Porandudas políticas

Postado às 16h00 | 05 janeiro 2021 |

A DEUSA TÊMIS MORRE DE RIR

A mentira tem perna curta. O desembargador Kassio Nunes Marques certamente não imaginava que seu curriculum vitae e seus escritos fossem vasculhados pela imprensa. E sua verdade questionada. Teria ouvido palestras que apareceram como curso de pós-doutorado. Mesmo com perna curta, a mentira corre como gazela. De repente, Kassio viu seu conceito escapar pela janela da dissonância.

 

A não ser que o juiz piauiense indicado para entrar no STF na vaga de Celso de Melo tenha se inspirado em Brecht, que escreveu um ensaio sobre “cinco maneiras de dizer a verdade”. O momento e as circunstâncias poderiam, por exemplo, ter sido usados para reforçar sua bagagem acadêmica, ferramenta para alargar o tamanho do seu perfil.

Ocorre que o STF é a nossa mais alta corte. E deve ser composto por quadros de boa envergadura. É inimaginável pensar que teria dito que, para ser membro do Supremo, não é necessário ser advogado, mas pessoa de caráter ilibado. Deve ter se valido desse artigo da CF:

Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministrosescolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.

Parágrafo único. Os Ministros do Supremo Tribunal Federal serão nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.”

Na polêmica aberta com esta explicação, entra o caso de Cândido Barata Ribeiro, médico, baiano e prefeito do Rio de Janeiro de 1892 a 1893. Foi ministro por 10 meses e 4 dias.

Ora, o mundo mudou e ninguém pode ignorar o fato de que a área onde uma pessoa adquire “notável saber jurídico” é a do Direito. Pode, até, existir uma exceção a esta óbvia constatação, o que causaria furor ao tribuno da Advocacia, Rui Barbosa. A sapiência é, por excelência, o valor matricial do juiz. Seu vértice. Sua bússola. Sapiência é bem mais que domínio de conhecimento. É o uso do saber no caso certo e no momento adequado. É a aplicação da norma, após exaustivo exercício de hermenêutica jurídica. É hora de lembrar a lição de Francis Bacon (Ensaios, 1597): “o Juiz deve preparar o caminho para uma justa sentença, como Deus costuma abrir seu caminho elevando os vales e abaixando montanhas”.

A justa sentença é a luz que guia a decisão do juiz. Infelizmente, muitas vezes, na hora de assinar a decisão, a luz é tênue ou está apagada, o que sinaliza algum acidente/incidente que mexeu com a intenção originária do juiz. Por isso, Têmis, a deusa da Justiça, nem sempre faz bom uso da balança e da espada, instrumentos que adornam sua vestimenta.

Na órbita desta abordagem, parece fora de tom dizer que, mais adiante, será inserido na mais alta Corte do país um ministro “terrivelmente evangélico”. Qual a razão de opção por identidade religiosa? Pelo entendimento de que não há ministro religioso no Supremo? Ou, pior, porque os ministros que lá estão são todos “católicos”? Sua Excelência, o Presidente, demonstra vontade de jogar no lixo o preceito do Cristo: “daí a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”.

Se a ordem política começa a ser movida pelo tabuleiro das religiões, a barafunda se instalará. As seitas afro-brasileiras poderão reivindicar um nome que as represente, sob a indignação e protestos do bispo Edir Macedo e do pastor Silas Malafaia. Que elegem bancadas no Congresso. Não haverá surpresa se o dízimo passar a ser contribuição legal para confirmação religiosa. O doador receberá uma carteira de dizimista e, nessa condição, poderá ser compensado com a promessa de ganhar lugar privilegiado na fila que espera adentrar o território dos Céus.

Pois é, o desembargador Kassio não calculou o tamanho da confusão em que está se metendo. Dados sobre sua trajetória a serem questionados, sabatina no Senado com verdades inconvenientes, decisões no amanhã que poderão arranhar sua imagem, polêmica com base bolsonarista e a maldição evangélica. A deusa Têmis, com uma venda sobre os olhos, deve estar morrendo de rir.

Postado às 08h45 | 24 dezembro 2020 |

VIVENDO NA PANDEMIA

Em A Arte de Escrever, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) ensina que os grandes pensadores da Humanidade devem aprender diretamente “no livro do mundo”, não se restringindo ao caráter livresco das questões, mas reconhece não ser possível ter pensamentos próprios a todo momento, razão pela qual se torna necessária a leitura com o fito de “alimentar o espírito com materiais”, forma de enriquecer os textos.

Bela lição do mestre. Nesses tempos de pandemia, é oportuno aduzir que os escribas têm procurado mesclar seu pensamento com ideias de outros, na perspectiva de encontrar explicações para as quais a lógica do cotidiano não dá respostas satisfatórias. Como explicar, por exemplo, numa era tão fértil para a ciência, que seria possível surgir gravíssima crise sanitária que faz padecer a Humanidade? É bem verdade que a ciência descobriu em menos de um ano vacinas eficazes para combater o coronavírus, mas que certeza teremos de não reaparecer mais adiante vírus ainda mais perigosos? Ou por que, em um mundo cada vez mais chegado ao conhecimento, existem figuras negacionistas, que não acreditam na calamidade que as cerca, preferindo seguir os passos de populistas e demagogos, chegando mesmo a defender fogueiras para queimar os crentes?

Este é o diálogo que esse obscuro analista político tenta estabelecer com seus leitores, ainda sob a lição do filósofo alemão de que os escritos não podem se tornar monólogo, mas diálogo, como se estivéssemos em permanente interlocução. Diálogo que se faz absolutamente necessário nesse instante em que, isolados uns dos outros fisicamente, dispomos de mais tempo para a leitura, para ouvir a opinião de outros, para uma ação interativa que nos ajudará a entender o mundo real.

Confesso que penso todo tempo no meu interlocutor, no leitor, próximo ou distante, tentando prescrutar o que pensa, como pensa, a maneira como reage ao oceano de informações que lhe chega pelas vias malhas da comunicação, tanto as escritas como as eletrônicas. Como procura sair do intenso solilóquio dessa era da restrição nos nossos deslocamentos? Como sairemos do paredão que nos cerca? Mais pensativos, menos falantes, mais pensadores, menos eloquentes, mais conformados ou revoltados? Possivelmente mais criativos. Porque o isolamento, em qualquer de suas formas, nos leva a fazer passeios no passado, uma revisita aos amigos e parentes que já partiram, uma prospecção no campo profissional, enfim, situações que aguçam nossa maquinazinha de pensar. Ou seja, nossa cabeça gira a 360º.

Em determinadas áreas, como a da elaboração de textos e produção de pensamentos, ou no campo das artes e da cultura, a criatividade ganha mais espaço, como se veem nos bons textos de articulistas e colunistas, nas pensatas dos cadernos de literatura, nas lives de shows de nossas cantoras e cantores, nos livros que estão sendo editados. Lembram-se das músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil nos idos ferinos da censura? No gosto deste escriba, eram melhores, mais criativas e de maior impacto. A criatividade era um drible à censura.

Aliás, uma curiosidade. Escritores, artistas, poetas, figuras ilustres da produção de conhecimento desenvolvem técnicas para estimular sua intuição criadora e sua verve. Conta-nos o russo Sergei Tchakhotine, em Mistificação das Massas pela Propaganda Política, que Frederich Shchiller, filósofo e poeta alemão, era estimulado pelo odor de maçãs apodrecidas, que guardava na gaveta de sua mesa de trabalho; Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, vestia, para redigir sua História Natural, seus punhos e roupa de gala; o poeta Baudelaire punha-se de bruços no assoalho para escrever seus versos; alguns tomavam café, como Balzac; outros consumiam bebidas; muitas pessoas têm necessidade de fumar para trabalhar com inspiração; para Humboldt, o melhor estímulo para o trabalho mental era subir, lentamente, na direção do cume de uma montanha, ao sol; para Goethe, era a visão longínqua de prados verdejantes e de nuvens passando no céu, que ele entrevia de sua mesa. E assim por diante.

Quem sabe se a criatividade não será um dos um dos nossos melhores trunfos nesse ciclo de angústia e medo? Como é possível inferir, este texto, ao invés de trazer um olhar sobre a conjuntura política, na modelagem rotineira que desenvolvo há décadas, é um convite a um passeio interno, uma revirada em nossa maneira de ver, observar, falar, viver a vida. Sem censura.

Postado às 09h15 | 17 dezembro 2020 |

A ERA DA DISCÓRDIA

Dezembro de 2020, ao contrário de outros meses de final do ano, terá seu registro na história como um dos mais conflituosos dos tempos contemporâneos. O impacto da pandemia sobre a vida produtiva deixará profundas marcas, alterando formas tradicionais de trabalho, remodelando sistemas operacionais e abrindo uma nova visão sobre a maneira de olhar o próprio mundo. Os PIBs nacionais despencarão, a partir da China, com projeções que mostram um atraso civilizatório que carecerá de décadas para sua recuperação.

Apesar de todo progresso científico alcançado pela Humanidade, a se constatar no aumento da expectativa de vida dos cidadãos, com os avanços na frente da indústria farmacêutica, na descoberta de novos procedimentos no tratamento das enfermidades e na melhoria da condição alimentar, o planeta vê-se ameaçado pelo aparecimento de vírus (mutantes) e perigosas bactérias que matam milhões de pessoas.

Para se ter uma ideia, em 1900, a expectativa de vida no Brasil era de 33,7 anos, dando um salto significativo em pouco mais de 11 décadas e atingindo hoje 76 anos. No entanto, o país está perto de registrar 200 mil mortos no espaço de menos um ano, vítimas de um vírus ao qual se atribui a capacidade de voltar a atacar indivíduos que dele já haviam se livrado.

Os danos gerados pela pandemia do Corona-19 infelizmente atravessam a fronteira fisiológica para chegar a outros abrigos, como o econômico, o político e o social. Ao sistema econômico, como se registra na queda dos PIBs, o impacto atinge as atividades dos setores básicos da economia – primário, secundário e terciário – empobrecendo países e populações. A par do desmonte ou queda de empreendimentos, o vírus penetra no corpo político, abrindo fissuras, dividindo opiniões, formando a cizânia, impulsionando a discórdia e, em seu bojo, trazendo ódio, guerra de palavras, estimulando o descrédito nas instituições, inclusive, as de caráter científico.

O fato é que o mundo pandêmico inaugura a era do rancor. Estados Unidos da América contra a China, puxando aliados como o Brasil para essa inglória “nova guerra fria”, promovendo discordâncias sobre etapas na escolha de vacinas, expandindo divergências sobre procedimentos a seguir, enfim, infiltrando a politiquice no sagrado recanto da ciência. Por aqui, basta ver as declarações estapafúrdias e mirabolantes de governantes e outros protagonistas, a demonstrar que a vontade de conquistar poder rompe os planos da moral e da ética.

Pensávamos que o mundo já havia completado seus ciclos de deterioração e miséria. A Revolução Industrial, a partir da segunda metade do século XVIII, que teve início na Inglaterra, nos deu a primeira máquina a vapor e permitiu a construção do maquinário voltado para a produção têxtil, consolidando a formação do capitalismo. O mundo começava a distinguir os horizontes de progresso. Mas os ciclos da mortandade estariam por vir.

Cinquenta anos antes do início da I Guerra Mundial, em 1918, quando perderam a vida 17 milhões de soldados e civis, tivemos no sul da China um conflito ainda mais sangrento, a rebelião de Taiping, que durou 14 anos e matou cerca de 30 milhões de pessoas. De 1939 a 1945, a II Guerra Mundial provocou a morte de mais de 70 milhões. A violência jamais foi embora, repartindo-se em conflitos étnicos, em guerras de fronteiras, em lutas religiosas, muitas movidas pelo fundamentalismo apaixonado de comunidades e nações.

As crises subiram aos picos dos sistemas políticos. Monarquias foram resumidas, ditaduras e tiranias ainda resistem em alguns cantos, aristocracias praticamente deixaram de existir, mas as democracias, com suas bandeiras de igualdade e liberdade, se encheram dos lixos da corrupção e da demagogia. E onde está aquele estado de convivência harmoniosa e solidária tão prometido pela democracia? Em apenas pequenos pedaços do planeta, possivelmente as nações do norte da Europa.

O fato é que a democracia não conseguiu expurgar as oligarquias, combater sem tréguas a criminalidade e o fim da corrupção, educar o povo nos moldes exigidos pela cidadania, a par da transparência das ações dos governos.

Essa teia infernal de mazelas funciona como empecilho para enfrentar as crises. Por isso mesmo, a pandemia no nosso país não é administrada com os instrumentos necessários, os cuidados exigidos, os meios éticos que devem separar política e ciência. O pior é constatar que algumas figuras maléficas, na calada da noite, correm para apagar até a luz do fim do túnel.

Postado às 09h15 | 16 dezembro 2020 |

VIRTUDES PARA UM NOVO TEMPO

Tempos de turbulência, tempos nervosos, ciclo do medo, paisagens mortuárias e locupletadas de doentes, aqui, ali e nas lonjuras do planeta. Hora da grande reflexão: o que tenho, o que sou e o que serei nesse novo mundo que ainda não mostrou de todo a cara? A reflexão de hoje é uma estreita vereda por onde podemos passar, sob a crença de que todo esforço se fará necessário para lapidarmos valores e virtudes ou mesmo tentarmos adquiri-las.

E não podemos perder tempo. Sêneca, o sábio, ao escrever sobre a brevidade da vida, ensina: "Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente, constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido".

Saber administrar o tempo é, hoje, um dos desafios instigantes do nosso cotidiano. O tempo não se mata. "Quem mata tempo é suicida", satirizava Millôr Fernandes. A reprimenda parte também do dramaturgo inglês H.D. Thoreau: "Como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade".

Mãos à obra. Tempos de prudência, que os estóicos consideravam “a ciência das coisas a fazer e a não fazer”, e que supõe o risco, a incerteza, o acaso, o desconhecido. André-Comte Sponville lembra bem, quando diz que a prudência sugere a ética da convicção ou, ainda, a ética da responsabilidade, nos termos de Max Weber. Somos impelidos a responder por nossos atos e por suas consequências.

Ao lado da prudência, impõe-se a virtude da moderação, tão importante nesses tempos agressivos que estamos presenciando. Não exagerar, não romper os limites de nossas identidades, desfrutar livremente da própria liberdade, contentar-se com pouco ou com o estritamente necessário, sem arroubos e extravagâncias que acabam roubando nosso estoque de bom senso. Já a intemperança, dizia Montaigne, é “a peste da volúpia”.

Tempos de pavonice, tempos de alta visibilidade, de desfiles canhestros na mídia para chamar a atenção de espectadores e ouvintes. Tempos de Luís XIV, que desfilava em Versailles em seu cavalo branco adornado de diamantes. Tempos do Estado-Espetáculo, onde atores e atrizes da política desfilam vaidades. Daí desponta o valor da humildade, que Sponville designa como “a virtude do homem que sabe não ser Deus”. Humildade, de “húmus” (terra), quer significar que somos filhos da terra. Os mais generosos costumam ser os mais humildes pela misericórdia e compaixão de seu caráter.

Tempos de dureza, de notícias tristes, pesadelos, ódio, com os opostos se matando nas arenas de vingança. Não é hora de criarmos um contraponto a esses tempos de desdita e maldição? Leiamos Ítalo Calvino em Seis Propostas para o Próximo Milênio, ao citar Leopardo ante o insustentável peso de viver: “imagens de extrema leveza, como os pássaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transparência do ar e, sobretudo, a lua”. Tentemos viver de modo mais leve, suave, evitando rompantes e atitudes tresloucadas.

Tempos de injustiça, de acusações malévolas, de fake news construídas para sujar a imagem de adversários. Então, busquemos a deusa Têmis, com sua balança e os dois pratos em equilíbrio, apontam para o estado da ordem e da igualdade. Dizia Kant: “é justa toda ação, cuja máxima permite que a livre vontade de qualquer um coexista com a liberdade de qualquer outro, segundo uma lei universal”. Sim, a justiça é a vontade de se atribuir a cada um o que lhe cabe.

Uma virtude leva à outra. A justiça se liga aos atos de boa fé, à sinceridade, à verdade. A boa fé suscita reconhecimento às qualidades humanas, sem exageros, na versão das Escrituras: nem um homem é capaz de acrescentar um palmo à sua altura. É o que é, nos moldes da construção divina. Tal verdade sugere afastar a gabolice, o estilo fanfarrão, a dissimulação, a arte de enganar. Todos devemos aspirar fidelidade ao que é verdadeiro.

Por fim, cultivar o amor. Amar o próximo deve significar praticar todos os deveres para com ele. Amar os entes queridos, praticar boas ações, eliminar eventuais doses de ódio que chegam nas ondas de intensa polarização política. Nietzsche anunciava: “o que fazemos por amor se consuma além do bem e do mal”.

Postado às 09h15 | 16 dezembro 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com o Ceará das boas histórias.

Está distituído

O major José Ferreira, cearense dos bons, amigo do padre Cícero, é quem relata: "Há muito matuto inteligente e sagaz, mas também há muito sujeito burro que, se a gente amarrar as mãos dele pra trás das costas, não sabe mais qual é o braço direito nem o esquerdo... Eu também conheço matuto que, abrindo a boca, já sabe: ou entra mosca ou sai besteira."

O major continua a conversa: "Quando foi criado o município de Missão Velha, a escolha do primeiro intendente recaiu num velho honrado, benquisto e prestigioso, mas muitíssimo ignorante. Cabia-lhe o encargo de declarar instituído o município. Um dos "língua" do lugar seria o orador oficial. Ele, o chefe do Executivo municipal, deveria dizer simplesmente: "Está instituído o município de Missão Velha!". Levou quinze dias decorando a frase, e, na ocasião da solenidade, exclamou: "Está DISTITUÍDO o município de Missão Veia."

A eleição bomba

No momento em que escrevemos esta coluna, o clima de fim de mundo toma conta dos EUA. Biden ou Trump? Já se disse praticamente tudo a respeito dos efeitos da vitória de um ou outro sobre o conjunto das nações e sobre a democracia. Trump, populista e demagogo, em defesa de teses conservadoras. Biden, veterano da política e comprometido com os eixos da democracia. As circunstâncias cercam esta eleição, principalmente a gestão da pandemia e os tristes eventos envolvendo a comunidade negra, culminando com a morte de afrodescendentes.

A nossa democracia

A observação é unânime na pauta dos analistas: a vitória de Biden deixará o Brasil isolado da comunidade mundial; a vitória de Trump garante fôlego ao país e animará as bases bolsonaristas na caminhada até outubro de 2022. Bolsonaro fará o que estiver a seu alcance para continuar no assento presidencial, mesmo sob a teia de problemas que fechará muitas portas de seu governo: a questão da economia, o meio ambiente, os generais sob puxão de orelhas, a administração da vacina contra a Covid-19, as relações comerciais, o fechamento de fronteiras ao Brasil.

Trafalgar errou?

Perdeu ou ganhou? Ontem, li que, ao contrário dos institutos americanos, a consultoria Trafalgar Group prevê vitória de Donald Trump contra o democrata Joe Biden na eleição desta semana. A empresa é conhecida por divulgar pesquisas mais amigáveis aos republicanos. Em seu site, o Trafalgar afirma que teria acertado o sucesso de Trump nas eleições de 2016. Em favor do Trafalgar, há previsões realizadas em 7 de novembro no Twitter, um dia antes da eleição de 2016. Nelas, a empresa apontou vantagem de Trump sobre Hillary em Michigan e na Pensilvânia, onde a maioria dos institutos errou. Agora, mais uma vez, a consultoria calcula que o republicano está na frente de Biden nesses Estados, com margem de 48,3%-45,8% e 47,8%-45,9%, respectivamente.

Centrão disperso

Não será fácil para o governo conseguir formar uma base uníssona, firme, capaz de lhe dar todo conforto no que concerne a projetos de interesse do Palácio do Planalto. A esfera política se assemelha a uma peneira. Há muitos furos onde pode vazar água, apoio. Ademais os dados da economia refletirão o estágio do planeta em matéria de recuperação do sistema econômico, fragilizado com a pandemia. Teremos sinais de melhoria para mais adiante, mesmo que as atividades rotineiras do comércio, da indústria e dos serviços sejam retomadas. O país estará na corda bamba, entre o risco da gastança, com a quebra do teto de gastos, em atendimento à política, e o desafio de garantir acesso limitado aos cofres do Tesouro. O Centrão nunca será uma unidade.

A bola na meia-esquerda

Os exercícios futuristas no campo da política indicam que a bola tem condições de correr em três direções: 1) no meio, quando os jogadores taticamente jogarem a pelota para um centroavante de muito fôlego correr sem ser derrubado até o gol; 2) pela direita, sob o clima intensamente favorável ao governo Bolsonaro, com a economia dando saldos positivos e o povo de bolso suprido. O problema é saber se o presidente, candidato à reeleição, terá a habilidade de Garrincha, capaz de driblar os melhores zagueiros do mundo; 3) a bola pode ser conduzida por um meia-esquerda, um craque capaz de sair de seu espaço, correr também pelo centro, pela esquerda e até pela direita. Claro, se tiver a habilidade de Pelé.

Extrema-esquerda? Nunca

Sob qualquer cenário, inclusive uma paisagem desoladora, não se deve apostar em bola correndo pela ponta esquerda, quase pelas bordas do campo. A ponta esquerda fará papel de coadjuvante, jogando a pelota para a grande área para seus pares aproveitarem a cabeçada. Que os comentaristas esportivos usem suas expressões mais certeiras para abrir os espaços do campo e definir melhor os goleadores da disputa de 2022.

Mourão

O vice-presidente, general da reserva, Hamilton Mourão, tem firmeza na fala. Disse alto e bom som que se a vacina da China for aprovada pela Anvisa, o Brasil irá adquiri-la. Bolsonaro já havia dito que essa vacina não será comprada pelo governo. O destempero deixa o presidente no corner do ringue. Mourão exprimiu bom senso. P.S. Se Jair descartá-lo como candidato a vice, o general poderá se candidatar ao Senado. E dará tempo a escolher um Estado mais viável que o RJ. A conferir.

Neutro

Aliás, o vice-presidente diz que se as eleições presidenciais nos Estados Unidos terminarem em conflito, o Brasil deve adotar posição "neutra". Arremata: "Não temos nada a ver com as questões internas americanas. Isso é princípio constitucional nosso. A gente não admite ingerência nos nossos assuntos internos e também não fazemos nos assuntos internos dos outros".

Lira tem chances?

Por mais que tenha nas mãos a alavanca do Centrão, é complexa a tarefa de Arthur Lira de ganhar o comando da Câmara. O Centrão deve encontrar dificuldades em atrair o apoio de grandes legendas para a candidatura do líder do PP. Baleia Rossi, presidente do MDB, é uma opção que cresce na preferência de algumas siglas. E contaria com o apoio do presidente Rodrigo Maia.

Base municipal

A base de lançamento dos foguetes presidenciais será construída até o fim deste mês, quando teremos o segundo turno do pleito municipal. Ao que se sabe, a essa altura, é que o bolsonarismo não terá grande performance nas capitais e grandes cidades. O presidente, depois de analisar o quadro dos resultados, escolherá a sigla que o abrigará para o pleito de 2022. Nem todas as grandes siglas se oferecem para recebê-lo, ao contrário do que se ouve aqui e ali.

São Paulo

A campanha na capital paulista continua morna. Bruno Covas garante seu lugar no 2º turno. Contra quem? Russomano, como prevíamos, tem dificuldades de manter sua posição. A colagem em Bolsonaro não dá certo por aqui e, em muitos casos, por ali. Surpreende o crescimento de Boulos. Márcio França quer se esforçar para ser a terceira via, quebrando a polarização. Está difícil.

TV ou redes?

Quem está conseguindo ser mais influente na campanha? TV, rádio ou redes sociais? Tem analista apostando muito na TV e no rádio. Nesta eleição, não vejo tanta influência. Tudo está com cara de coisa já vista. As redes sociais criaram muita expectativa. Mas têm exercido pouca influência. São mais veículos de manutenção do ânimo de bases e simpatizantes. Não agregam votos novos.

Violência aumentou

Até o momento, 15 candidatos foram assassinados no país desde o dia 17 de setembro, primeiro dia após o fim das convenções. Foram mortos 14 candidatos a vereador e um candidato a prefeito em cidades de interior em 12 Estados, o que significa uma média de assassinato ligado à eleição a cada três dias. Registraram-se no mesmo período ao menos 19 tentativas de assassinato de candidatos com armas de fogo.

Fecho a coluna com um pouco de humor.

Einstein

Certa vez, Einstein recebeu uma carta da Miss New Orleans onde dizia a ele: "Prof. Einstein, gostaria de ter um filho com o senhor. A minha justificativa se baseia no fato de que eu, como modelo de beleza, teria um filho com o senhor e, certamente, o garoto teria a minha beleza e a sua inteligência". Einstein respondeu: "Querida miss New Orleans, o meu receio é que o nosso filho tenha a sua inteligência e a minha beleza".

Conselho para a Miss

José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira, político paraibano e um dos maiores tribunos brasileiros. Uma historinha com ele.

Margarida Vasconcelos, eleita Miss Paraíba, foi visitar o velho José Américo no casarão avarandado da praia de Tambaú, em João Pessoa. Chegou falando muito, falando demais, maltratando o português e as ideias. Queria conselhos:

- Doutor José Américo, o que o senhor me recomenda para eu representar bem o Estado no concurso de Miss Brasil, lá no Rio?

- Minha filha, você quer mesmo um conselho? Então fale o menos possível. E, se puder, não abra a boca.

Postado às 09h15 | 16 dezembro 2020 |

“VOCÊ ESTÁ DEMITIDO"

A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. A frase de Churchill cai bem nesse momento em que a maior democracia do planeta registra a vitória do democrata Joe Biden como 46º como presidente dos EUA. O fato que surpreende o mundo, e que gera impacto em importantes setores da Nação americana, é a recusa do atual mandatário, o impetuoso Trump, em aceitar o veredito das urnas. Monta um time de advogados para contestar resultados,  passa o chapéu tentando angariar 60 milhões de dólares para custear a judicialização da apuração, diz que a eleição não terminou e produziu uma pérola, ao constatar a derrota em Estados onde ganhou em 2016: “mandem parar de contar os votos”. Ontem no início da tarde, o que fez o magnata dos hotéis? Foi jogar tênis na Virgínia, enquanto milhares de pessoas tomaram as ruas para comemorar a vitória de Biden.

  Isso ocorre na mais robusta democracia do planeta. Trump reclama dos votos enviados pelo correio, dados, em sua grande maioria (75%) ao candidato democrata. Ora, essa modalidade de votação ocorre desde a Guerra Civil e até ajudou Abraham Lincoln a se reeleger em 1864. Desse modo, Donald quer pôr no lixo mais de 100 milhões de votos via postal. Disse taxativamente: “A votação universal por correio será catastrófica. Isso vai tornar nosso país motivo de chacota em todo o mundo. Você não pode enviar milhões de cédulas”.

A apuração dos votos recebidas pelos correios obedeceu a rigoroso ritual: conferência de assinaturas, data do envio e de recebimento, controle por fiscais partidários etc. Neste ano, sob o impacto do Covid-19, milhões de eleitores ficaram aflitos e preocupados com as filas e o voto antecipado bateu recordes. A recontagem é permitida em alguns Estados quando a maioria de um candidato é pequena, em torno de 1,5% a 1%. É o caso da Georgia, por exemplo, onde a recontagem será iniciada em 1º de dezembro. O republicano espera que a justiça acolha alguns de seus recursos, sob a expectativa de que algum processo chegue até a Suprema Corte, para a qual nomeou recentemente a juíza Amy Barret. O esperto bilionário vai tentar reverter no tapetão a derrota sofrida.  

Convém lembrar que fraude eleitoral nos EUA é um fenômeno raro. Em virtude da própria índole do cidadão. Que conhece direitos e deveres, respeita as normas e teme ser flagrado por ilícito. Há, claro, manifestações de protesto, mas a ordem acaba se impondo. Não se pensa em trocas de malas cheias de votos por outras “fabricadas”. Há punição rígida. Aliás, o partido Republicano da Califórnia admitiu ter instalado mais de 50 urnas falsas no estado e autoridades constataram fraude eleitoral.

Em suma, os mecanismos de controle funcionam. Processo eleitoral, vale lembrar, é complexo. Dos 50 Estados, quem ganhar os votos populares em 48, leva todos os delegados, mesmo que a diferença seja por um. Biden, até ontem, segundo projeção da experiente AFP (Agence France Press), detinha 53% dos votos totais contra 48% de Trump.

O fato é que os estados-pêndulo, que oscilam de um lado para outro, decidiram a eleição. É claro que Trump vai sair atirando, sob a crença de que o trumpismo vai vingar, podendo ele vir a ser novamente o candidato em 2024. Quanto ao modus operandi da apuração, será um tema a ser debatido nos próximos tempos pelo Congresso norte-americano. (P.S. Os EUA devem aprender com sistemas de apuração mais aperfeiçoados, incluindo o Brasil. Sua liturgia mostra necessidade de agilização.)

Quanto ao Judiciário, será tarefa inglória inverter o resultado eleitoral. O clamor das ruas é um dos eixos da democracia. Por último, a questão: por que Trump não articulou no Congresso para mudar o sistema? Por que aceitou os resultados de 2016 nos Estados decisivos? Sua derrota significa repulsa à gestão com que conduz o país, particularmente no caso da pandemia. Não há como deixar de lembrar que o showman de O Aprendiz acaba de ser submetido ao amargo refrão de seu famoso programa: “você está demitido”.

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