BLOG - Porandudas políticas

postado às 08h00 | 16 de junho de 2021

Porandudas políticas

Abro a coluna com este lindo poema enviado pelo amigo Antônio Imbassahy.

De acordo com a agência Lupa, o texto é de autoria do poeta cubano Alexis Valdés, publicado originalmente em 21 de março deste ano, em sua conta pessoal no Instagram, sob o título de "Esperança" e também no site Periódico Cubano, em 28 de março.

Esperança

Quando a tempestade passar,
as estradas se amansarem,
E formos sobreviventes
de um naufrágio coletivo,
Com o coração choroso
e o destino abençoado
Nós nos sentiremos bem-aventurados
Só por estarmos vivos.

E nós daremos um abraço ao primeiro desconhecido
E elogiaremos a sorte de manter um amigo.

E aí nós vamos lembrar tudo aquilo que perdemos e de uma vez aprenderemos tudo o que não aprendemos.

Não teremos mais inveja pois todos sofreram.
Não teremos mais o coração endurecido
Seremos todos mais compassivos.

Valerá mais o que é de todos do que o que eu nunca consegui.
Seremos mais generosos
E muito mais comprometidos

Nós entenderemos o quão frágeis somos, e o que
significa estarmos vivos!
Vamos sentir empatia por quem está e por quem se foi.

Sentiremos falta do velho que pedia esmola no mercado, que nós nunca soubemos o nome e sempre esteve ao nosso lado.

E talvez o velho pobre fosse Deus disfarçado...
Mas você nunca perguntou o nome dele
Porque estava com pressa...

E tudo será milagre!
E tudo será um legado
E a vida que ganhamos será respeitada!

Quando a tempestade passar
Eu te peço Deus, com tristeza.
Que você nos torne melhores.
como você "nos" sonhou.

  • Cenário brasileiro

A banalidade do mal I

O conceito de banalidade do mal foi analisado e aprofundado por Hannah Arendt no livro "Eichmann em Jerusalém", cujo julgamento histórico foi acompanhado pela filósofa por meio de artigos na revista The New Yorker. Ela defende a ideia de que, em virtude da massificação social, as massas são incapazes de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar. E assim, Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela solução final, não é avaliado como monstro, mas como um funcionário zeloso que foi incapaz de resistir às ordens que recebeu.                         

A banalidade do mal II

Tomo emprestado de Arendt o clássico conceito que a tornou famosa. Por nossas plagas, o mal está tão banalizado que perdeu peso na balança da gravidade. Veja-se esse surrealista diálogo, gravado, entre um senador e o presidente da República. Bolsonaro é contundente: que se paute no Senado o impeachment de ministros do STF. E que acabará na "porrada" com um senador "bosta", o parlamentar que pediu a CPI da Covid-19, Randolfe Rodrigues, do Amapá. E por aí vai. Os Poderes vivem alto grau de tensão. Será difícil realizar uma CPI presencial no cume da pandemia. O mal: interferência do Executivo no Legislativo; interferência no Judiciário; falta de decoro; gravação (combinada ou não) de uma conversa com o presidente da República; linguagem desaforada. Dias sombrios.

Pátria, ih, o que é isso?

Os países são expressões geográficas e os Estados formas de equilíbrio político. A Pátria, porém, transcende esse conceito: é sincronismo de espíritos e corações, aspiração à grandeza, comunhão de esperanças, solidariedade sentimental de uma raça. Enquanto um país não é Pátria, seus habitantes não formam uma Nação. Este breve resumo, pinçado de um dos mais belos ensaios sobre a mediocridade, de autoria do escritor argentino José Ingenieros, serve como lição aos nossos governantes. Construir a Pátria para se alcançar o nível de grandeza no concerto das Nações deveria ser o farol a iluminar os nossos representantes e governantes. Para eles, Pátria é um naco patrimonialista que lhes pertence.

Que partido?

O presidente Jair Bolsonaro continua sem partido. O Aliança pelo Brasil, que estava sendo criado, morre no nascedouro. O capitão está de olho em uns e outros. A propósito, lembro uma historinha com o ex-vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, que foi uma das alavancas do antigo PP. Em tempos idos, trabalhou para engordar o partido. Ligava para os prefeitos. "Fulano, já se inscreveu em algum partido?". "Não. Esperava as suas ordens". Lembo pede para ele entrar no PP. E lá vem a pergunta: "No PT do Lula?". Não estou ouvindo bem. O ex-vice-governador de São Paulo replica: "No PP". Matreiro, o amigo diz: "continuo a ouvir mal". O arremate é hilariante, segundo conta Sebastião Nery. "Vou soletrar alto e devagar: PP. P de partido e P de banco". O amigo prefeito entendeu ligeirinho a mensagem.

Hora da virada?

Impressão de que a virada nos rumos da política, tão esperada pela comunidade nacional após a eleição de Bolsonaro, não se deu. A cada dia, cresce o cordão dos desvalidos e zonzos com o estado da Nação. Muitos desistiram do sonho. Uma leva esperará por 2022. Os bolsonaristas acreditam que as coisas boas começaram a acontecer. Não é piada. É o que se ouve da boca dos radicais. Este analista de política prefere sentir o espírito aguerrido de Zaratustra, o profeta de Nietzsche, gritando no cume da montanha para fazer descer sua voz sobre a placidez dos vales: "Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; cansei-me das velhas línguas. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas".

Vida pregressa         

O mais do mesmo. Essa é a impressão que se tem quando se tenta distinguir os avanços e inovações no cenário institucional. A crise da pandemia ocorre no pico de outra crise que se arrasta há décadas: a crise política. O que haverá de novidade pelas bordas de 2022, por exemplo? E a corrupção implicará novos perfis, mais assépticos e menos oportunistas? Ouvi um alto tribuno, que me passou essas ideias. Um candidato de vida pregressa, plena de desvios, deve ser inelegível. E exibe a força do argumento: os princípios constitucionais do direito coletivo, entre os quais o da soberania popular e a delegação para ser representado, devem sobrepor-se aos direitos individuais, como o princípio da não-culpabilidade. Não por acaso se inseriu na Carta de 88 (artigo 14, § 9º) uma cláusula com a finalidade de proteger a probidade administrativa e a moralidade para o exercício do mandato. Além disso, há referência explícita à vida pregressa do candidato. Aqui pra nós, tenho as minhas dúvidas.

Credenda e miranda

Para fechar a nota acima, uma lembrança. Há duas referências que ilustram o cenário da política: os "credenda", coisas a serem acreditadas, a partir do sistema legal; e os "miranda", coisas a serem admiradas, a partir dos símbolos. Daí a inescapável pergunta: o que há para crer na política brasileira e o que há para admirar? Abra os ouvidos: nada. As razões para tanto se abrigam em campos múltiplos, mas a origem dos males recentes é a continuidade de um alto PNBC - Produto Nacional Bruto da Corrupção.

Recorde de mortos

A cada dia, entre 20h30 e 21h40, aparece o refrão: Brasil atinge o recorde na média de mortos e na mortalidade em 24 horas de vítimas da Covid-19. E entre as cenas, algumas sobre aglomerações, desleixos, desvios na vacinação, malandragem na aplicação. A índole brasileira? Com a palavra, Roberto DaMatta.

Crueldade

Sobre essa índole, costumo pinçar velha historinha. Um dia um maometano se encontra com um canibal. "Sois muito cruéis, pois comeis os cativos que fazeis na guerra", disse o maometano. "E o que fazeis com os de vocês?", indagou o canibal. "Ah, nós os matamos, mas depois que estão mortos não os comemos". Montesquieu arremata a passagem contada no livro Meus Pensamentos: "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular". Tomemos emprestada a observação do pensador que inspirou os principais fatos políticos do século 18 para dizer que os governos podem se assemelhar a um dos interlocutores. Execram heranças malditas e acabam fazendo as suas.

Escapismo

Quem gostava de explicar a psique de países em desenvolvimento era Roberto Campos. Esses países, segundo ele, apresentam dois traços característicos: a ambivalência e o escapismo. Ambivalência é querer equacionar o descontrole aéreo, por exemplo, sem controlar os controladores. E escapismo é argumentar que os confrontos frequentes nas metrópoles ocorrem porque o poder do crime é maior que o poder de um Estado, cuja leniência torna-se cada vez mais patente ante a escalada de violência que se abate sobre a sociedade. O espaçoso terreno público se apresenta todo esburacado.

Fecho a coluna com uma pitada de humor.

Adiantando os resultados

Há historinhas que merecem um repeteco.

O coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi/RN, não dormia em serviço. Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os títulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fotógrafo "tirar a chapa" do seu rebanho, aliás, do seu eleitorado. Numa fazenda, um eleitor tirava o leite da vaca quando foi orientado a posar para a foto. Não teve dúvida: escolheu a vaca como companheira do flagrante. Mas o fotógrafo, por descuido, deixou-o fora. O coronel Lucas Pinto não teve dúvida. Ao entregar as fotos aos eleitores, deparando-se com a vaca, não perdeu tempo e ordenou ao eleitor: "prega a foto aí, vote assim mesmo, na próxima eleição nós arrumamos a situação". Noutra feita, o coronel levou as urnas de Apodi para o juiz, em Mossoró, quase 15 dias após as eleições. Tomou uma bronca.

- Coronel, isso não se faz. As eleições ocorreram há 15 dias.

- Pode deixar, seu juiz. Na próxima, vou trazer bem cedo.

Não deu outra. Na eleição seguinte, três dias antes do pleito, o velho Lucas Pinto chegava com um comboio de burros carregando as urnas. Chegando ao cartório, surpreendeu o juiz:

- Taqui, seu juiz, as urnas de Apodi.

- Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias.

- Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problema.

Idos das décadas de 50/60. Não havia grandes empreiteiras financiando campanhas. A empreitada ficava mesmo a cargo dos coronéis.

 


 

 

   

 





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postado às 08h00 | 16 de junho de 2021

AS LIÇÕES DA CRISE

A crise sanitária que continua a assolar o planeta, sendo o fenômeno mais nocivos dos últimos 100 anos, abre um denso livro de lições para governos e protagonistas da política. Impõe o que na esfera da educação se chama “aprendizagem pelo erro”. Um conjunto de situações se escancara: o despreparo do Estado para enfrentar a pandemia; a concentração da produção de vacinas em poucos países, submetendo imensa parcela das Nações ao mando dos produtores; a precária rede social de muitos territórios, que foi drasticamente destruída desde a crise financeira de 2008; a lentidão das economias no processo de reconversão de parques industriais para a produção de máscaras e equipamentos de proteção.

No início, pensava-se que o surto seria rapidamente controlado. Com a evolução da pandemia e o crescente aumento do número de mortes e contaminação, os maiores centros de pesquisa, a partir da China, sacaram suas armas de defesa e passaram a dar respostas mais eficazes no combate à pandemia, como a produção de vacinas, surgidas em menos de um ano, feito inédito. Mas aqueles ambientes que ainda sofriam com restrições fiscais advindas da crise de 2008, como Grécia, Itália, Portugal, Espanha, na Europa, e outros que haviam cortado benefícios sociais, foram lerdos na operação de combate à Covid-19.

Os Estados Unidos, cujo papel na liderança mundial foi corroído na era Trump, um governante inclinado a fechar o país em copas e a apoiar o clamor nacionalista, despertaram com Joe Biden para a necessidade de retomar o protagonismo. Depois de vivenciarem um ciclo de despreparo de seu sistema de saúde, com uma taxa de mortalidade entre as mais altas do mundo, os EUA passaram a aplicar pacotes de socorro, culminando com os planos de recuperação anunciados pelo presidente somando cerca de US$ 4 trilhões. Na Europa, um pacote de 750 bilhões de euros foi a resposta para recuperar a economia continental.

Quem mais avançou na crise, sob os aspectos econômicos e geopolíticos, foi a China que, mesmo sob a grita de o vírus ter vazado de um dos seus laboratórios, na cidade de Wuhan, tem sido o principal produtor de vacinas. Usando de modo estratégico essa condição, a China avolumou seu protagonismo no campo científico, o que, em tempos de tormenta como o que vivemos, acaba quebrando resistências e atenuando a onda crítica que bate no regime comunista chinês.

O fato é que as Nações abriram os olhos para a meta de abrigar parques de produção, em um esforço para evitar a superconcentração de vacinas e insumos em poucos lugares e tentando nivelar o poder geopolítico entre eles. A ideia inspiradora é a de se chegar a uma produção, hoje insuficiente, capaz de suprir a demanda global. O susto foi grande, motivando governos ao compromisso de atrair ou instalar empresas de alta tecnologia para fabricar equipamentos médicos e fármacos.

No feixe das discussões, incluem-se reclamações sobre a missão da Organização Mundial da Saúde e sugestões para mudanças em suas operações. Mais uma vez, o viés ideológico impregna esse foro discursivo.

O pano de fundo mostra o aparente conflito entre dois discursos: a globalização e o nacionalismo, ou seja, continuar a abrir fronteiras físicas e ideológicas ou fechar a porteira. Globalização é um fenômeno que ultrapassa a simples ideia de abertura de fronteiras físicas. Trata-se de interpenetração de valores, princípios, costumes, enfim, um ideário cada vez mais exposto ao acesso dos habitantes do planeta e em visibilidade intensa e permanente pelas redes sociais, inseridas nos eixos tecnológicos da internet.

Difícil de desmontar tal engrenagem. Já o nacionalismo volta ao centro do debate na onda da garantia do trabalho, com a pregação de que seus espaços sejam ocupados pela população originária do país e não por estrangeiros.

O foro tende a acender os ânimos, principalmente quando se abrem as cortinas para mostrar as ferramentas tecnológicas tomando o lugar das pessoas. Sobre o Brasil, as inferências ficam em aberto. Mas o leitor pode fazer a sua leitura.



postado às 07h45 | 11 de junho de 2021

O PARADOXO DO MENTIROSO

Eubulides, aluno de Euclides, o matemático de Alexandria, no Egito, também conhecido como pai da Geometria, marca presença em nossa árida paisagem institucional. Ele criou o “paradoxo do mentiroso”, que tem sido lume de bandas adversárias na arena política, impulsionando seus ditos, benditos e malditos, mentiras e versões.

Vamos lá: se alguém - parlamentar, governante, ministro, ex-ministro - disser “essa afirmação é falsa”, tende a criar grande confusão, porque um paradoxo se forma na cabeça dos ouvintes. Se a afirmação for falsa, então o dito do emissor é verdadeiro, pois foi exatamente o que ele disse. Mas se ele falou uma grande verdade, a afirmação será falsa, porque ele garantiu que era falsa. Donde se conclui que se é falsa, a afirmação do orador é verdadeira; e se é verdadeira, segue-se que a afirmação é falsa. Lógica simples.

Os argumentos usados pelos integrantes da CPI da Covid 19 dão margem a que, uns e outros, ancorados em afirmações falsas e verdadeiras, mudem de posição a todo momento, trocando com grande desembaraço os papéis de bandidos e mocinhos. Como o palco da crise sanitária ganha, via trombeta midiática, novos capítulos recheados de mortes, contaminados e projeções de uma terceira onda, aqui e alhures, infere-se que a má gestão da pandemia fica no território dos agentes do mal, enquanto combatentes da oposição lutam na arena do bem. Por isso, é visível na CPI o favoritismo dos oradores contrários ao negacionismo que corrói a imagem do governo.

A dúvida que persiste é sobre o que poderá ocorrer com os depoentes convocados a oferecer suas versões na CPI, a partir do afamado, mas não tão proclamado, general da ativa, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. O que ocorrerá em seu terceiro depoimento? Se cair em mentira, será preso como promete o presidente da Comissão, senador Omar Aziz? E, ao final, que tipo de decisão será dada em relação ao presidente Jair Bolsonaro? Não se descarta a hipótese de que as escaramuças no ambiente investigatório poderão dar n’água, algo como a batalha de Itararé, aquela que não houve, ou uma “vitória de Pirro”, aquele evento em que o rei de Épiro, na batalha de Ásculo (279 a.C), mesmo vitorioso, perdeu o que restava de suas tropas.

O fato é que cada protagonista da política quer aparecer como vitorioso. E corajoso. Luta para impor sua verdade, esforço que ganhará intensidade à medida em que se aproxima o ano eleitoral. Afinal, no Estado-Espetáculo, os atores sabem que a lei da visibilidade recomenda aparecer de qualquer maneira, sob a fosforescência dos meios de comunicação e, agora, das redes sociais.

A lição que aprendem com rapidez é a do Breviário dos Políticos, do preceptor de Luís XIV, o cardeal Mazarino, onde se leem estes conselhos: “Simula, dissimula. Mostra-te amigo de todo mundo, conversa com todo mundo, inclusive com aqueles que odeias; eles te ensinarão a circunspeção... quando tiveres que escolher entre duas vias de ação, prefere a facilidade à grandeza com todos os aborrecimentos que ela comporta. Não confies em ninguém. Quando alguém fala bem de ti, podes estar certo de que ele te escarnece. O velhaco manifesta-se ora a favor ora contra o mesmo assunto, dependendo das circunstâncias. Os amigos não existem, há apenas pessoas que fingem amizade”.

A base amoral da política se alarga em todos os quadrantes do planeta, mesmo que estejamos vivenciando um ciclo de maior transparência e elevação da cidadania. Ocorre que as malhas intestinas do Estado, por maior que sejam os controles – Ministério Público, Polícia Federal, Tribunal de Contas da União, Advocacia Geral da União, Tribunais de Contas de Estados e Municípios – continuam como berço predileto das gangues da corrupção, formadas sob o triângulo composto pela burocracia, a esfera política e os círculos de negócios. A corrupção diminuiu? É possível, mas as ferramentas tecnológicas, contábeis e administrativas também são usadas pelo “poder invisível”. A roubalheira pode ter diminuído, mas ainda é uma praga. Ganhou técnicas sofisticadas.

Nem por isso podemos desistir de ver o país restaurado, recuperado, resgatado. Precisamos sempre ter em mente a grandeza da Nação, representada por seus valores: o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o cumprimento da lei, o culto à liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.



postado às 07h30 | 11 de junho de 2021

MARIA VAI COM AS OUTRAS

Conta a história que a mãe de D. João VI, a rainha Maria I, conhecida pela insanidade mental, manifestada após a morte do filho, costumava passear às margens do rio Carioca, no então bairro de Águas Férreas. Tratada como louca, era levada por suas damas de companhia, originando a expressão popular: Maria vai com as outras. Que hoje designa pessoa influenciável, manobrada, sem ideias próprias.

Há poucos dias, para justificar a razão pela qual o Partido dos Trabalhadores não deve se aliar a outros partidos na organização de manifestações contra o governo, Lula disse que o partido não pode ser “maria vai com as outras”. O sempiterno mandão do PT apenas atesta a sentença que, por décadas, tem sido o lume do petismo: “primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu”. O PT não tem jeito. Continua a se considerar um território sem mácula, povoado por castos e puros, jamais vestindo a couraça larga da corrupção, desvendada pela Operação Lava Jato. E como sabe tirar proveito das ocasiões.

Veja-se o favoritismo de Luiz Inácio, nesse pior momento do governo Bolsonaro, alvo da indignação social que cobra vacinas e melhor gestão da pandemia. Solto por decisão do STF, parece vítima de uma trama engendrada para condenar o lulopetismo, que novamente se arvora como a Salvação da Pátria, desfraldando as bandeiras da Justiça, Liberdade e Democracia. É tudo que o atual mandatário-mor deseja, por saber que a polarização entre as duas bandas – a extrema esquerda e a extrema direita – acabará por beneficiá-lo, bastando para tanto uma economia recuperada na proximidade de outubro de 2022. Lula não quer que o PT siga o rumo dos demais partidos, mas gostaria que as massas fossem “gado de mais” na caminhada petista.

Nesse ponto, voltemos ao “maria com as outras” que abre este texto. Tanto o lulismo como o bolsonarismo sabem que o cabo-de-guerra a ser puxado pelas alas contrárias será imã para atrair um eleitorado sem rumo, sem autonomia, disposto a integrar um dos dois exércitos e, deste modo, fechar a oportunidade para uma candidatura que represente verdadeiro compromisso de mudança, de harmonia e equilíbrio, de bom senso e abertura de horizontes.

Confiar na mudança de postura de Bolsonaro? Confiar em um PT como partido de centro, como hoje prega Lula? Lorota. Nem um nem outro mudarão suas identidades, forjadas no embate das e no maquiavelismo mistificador que embala suas posições no arco ideológico.

É razoável apostar na racionalidade que tem transferido o voto do coração para a cabeça. Racionalidade que aumenta com a sensação do déjà vu, da velha briga, das linguagens chulas que têm sujado as páginas da política, enfim, da sensação de que o país patina, mas não sai do lugar.

É triste constatar que o preceito de John Stuart Mill, em Considerações sobre o Governo representativo, continua iluminando as cabeças ignaras de nossas plagas: há cidadãos ativos e cidadãos passivos, e os governantes preferem os segundos, porque podem transformá-los em um bando de ovelhas acostumadas a pastar o capim, uma ao lado da outra, e a não reclamar mesmo que, de vez em quando, o capim seja escasso. Haja Bolsa Família.

Só mesmo uma revolução pela educação conseguirá alargar os horizontes de um amanhã próspero e mais feliz. Enquanto vivermos sob regime de bolsas, prêmios, recompensas, toma lá dá cá, grupismo, neocoronelismo, nossas raízes continuarão amarradas ao status quo. Rebanhos comendo capim sob a sombra do Estado, levadas de um lado para outro, tocadas pelo cajado de guias ambiciosos, jamais terão autonomia e independência. A única alternativa para sair dos currais é a semente de uma educação libertadora e vitalizante.

 

 

 

 


 

 




 



postado às 07h30 | 11 de junho de 2021

Porandudas políticas

Abro a coluna de hoje com uma historinha do Paraná.

Conversa de jardim

Manuel Ribas, interventor no Paraná (1932/1935), depois governador (1935/1937), despachava no palácio, mas gostava de morar em sua casa. Bem cedinho, chega um rapaz e encontra o jardineiro regando o jardim:

- Seu Ribas está? Sou filho de um grande amigo dele. Meu pai me mandou pedir um emprego a ele. Eu podia falar com ele?

- Poder, pode. Mas, e se ele não lhe arrumar o emprego?

- Bem, meu pai me disse que, se ele não arranjasse o emprego, eu mandasse ele à merda.

- Olhe, rapaz, passe às 4 da tarde lá no palácio, que é a hora das audiências, e você fala com ele.

Às 4 horas, o rapaz estava lá. Deu o nome, esperou, esperou. No salão comprido, sentado atrás da mesa, o jardineiro. Ou seja, o governador. O rapaz ficou branco de surpresa.

- O que é que você quer mesmo?

Repetiu a história. "Meu pai me mandou pedir um emprego ao senhor".

- E se eu não arranjar o emprego?

- Então, seu Ribas, fica valendo aquela nossa conversa de hoje de manhã, lá no jardim.

Cordão esgarçado

O cordão umbilical que ligava Jair Bolsonaro ao Exército está esgarçado. Não a ponto de se romper, mas deixando a ver fiapos. A entrevista do ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, passando uma toalha sobre a ferida, pode ter acalmado a cúpula das FFAA, mas a sensação é a de que altas patentes - da ativa e da reserva - estão aborrecidas com o affaire Pazuello, ou seja, com o deixa pra lá que o comandante do Exército determinou ao não dar punição ao ex-ministro da Saúde por ter participado de ato político por ocasião da motociata no Rio de Janeiro.

Afastamento

Multiplicam-se as vozes que interpretam as constantes falas do presidente sobre eventuais fraudes a ocorrerem no processo eleitoral de outubro de 2022 como aceno longínquo a "um golpe" engendrado pelo sistema cognitivo do capitão. Vocação para o embate, cooptação do "meu exército", culto ao passado de chumbo, esforço quase diário para endurecer a linguagem e animar suas bases- seria o pano de fundo da maquinação. Parcelas das Forças, porém, parecem querer distância da política. Sob pena de verem naufragados todos os esforços realizados nas últimas décadas na meta sempre almejada de impregnar sua imagem com densa camada de profissionalismo.

Haveria condições?

Não é fácil responder à questão: haveria condições para um ato golpista? Ora, não se trata apenas de querer e fazer. Trata-se de querer e poder. O conceito de poder, nesse caso, abriga ponderáveis - elementos determinantes e componentes - que ultrapassam os limites de uma visão conservadora, ideológica, radical. De direita ou de esquerda. Estariam em jogo o estágio civilizatório do país, o grau de amadurecimento político, o estado geral da economia, a satisfação/insatisfação das classes sociais, a organicidade social, a pressão dos grupamentos organizados, o rolo compressor das classes médias, a fome e a miséria e a vinculação das mazelas sociais às administrações. E quem diria que o clamor social, em uma crise, seria a favor de um golpe desferido pelo governante do dia? Seja quem for?

O Brasil no mundo

Outra face a se contemplar seria a do papel do Brasil no mundo, a inserção na ordem planetária, seus parceiros e compromissos, suas políticas em todos os campos, moldura que certamente impactaria na hora de desfechar um golpe. As FFAA são integradas por perfis de alta qualificação, figuras que vão a fundo na análise das revoluções e contrarrevoluções. Imaginar que um golpe é um ato vapt-vupt sacramentado pela sociedade organizada é pensamento de ignaros e radicais, que têm soluções guardadas no bolso furado ou em mente distorcida.

Terceira via? É cedo

A esta altura, políticos e analistas estão dando à polarização entre direita e esquerda, Bolsonaro e Lula, como coisa certa e acabada. Não compartilho desta tese. É muito cedo para definir rumos. O vento que hoje corre numa direção tomará outros rumos amanhã. E sabendo como se faz política no Brasil, nada se define de antemão. Peru não morre de véspera. Os finais de história são decididos em instantes finais. O Senhor Imponderável costuma nos visitar. E o país está com um imenso vazio a ser ocupado no meio da sociedade. Que processos cognitivos poderão ocorrer? Faço curtas observações.

Instinto de sobrevivência

Sergei Tchakhotine, cuja obra A Mistificação das Massas pela Propaganda Política é meu livro de cabeceira, lembra os quatros instintos estudados por Pavlov: a) o instinto combativo; b) o instinto nutritivo; c) o instinto sexual e d) o instinto paternal. Os dois primeiros ligados à conservação do indivíduo e os dois últimos relacionados à preservação da espécie. Fiquemos com os dois primeiros. O ser humano combate para sobreviver. Ante uma ameaça, pega a arma mais próxima para vencer o inimigo. Vê-se acuado. Duas feras tentam abrir a bocarra em sua direção. Como sair? Ora, se a saída da emboscada é o aceno de uma pessoa que aparece na paisagem de medo e horror, ela corre, pressurosa. O salvador o chama: corre pra cá, corre pra cá. Ela aceita e foge na direção do figurante, que parece a única alternativa para escapar da enrascada.

O figurante

E quem seria esse figurante? Ora, alguém que o desesperado até então não conhecia. Só o viu até deparar com a ameaça fatal de duas feras de boca arreganhada. Uma pessoa nova nesse canto da floresta, com jeito de ser gente do bem, disposta a ajudar o medroso a fugir do perigo. Esse figurante não ocupava espaço central na paisagem e foi se aproximando, chegando. Seria a melhor opção. Ou seja, era um terceiro lugar por onde se refugiar. Lá estaria ele com seu aceno: um homem ou até uma mulher (sim, não se descarta essa possibilidade), com jeito de que não é caçador voraz como outros da floresta política. E em que tempo poderia aparecer? Março, abril, maio? Até as convenções partidárias.

A barriga

Atentaram para o segundo impulso ligado à sobrevivência? Pois é, o instinto nutritivo. Ou seja, as pessoas vão buscar no alimento a seiva da vida. Sem alimento, o ser humano não sobrevive. Donde tenho insistido na equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Se as famílias brasileiras estiverem com suas barrigas satisfeitas nas margens de outubro de 2022, podem, até, caminhar na direção de uma das feras da floresta, no caso, o governante que proporcionou o alimento. Mas se as barrigas estiverem roncando, o desesperado faminto e seus vizinhos tenderão a correr na direção do figurante que acena com a saída. Este consultor acha que a pandemia implicará refluxo da economia, não havendo tempo para sua recuperação até outubro de 2022. Dito isto, emerge a hipótese: a terceira via será viável.

Kassab, o articulador

Gilberto Kassab tem demonstrado ser um dos mais hábeis articuladores da política brasileira. Nesses tempos de pandemia, com CPI da Covid e seus reflexos, Kassab tem se desdobrado para adensar o seu PSD, atraindo nomes de alto coturno, como Eduardo Paes, prefeito do RJ, Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara, possivelmente Geraldo Alckmin, ex-governador de SP, e outros. Ex-ministro dos governos Dilma Rousseff e Michel Temer, Kassab é ponderado, sabe ouvir, tem palavra firme e joga todo tempo na costura de situações. Será parceiro fundamental na montagem das peças do pleito de 2022.

Muito sigilo

O processo envolvendo o ex-ministro Pazuello no ato político do presidente Bolsonaro ganhou um século para vir à tona. Isso mesmo, alto segredo de Estado. 100 anos sob uma capa de silêncio.

Mozart

Esta Coluna presta uma homenagem especial a um amigo que parte: Mozart Vianna, o braço direito de 12 presidentes da Câmara há quatro décadas. Educado, afável, voz baixa, competente, sabia o regimento da Câmara do capítulo 1º ao último. "Meu amigo, me explique esse PL". Cerimonioso: dava todas as explicações. E sempre acrescentava: "leio todos os seus artigos semanais". Que tristeza. P.S.: Faço observação do ex-deputado, sociólogo, grande pensador e amigo Paulo Delgado: "No Brasil, infelizmente, o elogio vem sempre em hora errada".

Fecho com um "causo" de Pernambuco.

O verbo não "vareia"

A Câmara Municipal de Paulista/PE vivia sessão agitada em função da discussão de um projeto enviado pelo prefeito, que pedia crédito para assistência social. Um vereador da oposição combatia de maneira veemente a proposição. A certa altura, disse que "era contra o crédito porque a administração municipal não merecia credibilidade". O líder da bancada governista intervém, afirmando que "o nobre colega não pode jogar pedras no telhado alheio, pois já foi acusado de algumas trampolinagens".

- Menas a verdade - retrucou o acusado. Sou homem honesto, de vida limpa.

- Vejam, senhores, - disse o líder - o nobre colega, além de um passado nada limpo, ainda por cima é analfabeto, pois, "menas" é verbo, e verbo não "vareia".



postado às 09h30 | 27 de maio de 2021

Porandudas políticas

Abro a coluna com a noiva.

A morada do doutô Agriço

Mais uma do mestre Leonardo Mota.

Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte:

Pagamento adiantado, hóspedes sem bagagens e conferencistas

Também em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba, há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando, ao indagar ao major Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação que me deixou tonto:

- O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d'A Noiva...

Panorama

Terceira onda?

Nos últimos 15 dias os hospitais privados de São Paulo registraram alta de 7% de contaminados de Covid-19 com ingresso em leitos e UTIs. Interrogações dos médicos: seria uma terceira onda? O relaxamento aumentou bastante. E os vacinados com segunda dose se achando imunizados. Não é bem assim.

CPI da Covid-19

Em uma semana pouca coisa mudou no front da política. A CPI da Covid-19 continua a mobilizar as atenções, os bolsonaristas tentam sair pela tangente no banco de testemunhas e, ao que se infere, o relatório final incriminará o governo e membros de sua equipe apontando má gestão da pandemia e provas recaindo sobre a responsabilidade de gestores e ex-gestores. Indagação que se impõe: o presidente será responsabilizado, além de seus auxiliares? Sim. Mas será punido com impeachment? Não. Não haveria tempo e condições objetivas para uma decisão com tal dimensão.

Pazuello

O depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello, hoje, é o que cria maior expectativa. O ministro tem um salvo-conduto para não se incriminar. Mas é obrigado a falar sobre terceiros. A questão de fundo é: falando ou silenciando, o general terá curta sombra para se abrigar. Aliás, o silêncio, como já acentuei neste espaço, é uma grande forma de expressão, traduzindo coisas como medo, insegurança, versão distante da verdade, escapadas ao fogo interrogativo. Esta também é a alternativa da "Capitã Cloroquina", que enviou carradas do remédio para Manaus, no auge da crise, orientando sobre sua adoção.

O Centrão de olho

O Centrão, com eixo central no PP, está de olhos esbugalhados: um focado em Bolsonaro e em seu governo, outro fixado nas pesquisas que mostram imagem em queda na avaliação da administração. Como se sabe, a tendência de integrantes do bloco é de caminhar na direção apontada pelo peso da balança. Caso seja o da oposição a Bolsonaro, lá pelos meados de 2022, talvez até antes, o desembarque dos participantes do Centrão é algo previsível. Primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu. Este é o velho lema do blocão. Perspectiva de poder - eis a bússola que orienta a esfera política.

Lula submergindo

Para evitar desgaste com lançamento prematuro, Luiz Inácio foi aconselhado a mergulhar. Sair a campo muito cedo é se sujeitar a bombardeios prévios. Ademais, Lula não está seguro sobre sua condição de elegibilidade. A primeira instância voltará a analisar seus casos. Mas, e a pressão da opinião pública? Já começa a funcionar a favor dele. Lula inicia um discurso de vítima, de inocente. A OP tende a favorecê-lo, como indicam as pesquisas. É evidente que os juízes balizarão em suas decisões por impulsos dos balões de pressão social.

DEM

Padece sua maior crise dos últimos tempos.

PRTB

Esnobou e decidiu não entregar a legenda para Bolsonaro. Continuará nas mãos da família de Levy Fidelix. Historinha: por ocasião do lançamento do meu livro - Era uma Vez Mil Vezes - na livraria Cultura, Levy chegou trovejando sua voz: "desculpem, tenho outro compromisso. Vou furar a fila e cumprimentar meu amigo". Passou bom tempo posando para fotos ao lado da mesa. E a gritaria o impediu de ficar mais tempo. Uma figura.

Alckmin

Geraldo Alckmin está entre a cruz e a caldeirinha. Se permanecer no PSDB, ameaça perder a condição de candidato ao governo de São Paulo, posição hoje nas mãos de Rodrigo Garcia, que deixa o DEM pelo tucanato. Se sair, pode ser candidato da sigla em que ingressar. E vai brigar contra João Doria, seu discípulo. O que seria melhor?

Bolsonaro

Cai o índice de avaliação positiva de Jair Bolsonaro. Poderá cair mais ou ele terá condições de resgatar o prestígio anterior? Em política, tudo pode ocorrer. Mas, a continuar seu destampatório, emerge a alternativa de perder o favoritismo. Lula, para ele, seria o candidato ideal. Há quem não acredite nesta hipótese.

Mourão

Hamilton Mourão, o vice-presidente da República deverá ser candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Opção mais atrativa. Não integrará a chapa de Bolsonaro.

Militares

Alas insatisfeitas com os "feitos" do capitão se espalham.

Classes médias

Continuam a observar o cenário e a aguardar momento de descer do muro da indecisão. Hoje, pendem para Lula por falta de opção. E parcela vai de Bolsonaro, por convicção.

Pobreza

Aumentando a olhos vistos. Os pedintes agora querem víveres, comida, em vez de dinheiro. Em São Paulo, na porta de supermercados, os famintos marcam ponto.

Redes sociais

Decrescem ímpeto e tom violento das brigadas bolsonaristas nas redes sociais. Sinal dos tempos.

Bruno Covas

Certo dia, em evento num sindicato, disse para ele: "Bruno, siga o exemplo de firmeza de seu avô, Mário". Ele me respondeu: "Gaudêncio, ele me inspira na vida. É minha bússola". Bruno era um homem corajoso, determinado, transparente e simples. Sem arrogância. Teria um grande amanhã na política. Muito ligado ao avô.

Renan

O relator da CPI da Covid-19, senador Renan Calheiros (MDB-AL), passa a ganhar simpatia em setores que o recriminavam. É a gangorra da política.

Angarita

Liguei, ontem, para cumprimentar meu amigo Antônio Angarita, ex-presidente da Vasp, ex-professor da FGV, ex-secretário de Estado em São Paulo, tendo ajudado muito o governo Mário Covas. Lembrei os velhos tempos em que me acolheu para integrar a equipe de preparação do programa do governo, levado que fui por João Doria. Viva Angarita.

Fatores da eficácia eleitoral

Pré-candidatos já começam a pôr os ouvidos junto aos bochichos das ruas. Pedem a este consultor para dizer o que pode acontecer em outubro de 2022. Consulto minha bola de cristal e vejo apenas nuvens plúmbeas. Mas arrisco o alinhamento de 10 fatores que jogarão/não jogarão votos nas urnas:

1. Economia - dinheiro no bolso, barriga satisfeita.

2. Pandemia - Gestores bem avaliados serão bafejados.

3. Cobertor social - Quanto menos curto, melhor, permitindo cobrir pés e cabeça.

4. Mais ação, menos discurso - Tempos de observação para quem age e para quem fica no blá blá blá.

5. Inovação - Palavra enganadora. Não adiantará dizer que vai inovar. A boca expressiva deve garantir credibilidade.

6. Tendência de caras novas ganharem preferência. Mas as caras antigas, respeitadas, terão sucesso.

7. Partidos políticos - Sem grande importância, mas serão alavanca em termos de espaço midiático.

8. Polarização do discurso - Abrigo de 15% do eleitorado. A maioria não engrossará turbas radicais.

9. Dinheiro/Recursos - Continua abrindo porta, mas bolso largo deixou de ser decisivo.

10. Circunstâncias - O espírito do tempo. O Produto Nacional Bruto da Felicidade, conjunto de situações vividas naquele momento eleitoral. O Senhor Imponderável, que costuma nos fazer visitas, deve aparecer em algumas regiões.

Fecho a coluna com uma historinha das Minas Gerais.

Da burrice e da engenharia

Viajando pelo interior de Minas, o arquiteto Marcos Vasconcelos encontrou um grupo de trabalhadores abrindo uma estrada:

- Esta estrada vai até onde?

- Muito longe, muito longe, doutor. Atravessa o vale, retorce na beirada da serra, quebra pela esquerda, retoma pela direita, desemboca em frente, e vai indo, vai indo, até chegar a Ponte Nova, passando pelos baixios e cabeceiras.

- Vocês têm engenheiro, arquiteto, teodolito, instrumentos de medição?

- Num tem não, doutor. Nós tem um burro, que nós manda ir andando, andando. Por onde ele for, aí é o melhor caminho. Nós vai picando, picando.

- E quando não tem burro?

- Aí não tem jeito, doutor; nós chama um engenheiro mesmo.

O arquiteto seguiu adiante filosofando sobre as artes da burrice e da engenharia.



AUTOR

Gaudêncio Torquato