esta explicação, entra o caso de Cândido Barata Ribeiro, médico, baiano e prefeito do Rio de Janeiro de 1892 a 1893. Foi ministro por 10 meses e 4 dias.

Ora, o mundo mudou e ninguém pode ignorar o fato de que a área onde uma pessoa adquire “notável saber jurídico” é a do Direito. Pode, até, existir uma exceção a esta óbvia constatação, o que causaria furor ao tribuno da Advocacia, Rui Barbosa. A sapiência é, por excelência, o valor matricial do juiz. Seu vértice. Sua bússola. Sapiência é bem mais que domínio de conhecimento. É o uso do saber no caso certo e no momento adequado. É a aplicação da norma, após exaustivo exercício de hermenêutica jurídica. É hora de lembrar a lição de Francis Bacon (Ensaios, 1597): “o Juiz deve preparar o caminho para uma justa sentença, como Deus costuma abrir seu caminho elevando os vales e abaixando montanhas”.

A justa sentença é a luz que guia a decisão do juiz. Infelizmente, muitas vezes, na hora de assinar a decisão, a luz é tênue ou está apagada, o que sinaliza algum acidente/incidente que mexeu com a intenção originária do juiz. Por isso, Têmis, a deusa da Justiça, nem sempre faz bom uso da balança e da espada, instrumentos que adornam sua vestimenta.

Na órbita desta abordagem, parece fora de tom dizer que, mais adiante, será inserido na mais alta Corte do país um ministro “terrivelmente evangélico”. Qual a razão de opção por identidade religiosa? Pelo entendimento de que não há ministro religioso no Supremo? Ou, pior, porque os ministros que lá estão são todos “católicos”? Sua Excelência, o Presidente, demonstra vontade de jogar no lixo o preceito do Cristo: “daí a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”.

Se a ordem política começa a ser movida pelo tabuleiro das religiões, a barafunda se instalará. As seitas afro-brasileiras poderão reivindicar um nome que as represente, sob a indignação e protestos do bispo Edir Macedo e do pastor Silas Malafaia. Que elegem bancadas no Congresso. Não haverá surpresa se o dízimo passar a ser contribuição legal para confirmação religiosa. O doador receberá uma carteira de dizimista e, nessa condição, poderá ser compensado com a promessa de ganhar lugar privilegiado na fila que espera adentrar o território dos Céus.

Pois é, o desembargador Kassio não calculou o tamanho da confusão em que está se metendo. Dados sobre sua trajetória a serem questionados, sabatina no Senado com verdades inconvenientes, decisões no amanhã que poderão arranhar sua imagem, polêmica com base bolsonarista e a maldição evangélica. A deusa Têmis, com uma venda sobre os olhos, deve estar morrendo de rir.

Postado às 08h45 | 24 dezembro 2020 |

VIVENDO NA PANDEMIA

Em A Arte de Escrever, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) ensina que os grandes pensadores da Humanidade devem aprender diretamente “no livro do mundo”, não se restringindo ao caráter livresco das questões, mas reconhece não ser possível ter pensamentos próprios a todo momento, razão pela qual se torna necessária a leitura com o fito de “alimentar o espírito com materiais”, forma de enriquecer os textos.

Bela lição do mestre. Nesses tempos de pandemia, é oportuno aduzir que os escribas têm procurado mesclar seu pensamento com ideias de outros, na perspectiva de encontrar explicações para as quais a lógica do cotidiano não dá respostas satisfatórias. Como explicar, por exemplo, numa era tão fértil para a ciência, que seria possível surgir gravíssima crise sanitária que faz padecer a Humanidade? É bem verdade que a ciência descobriu em menos de um ano vacinas eficazes para combater o coronavírus, mas que certeza teremos de não reaparecer mais adiante vírus ainda mais perigosos? Ou por que, em um mundo cada vez mais chegado ao conhecimento, existem figuras negacionistas, que não acreditam na calamidade que as cerca, preferindo seguir os passos de populistas e demagogos, chegando mesmo a defender fogueiras para queimar os crentes?

Este é o diálogo que esse obscuro analista político tenta estabelecer com seus leitores, ainda sob a lição do filósofo alemão de que os escritos não podem se tornar monólogo, mas diálogo, como se estivéssemos em permanente interlocução. Diálogo que se faz absolutamente necessário nesse instante em que, isolados uns dos outros fisicamente, dispomos de mais tempo para a leitura, para ouvir a opinião de outros, para uma ação interativa que nos ajudará a entender o mundo real.

Confesso que penso todo tempo no meu interlocutor, no leitor, próximo ou distante, tentando prescrutar o que pensa, como pensa, a maneira como reage ao oceano de informações que lhe chega pelas vias malhas da comunicação, tanto as escritas como as eletrônicas. Como procura sair do intenso solilóquio dessa era da restrição nos nossos deslocamentos? Como sairemos do paredão que nos cerca? Mais pensativos, menos falantes, mais pensadores, menos eloquentes, mais conformados ou revoltados? Possivelmente mais criativos. Porque o isolamento, em qualquer de suas formas, nos leva a fazer passeios no passado, uma revisita aos amigos e parentes que já partiram, uma prospecção no campo profissional, enfim, situações que aguçam nossa maquinazinha de pensar. Ou seja, nossa cabeça gira a 360º.

Em determinadas áreas, como a da elaboração de textos e produção de pensamentos, ou no campo das artes e da cultura, a criatividade ganha mais espaço, como se veem nos bons textos de articulistas e colunistas, nas pensatas dos cadernos de literatura, nas lives de shows de nossas cantoras e cantores, nos livros que estão sendo editados. Lembram-se das músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil nos idos ferinos da censura? No gosto deste escriba, eram melhores, mais criativas e de maior impacto. A criatividade era um drible à censura.

Aliás, uma curiosidade. Escritores, artistas, poetas, figuras ilustres da produção de conhecimento desenvolvem técnicas para estimular sua intuição criadora e sua verve. Conta-nos o russo Sergei Tchakhotine, em Mistificação das Massas pela Propaganda Política, que Frederich Shchiller, filósofo e poeta alemão, era estimulado pelo odor de maçãs apodrecidas, que guardava na gaveta de sua mesa de trabalho; Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, vestia, para redigir sua História Natural, seus punhos e roupa de gala; o poeta Baudelaire punha-se de bruços no assoalho para escrever seus versos; alguns tomavam café, como Balzac; outros consumiam bebidas; muitas pessoas têm necessidade de fumar para trabalhar com inspiração; para Humboldt, o melhor estímulo para o trabalho mental era subir, lentamente, na direção do cume de uma montanha, ao sol; para Goethe, era a visão longínqua de prados verdejantes e de nuvens passando no céu, que ele entrevia de sua mesa. E assim por diante.

Quem sabe se a criatividade não será um dos um dos nossos melhores trunfos nesse ciclo de angústia e medo? Como é possível inferir, este texto, ao invés de trazer um olhar sobre a conjuntura política, na modelagem rotineira que desenvolvo há décadas, é um convite a um passeio interno, uma revirada em nossa maneira de ver, observar, falar, viver a vida. Sem censura.

Postado às 09h15 | 17 dezembro 2020 |

A ERA DA DISCÓRDIA

Dezembro de 2020, ao contrário de outros meses de final do ano, terá seu registro na história como um dos mais conflituosos dos tempos contemporâneos. O impacto da pandemia sobre a vida produtiva deixará profundas marcas, alterando formas tradicionais de trabalho, remodelando sistemas operacionais e abrindo uma nova visão sobre a maneira de olhar o próprio mundo. Os PIBs nacionais despencarão, a partir da China, com projeções que mostram um atraso civilizatório que carecerá de décadas para sua recuperação.

Apesar de todo progresso científico alcançado pela Humanidade, a se constatar no aumento da expectativa de vida dos cidadãos, com os avanços na frente da indústria farmacêutica, na descoberta de novos procedimentos no tratamento das enfermidades e na melhoria da condição alimentar, o planeta vê-se ameaçado pelo aparecimento de vírus (mutantes) e perigosas bactérias que matam milhões de pessoas.

Para se ter uma ideia, em 1900, a expectativa de vida no Brasil era de 33,7 anos, dando um salto significativo em pouco mais de 11 décadas e atingindo hoje 76 anos. No entanto, o país está perto de registrar 200 mil mortos no espaço de menos um ano, vítimas de um vírus ao qual se atribui a capacidade de voltar a atacar indivíduos que dele já haviam se livrado.

Os danos gerados pela pandemia do Corona-19 infelizmente atravessam a fronteira fisiológica para chegar a outros abrigos, como o econômico, o político e o social. Ao sistema econômico, como se registra na queda dos PIBs, o impacto atinge as atividades dos setores básicos da economia – primário, secundário e terciário – empobrecendo países e populações. A par do desmonte ou queda de empreendimentos, o vírus penetra no corpo político, abrindo fissuras, dividindo opiniões, formando a cizânia, impulsionando a discórdia e, em seu bojo, trazendo ódio, guerra de palavras, estimulando o descrédito nas instituições, inclusive, as de caráter científico.

O fato é que o mundo pandêmico inaugura a era do rancor. Estados Unidos da América contra a China, puxando aliados como o Brasil para essa inglória “nova guerra fria”, promovendo discordâncias sobre etapas na escolha de vacinas, expandindo divergências sobre procedimentos a seguir, enfim, infiltrando a politiquice no sagrado recanto da ciência. Por aqui, basta ver as declarações estapafúrdias e mirabolantes de governantes e outros protagonistas, a demonstrar que a vontade de conquistar poder rompe os planos da moral e da ética.

Pensávamos que o mundo já havia completado seus ciclos de deterioração e miséria. A Revolução Industrial, a partir da segunda metade do século XVIII, que teve início na Inglaterra, nos deu a primeira máquina a vapor e permitiu a construção do maquinário voltado para a produção têxtil, consolidando a formação do capitalismo. O mundo começava a distinguir os horizontes de progresso. Mas os ciclos da mortandade estariam por vir.

Cinquenta anos antes do início da I Guerra Mundial, em 1918, quando perderam a vida 17 milhões de soldados e civis, tivemos no sul da China um conflito ainda mais sangrento, a rebelião de Taiping, que durou 14 anos e matou cerca de 30 milhões de pessoas. De 1939 a 1945, a II Guerra Mundial provocou a morte de mais de 70 milhões. A violência jamais foi embora, repartindo-se em conflitos étnicos, em guerras de fronteiras, em lutas religiosas, muitas movidas pelo fundamentalismo apaixonado de comunidades e nações.

As crises subiram aos picos dos sistemas políticos. Monarquias foram resumidas, ditaduras e tiranias ainda resistem em alguns cantos, aristocracias praticamente deixaram de existir, mas as democracias, com suas bandeiras de igualdade e liberdade, se encheram dos lixos da corrupção e da demagogia. E onde está aquele estado de convivência harmoniosa e solidária tão prometido pela democracia? Em apenas pequenos pedaços do planeta, possivelmente as nações do norte da Europa.

O fato é que a democracia não conseguiu expurgar as oligarquias, combater sem tréguas a criminalidade e o fim da corrupção, educar o povo nos moldes exigidos pela cidadania, a par da transparência das ações dos governos.

Essa teia infernal de mazelas funciona como empecilho para enfrentar as crises. Por isso mesmo, a pandemia no nosso país não é administrada com os instrumentos necessários, os cuidados exigidos, os meios éticos que devem separar política e ciência. O pior é constatar que algumas figuras maléficas, na calada da noite, correm para apagar até a luz do fim do túnel.

Postado às 09h15 | 16 dezembro 2020 |

VIRTUDES PARA UM NOVO TEMPO

Tempos de turbulência, tempos nervosos, ciclo do medo, paisagens mortuárias e locupletadas de doentes, aqui, ali e nas lonjuras do planeta. Hora da grande reflexão: o que tenho, o que sou e o que serei nesse novo mundo que ainda não mostrou de todo a cara? A reflexão de hoje é uma estreita vereda por onde podemos passar, sob a crença de que todo esforço se fará necessário para lapidarmos valores e virtudes ou mesmo tentarmos adquiri-las.

E não podemos perder tempo. Sêneca, o sábio, ao escrever sobre a brevidade da vida, ensina: "Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente, constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido".

Saber administrar o tempo é, hoje, um dos desafios instigantes do nosso cotidiano. O tempo não se mata. "Quem mata tempo é suicida", satirizava Millôr Fernandes. A reprimenda parte também do dramaturgo inglês H.D. Thoreau: "Como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade".

Mãos à obra. Tempos de prudência, que os estóicos consideravam “a ciência das coisas a fazer e a não fazer”, e que supõe o risco, a incerteza, o acaso, o desconhecido. André-Comte Sponville lembra bem, quando diz que a prudência sugere a ética da convicção ou, ainda, a ética da responsabilidade, nos termos de Max Weber. Somos impelidos a responder por nossos atos e por suas consequências.

Ao lado da prudência, impõe-se a virtude da moderação, tão importante nesses tempos agressivos que estamos presenciando. Não exagerar, não romper os limites de nossas identidades, desfrutar livremente da própria liberdade, contentar-se com pouco ou com o estritamente necessário, sem arroubos e extravagâncias que acabam roubando nosso estoque de bom senso. Já a intemperança, dizia Montaigne, é “a peste da volúpia”.

Tempos de pavonice, tempos de alta visibilidade, de desfiles canhestros na mídia para chamar a atenção de espectadores e ouvintes. Tempos de Luís XIV, que desfilava em Versailles em seu cavalo branco adornado de diamantes. Tempos do Estado-Espetáculo, onde atores e atrizes da política desfilam vaidades. Daí desponta o valor da humildade, que Sponville designa como “a virtude do homem que sabe não ser Deus”. Humildade, de “húmus” (terra), quer significar que somos filhos da terra. Os mais generosos costumam ser os mais humildes pela misericórdia e compaixão de seu caráter.

Tempos de dureza, de notícias tristes, pesadelos, ódio, com os opostos se matando nas arenas de vingança. Não é hora de criarmos um contraponto a esses tempos de desdita e maldição? Leiamos Ítalo Calvino em Seis Propostas para o Próximo Milênio, ao citar Leopardo ante o insustentável peso de viver: “imagens de extrema leveza, como os pássaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transparência do ar e, sobretudo, a lua”. Tentemos viver de modo mais leve, suave, evitando rompantes e atitudes tresloucadas.

Tempos de injustiça, de acusações malévolas, de fake news construídas para sujar a imagem de adversários. Então, busquemos a deusa Têmis, com sua balança e os dois pratos em equilíbrio, apontam para o estado da ordem e da igualdade. Dizia Kant: “é justa toda ação, cuja máxima permite que a livre vontade de qualquer um coexista com a liberdade de qualquer outro, segundo uma lei universal”. Sim, a justiça é a vontade de se atribuir a cada um o que lhe cabe.

Uma virtude leva à outra. A justiça se liga aos atos de boa fé, à sinceridade, à verdade. A boa fé suscita reconhecimento às qualidades humanas, sem exageros, na versão das Escrituras: nem um homem é capaz de acrescentar um palmo à sua altura. É o que é, nos moldes da construção divina. Tal verdade sugere afastar a gabolice, o estilo fanfarrão, a dissimulação, a arte de enganar. Todos devemos aspirar fidelidade ao que é verdadeiro.

Por fim, cultivar o amor. Amar o próximo deve significar praticar todos os deveres para com ele. Amar os entes queridos, praticar boas ações, eliminar eventuais doses de ódio que chegam nas ondas de intensa polarização política. Nietzsche anunciava: “o que fazemos por amor se consuma além do bem e do mal”.

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