Porandudas políticas

Postado às 08h15 | 28 janeiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha sobre o mestre Câmara Cascudo, contada com a verve do presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, no livro "Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz".

Exposição

Uma artista famosa reclamou a ausência de Cascudo na sua exposição:

- Você não veio ver os meus quadros. Prometeu e não veio. Esperei até tarde da noite.

- Não fui pela impossibilidade material de ver os seus quadros. Ficaria olhando exclusivamente para você.

Vamos à análise política.

O estado do país

As coisas melhoraram em uma semana? Um pouco mais de esperança irriga as veias sociais com a chegada das primeiras (e pequenas) doses de vacina. E a má gestão da epidemia abate alguns pontos no ranking da imagem positiva do governo. A querela entre Bolsonaro e João Doria sobre os vencedores da "guerra da vacina" deu ao governador paulista alguns pontos de vantagem. Mas o PNBF - Produto Nacional Bruto da Felicidade ainda está muito baixo e não sinaliza expansão no curto prazo.

Adjutório emergencial

O auxílio emergencial continua na gangorra. Ora, sobe a possibilidade de renascer sob a nova designação - Renda Brasil - incorporando o Bolsa Família, ora desce com as referências crescentes ao teto de gasto. Paulo Guedes está de olho no Tesouro e põe a boca no mundo ante a ameaça de se furar o bloqueio imposto pelo teto. Mas a tábua de salvação de Bolsonaro foi e continuará a ser o cobertor social. Sem ele, de corpos expostos aos impactos das crises (sanitária, econômica, política etc), os contingentes mais carentes abrirão o berro. E nenhum governante se elege ou se reelege sem o apoio das massas.

Economia frágil

A economia, por sua vez, não será alavancada no curto prazo. Os empresários indicam a continuidade de graves distorções. Os investidores, com seus mega investimentos, fogem do país. Até a substituição de Guedes volta a frequentar os corredores da rádio-peão. Este consultor não aposta na hipótese, apesar de estar à vista uma mexida na Esplanada dos Ministérios. Pazuelo esgotou seu tempo na administração. A cúpula das Forças Armadas está insatisfeita com sua ação, e não são poucos os que discordam de sua continuidade como um general ainda na ativa. O militar recusa-se a usar o pijama de aposentado.

A briga pelo comando das Casas

O remanejo ministerial levará em conta a estratégia de ampliar e consolidar a base de apoio ao governo, começando com a eleição do presidente da Câmara, nesse caso, Arthur Lira, do PP de Alagoas, sobre o qual recaem denúncias que estão no STF. O opositor, Baleia Rossi, MDB-SP também é alvo de acusações. Mas o vitorioso ganhará com o voto de uma parcela que tende a decidir caminhar na rota das benesses. Já no Senado, a força de Rodrigo Pacheco, do DEM-MG, é mais visível, eis que conta com o rolo compressor do Davi Alcolumbre (DEM-AP), atual presidente, e o próprio apoio do governo, mesmo que o senador Fernando Bezerra, MDB-PE, líder do governo no Senado, tenha garantido seu apoio à senadora Simone Tebet (MDB-Mato Grosso do Sul).

Reeleição no tabuleiro

Pois é, as pedras do pleito de 2022 já estão no tabuleiro. Condições positivas para Bolsonaro: 1. Recuperação da economia; 2. Remontagem do cobertor social - Renda Brasil; 3. Presidentes da Câmara e do Senado do seu lado; 4. Recuperação do desgaste com a gestão da economia; 5. Melhoria da imagem do Brasil no conjunto das Nações, com mudanças na condução do meio ambiente e das relações exteriores; 6. Absorção de facções do centro, agregando eleitores centristas e ampliando sua base radical; 7. Grande divisão da direita, centro e centro-esquerda, o que pode lhe render maior apoio e unidade. 8. Menor radicalização da política. Condições negativas para Bolsonaro: moldura acima não será como a descrita.

Desabafo

Um renomado professor e médico virologista da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP, desabafou: "o saco encheu, no seu c..". Assim, de forma curta e direta, o médico Maurício Lacerda Nogueira respondeu às mentiras que viu no Facebook sobre a vacina contra o coronavírus. A mentira: duas pessoas teriam morrido após serem imunizados. O pesquisador diz que não planejou nada e apenas vocalizou o que pensam milhões de brasileiros contra os negacionistas. A resposta viralizou nas redes.

Barbárie

Nesses tempos de pandemia, resta esperança de voltarmos aos tempos da convivialidade, quando a solidariedade, o respeito ao próximo, o exemplo do bom viver nos envolvia? Ortega y Gasset, há 95 anos, quando começou a escrever "A Rebelião das Massas", parecia já não acreditar no homem fraterno. Enxergava a barbárie, a incivilidade, o homem-massa, em quem via o novo protagonista da vida pública. E lembrava Hegel, apocalíptico: "sem um novo poder espiritual, nossa época produzirá uma catástrofe". E também apontava para Nietsche berrando num penhasco de Engadine, na Suíça: "vejo subir a preamar do niilismo".

Academia I

Mas a Humanidade sempre encontra no meio do deserto de ideias uma fonte para saciar a sede do saber: os centros e espaços da ciência e da cultura, onde as descobertas estendem os limites da vida humana. No campo das artes, das letras e da cultura, emergem, por exemplo, as academias, essa bela herança que os gregos antigos nos deixaram. Sócrates andava pelas ruas de Atenas, dialogando e tentando se descobrir: "só sei que nada sei". Platão, seu maior discípulo, formou o "Jardim de Academus". Academia vem daí. Aristóteles deixou também seu "Liceu", onde praticava a arte da educação.

Academia II

E, desde então, as academias se espalharam. No caso das Academias Literárias, adotamos o modelo francês, criação de Richelieu em 1635, organizada com número fixo de membros e patronos, com vitaliciedade acadêmica. A teia das academias se espalhou pela Europa. Por aqui, uma ganhou muita importância, a Academia Real da História Portuguesa (1720 - 1776), em Lisboa. Em março de 1724, na cidade de Salvador, Bahia, fundou-se a "Academia dos Esquecidos". Em junho de 1759, um grande intelectual, José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho Melo, fundou a Academia dos Renascidos. Pombal mandou então "sepultá-lo vivo". A barbárie voltava. Até que em 1894, foi fundada a Academia Cearense de Letras, três anos antes da Academia Brasileira de Letras, criada em 20 de julho de 1897.

A academia potiguar

E aí chegamos à ANRL, a academia do meu torrão potiguar, criada em 1936, por inspiração e iniciativa de um grupo de amigos, liderados por um dos maiores gênios da cultura brasileira, Câmara Cascudo. Seu contemporâneo, o também fundador Onofre Lopes, o chamava de "nossa mais antiga universidade". Nesse ciclo de pandemia, que se alimenta de desinformação, mentiras (fake news) e falsas versões, devemos enaltecer os espaços onde se cultuam valores nobres, como a pluralidade das ideias, a elevação das letras e das artes, a promoção do saber, o convívio com perfis que emolduram a galeria da grandeza de um Estado.

Murilo

Reverencio a memória do querido amigo Murilo Melo Filho, um potiguar que representou a nossa terra na Academia Brasileira de Letras, um mestre do jornalismo, com suas célebres entrevistas na revista Manchete, com a cobertura de grandes eventos internacionais, com seus livros e com seu amor ao torrão potiguar.

Encontro com a emoção

Esta semana tive oportunidade de mergulhar profundamente no poço da emoção. Fiz um mergulho no Museu do Sertão, em uma surpreendente viagem virtual, onde me deparei com coisas da minha infância em Luis Gomes: cerca de 3 mil pec¸as distribuídas em 11 pavilhões temáticos, abrigando casa de taipa, mobília típica, pátio de artes ao ar livre, plantas, objetos e utensílios do semiárido nordestino, implementos agrícolas, equipamentos e máquinas das agroindústrias do passado (casa de farinha, engenho de rapadura, alambique de cachac¸a, oficina de carne de charque, cozinha de queijo de coalho e de manteiga de garrafa, descaroc¸ador de algodão, casa de beneficiamento de cera de carnaúba, usina de preparação de óleo de oiticica, galpão de beneficiamento de fibra de caroá, galpão de preparo de borracha de manic¸oba e sala de fiar e tecer. P.S. Meu pai tinha bolandeira (casa de farinha), engenho (rapadura, alfenim) e comercializava algodão.

Um obstinado professor

A fundação e a manutenção desse Museu se devem a um obstinado cearense, o professor Benedito Vasconcelos Mendes, (que foi colega de escola de Belchior, falecido), quando chegou a Mossoró, na década de 70, para ensinar na Escola Superior de Agricultura, hoje UFERSA - Universidade Federal do Semi-Árido. Aberto ao público em 3 de agosto de 2003, por ocasião dos 58 anos do mestre Benedito, mantido com seus proventos do professor, o visitante, para entrar, leva um kg de alimento não perecível, destinado ao Lar da Criança pobre de Mossoró.

Uma aula magna sobre o semiárido

Uma obra admirável sobre o homem e a cultura do semiárido e um empreendimento de inestimável valor social. Assim se deu meu recente reencontro com a querida cidade, onde estudei no Seminário Santa Terezinha, dirigido por padres holandeses, do preliminar ao último ano do ginásio. Desde cedo tive contato com latim e grego. Obrigado, professor Benedito, também pelas interessantes aulas sobre Civilização da Seca e Religiosidade. Tenho aprendido muito com suas palestras virtuais e exposições. O sertão decifrado. Um modelo para outros Estados.

Postado às 09h00 | 25 janeiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha de PE, já contada e sempre requisitada.

"O verbo não vareia"

A Câmara Municipal de Paulista/PE vivia sessão agitada em função da discussão de um projeto enviado pelo prefeito, que pedia crédito para assistência social. Um vereador da oposição combatia de maneira veemente a proposição. A certa altura, disse que "era contra o crédito porque a administração municipal não merecia credibilidade". O líder da bancada governista intervém, afirmando que "o nobre colega não pode jogar pedras no telhado alheio, pois já foi acusado de algumas trampolinagens".

- Menas a verdade - retrucou o acusado. Sou homem honesto, de vida limpa.

- Vejam, senhores, - disse o líder - o nobre colega, além de um passado nada limpo, ainda por cima é analfabeto, pois, "menas" é verbo, e verbo não "vareia". (Historinha de Ivanildo Sampaio).

Ufa, a vacina chega

Depois de querelas e muita polêmica, a vacina chega aos postos de saúde e hospitais. Vestida do vermelho chinês da Sinovac e de verde e amarelo do Butantã, é aprovada pela Anvisa e abre o processo de vacinação no país. Houve uma queda de braço entre Jair Bolsonaro e João Doria. Este venceu. A vacina da AstraZeneca, sob o selo da Fiocruz, ostentada como trunfo do governo, está em compasso de espera. Os atores são chamuscados.

Bolsonaro e Pazuello

O militar que Bolsonaro impôs no Ministério da Saúde ganha o TI - Troféu da Incompetência. Diz e desdiz o que disse. Entra bem no traje de comediante. Ou de uma personagem mais tétrica, porque o país vive uma tragédia, não uma comédia. O Imponderável pregou mais uma das suas. A "vacina chinesa de João Doria", que o Brasil não compraria, segundo promessa do presidente, acabou se tornando a grande esperança nacional. E os chineses, agora, terão condições de esnobar. Como?

Insumos

Lembra a professora Margareth Dalcomo, da Fiocruz, que todas as vacinas, repito, todas usam insumos produzidos na China. O Brasil não fabrica insumos para doenças pandêmicas. De modo que o mundo todo usa vacinas com o tempero chinês. E qual a melhor vacina, professora? Ela responde: a primeira que chegar. Uma vacina que propicia 50% de possibilidade de uma pessoa não ser afetada é, segundo ela, uma enorme vantagem. Ainda sob as hipóteses de que alguns podem ter leves/moderados danos ou graves, mas estes não morrerão por Covid-19. Viva a Coronavac.

Heróis do momento

Vale homenagear os heróis do momento: os contingentes mobilizados na frente da saúde, aqueles que estão nos hospitais, enfermeiras (os) e médicas (os), e os cientistas que comparecem aos meios de comunicação para explicar, de forma didática, todo o aparato informativo necessário para os leigos entenderem melhor o fenômeno.

A Anvisa

Merece os aplausos dos brasileiros por ter dado uma decisão sob parâmetros técnicos, condenando, ainda, as alternativas de tratamento precoce como cloroquina, vermífugos e quetais. Um tapa com mão de luva nos cloroquínicos e adjacentes.

E agora, José

Tentarei responder Drummond.

A festa não acabou. A fogueira vai continuar acesa por todo o ano de 2021. Queimará as pestanas de alguns protagonistas da política, a partir de Bolsonaro. E esquentará os corações das pessoas de fé.

A luz apagou.

Apagou no Amapá, um pouco em Teresina e continuará a apagar com os danos em equipamentos mal conservados.

O povo sumiu.

Sumiu nada. Vai reaparecer em alguns espaços, bastando a confiança voltar a habitar suas cabeças. E vai voltar reivindicando outras coisas, como auxílio emergencial.

A noite esfriou.

Pouco, esse ano. Apenas em partes do sul do país.

E agora, José? E agora, Pazuello? Qual a logística para vacinar todo o país, se vocês execram a China?

E agora, Bolsonaro?

Você que é sem nome.

Sem nome? Ora, carrega o nome de Messias.

Que zomba dos outros.

Pois é, Excelência, não zombe dos outros, dos que tomarão vacina, daqueles que põem fé na Ciência. E acreditam que a terra é redonda.

Impactos na política

Bolsonaro será atingido por respingos de protestos e indignação de milhões de brasileiros que enxergam incúria, desleixo, má gestão no enfrentamento da pandemia. Pazuello descarrega um caminhão de lixo sobre a imagem das Forças Armadas. A curto prazo, o desgaste na frente política será pequeno, não devendo mudar o curso das eleições na Câmara e no Senado. Mas os pontinhos de queda na pesquisa do Antonio Lavareda, esta semana, serão atentamente acompanhados pelo corpo parlamentar. Os políticos são pragmáticos. Com um olho, enxergam benesses da máquina governamental; com outro, a reação das ruas. Se a economia não melhorar a condição do bolso das margens carentes, auxílio emergencial acabando, pandemia ainda com seus surtos, ante um quadro como esse, a esfera política acaba tomando distância de Bolsonaro.

Governadores

Os governadores, uns mais, outros menos, procurarão tirar algum proveito da vacinação em seus Estados. Entrarão nas molduras fotográficas sob certa desconfiança. 2021 será um laboratório de experiências. Saúde estará liderando o rol de demandas. Deverá ocorrer um realinhamento partidário, com a saída e entrada de representantes e governantes. Mas a pandemia marcará a política com sinais de desconfiança, descrédito, certo desprezo e até rancor.

O milagre de Maomé

Alguns tentarão fazer como Maomé, que levou o povo a acreditar que poderia atrair uma montanha. Do cume, faria preces para aqueles que o seguissem. O povão reuniu-se. Maomé chamou a montanha diversas vezes. E a montanha quieta desafiava o profeta, que não se deu por vencido. Gritou para a massa: "se a montanha não quer vir até Maomé, Maomé irá ter com a montanha". Ensina Francis Bacon: "assim, esses homens que prometem grandes prodígios e falham vergonhosamente, passam por cima de tudo, dão meia volta e realizam os seus feitos". São audaciosos.

O espírito da nação

A fé é a mola que impulsiona a vida social. Por mais que seja amortecida por crises intermitentes - sanitária, econômica, política - a fé tem a capacidade de renascer e fortalecer os ânimos. O povo brasileiro padece de uma grande crise de fé. Futricas, apropriação do bem público, conluios, emboscadas, traições, maquinações são alguns dos ingredientes que entram nesse caldeirão da fé. É evidente que a autoestima do brasileiro está em baixa. Uma questão de ausência de fé no amanhã. O Produto Nacional Bruto da Felicidade está entre 0 e 3 numa escala de 10.

Enem, um fracasso

Aplicou-se a lei. Fez-se o Enem, o exame do Ensino Médio. Mas a voz do bom senso pedia o adiamento desse exame, ameaça nesse momento em que a epidemia volta ao pico. Mais de 50% de abstenção. E onde está ou esteve o Ministério da Educação? Ganha um picolé de araçá (ih, como eu apreciava essa frutinha na infância) quem disser, agora, o nome do ministro da Educação.

Trump saindo pelos fundos

O general Figueiredo detestava Sarney. Saiu por uma porta lateral do Palácio do Planalto, não por uma porta dos fundos, como se conta para aumentar o impacto. Mas Donald Trump está saindo, com sua trupe, de forma a evitar flagrantes. Sai pelos fundos. Mas vai ser difícil escapar ao retrato. Trump tem ainda um batalhão de simpatizantes, proprietários rurais e desempregados do Círculo da Ferrugem (Arizona, Ohio,etc.). Sai de forma arrogante, com seu sobretudo preto, que não consegue apagar o contraponto: um sobrenada (rsrs).

Reversão de expectativas

Roberto Campos era um crânio, como se diz na linguagem para designar um homem de extraordinários conhecimentos. Ele sempre dizia que a pior coisa que pode ocorrer com um governo/governante é "uma reversão de expectativas". Ou seja, o governante promete tudo. E o povo recebe nada. Ministro do Planejamento do presidente Castelo Branco, foi a Recife, em 1965, e na Sudene fiz a ele a pergunta: "ministro, sua estratégia é a de pulverizar a distribuição de verbas no Nordeste"? Embutia a ideia de uma distribuição pequena, migalhas, para cada Estado. Pegou este iniciante de surpresa, gerando uma reversão de expectativas. Ao lado esperando resposta, ouvi dele: "o que o jovem entende por pulverização"? Fiquei pasmo e mudo.

Fecho a coluna com mais uma historinha de PE.

"Só expectorante"

Reunião de vereadores com o chefe político da região numa pequena cidade de Pernambuco. Cada um tinha de falar sobre os problemas do município, reivindicações, sugestões, etc. Todos falaram alguma coisa, com exceção de um deles, meio acabrunhado no canto da sala. O chefe político cobrou dele a palavra:

- E você, amigo, não tem nada a dizer?

O vereador, tonto com a provocação, não teve saída. Respondeu:

- Não, doutor, estou apenas expectorante.

Abriu a gargalhada dos companheiros espectadores. ("Causo" contado por Marco Maciel e relatado à Coluna por Geraldo Alckmin.)

Postado às 09h30 | 20 janeiro 2021 |

A VIDA É BREVE

Sêneca, o filósofo que nasceu em Córdova, na Espanha, no ano I a.C, alertava: “não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores”.

Motivo-me, mais uma vez, a deixar de lado a análise política, tarefa cumprida na minha coluna semanal Porandubas, no site Migalhas, para percorrer o labirinto da consciência e tentar ver como deixei a vida passar sem ter percebido. E o que me leva a esse exercício? A sensação de que, no meio (ou ainda no início?) do furacão desencadeado por esse medonho Covid-19, a vida pode me escapar num átimo de segundo, a mostrar que a eternidade está ali, a um palmo na nossa frente.

E como tenho percebido os dribles que, em alguns momentos, me fazem pensar que continuo portando o vigor da adolescência, a capacidade mimética de me adaptar aos sabores e dissabores da vida? É fácil constatar. Basta ir ao espelho e ver que o tufo de cabelo encompridando a cabeça deu adeus, criando duas entradas profundas na testa e abrindo uma seca várzea no cocuruto. Ainda bem que a carequice não tem avançado.

Fossem essas observações estéticas as únicas maneiras de constatar que a adolescência se escondeu no baú de memórias, os sentimentos não seriam tão doloridos. Mas há vazios mais profundos. A percepção de que eu poderia ter conversado mais com meu pai, que nasceu no final do final do século XIX, foi autodidata, político, fazendeiro e, sobretudo, uma pessoa que acolhia bem os mais carentes. O silêncio estava ali ao nosso redor, mesmo que ele tivesse mil perguntas a fazer ao filho que só o via nas férias. Podia ter aprendido mais com ele naqueles tempos de muito trabalho, honra à palavra dada, compromisso com a verdade, zelo pelas coisas. Meu pai amolava a gilete com que se barbeava numa pedra sabão. Objeto descartável? Jamais teve conhecimento.

A amizade é a cola da fraternidade e da solidariedade. Os amigos fazem brotar os valores do compartilhamento e de uma sociedade mais convivencial. E o que ficou deles? A distância física quebra elos, a rotina do cotidiano com muito trabalho cria oceanos entre os amigos, os laços de amizade vão se esgarçando e se desmanchando. Percebo que deixei a vida se esvair por essas frestas de distanciamento, ao cortar contatos, ao esquecer nossos caminhos encruzilhados no passado, ao entrar na corrida pela competitividade, reconhecendo que essas decisões podem ter corroído a humanidade que nos habita.

“Olhe a régua, olhe a régua”, sempre nos alertava o amigo Vanderlei, famoso neurocirurgião, natural da Paraíba e hoje também habitante destas plagas paulistas. E mostrava: até aqui, a régua marca 50, apontando para o meio. Quando passa daqui, a régua costuma apressar o tempo. Pois não é que me lembro dessa régua quase todos os dias e vejo que o tempo corre? A vida é mesmo breve. Parece que o alerta da régua foi ontem. Mas faz mais de duas décadas. O que deixei mais de fazer?

Ler mais. Sou um bom leitor de livros. Mas poderia ter usado o tempo com mais leituras, mais reflexões. E a escrita? Ah, nessa área, sob minha absoluta crença, tenho feito o possível. A ponto de ser cobrado com juros e correção monetária pelo exercício de ficar horas e horas à frente de um teclado de computador ou, nos idos de ontem, teclando numa velha máquina de escrever. E que juros são esses? Uma coluna arrebentada, com achatamento e compressão de vértebras, dores nas articulações, enfim, essa herança transmitida por ficar sentado numa cadeira o dia inteiro.

Constrangido pela fatalidade, como diz o puxão de orelhas de Sêneca, sinto que poderia ter sido mais comedido, com o bom senso de alternar os movimentos do corpo. As coisas ruins se passaram sem que tivesse percebido ou, mesmo percebidas, foram continuadas.

Talvez seja por isso que os velhos álbuns do passado tenham hoje tanta significação. Pois permitem que vejamos nossos corpos sem barrigas salientes, mais apolíneos e menos dionisíacos, tufo de cabelo na testa e sem jamais imaginar que, um dia, o danadinho de um vírus fosse capaz de atazanar nossas vidas.

Postado às 09h15 | 20 janeiro 2021 |

OS HORIZONTES TURVOS DA DEMOCRACIA

O tema começa a frequentar os foros mais avançados da democracia: a influência da tecnologia e da inteligência artificial na esfera da política. O pressuposto central é o de que a personalidade de uma pessoa pode ser decifrada por processos de reconhecimento facial, que tem como base os estudos feitos por um controverso professor da Universidade Stanford, o polonês Michal Kosinski. A polêmica ganha intensidade desde a campanha americana de 2016, a da eleição de Donald Trump, que teria usado algoritmos extraídos de feições para identificar a orientação política de eleitores. E, a partir daí, influenciá-los com intensas cargas de conteúdos.

À sombra dessa hipótese, como pano de fundo, desenham-se imensos painéis que tratam da crise da democracia, do conflito recorrente entre o escopo do liberalismo e o ideário democrático (podem conviver ou tendem a se afastar?), os sistemas partidários e seus caminhos pelo centro, pela esquerda ou pela direita, o nacional-populismo, com seu movimento de vaivém.

Bobbio, em seu clássico O Futuro da Democracia, faz um alerta: “o pensamento liberal continua a renascer, inclusive sob formas capazes de chocar pelo seu caráter regressivo, e de muitos pontos de vista ostensivamente reacionário, porque está fundado sobre uma concepção filosófica da qual, agrade ou não, nasceu o mundo moderno: a concepção individualista da sociedade e da história. Concepção com a qual a esquerda jamais fez seriamente um acerto de contas”. O filósofo italiano preocupava-se com o desmantelamento do estado assistencial.

Não por acaso, o nacional-populismo tem expandido seus laços, fazendo emergir no palco da política figuras estrambóticas, impregnadas dos ideais de defesa de suas Pátrias contra “invasões alienígenas”, nesse caso os imigrantes, acusados de sugar riquezas nacionais, de aumentar a desigualdade e contribuir para avolumar os índices de insegurança pública. Com este discurso, tocam fundo no coração de uma “supremacia branca”, esta que se mostra capaz de ameaçar a estabilidade dos países democráticos.

Essa é a moldura sobre a qual se projetam as ferramentas da tecnologia e da inteligência artificial. Ou seja, pelo andar da carruagem, a impressão é a de que o planeta caminha celeremente na trilha do Grande Irmão, o Big Brother, com seus olhos vigiando todos e tudo, extraindo insumos, dados e informações para alimentar os protagonistas do nacional-populismo, reforçando seus poderes, criando em torno deles a figura do mito e puxando a sociedade para os domínios do autoritarismo. Essa caminhada terá muito fôlego, não sendo coisa passageira, exatamente pelo quadro de deterioração que corrói democracias.

Não se chegou, ainda, ao ponto de equilíbrio, pois os espaços do arco ideológico se imbricam e se confundem, a ponto de não se saber mais como caracterizar os sistemas políticos: Sociais-Democráticos? Socialistas? Comunistas? Esquerdistas com certo viés democrático? Direitistas conservadores em defesa de valores tradicionais? Capitalistas de Estado como a China? (Que coisa esquisita essa mimese camaleônica que mescla Estado Autoritário com Estado Democrático de Direito, base do sistema capitalista).

Sobre esse espectro trabalha a engenharia da inteligência artificial, cujos impactos sobre a política são imprevisíveis. Imagine Fulano da Silva, andando no meio da multidão, apressado para não perder o compromisso, sendo capturado por milhares de micro-câmeras, que pinçam seu estado d’alma, preparando-o para se transformar em um “mutante político”? Esse retrato se parece com o quadro pintado por George Orwell no romance Big Brother, de 1984. Entra novamente na mesa de debates o criminalista italiano Cesare Lombroso, defensor da ideia de que criminosos podem ser identificados por suas características físicas. A tese lombrosiana, rechaçada por muitos, agora recebe o impulso da tecnologia. Que tempos estranhos.

O tema volta a esquentar os ânimos nesse momento em que a maior democracia ocidental, os EUA, padece do assalto ao Capitólio, em Washington, evento que abala a confiança da sociedade sobre a capacidade do país suportar a ascensão de políticos batizados nas águas da imponderabilidade.

O fato é que, a cada dia, os horizontes democráticos são cobertos por nuvens escuras.

Postado às 09h00 | 18 janeiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do Piauí.

Hermenegildo

Recebi de Raimundo Junior uma historinha do Piauí que foi contada por seu pai, Raimundo Dias, ao nosso amigo Sebastião Nery, com quem estudou no Seminário. Vejam o inelegível: O candidato contra Jorcelino chamava-se Hermenegildo. O advogado de Hermenegildo, na impugnação de Jorcelino, era Benjamin Lustosa. O dr. Benjamin ficou a audiência inteira tentando provar que Jorcelino era "inelegível". Era "inelegível prá cá, inelegível prá lá". Quando saíram, Jorcelino disse a seu advogado, Raimundo Dias:

- Doutor, o senhor viu como o Dr. Benjamin está louco?

- Por quê?

- Ele passou o tempo todo dizendo que eu era Hermenegildo.

(A fonética entrou mal nos ouvidos de Jorcelino).

Panorama

Como tenho dito e escrito, projetar cenários é um desafio dos mais instigantes para os analistas da política. Principalmente quando fatores imprevisíveis baixam sobre o planeta. Mesmo assim, arriscamo-nos a fazer o exercício. Na esfera mundial, são visíveis certos fenômenos que tendem a se avolumar na esteira da desigualdade, que se expande na economia e seus impactos sobre as Nações. Dentre estes, podemos apontar a polarização política, o enfraquecimento dos partidos de esquerda e centro-esquerda, o declínio das ideologias, a indignação das bases com entes partidários e seus protagonistas, a fragmentação das classes médias, enfim, o solapamento de valores clássicos da democracia.

A crise da democracia

Em seu clássico Sociologia Política, Roger-Gérard Schwartzenberg descreve com primor alguns desses fenômenos, mostrando a ascensão de outros vetores da política - como a emergência dos técnicos/burocratas, firmada sobre a aliança entre políticos e círculos de negócios. Norberto Bobbio, por sua vez, em O Futuro da Democracia, mostrou as promessas não cumpridas pelos sistemas democráticos: a educação para a cidadania, o combate ao poder invisível, a transparência dos governos, a permanência das oligarquias. Já Adam Przeworski, autor do livro Crises da Democracia, ao analisar a recente invasão do Capitólio, a sede do Poder Legislativo, é peremptório: "agora os EUA não podem mais se vender como bastião da democracia". Afinal, o que está acontecendo lá fora e por aqui?

O fanatismo

O fracasso dos governos contemporâneos tem expandido a ira social. Ira que se transforma em busca de "novos profetas e salvadores da Pátria", manifestações populares e mesmo a devastação de espaços públicos. Claro, com a eleição de figuras que mais se identificam com o estilo outsider, como Trump e Bolsonaro, mesmo sendo este um político que passou quase três décadas no Parlamento. Esse fanatismo se encontra com outros eixos, como o religioso, particularmente os credos engajados na extrema direita e comprometidos com defesa da família e de valores tradicionais.

O nacional-populismo

Onde esses grupos encontram um escoadouro para jogar as suas mágoas e encontrar motivação para seu engajamento na vida político-institucional? Na corrente nacional-populista, que defende um escopo pátrio, de fundo populista, com políticas que venham ao encontro de seus anseios, como defesa do emprego para os nativos, não para imigrantes, que deverão ser proibidos de entrar no país.

"Cinturão da ferrugem"

É o caso dos Estados Unidos, onde Trump, na campanha de 2016, foi intensamente votado no "cinturão da ferrugem", região localizada no Nordeste dos Estados Unidos, composta pelos Estados de Michigan, Minnesota, Ohio, Iowa, Pensilvânia e Wisconsin, que tiveram uma indústria bem desenvolvida até o século 20, mas depois sofreram com o declínio da economia, desemprego, redução da população e decadência urbana. O nome faz referência às fábricas hoje abandonadas na região. Aí Trump, em 2016, foi consagrado sob o lema o lema "Keep America First" ("Os Estados Unidos em primeiro lugar").

O empobrecimento das classes médias

As classes médias têm perdido seu poder de fogo. Na esteira da crise que se expande para além da pandemia, deteriorando as economias, a sociedade busca novas fontes de poder. As classes médias, que sempre exerceram seu papel de pedra jogada no meio do lago para formar ondas que correm até as margens, dividem-se em grupos com afinidades profissionais, dando origem às bancadas especializadas de representação política, como médicos, advogados, ruralistas, mulheres, transgêneros etc. Ou seja, as vozes que tocam na tuba de ressonância social agora fazem parte de orquestras mais fechadas. As massas acorrem às ruas quando convocadas por suas categorias profissionais. O empobrecimento das classes médias integra o painel do empobrecimento global. Os tais três trilhões de dólares que corriam, como nuvens, para descer nos mercados mais promissores, estão se evaporando.

Outra tuba

Quem está enriquecendo, e muito, são os empreendedores nas áreas do conhecimento tecnológico e inteligência artificial, os promotores de negócios nas áreas de serviços, os apostadores nas invenções que poderão mudar o curso da Humanidade, como carros elétricos, aeronaves para prospectar condições sobre o futuro da civilização noutros planetas e aqueles que se aproveitam para atender novas demandas dos consumidores. Esse bloco tem como suporte a nova tuba de ressonância social, as redes tecnológicas da Internet.

Explosão

As massas carentes juntam-se aos grupos insatisfeitos e, em caso de agravamento de sua situação - hipótese que leva em conta o destroço das economias - podem formar um gigantesco barril de pólvora. Sinais de erupção já se vêem aqui e ali. Se o "mundo de cima" não der respostas satisfatórias ao "planeta de baixo", não podemos esperar que cresça o Produto Nacional da Felicidade nas Nações. Canaliza-se a insatisfação para os tanques dos movimentos populistas, que poderão eleger figuras estrambóticas e escandalosas. E pior é quando tais figuras ameaçam mobilizar seus simpatizantes com propostas antidemocráticas. Atentem: a invasão do Capitólio ocorreu no seio da maior democracia ocidental, como é conhecida a Pátria de George Washington.

Haverá perigo?

Adam Przeworski acha que a democracia não está em perigo. Suas palavras: "nos últimos 20 anos, mais ou menos, houve um aumento claro de partidos radicais de direita, mas parece que o apoio para esse tipo de radicalismo de direita fica sempre na faixa de 20% a 25%. O fato é que as instituições representativas tradicionais não funcionam muito bem. Se você é uma pessoa pobre no Brasil, no México, na Espanha, na Grécia, e se pergunta o que essas instituições fizeram por você ao longo da vida, a resposta será 'muito pouco'. Desigualdade em alta é sintoma de algo errado com as instituições. A crise veio para ficar, mas não ameaça a existência da democracia na maior parte dos países".

E por aqui?

Por nossas plagas, os fatos ocorridos na contemporaneidade se relacionam a alguns fatores acima citados. Mas algumas situações merecem destaque. Por exemplo, a gestão governamental Federal no combate à pandemia é um caso sui generis de despreparo, desleixo, incúria, irresponsabilidade. Um país de 210 milhões de habitantes, um território continental de riquezas inigualáveis, uma economia que, apesar dos pesares, ainda é uma das maiores do mundo vive um clima de futrica em torno das vacinas e de seus protagonistas. Quem vacinará primeiro? O governo Federal ou o governo de São Paulo? Triste ver o nosso mandatário-mor usar a vacina como mote de suas piadas e os mais de 200 mil mortos como coisa absolutamente natural. "Vacina transformará a pessoa em jacaré".

Autoritarismo

Quase todos os dias vemos cenas de descontrole e falta de planejamento por parte das autoridades Federais. E, no meio da bagunça, sobram espaços para piadas e chistes, declarações que não dizem nada - "a vacinação vai começar no dia D na hora H". Essa pérola de autoria do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, deve brilhar no museu da esquisitice. Mas é preocupante a relação de coisas absurdas que se espraiam: uma investigação criminal sobre os jornalistas Ruy Castro e Ricardo Noblat, o primeiro por ter sugerido, em artigo na FSP, que tanto Trump e Bolsonaro poderiam seguir o caminho do suicídio para ganhar fama na história. O segundo, Noblat, por ter publicado o texto em seu blog. O tom de galhofa com que Castro se refere a Bolsonaro é bem diferente da defesa da tortura que o presidente sempre fez e faz questão de fazer nos tempos do regime militar.

Ausência de líderes

Infelizmente, nos horizontes de nossa política, não se enxergam líderes, perfis de respeito, autoridade e sapiência que possam traduzir a chama da esperança. Os nossos representantes vivem na arena da política de interesses, saindo de uma eleição e já se preparando para outra, não dando tempo nem para limpar destroços das administrações em fim de mandato. Uma eleição atrás da outra, com poucas opções de escolha, acaba amortecendo a motivação de eleitores. E quando o bolso apertar mais ainda, com a extinção ou diminuição do auxílio emergencial, é possível prever contingentes desesperados saindo às ruas para cobrar o que lhes prometeram. Da mesma forma, a fome, como a vacina, não tem ideologia.

Na padaria

Conversa entre dois senhores de cabelos grisalhos esperando pelo pão. "Fulano, como eu tenho também a nacionalidade portuguesa, corri a Lisboa para me vacinar. Me vacinei e aqui estou de volta". Números de contaminados sobem diariamente.

 

Postado às 08h30 | 12 janeiro 2021 |

DEUSA DA LIBERDADE ESTÁ COM VERGONHA

Apaga-se uma tocha. Erguida na mão direita da Estátua da Liberdade, o símbolo plantado no rio Hudson há 135 anos para iluminar o ideário da democracia americana recebeu uma carga de lama que acabou respingando sobre a Declaração da Independência dos Estados Unidos, que a deusa romana Libertas segura não mão esquerda. 6 de janeiro de 2021 ficará na história norte-americana como o mais triste dia de sua trajetória democrática. A deusa está com vergonha.

Nessa fatídica data, o Capitólio, sede da Câmara dos Representantes e do Senado, conhecido por ser um dos lugares mais guardados do planeta, foi invadido por manifestantes açulados pelo (nada mais, nada menos) chefe do Executivo, o republicano Donald Trump, inconformado por ter perdido a eleição para o democrata Joe Biden. A tocha apagada pela torpeza do chefe de Estado, o mais tosco político que já habitou a Casa Branca, infelizmente terá consequências sobre as democracias do planeta, cujos protagonistas podem, mais cedo ou mais tarde, querer imitar a índole autoritária do bilionário americano.

Não há como deixar de lembrar a pena do brilhante advogado francês Alexis de Tocqueville que, aos 27 anos, escreveu em 1832 um dos mais belos livros do século XIX, A Democracia na América, depois de ter passado uma temporada nos EUA para conhecer o sistema judiciário. Assim registrava o espírito público que viu: “quando os povos ainda são simples nos seus costumes e firmes nas suas crenças, quando a sociedade repousa suavemente sobre uma ordem de coisas antigas, cuja legitimidade nunca é posta em dúvida, vê-se reinar esse amor instintivo pela Pátria...amor que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível que liga o coração do homem aos lugares onde nasceu”.

E o que pode explicar o terrível episódio que tirou a vida de quatro pessoas, obrigou senadores e deputados a ficarem de cócoras, permitindo que a matilha de cães furiosos depredasse móveis e espaços, chegando alguns a ocupar a mesa central do comando parlamentar? A ambição desmesurada. Cito em um dos meus livros o pensamento do cientista político Robert Lane que, em Political Life, explica como o excesso de ambição pelo poder funciona como um bumerangue. Diz: "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

Com o maior sistema democrático do planeta, como é reconhecido, os Estados Unidos acabam de ver ameaçada esta posição, eis que não faltarão aqueles dispostos a fazer maléficas comparações. Um senador republicano, atentem bem, chegou a dizer que o país dava o mesmo exemplo de uma “República de bananas”. Os europeus estão escandalizados. A França, que fez a doação da Estátua da Liberdade aos EUA, aduz que o símbolo mais visível da democracia americana, seu presente fincado no porto de Manhattan, em Nova Iorque, já não será visto como imaculado, sagrado, imune às pedradas das hordas radicais. Boris Johnson, do Reino Unido, que parecia conservar certa amizade com Trump, chamou o episódio “uma vergonha”. Ângela Merkel, da Alemanha, ficou “triste e furiosa”.

Já o nosso Chefe de Estado garante que a cena da invasão ao Congresso americano, caso o voto impresso não seja instituído, pode ocorrer por aqui. E, sem provas, voltou a dizer que a eleição nos EUA foi fraudada. “Mortos votaram, foi uma festa lá.” Ora, nenhuma Corte americana viu fraude. Trump, que tem menos de duas semanas no poder, ficou isolado dos próprios correligionários. E não contou com a simpatia das Forças Armadas para sua tentativa de golpe. Por nossas plagas, nossas Forças pautam-se por uma agenda profissional, fazendo lembrar o preceito: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

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