Porandudas políticas

Postado às 08h00 | 11 dezembro 2020 |

Porandudas políticas

Quiçá e cuíca

Benedito Valadares, governador, foi a Uberaba para abrir a Expozebu. E passou a ler o discurso preparado pela assessoria. A certa altura, mandou ver e leu alto: "cuíca daqui saia o melhor gado do Brasil". Ali estava escrito: "quiçá daqui saia o melhor gado". A imprensa caiu de gozação. Passou-se o tempo. Tempos depois, em um baile na Pampulha, o maestro, lembrando-se do famoso discurso na terra do zebu, começou a apresentar ao governador os instrumentos da orquestra. Até chegar na fatídica cuíca. E assim falou: "e esta, senhor governador, é a célebre cuíca". Ao que Benedito, querendo dar o troco, redarguiu com inteira convicção:

- Não caio mais nessa não. Isto é quiçá!

(Historinha enviada por J. Geraldo)

Clima tépido

Nem quente, a ponto de fervura, nem frio capaz de causar hipotermia. Digamos que o clima nesses dias que antecedem o segundo turno esteja tépido. Pelo menos por aqui na maior metrópole brasileira. Sinto um sopro - um vento que se espalha pelo centro da sociedade na direção de Guilherme Boulos -, o que não quer dizer que ele chegará ao pódio. Mas essa última pesquisa Datafolha lhe dando 45% de intenção de voto contra 55% de Bruno Covas é surpreendente.

Surpresa?

A causa: o rápido crescimento do candidato do Psol nas pesquisas. Interessante é analisar o perfil de ontem do Boulos: líder do MSTT, Movimento dos sem Terra e sem Teto, coordenou invasões em propriedades, enfrentou a polícia, sendo, na época, considerado radical, revolucionário, depredador de propriedade privada. Hoje é palatável. Moderou o discurso. Bom de debate. E representa o antibolsonarismo e o antidorismo. Contra Bolsonaro e Doria. Ambos com alta rejeição na capital.

Imponderável

Costumo lembrar que São Paulo é, por excelência, o espaço do Senhor Imponderável dos Anjos. Elegeu Maluf, depois elegeu Erundina, elegeu Jânio quando Fernando Henrique já havia feito pose na cadeira de prefeito, elegeu Marta Suplicy, elegeu Fernando Haddad, numa espécie de passeio pela gangorra. Apenas lembranças. Bruno Covas tem 10 pontos de diferença hoje. Tirar essa distância em quatro dias é ser maratonista melhor que Usain Bolt, o maior velocista de todos os tempos, sendo o único a vencer três vezes em Olimpíadas as provas de 100 m e 200 m.

Antilulismo

Mas Bruno Covas pegou a fama de corajoso, como o avô Mário, venceu um câncer, aparece bem na TV, e, de certa forma, encarna o perfil do antilulismo. São Paulo abriga a maior população antipetista do país. Portanto, ele também agrega um posicionamento que puxa uma carga grande de votos. O psolismo é primo-irmão do petismo. Mas o voto, desta feita, carrega intensa indignação. Quem causa maior furor hoje? Quem tem esse termômetro? O eleitor está furioso, raivoso, crítico, exigente.

O bolsonarismo

Bate no nosso sistema cognitivo uma forte sensação de que o bolsonarismo tende a entrar numa rota de declínio. Indico alguns fatores: a) a economia continuará tateando na escuridão; b) o Centrão ganhou força na eleição, o que lhe motivará a aumentar o custo da fatura política, gerando cofres abertos, divergências, apoios, de um lado, e desapoios, de outro; c) formação de um bloco central, unindo grandes partidos, com vistas a 2022; d) o desprestígio do Brasil no cenário internacional, a partir da vitória de Joe Biden; e) desentrosamento entre Bolsonaro e parcela vigorosa das Forças Armadas ; f) a indeclinável dureza da identidade bolsonarista, com viseira que só mostra a base de adeptos e simpatizantes.

Cadete

Leio texto de Thaís Oyama, colunista do UOL: "Diante da insatisfação dos generais, Bolsonaro procura os cadetes. Na noite de 16 de outubro Bolsonaro dormiu junto aos cadetes numa ala comum do Hotel de Trânsito da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende/RJ. Não foi a primeira vez que o presidente foi à academia participar da cerimônia de entrega dos espadins aos aspirantes a oficiais do Exército. A Aman é a incubadora dos oficiais e futuros comandantes da Força Terrestre".

Cansaço da equipe

No terceiro ano das administrações, os governantes se obrigam a mostrar seus feitos em todas as áreas. Se a folha de serviços não estiver cheia de coisas, ocorre o que se chama de "reversão de expectativas". Frustração. Decepção. Desprezo. Procura de novos protagonistas. A equipe ministerial, por seu lado, se esvai em cansaço. Indisposição. E até desejo de se retirar de campo. Um ou outro. Paulo Guedes, por exemplo, está frustrado com a derrota de seu programa de privatização. E se mostra esgotado. Começa a repetir as mesmas intenções, as mesmas previsões, o mesmo vocabulário. Linguagem tatibitate, que não leva a nada. Palavras, palavras, onomatopeias, exclamações, interrogações.

O copo transborda

O fato é que: ninguém suporta mais os pés de páginas transmitidos por Bolsonaro em seus encontros informais (mas combinados) com apoiadores e jornalistas; ninguém aguenta mais as frases de efeito ou palavras "bolsonárias" para abrir manchetes de jornais; só mesmo as duas bandas envolvidas suportam o bate boca diário pelas redes sociais; saturaram as sequências na mídia sobre rachadinhas, Flávio e Queiroz; até os programas de humor, com vozes imitando protagonistas, começam a perder a graça. O copo transborda. E ninguém vê isso?

O Brasil em mutação

Em Barbacena/MG, terra de Andradas e Bias Fortes, donas do poder político desde o Império, foi eleito prefeito um professor de 28 anos, ex-vereador de uma única legislatura. Nesta mesma Barbacena, o segundo vereador mais votado, um palhaço ambulante (literalmente), com roupas e adereços próprios da figura representada, faz como o prefeito, representando os descrentes, insatisfeitos, e os eleitores que não aceitam o status quo da política. Mensagem enviada pelo advogado Júlio Azi Campos.

Final de ano menos festivo

As famílias vão entrar daqui a pouco no clima de confraternização. Mas o clima não será tão animado. A pandemia está aí com seus números ainda altos. A Covid-19 sai das ruas e entra nas casas. Agora, a contaminação chegou forte nos grupos do meio da pirâmide, que desleixaram suas atitudes prevencionistas. Está longe de ir embora.

A briga das vacinas

Politizaram as vacinas. Vacinas comunistas e vacinas liberais. Uma nova muralha, não da China, mas contra a China, se constrói por nossas plagas, a partir desse pedreiro, arquiteto e pintor, de nome Jair Bolsonaro, que tentará evitar que a tal vacina chinesa pule a muralha. Até prometeram comprá-la se for aprovada pela Anvisa. Promessa. Pois tudo será feito contra o que pode vir daquele território oriental. Teremos um 2021 pontuado por frases como: "já tomou sua vacina? A chinesa ou a inglesa? A chinesa ou a americana?"

Doria x Bolsonaro

Podem até não gostar do estilo João Doria de governar. Falam que abusa da publicidade, do modus operandi de sua comunicação autoelogiativa, etc. Há até um blog do Tom Cavalcanti, que imita o governador em suas entrevistas diárias sobre as ações de seu governo para combater o corona 19. Mas o fato é que ele lidera o esforço no país para trazer a vacina da China, fazendo negociações, parceria entre o laboratório chinês e o Instituto Butantã, que é um exemplo de seriedade no campo da imunologia.

2022, distante

Cerca de seis milhões de doses já chegaram a São Paulo. Doria, por essas coisas, tornou-se alvo de Bolsonaro. Até o momento, o governador tem se ancorado, como frisa, na base da ciência, enquanto o presidente monta no cavalo da politiquice. Até 2022, tem um oceano para escoar por baixo da ponte. Olhem para a história.

Napoleão

Lembrem-se de Napoleão, que invadiu a Rússia em pleno inverno. Faltavam suprimentos para o Exército. Não era fácil para os franceses obter comida com os camponeses que viviam nas áreas agrícolas ao redor. Napoleão teve que repensar sua estratégia e decidiu não mobilizar seus soldados para tomar São Petersburgo. Eles não tinham mais energia para viajar até o norte, e muito menos pra enfrentar um potencial ataque das forças do marechal Kutuzov. Napoleão estava em território estrangeiro sob a sensação de derrota.

Explodir o quê?

Sem outra escolha senão recuar, os franceses começaram, em meados de outubro de 1812, a marchar rumo a oeste para a área entre os rios Dnieper e Dvina. Enfurecido pela situação, Napoleão ordenou que seus engenheiros explodissem o Kremlin após sua partida, mas eles conseguiram destruir apenas uma torre. Com pouco para comer e despreparados para o inverno, as forças de Napoleão voltaram para Paris, sofrendo grandes perdas ao longo do caminho. Candidatos: não cometam o desatino de invadir 2022 antes do tempo. Tendo alvos concretos para implodir ou explodir. Não há, na atual paisagem, condição de explodir algo concreto como barragens, adutoras, prédios.

Fecho a coluna com um pouco de humor para adoçar a amargura da campanha eleitoral.

Encenação da paixão

O "causo" se deu na encenação da Paixão de Cristo numa cidadezinha da Paraíba. O dono do circo, em passagem pela cidade, resolveu encenar a Paixão de Cristo na sexta-feira santa. Elenco escolhido dentre os moradores e no papel de Cristo, o cara mais gato da cidade. Ensaios de vento em popa. Às vésperas do evento, o dono do circo soube que 'Jesus' estava de caso com sua mulher. Furioso, deu-se conta que não podia fazer escândalo sob pena de perder o investimento. Bolou uma maneira. Comunicou ao elenco que iria participar fazendo o papel do 'centurião'.

- Como? - reclamaram - Você não ensaiou!

- Não é preciso ensaiar, porque centurião não fala!

O elenco teve que aceitar. Dono é dono. Chegou o grande dia. Cidade em peso compareceu. No momento mais solene, a plateia chorosa em profundo silêncio. Jesus carregando a cruz ... e o 'centurião' começa a dar-lhe chicotadas.

- Oxente, cabra, tá machucando! Reclamou Jesus, em voz baixa.

- É pra dar mais veracidade à cena, devolveu o centurião.

E tome mais chicotada. Chicote comendo solto no lombo do infeliz. Até que Jesus enfureceu-se, largou a cruz no chão, puxou uma peixeira e partiu pra cima do centurião:

- Vem, desgraçado! Vem cá que eu vou te ensinar a não bater num indefeso!

O centurião correndo, Jesus com a peixeira correndo atrás, e a plateia em delírio gritando:

  • É isso aí! Fura ele, Jesus! Fura, que aqui é a Paraíba, não é Jerusalém, não!

 

Postado às 08h00 | 11 dezembro 2020 |

NESTE PLEITO, EMOÇÃO E RAZÃO

O primeiro turno das eleições para escolha de 5.570 prefeitos e 57 mil vereadores pode ser considerado o mais insosso e desanimado desses tempos de repúdio à política.

As razões para o clima de indiferença que envolve a maior parcela dos 150 milhões de eleitores abrigam um conjunto de fatores: o medo do Covid-19; a descrença na política, que ganhou volume com as investigações da Operação Lava Jato; a crise econômica, que empobrece a população; a deterioração dos serviços sociais, particularmente na área da saúde; e, por fim, a polarização que azeda as relações sociais, aumentando a agressividade entre grupos e rebaixando a expressão dos protagonistas.

É oportuno lembrar que a descrença geral, ao contrário do que se pode concluir de maneira mais apressada, não induz o eleitor a votar em qualquer um. Ao contrário, provoca no cidadão a vontade de mandar todos para o mesmo buraco e, na ausência dessa possibilidade, abre alternativas: deixar de votar, votar em branco ou escolher alguém de perfil mais alinhado às demandas do povo. Donde se aduz que é bem razoável um recorde de votos nulos e brancos e a escolha de quadros melhores que a atual moldura governativo/representativa.

Deixar de votar ou votar em branco, também na contramão do que se pode imaginar, não significa um ato de anemia política. Em outros termos, trata-se de uma decisão que emana da vontade e da concepção do eleitor sobre os candidatos, a par da natural tendência de milhares de pessoas de evitar aglomerações, nesse momento em que a pandemia ameaça formar uma segunda onda.

Em suma, o eleitor avança no caminho da racionalidade, que é um fenômeno condizente com o estágio civilizatório que respeita direitos e deveres e registra índice mais elevado de cidadania. O processo cognitivo pode ser assim explicado: de tanto ver coisa ruim, de tanto ver o copo da corrupção transbordar, a pessoa decide virar a mesa, estapear ou apenar alguns candidatos, principalmente aqueles que só aparecem nas periferias de quatro em quatro anos. O voto, por isso mesmo, carrega uma taxa de emoção, mas não deixa de abrigar igualmente uma porção de lógica, razão, bom-senso. Dedução: o Brasil emotivo acolhe também elevado teor de racionalidade, o que significa participação política mais consciente.

A cada pleito, registra-se menor número de adeptos contaminados pela síndrome do touro: pensar com o coração e arremeter com a cabeça. Milhões começam a escolher seu candidato pensando com a cabeça, apesar de nossa mais alta autoridade fazer o contrário, quando nos coloca a pecha de “maricas” e sugere que, ante eventual falta de saliva, o país use “pólvora” para defender a Amazônia. (P.S. Contra quem? Contra a maior potência militar do planeta).

Deixemos as cabeçadas toureiras de lado e voltemos ao processo eleitoral. Constata-se, nesta eleição, outro fenômeno que indica o grau de polarização política: a mescla do espaço local/regional com o espaço nacional.

As campanhas se desenvolvem sob um roteiro de promessas e compromissos locais, mas é perceptível o manto nacional vestindo as contendas, significando que o voto também será dado para contrariar ou endossar protagonistas que habitam o último andar da pirâmide da política, principalmente o presidente da República. Votar em quem foi indicado ou apoiado por ele faz parte do sistema decisório do eleitor.

Por último, vale lembrar que a escolha significa a construção da base do edifício político, ou a pista de decolagem dos aviões que subirão em outubro de 2022. Vereadores e prefeitos são cabos eleitorais de todos os participantes da política, ajudando a eleger deputados estaduais, federais, senadores e governadores, e estes, por sua vez, formam os vasos comunicantes que animarão as plateias da eleição presidencial.

O fato é que o pleito deste 15 de novembro, a se completar com o segundo turno no dia 29 próximo, mesmo insosso, é uma pedra fundamental para construção do Brasil de amanhã. O que resultará das eleições afetará a vida de cada um. Daí a importância de tentar enxergar no candidato de hoje um eixo essencial à engrenagem que fará o Brasil avançar ou retroceder.

O voto é um direito. Que deve ser usado como a mais poderosa arma de defesa da cidadania no seio das democracias.

Postado às 15h15 | 10 dezembro 2020 |

Porandudas políticas

 

Abro a coluna com uma historinha de José Abelha, em A Mineirice. 

 

As três pessoas 

No confessionário, Monsenhor era rápido. Não gostava de ouvir muita lengalenga. Ia logo perguntando o suficiente e sapecava a penitência que, sempre, era rezar umas ave-marias em louvor de N. S. do Rosário, padroeira de uma cidadezinha de Minas Gerais. Fugindo ao seu estilo, certa feita ele resolve perguntar ao confessando quantos eram os mandamentos da lei de Deus.

- São 10, Monsenhor.

- E quantos são os sacramentos da Santa Madre Igreja?

- São 7, Monsenhor.

- E as pessoas da Santíssima Trindade, quantas são?

- São 3, Monsenhor.

Monsenhor, notando que o confessando só sabia a quantidade, pergunta rápido:

- E quais são essas pessoas?

A resposta encerrou a confissão:

As três pessoas são o senhor, o Dr. Didico e o Dr. Zé Augusto. 

 

Recados do eleitor

Ufa. Entre mortos e feridos, uns e outros, com salvação para alguns. Quer dizer, um pouco de tudo atingiu a todos. O eleitor foi mais racional que emotivo. Em certas praças, como havíamos previsto, uma abstenção recorde de mais de 30%. O que não significa falta de interesse. Não votar, anular ou votar em branco são atitudes que expressam desencanto, desilusão, indignação. Recados foram dados às pencas. Eis alguns.

 

1. Política tradicional

Em 2018, Jair Bolsonaro levantou a bandeira da antipolítica, ou, nos termos que usou, a velha política. O eleitor, com sua arma democrática, disse: "espere aí, não é bem assim. Devagar com o andor". E deu um voto intenso na política tradicional, escolhendo quadros conhecidos.

 

2. Testado e experiente

Entre um novato, inexperiente, e um perfil já testado na administração, o eleitor preferiu este último. Muitos candidatos são da velha escola. E alguns correm na pista, mesmo com mais de 80 anos, como é o caso de Amazonino Mendes, que lidera a disputa do 2º turno em Manaus.

 

3.Viés plebiscitário

A eleição, a par de se constituir um freio de arrumação no sistema político, preenchendo lacunas e abrindo portas, teve também um certo viés plebiscitário, que se interpreta como endosso/apoio ou desaprovação ao presidente Bolsonaro. Que não conseguiu eleger nem 10 prefeitos e uma leva pequena de vereadores nos 5.567 municípios do país. De 78 candidatos que registram Bolsonaro como sobrenome, apenas 1 foi eleito: o filho Carlos. A rejeição ao presidente é alta, como se viu em São Paulo, com o desastrado apoio ao candidato do Republicanos, Celso Russomano. O filho Carlos teve 35 mil votos a menos do que obteve na eleição de 2016 , índice que o colocava em 1º lugar. Agora, ficou em 2º. A mãe dos filhos 01, 02 e 03, Rogéria Nantes Bolsonaro, não foi eleita.

 

4. Partidos repartidos

DEM, PSD e PP são alguns partidos que ganharam musculatura. O PSDB poderá recuperar terreno com Bruno Covas em São Paulo. Elegeu até agora 497. O MDB continuará como o partido de maior número de prefeitos - 777 - mas perdeu 25% de sua bancada no comando municipal. Nenhum partido fez mais de mil prefeitos. No RS, o MDB obteve a melhor performance, com 130 vitórias. O PSDB caiu de 804 para 519 prefeituras vencidas.

 

5. PT encolheu

Nas eleições municipais de 2012, ápice da popularidade de Dilma e Lula, o PT venceu em 644 cidades. Neste ano, até agora, venceu em 178. E o PSL, rachado por querelas com os Bolsonaros, e com um fundão eleitoral de quase R$ 200 milhões, teve performance lamentável, elegendo apenas 87. Voltou a ser nanico. O Novo, que seria a esperança de novos costumes na política, por enquanto registra apenas uma vitória. E disputará o segundo turno em Joinville, município mais populoso de Santa Catarina.

 

6. Centrão cresceu

O eleitor decidiu dar mais fôlego ao Centrão, que ganhou volume. O PP fez 672 prefeitos. O PSD, do ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab, subiu de 539 para 652. O DEM ampliou sua quantidade de prefeitos em 70%, chegando a 458.

 

7. PSOL vindo para o meio?

Uma das maiores novidades do pleito foi a chegada ao 2º turno de Guilherme Boulos, do PSOL. Quem diria que o líder do Movimento dos Sem Teto chegaria a uma ampla cobertura de mídia, ganhando a atenção do eleitorado jovem e muitos eleitores refinados das classes A e B da maior metrópole do país? Pois bem, correu um vento a favor dele, que lhe trouxe uma aura de mocidade, vigor, juventude, renovação. Bom de debate, canalizará os votos do petismo e das rodas intelectuais e artísticas. Na periferia, é carregado pela "tia Luiza" ( Erundina). 

 

Lula, paciência

O PT de José De Filippi disputará o 2º turno em Diadema com Taka Yamauchi, do PSD. Será a única chance do petismo resgatar uma nesga da grande nuvem que o acolhia no ABC paulista. O eleitor dá um recado ao lulismo: paciência, a vez de vocês passou. 

 

8. Embalando Acm Neto

O eleitor, como já se disse antes, decidiu endossar as candidaturas de indicados por bons gestores. No caso da Bahia, Bruno Reis, o vice de ACM Neto, decidiu a parada no 1º turno. E assim, o DEM se habilita, a partir do maior colégio eleitoral do Nordeste e quarto do Brasil, a compor com o PSDB com vistas ao pleito de 2022. 

 

9. O eleitor medroso

Tenho repetido que a pandemia também decidiu interferir no processo. Influenciou o não votante, o voto nulo e em branco, e ainda carregou o voto com a escolha de perfis mais comprometidos com a melhoria dos serviços públicos. Portanto, o voto dado ou não dado agregou a componente da crise sanitária. Punindo uns, parabenizando outros.

 

10. Ninguém é imbatível

Um recado fica muito patente: ninguém é imbatível. E pessoas autossuficientes caem do pedestal, ao perceberem que seus sonhos de grandeza não se realizam. Vejam o caso da Joice Hasselmann. PSL. Teve pouco mais de 82 mil votos, quando em 2018, concorrendo para deputada federal, teve cerca de 1 milhão de votos em São Paulo.

 

11. E agora, José?

Valho-me dos versos iniciais do poema do fabuloso Carlos Drummond de Andrade:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
 

 

Fazer o quê? 

  1. Bolsonaro - vamos fazer as contas de ganhos, perdas e danos. Ganhos? Não os vejo.
  2. Candidatos ao 2º turno - Que verbos, adjetivos, ênfases, promessas e compromissos devemos anunciar?
  3. Centrão - Ante nosso avanço nas urnas, devemos renegociar nossos feudos no governo.
  4. Partidos grandes - MDB, DEM, PSD - Vamos olhar, com um olho, para o centro-direita; e com o outro para o centro-esquerda.
  5. Bruno Covas e Boulos - Como atrair votos conservadores do Russomano em São Paulo? Como atrair os votos da esquerda sem ganhar a pecha de extensões do petismo?
  6. Lula, Gleisi, José Dirceu - Que mudanças precisamos fazer? Como renovar o partido? Que bandeiras deveremos levantar?
  7. Redes bolsonaristas - Perdemos de goleada. Vamos incrementar as fake news? Com informações de fraudes eleitorais? Vamos insinuar que os ataques ao sistema do TSE têm a ver com fraudes?
  8. João Doria - O que devo fazer agora na campanha do 2º turno? Continuar escondido e aparecer apenas na frente da Coronavac ou aparecer de soslaio em alguns eventos?
  9. Gabinete do ódio - Vamos esperar pelas diretrizes dos nossos comandantes? Continuar a linha de ataques, com insinuações de conspiração ou dar um tempo para acomodação das placas tectônicas da política?
  10. Paulo Guedes - Paro o trem da economia até ver a onda passar ou continuo a correr na locomotiva? Afinal, perdedores e vencedores deverão chegar ao nosso confessionário, contar pecados ou desfilar hosanas. Os gastadores contarão com que armas? E os guardadores do cofre lutarão com que armas? E se o comandante das tropas decidir estourar os diques da contenção de gastos? 

 

A geopolitica da intervenção

Registro mais um livro na praça, que tem o título acima e o sub-título A Verdadeira História da Lava Jato, de Fernando Augusto Fernandes, um dos grandes criminalistas do país. Fernando acompanhou passo a passo o roteiro de investigações e, nesse livro, desvenda a complexa engrenagem formada (e combinada) para culpar os investigados. Esteve presente em muitos depoimentos. Trata-se de uma obra indispensável para quem deseja desvendar os subterrâneos da operação que se tornou bandeira política para alguns protagonistas. 

 

Fecho a coluna com um pensamento 

 

A ambição desmesurada 

No meu livro Marketing Político e Governamental, cito um pensamento do cientista político Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente os que a apóiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

 

Postado às 15h15 | 10 dezembro 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com um "causo" da Paraíba.

Cancelo chuvas

A seca era medonha. A Paraíba em desespero, o governador aflito. Um dia, caiu uma chuva fininha no município de Monteiro. Inácio Feitosa, o prefeito, correu ao telégrafo: "Governador José Américo: chuvas torrenciais cobriram todo município de Monteiro. População exultante: Saudações, Feitosa". Os comerciantes da cidade, quando souberam do telegrama, ficaram desesperados. O município não ia mais receber ajuda. Ainda mais porque a mensagem era falsa e apressada. Feitosa correu de novo ao telégrafo: "Governador José Américo: cancelo chuvas. População continua aflita. Feitosa, prefeito".

Sangue, trabalho, suor e lágrimas

"Espero que meus amigos e colegas, ou colegas de outrora, que tenham sido afetados pela reconstrução política, sejam tolerantes e me desculpem por qualquer falta de cerimônia na maneira por que fui compelido a agir. Eu diria a esta Casa, como disse àqueles que passaram a formar este governo: - Eu nada mais tenho a oferecer senão sangue, trabalho, suor e lágrimas". (Winston Churchill)

Um olhar na paisagem

Um olhar na paisagem política nacional é como contemplar as nuvens. Ora, vemos caras de bichos, ora vemos feições de pessoas, principalmente velhos de barba. As imagens mudam a cada instante. Na semana passada, por exemplo, víamos as caras de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre sentados às mesas das presidências da Câmara e do Senado, respectivamente. Hoje estamos vendo as cadeiras presidenciais vazias, sem ocupantes. Víamos Bolsonaro abraçando efusivamente Alcolumbre pela vitória no Senado e hoje vemos o presidente de cara fechada, preocupado. O que tem acontecido nos horizontes da política?

STF sob pressão da OP

Corria a impressão de que nossa mais alta Corte iria acabar aprovando a possibilidade de Maia e Alcolumbre tentarem a reeleição em fevereiro, abrindo uma fissura na CF de 88. O ministro Gilmar deu parecer nesse sentido, permitindo a continuidade de reeleições subsequentes na mesma legislatura e estabelecendo uma proibição apenas em 2023. Parecia que as articulações já estariam fechadas com outros ministros, inclusive sob a versão corrente de que o voto do presidente Fux seria a favor. A mídia caiu de pau na continuidade. Juristas fizeram chover críticas. Resultado. Ministros mudaram de posição. E o voto contrário venceu.

O jurista fala

A Carta Constitucional é clara, como lembra o jurista Walter Maierovitch: É vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição subsequente. E aduz o grande jurista: "como ensinavam os pretores romanos - in claris cessat interpretatio. Na democracia, como revela seu étimo, o comando é do povo e se exerce por meio de seus representantes. Ministros do STF são representantes do povo, não têm poder próprio, mas outorgados pelos cidadãos. No Brasil, ministro da alta Corte tem de ser guardião da Constituição e não pode fazer acrobacias jurídicas para atender interesses pessoais, políticos, conjunturais".

Placar final

E a situação ficou assim.

Sobre uma eventual reeleição de Rodrigo Maia:

7 votos contra: Nunes Marques, Marco Aurélio, Cármen Lúcia, Rosa Weber, Luis Roberto Barroso, Edson Fachin e Luiz Fux.

4 votos a favor: Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski.

Sobre uma eventual reeleição de Davi Alcolumbre:

6 votos contra: Marco Aurélio, Cármen Lúcia, Rosa Weber, Luis Roberto Barroso, Edson Fachin e Luiz Fux.

5 votos a favor: Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Nunes Marques, Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski.

E agora?

Agora, os efeitos começarão a ser sentidos. No Supremo, a divisão vai impactar a gestão do presidente Luiz Fux. Dois grupos acentuarão visões contrárias. Vai sobrar para Fux, que terá que se desdobrar para harmonizar as alas em confronto. Na Câmara, Rodrigo Maia terá de fazer esforço extraordinário para eleger seu sucessor. No Senado, idem. Alcolumbre não vai querer ser derrotado com seu candidato. Afasta-se do Palácio do Planalto. As posições começam a ser negociadas. Antes do recesso parlamentar de fim de ano, o jogo estará iniciado com a bola rolando no campo.

Na Câmara

Arthur Lira é o candidato de Bolsonaro. É o líder informal do PP. Mas, nas últimas semanas, teve seu nome envolvido em denúncias de "rachadinha" na época em que era deputado estadual em Alagoas. O processo foi arquivado por falta de provas. Mas com a recorrência do MP, prevê-se a continuidade do caso nas Cortes Superiores. Portanto, Lira exibe essa mancha na imagem. Aguinaldo Ribeiro, do PP-PB, é o líder formal do partido. E conserva boa amizade com Maia. Não teria estofo, porém, para arrebanhar a maioria de seu partido. Há Elmar Nascimento, do DEM-BA, também sem grandes apoios. Emerge nesse cenário a figura de Baleia Rossi, MDB-SP, amigo de Maia, e com o desafio de conquistar apoios do PSDB, DEM, PSD, PSB, PDT e outros. Por último, o pastor Marcos Pereira, atual vice-presidente da Câmara e presidente do PR. Ligado à Igreja Universal.

No Senado

Dois Eduardos, Gomes (MDB-TO), Braga (MDB-AM), o primeiro sendo líder do governo no Senado, estão na lista, onde figura, ainda, o nome da respeitada senadora Simone Tebet, MDB-MT, que comanda a importante CCJ. Fala-se, ainda, no nome do senador Espiridião Amin, PP-SC, que tem muita experiência. O jogo no Senado parece mais fácil de ganhar do que o da Câmara. Assim pensa o governo. Desde já, as moedas de troca - ministérios e cargos - são mostradas.

Mineirinhas

Frases de Augusto Zenun, de Campestre, sul de Minas - político, industrial, filósofo e, antes de tudo, udenista ortodoxo da linha bilaqueana (Bilac Pinto, o Bilacão, seu dileto amigo). Sempre infernizou a vida de seus adversários, com as suas atitudes destemidas e sua natural mineirice.

"Quando estamos no governo, todo adversário que quer se encaixar diz ser técnico".

"O preço do voto de um eleitor mentiroso é sempre o mais caro".

"Há um fato na política que a torna bastante interessante: o choque dos falsos políticos com os políticos falsos".

"Político é dividido em duas partes. Uma trabalha para ser eleito. A outra trabalha para conseguir um cargo público se for derrotado".

"Muita campanha eleitoral se parece com sauna: depois do calorão vem uma ducha fria".

(Pinçadas de A Mineirice, de José Flávio Abelha)

A guerra das vacinas

O governo Federal ainda não possui um plano estratégico para a vacinação em massa da população brasileira. E, olhem lá, o general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, é um especialista em logística. Portanto, não é por falta de conhecimento que a administração resvala por esse terreno. É mesmo falta de rumo, politiquice, politização da vacina. Ficar apenas com três vacinas é muito pouco, quando deverão estar disponíveis depois da fase 3 pelo menos umas 10 vacinas. A vacina da Pfizer seria a quarta.

Em janeiro

João Doria, governador de SP, anuncia para 25 de janeiro o início da vacinação em SP, com 10 milhões de doses, caso a Anvisa acolha a qualidade técnica e dê sua autorização para uso da Coronavac, o remédio chinês. Mas a Anvisa soltou nota: só liberará após avaliar os resultados da fase 3. Doria, em caso de grande atraso pela agência, irá bater nas portas do Supremo. O fato é que o governador de São Paulo marcou um gol de placa. No mesmo dia do anúncio do Doria, o presidente e a primeira dama, Michelle, em evento prestigiado, fizeram o lançamento das vestimentas que os dois usaram na posse. Coisa de Odorico Paraguaçu na cidade de Sucupira.

Filas, fura-filas, confusão

A projeção é natural: haverá confusão na vacinação. Filas enormes serão formadas, outros vão tentar furar a fila, enquanto alguns mais atrevidos até podem provocar deliberadamente bagunça. O processo de vacinação vai despertar os ânimos já nervosos de protagonistas. E se habitantes de alguns Estados quiserem se vacinar em outro? Em São Paulo, pelo que se sabe, vacinar quem aqui estiver e quiser será permitido. Veremos uma guerra de verbos e advérbios entre os lutadores da arena política.

Climão pesado

Pois bem, a partir da pequena leitura que fazemos sobre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, podemos contemplar as nuvens plúmbeas que escurecem os horizontes. A inflação dá sinais de retomada. O governo é uma orquestra desafinada. O maestro não domina todos os instrumentos e com sua varinha, não dá equilíbrio aos metais, às cordas e aos tambores. Com exceção de três ou quatro, os ministros não apresentam resultados. O cobertor social ameaça encurtar. A infraestrutura, grande esperança no início, fraqueja. O final de ano será pesadão. Papais Noéis virtuais sinalizam um tempo meio frio. De poucas alegrias.

Aglomeração

Mesmo assim, não se pense em duro isolamento social neste fim de ano. As aglomerações vão ocorrer. A 25 de março em São Paulo que o diga. Lembra uma Torre de Babel ou um corredor da pandemia.

A era do rancor

Aqui, ali e acolá, o rancor brota. Como semente de um tempo regado pela descrença na política, quebra de valores do passado - o respeito, a disciplina, a força da palavra dada, a honestidade, o zelo, a modéstia, a humildade, a Justiça. Será que começamos a vivenciar o "paradigma do caos", criação do professor Samuel P. Huntington?

A forca mais alta

"Canuto, Rei dos Vândalos, mandando justiçar uma quadrilha, e pondo um deles embargos de que era parente del-Rei, respondeu: Pois se provar ser nosso parente razão é que lhe façam a forca mais alta." Padre Manuel Bernardesc

Fecho a coluna com uma historinha do Geraldo Alckmin.

"Me ajude, governador"

Geraldo Alckmin é um colecionador de "causos". Quando o encontro, ouço a pergunta: "E as Porandubas?". Alckmin é leitor assíduo da coluna. E tem muitas historinhas para contar. Vejam esta.

Um prefeito chega ao governador, e, sem mais delongas, expressa sua angústia:

- Governador, pelo amor de Deus, me ajude, me ajude, me socorra! Estou perdido!

- Por que tanta aflição, prefeito, afinal você está apenas no meio do mandato. Há dois anos, ainda, pela frente.

O prefeito, cochichando no ouvido do governador, em tom de confessionário, conta o motivo:

- Governador, eu exagerei. Prometi demais, governador. Muito mais do que podia cumprir. E hoje, estou apertado por todos os lados. Não tenho condição de pleitear um novo mandato. Me ajude, governador, me socorra!

Alckmin abriu os braços, balançou a cabeça em sinal de dúvida. Mas não teve coragem para dizer: "quem pariu Mateus que o embale". Preferiu abrir uma ruidosa gargalhada.

Postado às 16h15 | 09 dezembro 2020 |

UM DRIBLE AQUI, OUTRO ACOLÁ

O Brasil chega ao final do processo eleitoral, com o tira-teima em 57 cidades, sendo 18 capitais e 39 municípios com mais de 200 mil eleitores, desfraldando a bandeira de uma “corrupçãozinha”. Como? Isso mesmo. No momento mais crítico da atualidade, quando a mídia e os órgãos estatais de controle estão varrendo o país com suas lupas, 64 mil beneficiários do auxílio emergencial sacaram do bolso R$ 54,5 milhões para doarem a candidatos no 1º turno. E quem apurou esse desvio foi o próprio Tribunal Superior Eleitoral.

Só mesmo por aqui ocorre uma aberração dessas. Como o nome indica, o “auxílio emergencial” se destina aos mais carentes, desprovidos de renda, um adjutório para que milhões de pessoas consigam o mínimo para sua sobrevivência e, mais ainda, numa quadra de pandemia que assola o território. A não ser que os “doadores carentes” tenham driblado os mapas do governo e, como aves de rapina, voaram direto para cima da caça, no caso, o tal “auxílio emergencial”, que já custou ao governo este ano cerca de R$ 100 bilhões. Em suma, as mamas do Estado continuam a fornecer “leite” aos bezerrões da política.

Não por acaso, parcela ponderável do eleitorado vira as costas para a política, em um gesto que sinaliza desprezo, descrédito, indignação. A abstenção, voto nulo e voto em branco são formas de protesto, que se somam ao natural receio de enfrentar as urnas nesse instante pandêmico. Enquanto os horizontes da política não se tornarem claros, iremos empurrando as eleições com o rolo compressor do senso comum, que clama por reformas, mudanças, avanços.

Tais demandas provêm, sobretudo, das camadas mais esclarecidas, integrantes do painel da racionalidade, habitantes das grandes e médias cidades, cujo núcleo central é composto por profissionais liberais. Esses segmentos são os mais sensíveis ao fenômeno da “fadiga de material”, conceituado como saturação de perfis antigos, feudos familiares, domínios eleitorais, passagem do bastão entre figuras tradicionais. Há entre eles, vale reconhecer, pessoas de ótima índole e exemplar performance política. Mas a permanência por décadas na trajetória propicia a sensação de “material gasto”, pneu careca que não aguenta mais o tranco.

É impossível trocar pneus com o carro rodando. Quer dizer, não é fácil mudar a feição da política ou trocar o figurino dos protagonistas com as regras atuais do jogo. Por exemplo, o voto se torna cada vez mais distritalizado, a denotar interesse do eleitor em escolher alguém que lhe seja próximo ou perto de suas demandas locais/regionais. A proximidade entre político e eleitor integra a organicidade social, a tendência que se constata na formação de grupos, setores, áreas, movimentos. A sociedade, decepcionada com as promessas não cumpridas pela democracia – acesso à educação, segurança, saúde, transparência dos governos, combate ao poder invisível- procura refúgio em novos polos de poder.

Portanto, temos de ver esse poder centrípeto – que se forma de lá para cá, das margens para o centro – abrindo espaços para protagonistas respirarem novos ares. A distritalização é um fenômeno mundial, a partir dos Estados Unidos, com seus votos de condados e distritos.

Com o fim das coligações proporcionais, já registramos forte enxugamento dos partidos na rede municipal. É bem menor o número de siglas, o que virá reforçar a meta de sobrevivência de grandes e médios partidos e a extinção de nanicos, muitos servindo de bengala a outros. Partido é parte, pedaço, parcela. E não temos mais que cinco a sete divisões de pensamento no Brasil, algo como extrema direita, direita, centro direita, centro, centro esquerda, esquerda e extrema esquerda.

2021, anterior ao pleito mais importante de nossa contemporaneidade, será bastante propício para avanços na reforma política, sob a suposição que, antes dela, sejam aprovados aspectos essenciais das reformas tributária e administrativa. A pressão social será intensa nos próximos tempos, exatamente pelos fatores antes mencionados, como a decepção com a política, a fadiga de material, a organicidade social e os novos polos de poder. Estamos cansados de ver Sisifu subindo a montanha com uma pedra sobre o ombro e vê-la resvalar ao sopé. O cara jamais conseguirá colocá-la no topo. Condenação dos deuses.

No nosso caso, temos esperança que, um pouco adiante, consigamos fazer o necessário para elevar a grandeza do país. Até porque Deus é um pouquinho  brasileiro.

Postado às 16h15 | 09 dezembro 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna de análise do processo eleitoral com o saudoso Newton Cardoso, uma grande figura da política mineira.

Helicóptero

Newtão, como era chamado, assumiu o governo de Minas e, no dia seguinte, foi ao aeroporto para viajar no helicóptero da administração estadual. Ao tomar conhecimento de que aquele "trem" tinha o nome de seu adversário, foi logo dando bronca no piloto:

- Não entro de jeito nenhum nesse trem com o nome do Hélio (Hélio Garcia era o governador anterior).

O piloto, constrangido, respondeu:

- Mas governador, esse helicóptero é do governo do Estado e não do ex-governador Hélio.

Newtão não quis saber:

- Esse trem agora vai se chamar Newtoncóptero. Falei e tá falado.

***

Outra historinha envolvendo o folclórico ex-governador. Resolveu passear de carro com a família. O carro pifou na estrada. O mecânico, que o socorreu, diagnosticou:

- São os burrinhos dos freios; estão danificados. Acho bom trocar logo esses burrinhos.

Cardoso deu a bronca:

- Calma, seu mecânico, meus filhos não descerão dos burrinhos de jeito nenhum.

Uma leitura das eleições

O Brasil foi mais uma vez às urnas e mostrou compromisso com a ordem democrática. É verdade que a abstenção foi a mais alta das últimas décadas, superando em algumas capitais os votos dos vencedores, algo como 45%. Mas esse crescimento da pandemia dá medo. E milhões de eleitores, principalmente idosos, deixaram de lado seu direito ao voto. Felizmente, a polarização maldita entre os extremos do arco ideológico não ganhou intensidade. Não se viram grupos brigando nas ruas. O eleitorado, regra geral, contemplou os perfis que encarnam avanços e boa gestão. Alguns fenômenos merecem destaque.

O centro político

O eleitorado, em sua maioria, demonstrou preferir o centro da política, evitando escolher, com exceção de um ou outro caso, os perfis radicais. Não me refiro propriamente ao Centrão, que tem o PP como principal eixo, mas ao centro partidário, que reúne PSDB, MDB, PSD e DEM. Esses partidos somaram mais de 50 milhões de votos, força considerável. Claro, o PP do Centrão também foi bem contemplado. Está comprometido com Bolsonaro.

Frente ampla

É razoável projetar uma ampla frente dos grandes e médios partidos com vistas a 2022, integrando as forças de oposição ao governo bolsonarista. Essa frente cobriria os espaços de centro-direita e centro-esquerda, razão pela qual é possível a agregação de partidos como o PSB e o PDT. Mas estes dois poderão também se inclinar em direção à esquerda, juntando-se ao PSOL e ao PT.

Petismo em declínio

Como a própria presidente do PT, Gleisi Hoffmann, reconhece, o partido não morreu, mas precisa de uma chacoalhada. E essa movimentação exige formação de novos líderes, preparação de quadros, quebra da redoma em que se refugia uma pequena cúpula chefiada pelo Todo Poderoso, Luiz Inácio. E, sobretudo, arrumar uma nova bandeira: vermelha-socialista? Revolucionária? A favor da engorda do Estado? Com pregação da luta de classes? Uma volta às origens? São dilemas que o PT terá de enfrentar.

PSOL como protagonista de esquerda

O PSOL emerge como o protagonista de esquerda, capaz de atrair a atenção dos jovens e das camadas da formação de opinião, cultura e artes. Guilherme Boulos mostra musculatura nesses espaços. Teve mais de dois milhões de votos, mesmo perdendo pela diferença de um milhão para Bruno Covas, do PSDB. O prefeito Edmilson Rodrigues, de Belém, é a chama do PSOL nos fundões. Alguns vereadores farão barulho em capitais de peso, como São Paulo e Rio. Mesmo assim, será tarefa complexa se o partido continuar a desfraldar a bandeira da radicalização. Haverá invasão de propriedades?

Fadiga de material

Este consultor sinaliza aos vitoriosos o risco de descerem pelo desfiladeiro antes de prazos aceitáveis. Ao iniciarem suas gestões em 2021, precisarão dar uma arrumada geral na casa, se possível, agregando novas ideias, novos projetos, na esteira de novidades. Correm o perigo de entrarem no terreno que se chama de "fadiga de material". Principalmente os gestores reeleitos. E, mais ainda, aqueles que são extensões de um domínio de mais de 20 anos.

Base de 2022

É um erro imaginar que o pleito para as prefeituras e câmaras de vereadores não tem nada a ver com 2022. É claro que tem. O município é a casa política do eleitor. São prefeitos e vereadores os principais cabos eleitorais de deputados, senadores, governadores e presidente da República. Formam a base do edifício da política. E poderão ser mais adiante os influenciadores mais fortes do eleitor de 2022.

Administrar na escassez

Os prefeitos eleitos terão, necessariamente, de inaugurar o ciclo da escassez. Mesmo se a economia se recuperar - meta difícil - faltarão recursos para os programas. E não adiantará apelar para um governo Federal com cofres vazios. Daí o perigo de anteciparem o declínio. Uma administração tem cinco fases: 1. Lançamento - início da gestão; 2. Crescimento - projetado para o 2º ano da gestão; 3. Maturidade - 3º ano da administração; 4. Clímax - auge do prestígio, eficácia de programas e ações - último ano e 5. Declínio - que deveria ocorrer depois das eleições. Muitos prefeitos, porém, entram em declínio logo no 2º ano de governo.

Governo Federal - direita volver?

O panorama proporcionado pelas eleições mostra que a tendência do eleitorado é seguir o caminho do centro, como temos dito e repetido nesse espaço. Voltar à ponta-direita do arco ideológico é má aposta. Polarizar com a esquerda? Então, imaginemos: Bolsonaro na direita, apoiado por partidos do Centrão e nanicos; o candidato do PSOL/PT/PDT na esquerda; e um candidato do centro democrático, com perfil moderado e progressista. Este seria o vitorioso. O eleitor está saturado, cansado de ver tanta polarização animalesca.

Um país tocado pelo medo

Acabo de ler: o secretário-Geral da ONU, António Guterres, alerta que a crise causada pelo novo coronavírus é "a crise mais desafiadora que a humanidade enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial, causando um impacto econômico 'sem precedentes' e pondo em risco a paz mundial". Teremos um 2021 ainda sob a pandemia e com sinalização de recessão. Vamos viver mais um ano de medo. Essa 2ª onda, não admitida por governantes, está mostrando ser mais violenta que a 1ª.

Pesquisas falhas

As pesquisas precisam arranjar uma metodologia capaz de fornecer dados mais confiáveis. No Recife e em Porto Alegre as distâncias entre o vitorioso e o perdedor foram bem acima do dado projetado. Pode haver mil motivos. Contanto que possam ser considerados nas projeções.

Os extremos se encontram

Pois é, o eleitor brasileiro é flexível. Idade não conta. Elegeu José Braz, de 95 anos, para a prefeitura de Muriaé, na zona da mata mineira. Feliz, anuncia: "Quero deixar um legado". E elegeu João Campos, 27 anos, prefeito do Recife, o mais jovem do país. O velho e o novo marcaram um encontro vitorioso nas urnas.

Ganhadores e perdedores

A grosso modo, sem entrar em detalhes, vamos aos ganhos e perdas:

Perderam

- Bolsonaro

- Crivella/Igreja Universal Rio de Janeiro

- PT

- Lula

- Radicais dos dois lados - Radicalização

- PSL com recursos de R$ 200 milhões

- Sergio Moro

Ganharam

- Partidos de centro

- Centristas e seus lados - Bruno/Doria, ACM Neto, Rodrigo Maia, Baleia Rossi, Gilberto Kassab, Ciro Gomes (PDT) e João Campos (PSB).

- Moderação

Policiais

Renato Sérgio de Lima, na Revista Piauí, mostra que foram eleitos 50 prefeitos e 807 vereadores oriundos da área de segurança. Dos cerca de oito mil profissionais ligados às forças de segurança (polícias e Forças Armadas) que se lançaram candidatos em 2020, cerca de 10,2% foram eleitos.

Ganho de Visibilidade

- Guilherme Boulos - PSOL/SP - Ingresso no tabuleiro

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