Porandudas políticas

Postado às 09h15 | 02 março 2021 |

O FIM DO ANONIMATO

A sociedade de massas está chegando ao seu fim, sob o rolo compressor das mudanças que ocorrem em todos os campos da vida humana. Mesmo se descobrindo, aqui e ali, casos de trabalho escravo, que lembram a era dos feudos, dos impérios e das colônias, com a opressão sobre seres humanos, os nossos tempos são marcados por defesa de direitos, maior autonomia individual e coletiva, aspiração de felicidade. O tacão dos colonizadores é substituído pela chama libertária. E a tendência é a de consolidação de uma comunidade política, onde os anônimos na multidão assumam suas identidades, sob a égide da igualdade. 

Os franceses designam esse fenômeno como “autogestão técnica”, com a qual os cidadãos passam a pautar suas vidas de acordo com o lema “sei o que quero e conheço os meios para chegar lá.” Portanto, aquele velho chavão do “Maria vai com as outras”, com seu viés discriminatório, é enterrado para dar lugar à era da expressão individual e grupal. É evidente que esse atributo da comunidade política é  identificado no seio dos sistemas democráticos, não nos túneis escuros de ditaduras opressoras.

Para se chegar a este estágio, a sociedade planetária navegou por mares turbulentos. Padeceu sob a ferocidade de duas guerras mundiais, vivenciou morticínios realizados por governantes sanguinolentos, passou pelos longos corredores das endemias e pandemias, como esta que hoje assola a Humanidade, experimentou uma infinidade de tipos de governos, até encontrar, aos trancos e barrancos, o sistema que impregna as nações mais desenvolvidas, a democracia. E esta, como se sabe, também atravessa uma crise crônica, a partir dos eixos corroídos que a sustentam, como os partidos, as bases, os Parlamentos e seus componentes, os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário etc.

O cerne da questão reside nos ideários que, ao longo dos tempos, têm impregnado as sociedades, como o liberalismo, o comunismo, o socialismo, e os afluentes que abriram, como a social-democracia, o neoliberalismo, o social-liberalismo e afins. O fato é que, após a queda do Muro de Berlim, em 1989, viu-se a aceleração do fenômeno da desideologização e a emergência do pragmatismo nas fronteiras da política. O arrefecimento ideológico deflagrou a queda da primeira pedra do dominó, responsável pela derrubada das outras pedras do jogo: partidos amalgamados, representantes desacreditados, bases desmotivadas.

Nesse ponto, voltamos ao início da reflexão. A saturação de velhas fórmulas entupiu os pulmões do convívio social. Forte indignação – mistura de descrédito, ódio, grito preso na garganta, expansão de demandas nos serviços públicos - acendeu o pavio dos novos grupamentos, que, por sua vez,  fincaram estacas por todos os lados.

Explico. Sem confiança na política e em seus agentes, os eleitores passaram a enxergar representantes com olhos de desprezo e cobrança por quebra de compromisso. “Candidatos? Ah, só aparecem de quatro em quatro anos”.

Criou-se imenso deserto entre os políticos e as bases. O vazio passou a ser ocupado por novos centros de poder, um conglomerado de entidades com raízes em categorias profissionais, gêneros, raça e etnias. As minorias passaram a se mostrar e a exibir poder de gritar sua indignação. Sindicatos, federações e confederações, grupos, núcleos e movimentos formam esse mural que, agora, reivindica voz e vez para se posicionar na política. No Brasil, há cerca de um milhão de organizações não governamentais, que fazem pressão de lá para cá, das margens para o centro. Constituem as bases e as colunas da democracia participativa.

Essa é a nova realidade na política contemporânea. Se cada pessoa passa a ser identificada nas ruas por câmeras poderosas e invisíveis, é sinal que se chega ao final da era do anonimato. A política dependerá cada vez mais de cidadãos que não admitem ser apenas números. Ou, parafraseando John Stuart Mill, que Bobbio cita em Considerações sobre governo representativo: “há cidadãos ativos e passivos. Os governantes preferem os segundos, mas a democracia necessita dos primeiros. Se prevalecessem os segundos, os governantes acabariam por transformar seus súditos em um bando de ovelhas dedicadas tão somente a pastar o capim e a não reclamar nem mesmo quando o capim for escasso”.

Postado às 10h45 | 25 fevereiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com um pouco de riso, com esta historinha do Jânio Quadros.

Obrigado, colega

O próprio presidente Jânio Quadros, às vezes, transmitia seus bilhetinhos para os ministros por meio do aparelho de Telex que mandou instalar em seu gabinete, ligado diretamente com os ministérios em Brasília e no Rio de Janeiro. Ele mesmo datilografava os "memorandos". Transmitiu ele um bilhete para um ministro e na mesma hora recebeu a seguinte resposta, pelo telex: "Prezado colega. Não há mais ninguém aqui". Ao que o presidente respondeu: "Obrigado, colega. Jânio Quadros". Do outro lado do fio, porém, o outro não se perturbou: "De nada, às ordens. John Kennedy...".

(Nelson Valente, jornalista e escritor, em seu livro Jânio Quadros - O Estadista)

O homem e suas circunstâncias

A expressão com sua hipótese é do filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1883-1955). Do começo ao fim da vida, o homem navega por um oceano de aprendizado. Está sempre em mudança. E daí emerge o conceito de que a verdade depende de cada um. Nunca esse axioma foi tão recorrente. O ritmo de mudanças vivenciado no planeta é acelerado. Nos campos tecnológico, biogenético e de sondagem sobre a natureza do universo, os avanços são extraordinários. O que não se pode dizer na área dos valores. Este escriba aprecia fazer leituras sobre esse pano de fundo. O que está ocorrendo, onde iremos parar com o gigantesco volume de conflitos na sociedade?

As circunstâncias entre nós

Pois é, o Brasil desta semana é diferente do país de uma semana atrás. As circunstâncias nos levam a lembrar que:

1. Atingimos o pico da pandemia, com os índices mais avassaladores desde seu início. O colapso das estruturas de hospitais é geral. Mortes e internações sobem ao cume da montanha.

2. Mesmo assim, certo amortecimento impregna a alma social, a indicar a conformidade e a resignação ante esse clima de devastação.

3. A taxa de autoritarismo do governo, com a intervenção no comando da Petrobras, chega também ao auge, fazendo derreter resultados positivos que marcavam determinados setores.

4. A Petrobras teve o segundo maior tombo de sua história, com o derretimento de R$ 102 bilhões de seu preço de mercado.

5. O governo coleciona, esta semana, críticas ácidas sobre seu desempenho, chegando ao momento mais conflituoso de sua gestão.

6. Avoluma-se o teor crítico sobre a cooptação do presidente junto aos militares, com evidente prejuízo à imagem das Forças Armadas.

7. A imagem de governantes, em todos os Estados, começa a descer o despenhadeiro sob a aceleração dos índices pandêmicos.

8. O mercado dá recados concretos ao presidente, já desconfiado de sua ideologia liberal.

9. A perplexidade se volta também para o ministro Paulo Guedes, que não está conseguindo segurar suas intenções e seus amigos.

10. A desconfiança e o descrédito avançam celeremente.

Voltemos ao plano global das mudanças em curso no planeta.

A escala de valores

Tendo como mote a moldura das mudanças no campo dos valores, permito-me retomar a leitura, que sempre faço, sobre o espírito do tempo. Muda o planeta, Marte recebe a visita de três artefatos da Terra; Joe Biden assina decretos anulando políticas de Donald Trump; este continua a fazer campanha eleitoral, mesmo recolhido em seu resort; a Europa debate seu futuro e a gestão da pandemia, que consome milhões de vidas e trilhões de dólares das economias mundiais; a China sempre de olho no ranking das maiores economias mundiais; sinais de esperança no campo da imunização.

A espetacularização

A desideologização, que impregnou os sistemas políticos no século XX, amalgamando partidos, esfacelando os mecanismos clássicos da política - engajamento das bases, firmeza das oposições, grandeza dos Parlamentos, harmonia e independência dos Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) - mudou os rumos da democracia. Os entes coletivos cedem lugar ao individualismo. Ressurgem os perfis populistas, demagógicos, que atuam sob a perspectiva do EU sobre o NÓS. Pessoas tomam o lugar de partidos. Nesse eu voto, diz o eleitor. E a força do personalismo resgata o conceito de política como espetáculo. O ator político está no palco, usando sua arte manipulativa para engabelar as massas e expandir o descrédito geral, que se espraia na base, no meio e no cimo da pirâmide social.

Os figurantes

Os figurantes usam a linguagem da oportunidade. Cobertor social, cestas básicas, auxilio emergencial, demissão sumária de figuras da administração, eleição de personagens identificados com o selo "pagou, levou". Salvadores da Pátria, heróis de coragem, justiceiros, pais da pátria e suas bandeiras: combate à corrupção, defesa do patrimônio nacional, defesa do Estado-liberal, de um lado, e defesa do Estado-patrimonial, de outro. A receita de uns e outros.

O ódio

O ódio passa a ser destilado nas fontes de apoio - bases e simpatizantes - e distribuído em imensos jorros pelas redes sociais e nos contatos entre interlocutores, que queimam velhas amizades em nome da defesa de seus "heróis-patrocinadores". Pessoas de quem se imaginava terem uma cota mínima de racionalidade embarcam nas caravanas da bajulação. A convivialidade, que se apresenta como grau elevado do estágio civilizatório, vai para o buraco. As correntes do ódio assumem posicionamentos que mais se assemelham à volta da barbárie sobre o planeta.

O velho habitat

O mundo, até pouco, era carimbado como aldeia global. Todos por um, um por todos. Vimos, maravilhados, a quebra de fronteiras físicas e espirituais, com a ascensão de pobres e necessitados ao banquete dos ricos. Grandes nações acolhiam imigrantes. Davam-lhes teto e comida. E o que temos visto hoje nos quadrantes do planeta? O isolamento. O fechamento de fronteiras. Filhos pequenos separados dos pais. Renasce a noção de que a pátria é nossa. Não de estranhos. Cada nação com sua gente. Os pobres? Que fiquem onde nasceram. P.S. Lembrete histórico: conta-se que o marechal Erwin Rommel, a raposa do deserto, ao contemplar em cima de um morro os aliados destroçados por seus panzers no norte da África, teria dito: "os pobres nunca deveriam fazer guerra". Os pobres, como pensa Trump, deveriam voltar ao seu velho habitat.

O consumo da informação

A pressa, a rapidez, a competição desvairada em um mundo de carências crescentes impedem que a natureza seletiva do homem exerça sua função de enxergar conceitos de certo e errado, viável e inviável, justo e injusto. A abundância informativa acaba entupindo os filtros que purificam as águas. As pessoas acabam misturando coisas, sorvendo misturas maléficas. Paradoxo: em plena era da informação, o grau de aprendizagem não acompanha o ritmo das novidades e mudanças. A defasagem entre o que se consome e o que é necessário assume proporções extraordinárias.

Feita a digressão, passemos novamente ao nosso cotidiano.

Centralização

A inferência é decorrente da troca de comando na Petrobras: o presidente tende a ser mais centralizador nos próximos tempos. Pensa assim: fui eleito, devo meu cargo ao povo, não aos políticos, vou agora governar ao modo Bolsonaro. Troca aqui, troca ali, troca acolá. Parece querer se aproximar do sistema de governo que anunciou, há dias, não esse que temos. Se der certo, tudo bem. Se não der certo, pode dizer que tentou. Paulo Guedes, nesse cenário, não terá alternativa que a de entregar o boné. Questão de tempo. A não ser que decida fazer como os três macaquinhos: não vi, não ouvi, não falei.

Queda de 102 bilhões

As ações da Petrobras sofreram queda gigantesca. O preço da petrolífera caiu em cerca de mais de R$ 100 bilhões com as falas de Bolsonaro, que também viu sua avaliação positiva cair para 33%. A avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro subiu mais de 8 pontos percentuais em quatro meses e atingiu 35,5%, segundo a última pesquisa CNT/MDA. Já a positiva caiu quase nove pontos. O advogado André de Almeida, um dos idealizadores da ação coletiva (class action) que levou a Petrobras a pagar US$ 2,9 bilhões para encerrar uma disputa judicial com acionistas nos Estados Unidos em 2018, já mira uma nova batalha na Justiça em Nova York contra a estatal.

Guedes será vital

Paulo Guedes será peça importante na engrenagem de 2022. Para Bolsonaro confirmar seu favoritismo, precisa administrar uma economia em franca recuperação. Se Guedes não conseguir, o presidente buscará perfil mais populista. Capaz de passar marchas de aceleração no carro da economia, no qual devem caber as demandas populares. Sem cobertor social extenso, Bolsonaro não terá chances. O voto das margens decidirá o rumo do país.

BB, o próximo?

O falatório em Brasília se avoluma: a próxima mudança/intervenção seria no comando do Banco do Brasil. A conferir.

Pfizer

A Pfizer diz que não aceita condições de Bolsonaro para vender vacina ao Brasil. A farmacêutica anuncia que, na América Latina, apenas o Brasil, a Venezuela e a Argentina não aceitaram as cláusulas de seu contrato. Vamos ver se o Congresso muda os paredões legais. P.S. A Anvisa decidiu liberar a vacina, mesmo sob o imbróglio burocrático.

O símbolo I: Lippmann

O emprego de símbolos é um dos estratagemas mais eficazes preferidos pelos líderes para dirigir as massas, para aspirar e inspirar as emoções das multidões (to siphon emotion), segundo a expressão de Walter Lippmann (96) [306]. "É um truque para criar o sentimento da solidariedade e, ao mesmo tempo, explorar a excitação das massas".

O símbolo II: Tchakhotine

"O símbolo pode desempenhar, na formação de reflexos condicionados (como decorre de todo nosso raciocínio) o papel de fator condicionante, que, enxertando-se sobre um reflexo preexistente, absoluto, ou sob um reflexo condicionado constituído anteriormente, adquire, por sua vez, a possibilidade de tornar-se um excitante, determinando essa ou aquela reação desejada por quem faz esse símbolo sobre a afetividade de outros indivíduos. A palavra, falada ou escrita, pode ser utilizada para representar um fato concreto, único e simples, ou um conjunto de fatos, mais ou menos complexos, assim como uma abstração ou todo um feixe de ideias abstratas, científicas ou filosóficas". (Serge Tchakhotine In Mistificação das Massas pela Propaganda Política).

Canetti

A massa I

"A ânsia de crescer constitui a primeira e suprema qualidade da massa. Ela deseja abarcar todo aquele que esteja ao seu alcance. Quem quer que ostente a forma humana pode juntar-se a ela. A massa natural é a massa aberta: fronteira alguma impõe-se ao seu crescimento. Ela não reconhece casas, portas ou fechaduras; aqueles que se fecham a ela são-lhe suspeitos. A palavra aberta deve ser entendida aqui em todos os sentidos: tal massa o é em toda parte e em todas as direções. A massa aberta existe tão somente enquanto cresce. Sua desintegração principia assim que ela para de crescer. Sim, pois tão subitamente quanto nasce a massa também se desintegra".

A massa II

"Seu caráter aberto, que lhe possibilita o crescimento, representa-lhe também um perigo. A massa traz sempre vivo em si um pressentimento da desintegração que a ameaça e da qual busca escapar através do rápido crescimento. Enquanto pode, ela absorve tudo; uma vez, porém, que tudo absorve, tem ela também de, necessariamente, desintegrar-se. Em contraposição à massa aberta - que é capaz de crescer até o infinito, está em toda parte e, por isso mesmo, reclama um interesse universal - tem-se a massa fechada. Esta renúncia ao crescimento, visando sobretudo a durabilidade. O que nela salta aos olhos é, em primeiro lugar, sua fronteira. A massa fechada se fixa. Ela cria um lugar para si na medida em que se limita; o espaço que vai preencher foi-lhe destinado". (Elias Canetti in Massa e Poder).

 

Postado às 10h45 | 25 fevereiro 2021 |

DISTANTES DO SENSO COMUM

Quanto maior a desarmonia social, mais longe a ideia de encontrarmos o senso comum, esse ponto na régua dos hábitos e costumes vivenciados pela sociedade. Pois bem, estamos atravessando um ciclo de intensa dissonância cognitiva, caracterizada por dúvidas, incertezas, polêmicas, que se formam no espírito de um tempo carregado de desolação. Querelas de toda a natureza se espraiam no espaço nacional, a mostrar as diferenças entre alas e grupos. Em tempos idos, dois temas embutiam conflitos de posições: futebol e religião. Hoje, o campo se alarga com a inserção da política, dos governos e suas gestões e, sem dúvida, da crise sanitária deflagrada pela covid-19 e suas variantes.

Qual o fato gerador dessa paisagem tão conflituosa? Não há um aspecto que possa ser identificado como eixo-mor, a não ser que possamos agrupar os principais fatores em torno do que podemos carimbar como Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF). Que junta, por exemplo, dinheiro no bolso, barriga satisfeita, exemplares transportes coletivos, alimento barato, casa habitável, água encanada, esgoto, equipados e eficientes hospitais e maternidades, vacinas rápidas e para todos, enfim, um clima de satisfação coletiva. Esses aspectos nas margens positiva e negativa apontam para o que vem a ser bom senso.

Ademais, conforme narra Guy Debord, em seu livro A Sociedade do Espetáculo, toda a vida “nas sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”. Nessa mesma linha, pontua Roger-Gérard Schwartzenberg, quando descreve em O Estado-Espetáculo,  os protagonistas do palco da política imitando os atores. No mundo atual, o que mais importa aos representantes é aparecer, ganhar visibilidade, dourar a imagem, fazendo com que a cópia seja mais importante que o original, a representação tendo mais destaque que a realidade. “A ilusão é sagrada e a verdade é profana”, arremata Debord.

Tempos de conflito e de ódio destilado nas usinas humanas, que se formam em torno de uns e outros perfis da política utilitarista, aquela que se banha nas águas franciscanas do “é dando que se recebe”. O descrédito campeia de todos os lados. A desconfiança grassa, para lembrar o timoneiro Simon Bolívar que, há mais de dois séculos, fazia ecoar seu lamento: “Não há boa-fé na América, nem entre os homens, nem entre as nações. Os tratados são papéis, as Constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia, e a vida um tormento”. Emboscadas e traições na política nunca pontuaram de modo tão avassalador. A banalização das coisas impregna o cotidiano. A morte? Coisa banal. Mais de mil pessoas morrem por dia no Brasil. O índice já não mais comove.

Pior é sentir que a resignação banha as vontades. “Ah, não há jeito de melhorar, devemos nos acostumar com isso; ah, não tem outro, não; ele vai ser reeleito facilmente; essas oposições partidárias são fracas e não resistem a um rolo compressor”. A linguagem social ruma em direção às encruzilhadas do conformismo, do catastrofismo, da leniência. “Se os maiorais roubam, por que não posso roubar só um pouquinho”? Forma-se uma densa camada de desonestidade, que tem como lume o exemplo que vem de cima, o modus operandi dos maiorais, o novo triângulo que se desenvolve no seio das democracias, juntando políticos, máquinas burocráticas e círculos de negócios. Essa tendência reforça o que alguns autores chamam de “tecnodemocracia”.

E onde estão os remédios ou, melhor, as vacinas éticas e morais de que nos fala o padre João Medeiros Filho, em celebrado artigo recente no jornal Tribuna do Norte (RN), “Uma Vacina em Prol da Ética e da Moralidade”? “Além das vacinas contra a epidemia que grassa pelo Brasil, necessita-se também imunizá-lo contra o ódio, radicalismo, egoísmo, interesses escusos, desrespeito, injustiças e mentira. É incontestável que a fragilidade da saúde pública é um problema crônico, que se arrasta há décadas. Não faltam alertas e denúncias de profissionais e líderes. Não se improvisam soluções duradouras, nem existem respostas automáticas e mágicas. Urge uma dose maior de solidariedade e otimismo. É necessário crescer no altruísmo, inoculando na sociedade mais respeito, diálogo e amor.”

Eis aí uma tarefa para gerações. Altruísmo, civismo, progresso espiritual, elevação moral de um povo são metas que integram o mais alto grau civilizatório. Mas não alcançaremos esse ideal sem a base do edifício da cidadania: Educação. Sem essa semente, a floresta humana não dará bons frutos.

 

Postado às 08h30 | 10 fevereiro 2021 |

ADEUS A UMA LÍDER EXEMPLAR

Daqui a sete meses, dará adeus ao poder uma das maiores líderes da política de todos os tempos: a mulher que em 22 de novembro de 2005 foi anunciada pelo então presidente do Parlamento alemão, Norbert Lammert, como a chefe do Governo da Alemanha: Ângela Merkel, uma doutora em química quântica e também formada em física, que cresceu sob o regime comunista da Alemanha Oriental.

Com quase 16 anos de poder, deixa o cargo sob os aplausos de todo o povo alemão, que festeja com orgulho a mulher simples que não usa vestidos de luxo, não tem empregadas domésticas, mora em modesto apartamento, faz comida com o marido, sóbria, modesta, sincera, sem dribles na linguagem.

- Chanceler, estou vendo que a senhora não troca muito de vestido, não é mesmo?

- Caro jornalista, eu sou funcionária pública, não sou modelo.

Assim a líder que atravessou um imenso corredor de crises, como o colapso do Lemon Brothers, em 2008, que levou a economia mundial ao caos, a crise de imigração, a cisão na União Europeia, as tensões constantes com a França tendo como pano de fundo as posições sobre o futuro da Europa e, mais recentemente, a pandemia da Covid-19, sendo essa crise sanitária a mais difícil de administrar, segundo seu balanço de governo.

Ângela Merkel pode não ser carismática, não brilhante no palco da oratória. Não usa a grandiloquência para adornar seu cotidiano. Mas é altamente confiável, uma mulher flexível, podendo mudar de opinião se as circunstâncias assim o determinarem. É o caso se sua posição pessoal contra a união homoafetiva. Sempre se posicionou contra, mas, em 2017, afirmou que não impediria que o tema fosse colocado em pauta no Parlamento. “Cada parlamentar deve votar de acordo com suas consciências”. A lei foi aprovada por 393 por 226 votos. Da mesma forma, seu partido, o CDU (União Democrática Cristã) foi contra o fim do serviço militar, também aprovado. Essas derrotas não abalaram seu prestígio, fato que pode-se atribuir à expressão recorrente: “vocês me conhecem”.

Chegou-se a verbalizar seu estilo de governar com os verbetes: 'merkelizar', 'merkiavelismo: modus faciendi' da política; mesmo de forma hesitante, sem demonstrações de força ou conflitos diretos, atinge seus objetivosA propósito, o neologismo "zu merkeln", segundo texto da BBC, “significa algo como não ter uma opinião contundente sobre determinado assunto, ser passivo, hesitante. Características que, na política, podem ser virtudes ou defeitos, a depender da situação”. Outro conceito que banha seu perfil é o de Mutti, mãezinha em alemão, aquela que protege.

O fato é que a índole de Ângela Merkel foi a chave para abrir portas entravadas. Mesmo sem maioria no Parlamento, governou com uma grande coalizão, o que explica mudanças de abordagens em algumas matérias. Lançou intensa campanha para mudar o perfil energético da Alemanha, dando um prazo até 2022 para acabar com as 17 usinas nucleares do país. A Alemanha vem batendo recordes no uso de energia renovável.

A imagem de mãe e protetora emerge, por exemplo, na abertura das fronteiras, o que deu à Alemanha o primeiro lugar no ranking de acolhimento aos imigrantes, cerca de 1,3 milhão. E qual foi a expressão-chave para esta política? “Nós conseguiremos”. Que lembra o “nós podemos”, de Obama.

Zelo pelo dinheiro do contribuinte – eis outra estaca na vasta seara da chanceler. “Não daremos dinheiro a países que não conseguem controlar suas contas”. Uma defesa do tesouro alemão. Defesa da indústria e do mercado de trabalho. A economia alemã vive uma fase de crescimento. E, por último, a mais grave crise de seu governo, a pandemia, que considera o maior desafio após a II Guerra Mundial. “Levem a sério”, alertou Merkel. E vieram os lockdowns. A população aceitou a orientação da líder, que chegou ao ponto de emocionar a população: “pode ser o último Natal que você passará com seus avós”.
Eis aí um breve relato sobre uma das grandes condutoras da política na contemporaneidade. O que os governantes poderão aprender com ela? Ora, se absorvessem parcela, mesmo mínima, dos valores que a identificam, já passariam no teste da governança. Humildade, flexibilidade, simplicidade, despojamento, modéstia, sinceridade, defesa do contribuinte, responsabilidade, linguagem adequada, seriedade no trato dos problemas, senso do dever.

E, sobretudo, capacidade de saber o espírito do tempo. Sem viés político-ideológico. A grandeza de um país depende, e muito, da nobreza e da dignidade de seus dirigentes.

 

Postado às 08h30 | 08 fevereiro 2021 |

Porandudas Políticas

Abro a coluna com uma historinha de Tancredo Neves.

"Os livros errados"

Brasília, Congresso Nacional, 11 de abril de 1964. Castello Branco não teve o voto de Tancredo Neves, seu amigo pessoal de longa data, companheiro na Escola Superior de Guerra, em 1956. Tancredo bateu o pé. Comunicou ao PSD que votaria em branco, apesar dos méritos e credenciais do general Castello Branco. Questão de princípio: era contra o golpe. Não queria nem um minuto de regime militar, não abria mão da democracia. Conta-se que, esgotados todos os argumentos dos pessedistas para convencê-lo, o amigo e ex-chefe JK, então senador por Goiás, fez um apelo: "Mas, Tancredo, o Castello é um sorbonniano, estudou na França. É militar diferente, um intelectual como você. Já leu centenas de livros!". Tancredo: "É verdade, Juscelino. Só que ele leu os livros errados". Dois meses depois o governo cassou o mandato e os direitos políticos de JK, que partiu para o exílio e o sofrimento sem fim.

(Caso narrado por Ronaldo Costa Couto).

Dualibi, lenda da propaganda

Segunda feira, dia 1º, foi o Dia do Publicitário. Em 1º de fevereiro de 1966 a profissão foi regulamentada pelo decreto-lei 57.690. A coluna tem a alegria de fazer singela homenagem aos publicitários brasileiros na figura de um perfil emblemático da profissão: Roberto Dualibi. O famoso "D"da DPZ (fundador da Agência com Francesc Petit e José Zaragoza) é uma lenda na publicidade brasileira. Pinço de uma entrevista antiga em Época Negócios duas considerações sobre sua profissão.

O que encantou você na publicidade?

Duailibi - Na loja de meus pais tínhamos muito material promocional das Linhas Corrente, das agulhas Guterman, da Colgate, além dos manequins de cera e das vitrines sempre renovadas. E um irmão desenhava muito bem, e eu aprendi com ele a fazer caricaturas. Comecei aos 14 anos a propor material para algumas lojas vizinhas na Vila Mariana, mas nunca fui bem-sucedido. Depois trabalhei no jornal do bairro, e além de escrever matérias, tinha de vender espaço. Finalmente, fui trabalhar na Colgate Palmolive - e tive a sorte de ser aprovado na Escola de Propaganda. E me encantavam as aulas com profissionais tão consagrados, Alfredo da Silva Carmo, José Kfouri, Renato Castelo Branco, Rodolfo Lima Martensen, Caio Domingues, Gherard Wilda, e tantos outros. Ao mesmo tempo, fazia o curso na Escola de Sociologia e Política.

E o que desencantou (se desencantou)?

Duailibi - Nunca me desencantei da publicidade, com exceção de um período em que as boas agências foram afastadas das contas governamentais, que passaram a ser cuidadas por agências sem credenciais, mas alinhadas ideologicamente com políticos ou políticas. Mas hoje vejo que, no fundo, foi uma sorte não ter participado dos negócios desse período. Outro desencanto foi ver, em algumas empresas, pessoas que pediam propina. Perdemos, ou deixamos de ganhar, algumas contas por causa disso, mas nunca cedemos. Acho que também foi uma sorte. Vi grandes marcas serem destruídas por administradores corruptos.

Seleciono três citações de um dos seus mais famosos livros (Livro das Citações):

"Sempre peça emprestado a um pessimista. Ele nunca espera receber".

"Ninguém jamais morreu afogado em seu próprio suor".

"A chave para o sucesso nos negócios é reservar oito horas por dia para o trabalho e oito para dormir e ter certeza de que não são as mesmas".

  • Panorama da política

VITÓRIAS e vitórias

Há VITÓRIAS, como a dos aliados na II Guerra Mundial contra Hitler e seu nazismo, e há vitórias como a de Pirro, o rei grego que comandou seu exército contra os romanos, chegando a esmagá-los, mas com a perda de muitos generais. Os romanos conseguiram rapidamente repor suas baixas, mas não Pirro, que viu Roma se tornar uma potência. O que pode parecer uma espetacular vitória, hoje, a depender das condições dos adversários e suas circunstâncias, ameaça, tempos depois, ser humilhante derrota. Vejam o caso da vitória de Napoleão Bonaparte na Rússia. Em setembro de 1812, ganhou a luta contra os russos, que custou aos franceses a perda de 35 mil vidas, enquanto os adversários contabilizaram 40 mil mortos. Moscou foi incendiada. Rapidamente, os russos repuseram seus efetivos, enquanto os franceses, não suportando o rigoroso inverno, entraram em Paris humilhados. Imensa catástrofe. Vitórias como as de Pirro ocorrem aqui e ali. P.S. É oportuno lembrar a guerra dos EUA no Vietnã.

Vitória de Bolsonaro

O governo Bolsonaro acaba de registrar grande vitória na guerra pelo comando do Senado e da Câmara. A conversa à boca pequena é: ele fez barba, cabelo e bigode. Será? É claro que Bolsonaro ganhou. E ganhou bem, derrotando figuras de porte, como o ex-presidente e prócer do DEM, Rodrigo Maia. Teria usado armas pesadas, do tipo R$ 3 bilhões, para atrair votos que iriam para Baleia Rossi, MDB-SP, e Simone Tebet, MDB-MT. E mais: puxou o apoio do Centrão. Esse ente que monta no cavalo do poder, livra-se do cavalo cansado e pega adiante outra montaria cheia de saúde e viço. O Centrão é assim. Muda de posição como as nuvens. Hoje, é governo, amanhã será governo, arrumando sempre um jeito de se acomodar.

O Centrão indiano

O Centrão é um ente amalgamado. Tem um pouco de tudo. E possui três olhos, o terceiro no meio da testa, o bindi. Maneira fácil de identificar sua religião franciscana: é dando que se recebe. Lembrando: o terceiro olho é aquela pinta que indianas usam para mostrar que seguem o hinduísmo. No caso do Centrão, é um olho que enxerga coisas do arco da velha, apetrechos que os olhos comuns não conseguem ver. O olho da direita detecta as coisas que vão bem; o olho da esquerda aponta o que está errado, as ruindades de governos e suas administrações. Os dois olhos mandam as informações para o cérebro dos membros do Centrão. O terceiro olho aponta qual o caminho a seguir. Pois bem, Bolsonaro tem hoje o apoio desse bloco. Não haverá impeachment. A agenda do Executivo será cumprida. Porém, no curto prazo. No médio prazo, se os olhos do Centrão detectarem ameaças de perigo, a corrida para outro lugar será bem previsível.

Mudanças

O fato é que as eleições no Senado sinalizam mudanças na paisagem da política: 1. Extingue-se o que Bolsonaro designava, em sua campanha, como a nova política ou a antipolítica, como queiram; 2. Vai para o lixo a prerrogativa, no Senado, de conceder ao maior partido o comando da Casa (hoje é o MDB); 3. O conceito de independência do Legislativo continuará a ser peça de ficção; 4. O Centrão dará as cartas em um primeiro momento, mas será um milagre se continuar cacifando o jogo por mais de um ano; 5. Grandes partidos, como PSDB, DEM e o próprio MDB, assumem explicitamente sua identidade de Janus, o deus de duas caras: uma, a de um homem velho, de cabelos longos e enorme barba; outra, um rosto jovial, de cabelos não tão longos e sem pelo na face. Janus é a entrada e a saída; 6. Em suma, as eleições no Legislativo confirmam a hipótese da sentença: plus ça change, plus c'est la même chose (quanto mais muda, mais permanece a mesma coisa).

O divisionismo

A atração do Centrão para fincar estacas na administração de Bolsonaro atende ao seguinte pressuposto: quanto maior a divisão de alas que habitam o centro do arco ideológico, com ramificações à esquerda e à direita, maior a probabilidade de o capitão-presidente levar a melhor no pleito de 2022. Ou seja, ele prevê que a dispersão do centro produzirá um conjunto de candidatos nessa esfera, deixando que ele e o PT voltem a ser os polos de uma batalha contundente: nós, os libertários, contra eles, os comunistas, os destruidores dos valores da família. O comandante parece esquecer a lição de Heráclito de Éfeso: ninguém entra em um rio duas vezes no mesmo lugar. As águas serão outras. O espírito do tempo puxa suas circunstâncias. Ou seja, a economia, a alegria ou a tristeza, a felicidade ou a infelicidade, uma quantidade maior ou menor de dinheiro no bolso, os impactos duradouros da gestão/congestão da economia, o rolo das pressões e contrapressões, o estágio civilizatório do país - serão, entre outros, fatores a determinar a caminhada dos eleitores em outubro de 2022.

O perfil do líder

Nessa moldura, a própria índole de Sua Excelência estará sob o olhar das massas. Continuará a ser o fogueteiro que incendeia o ânimo de um grupo que habita a parte da extrema direita do arco ideológico? Terá adocicado a língua amarga? Seus filhos persistirão no monitoramento da administração? O presidente ainda ouvirá o eco dos gritos clamando pelo "mito"? O senador Flávio, o número 1, já teria resolvido seu caso na Justiça? Paulo Guedes ainda estará no leme na economia? O auxilio emergencial continuará bancando o apoio de parcela ponderável das massas? Respostas a essas questões influirão na avaliação positiva/negativa do líder. (É possível que vejamos certo impulso ao neopopulismo).

Maia

Rodrigo Maia deixa a presidência da Câmara muito comovido. Chorou em seu discurso, o que é compreensível ante a traição que sofreu com a debandada de muitos de seus aliados, incluindo seu próprio partido, o DEM, que liberou a bancada para votar em Arthur Lira. Maia foi um dos melhores presidentes da Câmara. Merece figurar na galeria dos grandes. Será difícil permanecer no DEM. Para onde ir? Mais adiante, conhecendo bem o corpo parlamentar, poderá se transformar em exímio articulador das forças de centro-direita e centro-esquerda. A conferir.

Homenagem a Nelson

Dia 10 de fevereiro, quarta-feira, às 17h, será realizada pela Academia Norte-rio-grandense de Letras a homenagem in memoriam ao acadêmico Nelson Ferreira Patriota Neto, sucessor 3 da cadeira 8, que tem como patrona Isabel Gondim. A Saudação de Louvor será proferida pelo acadêmico Lívio Oliveira, que ocupa a cadeira 15. Nelson, escritor, jornalista, sociólogo, tradutor e crítico literário, faleceu aos 71 anos, dia 6 de janeiro, deixando uma vasta obra, com destaque para Livro das OdesColóquio com um Leitor Kafkiano-ContosUns Potiguares- Escrito sobre as Letras Norte-rio-grandensesUm Equívoco de Gênero e Outros Contos e Tribulações de um Homem chamado Silêncio.

Postado às 08h45 | 03 fevereiro 2021 |

TEMPOS DE BARBÁRIE

É fato inquestionável que a modernização melhorou a base material da civilização. Mas teria contribuído para melhorar as dimensões morais e éticas da Humanidade? A resposta é não. E a argumentação leva em conta aquilo que o professor Samuel Huntington, de Harvard, chama de “paradigma do caos”: Estados fracassados, anarquia, repulsa aos princípios democráticos, inclusive no seio das maiores democracias mundiais, caso dos Estados Unidos, quebra da lei e da ordem, ondas de criminalidade, cartéis de drogas, deterioração dos valores da família e assim por diante.

O caos se instala em todos os quadrantes do planeta, sob sistemas democráticos vivendo momentos de tensão e risco, e ante a frustração de não se alcançar a regra fundamental para a convivialidade planetária: a necessidade de que uma civilização se esforce para buscar e consolidar os valores em comum de povos de outras civilizações. Tarefa que parece cada vez mais distante pela diferença entre gentes e Nações, Ocidente e Oriente, muçulmanos, cristãos de todas as seitas, ateus, enfim, os povos que habitam o planeta nesse início de segunda década do século XXI. Será que não existiria um elo que pudesse transcender vontades individuais, uma corrente que fosse capaz de unir as fronteiras, agregar interesses, criar aspectos uniformes em todas as culturas?

Difícil. Mas sem essa unidade global em torno de anelos comuns, estaremos cada vez mais corroendo os níveis da vida humana no planeta. E ameaçando destruir os pilares da existência do ser humano. Essa projeção pode ser entendida como catastrofista, mas é isso mesmo. Não estamos vendo, a cada dia, a foice da morte abater milhões aqui e alhures? Já são mais de 2 milhões de mortos pela Covid-19. E quem garante que ameaças não estão à espreita?

O fato é que estamos vendo ressurgir a barbárie. A paisagem é mais agressiva do que aquela dos filmes do velho oeste americano, quando desfilam bandidos e homens da lei, uns matando os outros, com balaços que nunca esvaziam os arsenais (como é divertido ver Clinton Eastwood, dirigido por Sérgio Leone, mastigando seu charutinho e fazendo um escarcéu). A paisagem de hoje é de barbárie. As democracias – governo do povo pelo povo e para o povo, na antológica frase de Abraham Lincoln em 1863 – estão sendo corroídas por dentro, usando-se artifícios como dribles legais em nome da Constituição, falsidades, mentiras tonitruantes repetidas à exaustão para que ganhem o tom da verdade.

Pois foi isso que ocorreu nos EUA, com Donald Trump, ocorre em muitas Nações e também por nossas plagas, como se viu com esta preciosa pérola sobre democracia, pinçada do dicionário do nosso governante-mor: “Quem decide se o povo vai viver democracia são as Forças Armadas”. Ora, trata-se de um libelo contra a democracia, que apenas traduz a índole autoritária do Chefe de Estado do país.

Imagine-se, agora, o modo de vida do planeta nos dias de amanhã, quando se sabe que a pandemia abrirá um rombo de cerca de US$ 12 trilhões na produção econômica global, tirando o Brasil do ranking das 10 maiores economias mundiais. A pobreza mundial aumentará, fazendo padecer ainda mais massas carentes, como as do nosso país, que tem 50 milhões abaixo da linha da pobreza, os EUA, com 25 milhões e a Europa com 70 milhões.

A tendência dos países é de tentar salvar suas economias, ampliar o cobertor social, salvaguardar seus Tesouros, apesar de os Estados Unidos de Joe Biden anunciarem políticas abertas aos imigrantes, respeito à pluralidade, defesa do meio ambiente, o que nos leva a imaginar que os grupos do nacional-populismo irão fazer pressões em sentido contrário.

Estamos diante da possibilidade de a China se transformar na maior potência econômica já nos próximos anos, conduzindo-nos à outra hipótese: as democracias serão instadas a mudar posturas, flexibilizar políticas, banir preconceitos sob o pragmatismo dos mercados. E a evitar as ameaças que, segundo o Relógio do Juízo Final (criado em 1947 por cientistas atômicos), pairam sobre nossas cabeças: avanços russos, americanos e chineses em mísseis hipersônicos, riscos de uma guerra entre a Índia e o Paquistão, o desmantelamento do acordo nuclear iraniano e o risco de guerra com os EUA, novos armamentos da Coréia do Norte e a Guerra Fria 2.0 entre Pequim e Washington.

Que os ponteiros do Relógio nos afastem do Juízo Final.

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