Porandudas políticas

Postado às 09h30 | 20 janeiro 2021 |

A VIDA É BREVE

Sêneca, o filósofo que nasceu em Córdova, na Espanha, no ano I a.C, alertava: “não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores”.

Motivo-me, mais uma vez, a deixar de lado a análise política, tarefa cumprida na minha coluna semanal Porandubas, no site Migalhas, para percorrer o labirinto da consciência e tentar ver como deixei a vida passar sem ter percebido. E o que me leva a esse exercício? A sensação de que, no meio (ou ainda no início?) do furacão desencadeado por esse medonho Covid-19, a vida pode me escapar num átimo de segundo, a mostrar que a eternidade está ali, a um palmo na nossa frente.

E como tenho percebido os dribles que, em alguns momentos, me fazem pensar que continuo portando o vigor da adolescência, a capacidade mimética de me adaptar aos sabores e dissabores da vida? É fácil constatar. Basta ir ao espelho e ver que o tufo de cabelo encompridando a cabeça deu adeus, criando duas entradas profundas na testa e abrindo uma seca várzea no cocuruto. Ainda bem que a carequice não tem avançado.

Fossem essas observações estéticas as únicas maneiras de constatar que a adolescência se escondeu no baú de memórias, os sentimentos não seriam tão doloridos. Mas há vazios mais profundos. A percepção de que eu poderia ter conversado mais com meu pai, que nasceu no final do final do século XIX, foi autodidata, político, fazendeiro e, sobretudo, uma pessoa que acolhia bem os mais carentes. O silêncio estava ali ao nosso redor, mesmo que ele tivesse mil perguntas a fazer ao filho que só o via nas férias. Podia ter aprendido mais com ele naqueles tempos de muito trabalho, honra à palavra dada, compromisso com a verdade, zelo pelas coisas. Meu pai amolava a gilete com que se barbeava numa pedra sabão. Objeto descartável? Jamais teve conhecimento.

A amizade é a cola da fraternidade e da solidariedade. Os amigos fazem brotar os valores do compartilhamento e de uma sociedade mais convivencial. E o que ficou deles? A distância física quebra elos, a rotina do cotidiano com muito trabalho cria oceanos entre os amigos, os laços de amizade vão se esgarçando e se desmanchando. Percebo que deixei a vida se esvair por essas frestas de distanciamento, ao cortar contatos, ao esquecer nossos caminhos encruzilhados no passado, ao entrar na corrida pela competitividade, reconhecendo que essas decisões podem ter corroído a humanidade que nos habita.

“Olhe a régua, olhe a régua”, sempre nos alertava o amigo Vanderlei, famoso neurocirurgião, natural da Paraíba e hoje também habitante destas plagas paulistas. E mostrava: até aqui, a régua marca 50, apontando para o meio. Quando passa daqui, a régua costuma apressar o tempo. Pois não é que me lembro dessa régua quase todos os dias e vejo que o tempo corre? A vida é mesmo breve. Parece que o alerta da régua foi ontem. Mas faz mais de duas décadas. O que deixei mais de fazer?

Ler mais. Sou um bom leitor de livros. Mas poderia ter usado o tempo com mais leituras, mais reflexões. E a escrita? Ah, nessa área, sob minha absoluta crença, tenho feito o possível. A ponto de ser cobrado com juros e correção monetária pelo exercício de ficar horas e horas à frente de um teclado de computador ou, nos idos de ontem, teclando numa velha máquina de escrever. E que juros são esses? Uma coluna arrebentada, com achatamento e compressão de vértebras, dores nas articulações, enfim, essa herança transmitida por ficar sentado numa cadeira o dia inteiro.

Constrangido pela fatalidade, como diz o puxão de orelhas de Sêneca, sinto que poderia ter sido mais comedido, com o bom senso de alternar os movimentos do corpo. As coisas ruins se passaram sem que tivesse percebido ou, mesmo percebidas, foram continuadas.

Talvez seja por isso que os velhos álbuns do passado tenham hoje tanta significação. Pois permitem que vejamos nossos corpos sem barrigas salientes, mais apolíneos e menos dionisíacos, tufo de cabelo na testa e sem jamais imaginar que, um dia, o danadinho de um vírus fosse capaz de atazanar nossas vidas.

Postado às 09h15 | 20 janeiro 2021 |

OS HORIZONTES TURVOS DA DEMOCRACIA

O tema começa a frequentar os foros mais avançados da democracia: a influência da tecnologia e da inteligência artificial na esfera da política. O pressuposto central é o de que a personalidade de uma pessoa pode ser decifrada por processos de reconhecimento facial, que tem como base os estudos feitos por um controverso professor da Universidade Stanford, o polonês Michal Kosinski. A polêmica ganha intensidade desde a campanha americana de 2016, a da eleição de Donald Trump, que teria usado algoritmos extraídos de feições para identificar a orientação política de eleitores. E, a partir daí, influenciá-los com intensas cargas de conteúdos.

À sombra dessa hipótese, como pano de fundo, desenham-se imensos painéis que tratam da crise da democracia, do conflito recorrente entre o escopo do liberalismo e o ideário democrático (podem conviver ou tendem a se afastar?), os sistemas partidários e seus caminhos pelo centro, pela esquerda ou pela direita, o nacional-populismo, com seu movimento de vaivém.

Bobbio, em seu clássico O Futuro da Democracia, faz um alerta: “o pensamento liberal continua a renascer, inclusive sob formas capazes de chocar pelo seu caráter regressivo, e de muitos pontos de vista ostensivamente reacionário, porque está fundado sobre uma concepção filosófica da qual, agrade ou não, nasceu o mundo moderno: a concepção individualista da sociedade e da história. Concepção com a qual a esquerda jamais fez seriamente um acerto de contas”. O filósofo italiano preocupava-se com o desmantelamento do estado assistencial.

Não por acaso, o nacional-populismo tem expandido seus laços, fazendo emergir no palco da política figuras estrambóticas, impregnadas dos ideais de defesa de suas Pátrias contra “invasões alienígenas”, nesse caso os imigrantes, acusados de sugar riquezas nacionais, de aumentar a desigualdade e contribuir para avolumar os índices de insegurança pública. Com este discurso, tocam fundo no coração de uma “supremacia branca”, esta que se mostra capaz de ameaçar a estabilidade dos países democráticos.

Essa é a moldura sobre a qual se projetam as ferramentas da tecnologia e da inteligência artificial. Ou seja, pelo andar da carruagem, a impressão é a de que o planeta caminha celeremente na trilha do Grande Irmão, o Big Brother, com seus olhos vigiando todos e tudo, extraindo insumos, dados e informações para alimentar os protagonistas do nacional-populismo, reforçando seus poderes, criando em torno deles a figura do mito e puxando a sociedade para os domínios do autoritarismo. Essa caminhada terá muito fôlego, não sendo coisa passageira, exatamente pelo quadro de deterioração que corrói democracias.

Não se chegou, ainda, ao ponto de equilíbrio, pois os espaços do arco ideológico se imbricam e se confundem, a ponto de não se saber mais como caracterizar os sistemas políticos: Sociais-Democráticos? Socialistas? Comunistas? Esquerdistas com certo viés democrático? Direitistas conservadores em defesa de valores tradicionais? Capitalistas de Estado como a China? (Que coisa esquisita essa mimese camaleônica que mescla Estado Autoritário com Estado Democrático de Direito, base do sistema capitalista).

Sobre esse espectro trabalha a engenharia da inteligência artificial, cujos impactos sobre a política são imprevisíveis. Imagine Fulano da Silva, andando no meio da multidão, apressado para não perder o compromisso, sendo capturado por milhares de micro-câmeras, que pinçam seu estado d’alma, preparando-o para se transformar em um “mutante político”? Esse retrato se parece com o quadro pintado por George Orwell no romance Big Brother, de 1984. Entra novamente na mesa de debates o criminalista italiano Cesare Lombroso, defensor da ideia de que criminosos podem ser identificados por suas características físicas. A tese lombrosiana, rechaçada por muitos, agora recebe o impulso da tecnologia. Que tempos estranhos.

O tema volta a esquentar os ânimos nesse momento em que a maior democracia ocidental, os EUA, padece do assalto ao Capitólio, em Washington, evento que abala a confiança da sociedade sobre a capacidade do país suportar a ascensão de políticos batizados nas águas da imponderabilidade.

O fato é que, a cada dia, os horizontes democráticos são cobertos por nuvens escuras.

Postado às 09h00 | 18 janeiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do Piauí.

Hermenegildo

Recebi de Raimundo Junior uma historinha do Piauí que foi contada por seu pai, Raimundo Dias, ao nosso amigo Sebastião Nery, com quem estudou no Seminário. Vejam o inelegível: O candidato contra Jorcelino chamava-se Hermenegildo. O advogado de Hermenegildo, na impugnação de Jorcelino, era Benjamin Lustosa. O dr. Benjamin ficou a audiência inteira tentando provar que Jorcelino era "inelegível". Era "inelegível prá cá, inelegível prá lá". Quando saíram, Jorcelino disse a seu advogado, Raimundo Dias:

- Doutor, o senhor viu como o Dr. Benjamin está louco?

- Por quê?

- Ele passou o tempo todo dizendo que eu era Hermenegildo.

(A fonética entrou mal nos ouvidos de Jorcelino).

Panorama

Como tenho dito e escrito, projetar cenários é um desafio dos mais instigantes para os analistas da política. Principalmente quando fatores imprevisíveis baixam sobre o planeta. Mesmo assim, arriscamo-nos a fazer o exercício. Na esfera mundial, são visíveis certos fenômenos que tendem a se avolumar na esteira da desigualdade, que se expande na economia e seus impactos sobre as Nações. Dentre estes, podemos apontar a polarização política, o enfraquecimento dos partidos de esquerda e centro-esquerda, o declínio das ideologias, a indignação das bases com entes partidários e seus protagonistas, a fragmentação das classes médias, enfim, o solapamento de valores clássicos da democracia.

A crise da democracia

Em seu clássico Sociologia Política, Roger-Gérard Schwartzenberg descreve com primor alguns desses fenômenos, mostrando a ascensão de outros vetores da política - como a emergência dos técnicos/burocratas, firmada sobre a aliança entre políticos e círculos de negócios. Norberto Bobbio, por sua vez, em O Futuro da Democracia, mostrou as promessas não cumpridas pelos sistemas democráticos: a educação para a cidadania, o combate ao poder invisível, a transparência dos governos, a permanência das oligarquias. Já Adam Przeworski, autor do livro Crises da Democracia, ao analisar a recente invasão do Capitólio, a sede do Poder Legislativo, é peremptório: "agora os EUA não podem mais se vender como bastião da democracia". Afinal, o que está acontecendo lá fora e por aqui?

O fanatismo

O fracasso dos governos contemporâneos tem expandido a ira social. Ira que se transforma em busca de "novos profetas e salvadores da Pátria", manifestações populares e mesmo a devastação de espaços públicos. Claro, com a eleição de figuras que mais se identificam com o estilo outsider, como Trump e Bolsonaro, mesmo sendo este um político que passou quase três décadas no Parlamento. Esse fanatismo se encontra com outros eixos, como o religioso, particularmente os credos engajados na extrema direita e comprometidos com defesa da família e de valores tradicionais.

O nacional-populismo

Onde esses grupos encontram um escoadouro para jogar as suas mágoas e encontrar motivação para seu engajamento na vida político-institucional? Na corrente nacional-populista, que defende um escopo pátrio, de fundo populista, com políticas que venham ao encontro de seus anseios, como defesa do emprego para os nativos, não para imigrantes, que deverão ser proibidos de entrar no país.

"Cinturão da ferrugem"

É o caso dos Estados Unidos, onde Trump, na campanha de 2016, foi intensamente votado no "cinturão da ferrugem", região localizada no Nordeste dos Estados Unidos, composta pelos Estados de Michigan, Minnesota, Ohio, Iowa, Pensilvânia e Wisconsin, que tiveram uma indústria bem desenvolvida até o século 20, mas depois sofreram com o declínio da economia, desemprego, redução da população e decadência urbana. O nome faz referência às fábricas hoje abandonadas na região. Aí Trump, em 2016, foi consagrado sob o lema o lema "Keep America First" ("Os Estados Unidos em primeiro lugar").

O empobrecimento das classes médias

As classes médias têm perdido seu poder de fogo. Na esteira da crise que se expande para além da pandemia, deteriorando as economias, a sociedade busca novas fontes de poder. As classes médias, que sempre exerceram seu papel de pedra jogada no meio do lago para formar ondas que correm até as margens, dividem-se em grupos com afinidades profissionais, dando origem às bancadas especializadas de representação política, como médicos, advogados, ruralistas, mulheres, transgêneros etc. Ou seja, as vozes que tocam na tuba de ressonância social agora fazem parte de orquestras mais fechadas. As massas acorrem às ruas quando convocadas por suas categorias profissionais. O empobrecimento das classes médias integra o painel do empobrecimento global. Os tais três trilhões de dólares que corriam, como nuvens, para descer nos mercados mais promissores, estão se evaporando.

Outra tuba

Quem está enriquecendo, e muito, são os empreendedores nas áreas do conhecimento tecnológico e inteligência artificial, os promotores de negócios nas áreas de serviços, os apostadores nas invenções que poderão mudar o curso da Humanidade, como carros elétricos, aeronaves para prospectar condições sobre o futuro da civilização noutros planetas e aqueles que se aproveitam para atender novas demandas dos consumidores. Esse bloco tem como suporte a nova tuba de ressonância social, as redes tecnológicas da Internet.

Explosão

As massas carentes juntam-se aos grupos insatisfeitos e, em caso de agravamento de sua situação - hipótese que leva em conta o destroço das economias - podem formar um gigantesco barril de pólvora. Sinais de erupção já se vêem aqui e ali. Se o "mundo de cima" não der respostas satisfatórias ao "planeta de baixo", não podemos esperar que cresça o Produto Nacional da Felicidade nas Nações. Canaliza-se a insatisfação para os tanques dos movimentos populistas, que poderão eleger figuras estrambóticas e escandalosas. E pior é quando tais figuras ameaçam mobilizar seus simpatizantes com propostas antidemocráticas. Atentem: a invasão do Capitólio ocorreu no seio da maior democracia ocidental, como é conhecida a Pátria de George Washington.

Haverá perigo?

Adam Przeworski acha que a democracia não está em perigo. Suas palavras: "nos últimos 20 anos, mais ou menos, houve um aumento claro de partidos radicais de direita, mas parece que o apoio para esse tipo de radicalismo de direita fica sempre na faixa de 20% a 25%. O fato é que as instituições representativas tradicionais não funcionam muito bem. Se você é uma pessoa pobre no Brasil, no México, na Espanha, na Grécia, e se pergunta o que essas instituições fizeram por você ao longo da vida, a resposta será 'muito pouco'. Desigualdade em alta é sintoma de algo errado com as instituições. A crise veio para ficar, mas não ameaça a existência da democracia na maior parte dos países".

E por aqui?

Por nossas plagas, os fatos ocorridos na contemporaneidade se relacionam a alguns fatores acima citados. Mas algumas situações merecem destaque. Por exemplo, a gestão governamental Federal no combate à pandemia é um caso sui generis de despreparo, desleixo, incúria, irresponsabilidade. Um país de 210 milhões de habitantes, um território continental de riquezas inigualáveis, uma economia que, apesar dos pesares, ainda é uma das maiores do mundo vive um clima de futrica em torno das vacinas e de seus protagonistas. Quem vacinará primeiro? O governo Federal ou o governo de São Paulo? Triste ver o nosso mandatário-mor usar a vacina como mote de suas piadas e os mais de 200 mil mortos como coisa absolutamente natural. "Vacina transformará a pessoa em jacaré".

Autoritarismo

Quase todos os dias vemos cenas de descontrole e falta de planejamento por parte das autoridades Federais. E, no meio da bagunça, sobram espaços para piadas e chistes, declarações que não dizem nada - "a vacinação vai começar no dia D na hora H". Essa pérola de autoria do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, deve brilhar no museu da esquisitice. Mas é preocupante a relação de coisas absurdas que se espraiam: uma investigação criminal sobre os jornalistas Ruy Castro e Ricardo Noblat, o primeiro por ter sugerido, em artigo na FSP, que tanto Trump e Bolsonaro poderiam seguir o caminho do suicídio para ganhar fama na história. O segundo, Noblat, por ter publicado o texto em seu blog. O tom de galhofa com que Castro se refere a Bolsonaro é bem diferente da defesa da tortura que o presidente sempre fez e faz questão de fazer nos tempos do regime militar.

Ausência de líderes

Infelizmente, nos horizontes de nossa política, não se enxergam líderes, perfis de respeito, autoridade e sapiência que possam traduzir a chama da esperança. Os nossos representantes vivem na arena da política de interesses, saindo de uma eleição e já se preparando para outra, não dando tempo nem para limpar destroços das administrações em fim de mandato. Uma eleição atrás da outra, com poucas opções de escolha, acaba amortecendo a motivação de eleitores. E quando o bolso apertar mais ainda, com a extinção ou diminuição do auxílio emergencial, é possível prever contingentes desesperados saindo às ruas para cobrar o que lhes prometeram. Da mesma forma, a fome, como a vacina, não tem ideologia.

Na padaria

Conversa entre dois senhores de cabelos grisalhos esperando pelo pão. "Fulano, como eu tenho também a nacionalidade portuguesa, corri a Lisboa para me vacinar. Me vacinei e aqui estou de volta". Números de contaminados sobem diariamente.

 

Postado às 08h30 | 12 janeiro 2021 |

DEUSA DA LIBERDADE ESTÁ COM VERGONHA

Apaga-se uma tocha. Erguida na mão direita da Estátua da Liberdade, o símbolo plantado no rio Hudson há 135 anos para iluminar o ideário da democracia americana recebeu uma carga de lama que acabou respingando sobre a Declaração da Independência dos Estados Unidos, que a deusa romana Libertas segura não mão esquerda. 6 de janeiro de 2021 ficará na história norte-americana como o mais triste dia de sua trajetória democrática. A deusa está com vergonha.

Nessa fatídica data, o Capitólio, sede da Câmara dos Representantes e do Senado, conhecido por ser um dos lugares mais guardados do planeta, foi invadido por manifestantes açulados pelo (nada mais, nada menos) chefe do Executivo, o republicano Donald Trump, inconformado por ter perdido a eleição para o democrata Joe Biden. A tocha apagada pela torpeza do chefe de Estado, o mais tosco político que já habitou a Casa Branca, infelizmente terá consequências sobre as democracias do planeta, cujos protagonistas podem, mais cedo ou mais tarde, querer imitar a índole autoritária do bilionário americano.

Não há como deixar de lembrar a pena do brilhante advogado francês Alexis de Tocqueville que, aos 27 anos, escreveu em 1832 um dos mais belos livros do século XIX, A Democracia na América, depois de ter passado uma temporada nos EUA para conhecer o sistema judiciário. Assim registrava o espírito público que viu: “quando os povos ainda são simples nos seus costumes e firmes nas suas crenças, quando a sociedade repousa suavemente sobre uma ordem de coisas antigas, cuja legitimidade nunca é posta em dúvida, vê-se reinar esse amor instintivo pela Pátria...amor que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível que liga o coração do homem aos lugares onde nasceu”.

E o que pode explicar o terrível episódio que tirou a vida de quatro pessoas, obrigou senadores e deputados a ficarem de cócoras, permitindo que a matilha de cães furiosos depredasse móveis e espaços, chegando alguns a ocupar a mesa central do comando parlamentar? A ambição desmesurada. Cito em um dos meus livros o pensamento do cientista político Robert Lane que, em Political Life, explica como o excesso de ambição pelo poder funciona como um bumerangue. Diz: "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

Com o maior sistema democrático do planeta, como é reconhecido, os Estados Unidos acabam de ver ameaçada esta posição, eis que não faltarão aqueles dispostos a fazer maléficas comparações. Um senador republicano, atentem bem, chegou a dizer que o país dava o mesmo exemplo de uma “República de bananas”. Os europeus estão escandalizados. A França, que fez a doação da Estátua da Liberdade aos EUA, aduz que o símbolo mais visível da democracia americana, seu presente fincado no porto de Manhattan, em Nova Iorque, já não será visto como imaculado, sagrado, imune às pedradas das hordas radicais. Boris Johnson, do Reino Unido, que parecia conservar certa amizade com Trump, chamou o episódio “uma vergonha”. Ângela Merkel, da Alemanha, ficou “triste e furiosa”.

Já o nosso Chefe de Estado garante que a cena da invasão ao Congresso americano, caso o voto impresso não seja instituído, pode ocorrer por aqui. E, sem provas, voltou a dizer que a eleição nos EUA foi fraudada. “Mortos votaram, foi uma festa lá.” Ora, nenhuma Corte americana viu fraude. Trump, que tem menos de duas semanas no poder, ficou isolado dos próprios correligionários. E não contou com a simpatia das Forças Armadas para sua tentativa de golpe. Por nossas plagas, nossas Forças pautam-se por uma agenda profissional, fazendo lembrar o preceito: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Postado às 15h45 | 06 janeiro 2021 |

Porandudas polìticas

Abro a primeira coluna do ano com uma historinha de Caruaru.

Uma infelicidade

Em Caruaru/PE, o coronel João Guilherme, senador estadual e chefe político, comprou a um matuto um cavalo de sela. Cavalo bonito, mas com a pálpebra caída. Cego de uma das vistas. Ao descobrir o logro, o coronel ficou indignado. Fez vir à sua presença o espertalhão. Ameaçou-o de cadeia.

- Você teve a coragem de me vender um cavalo cego dum olho! Isso é uma falta de seriedade! Você fez negócio com um homem e não com um tratante da sua laia! Por que você não teve a franqueza de me dizer que o cavalo tinha esse defeito?

- Mas, seu coronéu, vamincê me desculpe que eu lhe diga: o cavalo que eu lhe vendi não tem defeito, não!

- Não tem defeito? Não tem defeito? Então, você acha que um cavalo cego dum olho não tem defeito?

- Seu coronéu, vamincê me desculpe, mas eu acho que não tem não! Ser cego não é defeito: ser cego é uma infelicidade...

(Historinha de Leonardo Mota em Sertão Alegre)

2021 sob olhar desconfiado

Começa 2021. Os olhares diferem de foco e perspectivas. Uns olham para as cargas de vacinas que já chegaram e as que vão chegar. Há dúvidas sobre os rumos a seguir. O olho federal enxerga a imunização de um jeito. Os olhos de Estados e municípios não sabem bem para qual direção fixar sua atenção. Parcela da população nem pelas vacinas perde tempo, sob o descrédito da algaravia criada em seu entorno. O Brasil abre as cortinas do novo ano sob uma imensa sombra, que fecha os horizontes e turva a visão.

Que vacina tomar?

Alguns estão na dúvida: que vacina tomar? A pergunta que muitos fazem leva em conta a disponibilidade para escolher a vacinas. Pois vamos lá: não haverá essa possibilidade. Quem não tomar a que estará à disposição, perderá a vez. Daí a sugestão do bom senso: tome a primeira a que você, leitora/leitor, tiver acesso. Claro, depois de referendada pela agência de controle, a Anvisa. Se a eficácia for de 70%, vá em frente. Não espere a de eficácia de 95%. Um dia, uma semana ou um mês a mais poderá fazer diferença. E ninguém pode ser dar ao luxo de esperar pela vacina de maior eficácia. A segunda onda, pelo que se apura, está sendo mais perigosa do que a primeira.

Bolsonaro

O presidente continua a fazer muxoxo ante vacina a, b ou c. Está firme em sua posição - fazer aglomeração, não usar máscara ou usá-la apenas em eventos no Palácio do Planalto, considerar besteira essa ansiedade para tomar a vacina (no que é imitado por seu ministro da Saúde, Pazuello), não induzir ninguém à vacinação, muito pelo contrário. Seu foco é o encontro com as massas, uma escapada do Palácio ou um nado no mar para abraçar e ser abraçado pela galera na praia para ouvir o grito de guerra: mito, mito, mito.

É o mito

Jair Bolsonaro é um mito? Será que pode ser comparado a Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Getúlio Vargas, que tinham a admiração das massas? Está a léguas de distância. Não pode ser comparado nem aos generais dos tempos de chumbo, que tinham um programa a cumprir e até certo espírito democrático, como historiadores atribuíam, por exemplo, a Castelo Branco. Na verdade, o capitão está muito embaixo da régua do preparo e da competência, não apenas pela pequena formação obtida até o grau de tenente, sua patente antes de se aposentar, mas pela conduta que foge completamente à liturgia que deve cercar a figura do presidente da República e de um chefe de Estado.

Por que o mito?

Porque era a opção que o eleitorado enxergou para evitar a volta do PT ao poder. Ganhou em 15 Estados e no DF de Fernando Haddad. Encaixa-se na historinha: quem não tem cão caça com gato. Preencheu, ao mesmo tempo, o sonho da direita, que esteve recôndita ao longo de décadas. Valores tradicionais foram encarnados por Bolsonaro, que mediu o tamanho oceânico do vácuo entre a classe política e a sociedade. Tapou o buraco com sua presença. Mas o tampo não foi uma roda completa. Digamos que tenha sido uma roda um pouquinho maior do que a metade. Hoje, a maior parte da roda está contra ele.

Puxar o passado

Outra pergunta recorrente: e por que o capitão continua desaforado, xingando uns e outros, vituperando contra adversários, batendo em teclas de uma obsoleta máquina de escrever, quando todos (ou quase) preferem usar o teclado do computador? A imagem serve apenas para dizer que o presidente tem obsessão por coisas ultrapassadas. E não adianta dizer para ele que parceiros que gostam das mesmas coisas, como o ricaço Donald Trump, perdeu a eleição norte-americana por não querer ver traços de modernidade na sociedade e por um estilo arrogante com o qual passa a imagem de onipotente. Não é que, a essa altura, o cara ainda acha que ganhou a eleição no território da maior democracia do planeta?

Segurar a base

Mas não é apenas esse gosto de ressuscitar o passado, na forma de elogios e defesa da tortura e outras maluquices, que distingue a índole do capitão. Ele sentiu que uma base de apoio popular se faz necessária para criar o clima de campanha permanente. Nesse sentido, faz o que Lula, do PT, sempre fez. Campanha todo tempo, palanque como candidato e palanque como presidente. Bolsonaro precisa oferecer alimento para as galeras que o aplaudem. E veste-se com a roupa do homem comum, "uma pessoa como nós", que mergulha no mar, faz piadas, levanta e beija criancinhas, toma café na padaria, corta o cabelão com Mané Barbeiro, chega de surpresa nos ambientes e, sob os gritos de "é ele mesmo", puxa o laudatório "é o mito, é o mito, é mito". Refrão de campanha política. Equivale ao "Lula-lá" e ao "oPTei", criados pelo publicitário Carlito Maia, décadas passadas.

Aliás....

Essa mania de apontar o candidato ou o governante como sendo isso e aquilo faz tradição por nossas plagas. Gleiber Dantas de Melo, em sua dissertação de mestrado, (Análise Discursiva do Governo do Monsenhor Walfredo Gurgel-1966-1971), apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Avançado Profa. "Maria Elisa de Albuquerque Maia" (CAMEAM), como requisito para o título de mestre em letras, narra o seguinte sobre a campanha de 1965 para o governo do RN, disputada por Dinarte Mariz e Monsenhor Walfredo Gurgel.

É o velho, é o padre

- Não obstante serem Dinarte e Walfredo quase de uma mesma idade - aquele, nascido em 1903; este, em 1908 -, logo, e quase espontaneamente, se definiram os gritos da guerra eleitoral que estava por começar. Os correligionários de Dinarte, àquela altura com bastantes cabelos embranquecidos, gritavam: "É o velho, é o velho, é o velho!"; era mais fácil dizer assim do que repetir todo o slogan de sua campanha política: "O velho tinha razão!". Os eleitores de monsenhor Walfredo faziam a ofensiva, bradando: "É o padre, é o padre, é o padre!".

O velho outra vez

Mais uma de velho, desta feita com o mito Getúlio Vargas. Durante o Estado Novo (1937-1945), o retrato oficial de Getúlio Vargas, com a faixa presidencial, tirado em 1934, figurava também na parede dos lares, até de não-simpatizantes, por precaução. Com a deposição de Getúlio, após quinze anos no poder, o retrato saiu de cena. Mas, em 1950, Getúlio volta à chefia da Nação, agora eleito pelo povo, e o resultado foi uma marchinha de sucesso, cantada por Francisco Alves na folia de 51, conclamando a volta do retrato e ironizando os antigetulistas. (Letra: Bota o retrato do velho outra vez; bota no mesmo lugar; bota o retrato do velho outra vez; o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar; eu já botei o meu; e tu não vais botar; eu já enfeitei o meu e tu não vais enfeitar. O sorriso do velhinho faz a gente se animar).

O espírito do ano

Como fica implícito nas notas acima, o espírito do ano será impregnado pela política. Podemos prever o acirramento entre bolsonaristas e contrários. Poderia haver certo arrefecimento em caso de harmonia social, fruto, por sua vez, de economia alavancada. Essa possibilidade é remota. Será desafio o destravamento das engrenagens da economia. Os blocos partidários na Câmara e no Senado afiarão as suas espadas. O tom de beligerância seguirá em um crescendo até 2022.

Reforma ministerial

Para tentar adensar sua base política, o presidente deverá promover trocas de ministros. Não deu resultados, ministro cairá fora. A troca será constante, o que ocasionará muita desconfiança à esfera política. E à medida que o presidente vá esgarçando sua teia de apoio popular, os políticos tendem a se afastar do Palácio do Planalto. Olho por olho, dente por dente.

Enem

O Ministério da Educação acaba de apresentar o calendário do ENEM. Abaixo algumas pérolas dos testes do passado, enviadas por leitores:

- A fé é uma graça através da qual podemos ver o que não vemos.

- Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes da Mesopotâmia.

- O objetivo da Sociedade Anônima é ter muitas fábricas desconhecidas.

- A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva.

- O ateísmo é uma religião anônima.

- A respiração anaeróbica é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos.

- O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa unidade de tempo.

- Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto.

- Caráter sexual secundário são as modificações morfológicas sofridas por um indivíduo após manter relações sexuais.

- Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigênio.

- A harpa é uma asa que toca.

- O vento é uma imensa quantidade de ar.

- O terremoto é um pequeno movimento de terras não cultivadas.

- Os egípcios antigos desenvolveram a arte funerária para que os mortos pudessem viver melhor.

- Péricles foi o principal ditador da democracia grega.

- O problema fundamental do terceiro mundo é a superabundância de necessidades.

- A unidade de força é o Newton, que significa a força que se tem que realizar em um metro da unidade de tempo, no sentido contrário.

- Lenda é toda narração em prosa de um tema confuso.

- O nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro.

- A febre amarela foi trazida da China por Marco Polo.

Postado às 16h00 | 05 janeiro 2021 |

Porandudas politicas

Abro a coluna com Arandu, São Paulo.

Emprego pro prural

Arandu, em São Paulo, começou sua história como pequeno povoado, no bairro do Barreiro, no município de Avaré. Em 1898, um pedaço de uma fazenda leiteira da região foi doado para a construção de uma capela. Elevado a distrito de Avaré/SP, em 1944 recebeu na ocasião a atual denominação. Em 1964, conquistou a emancipação política. No primeiro comício, os candidatos a prefeito exibiam seus verbos. Dentre eles, o matuto José Ferezin. Subiu ao palanque e mandou brasa:

- "Povo de Arandu, vô botá água encanada, asfaltá as rua, iluminá as praça, dá mantimento nas escola...".

Ao lado, um assessor cochichou:

- "Zé, emprega o plural".

O palanqueiro emendou:

- "Vô dá emprego pro prural, pro pai do prural e pra mãe do prural, pois no meu governo não terá desemprego". (Historinha enviada por Marcio Assis)

Panorama visto da ponte

Da ponte entre a pandemia e os tempos tão esperados da pós-pandemia é possível distinguir traços do panorama: 1. Ela não irá embora, devendo dar as caras aqui e acolá, sem aviso prévio; 2. A Covid-19 deverá comparecer às urnas dentro da cabeça de eleitores medrosos, daí a previsão de que o índice de abstenção em 15 de novembro, junto aos nulos e brancos, deverá ultrapassar a casa dos 30%; 3. A campanha será nacionalizada nas capitais e grandes cidades, apesar do esforço de candidatos para deixá-la restrita aos espaços municipais; 4. O apoio de Bolsonaro a alguns candidatos será uma alavanca em rincões mais distantes, mas poderá se transformar um bumerangue (efeito contrário) em São Paulo, por exemplo. Tem mais pela frente.

Nuvens cinzentas

Ainda do meio da ponte da transição entre o Brasil pré e pós-eleição de novembro, são perceptíveis as nuvens cinzentas que baixam sobre alguns terrenos, como o da economia. A lei do teto deverá ser cumprida com muito esforço, após essa tentativa de reaproximação entre Paulo Guedes e Rodrigo Maia. O presidente da Câmara chegou a pedir desculpas por ter sido grosseiro com Guedes. E este saiu do encontro confortado com as palavras e compromissos assumidos por Maia e Davi Alcolumbre. Vai se arrumar maneira de conseguir um dinheirão para o Renda Cidadã. Provavelmente da seara do Imposto de Renda. Mas os pedidos de "me dá um dinheiro aí" vão se multiplicar. E ofuscar a escalada de obras previstas. Dívidas de curto prazo chegam a R$ 1 trilhão.

Debulhando a espiga

Vejamos o que mostra a espiga de milho sobre o quadro eleitoral em São Paulo, o maior colégio do país. São Paulo sedia as maiores classes médias, os maiores grupamentos de profissionais liberais, os mais densos contingentes de trabalhadores, em suma, o mais contundente rolo compressor contra o status quo, e que contém: corrupção, maus serviços públicos, governantes desastrados, inércia e inação, etc. O pensamento racional do país se desenvolve com força em São Paulo. E o que as pesquisas dizem? O maior índice de rejeição em São Paulo é o de Bolsonaro, com 46%, sendo o segundo de João Doria, 39%. Ora, colar o nome de um ou outro candidato aos perfis rejeitados pode ser um bumerangue, fazendo efeito contrário.

Rejeição

A rejeição é uma das maiores barreiras enfrentadas pelos candidatos, que tendem a olhar apenas para os índices de intenção de voto. Russomano, com 24%, e Bruno Covas, com 18% na pesquisa Ibope estão no limite do empate técnico. Daí a necessidade de se fazer acurada leitura sobre a rejeição, os blocos que a fazem, a tendência de polarização, as maneiras como trabalhar a campanha para diminuir seus impactos. Urge lembrar, nesse momento, que as classes médias e os núcleos de profissionais liberais exercem extraordinária importância na moldura eleitoral - em um ambiente polarizado - por sua identidade de "pedra no meio do lago". Jogue-se uma pedra no meio da lagoa e as ondinhas correrão até às margens. Essa é a capacidade de classes médias de influenciar o voto das margens.

Russomano e Covas

Celso Russomano construiu a imagem de defensor do consumidor com seus programas de TV ao longo de três décadas. Mas não entra bem no sistema cognitivo do meio da pirâmide, que o identifica como perfil demagógico, de viés oportunista. Já seu vice, o ex-presidente da OAB/SP, Marcos da Costa, poderá atenuar as bordas sujas da imagem russomânica. Bruno Covas tem o sobrenome do avô, Mário, cuja imagem é das melhores no campo dos valores. E enfrentou um câncer de maneira corajosa e até arrojada, merecendo o respeito da população. Mas não ganhou a lapidação do grande gestor, de um gerentão capaz de alavancar um forte programa de obras. Esses são alguns prós e contra dos dois candidatos que lideram a corrida municipal em SP.

Trumpinando

Esse presidente norte-americano, Donald Trump, é mesmo um fanfarrão. Recebeu a visita da Covid-19, mostrou medo, correu para um bom hospital, sob a assistência de médicos especialistas, tomou drogas fortes, recebeu doses de oxigênio, saiu no meio da sua "gripezinha" para um passeio em que acenou para simpatizantes, fechou os vidros do carro, com ameaça de contaminar os agentes secretos, recebeu alta e manda o recado: "não tenham medo desta Covid-19. Eu venci. Saiam às ruas". E deve usar a pandemia como arma contra Joe Biden. Pilantragem não tem só por aqui.

Razão sobre emoção

Se a razão vencer a emoção, Trump estará perdido. Mas as suas bases se mobilizam sob a corrente da emoção. Iguais às de Bolsonaro. O voto sobe à cabeça, sim, mas com certa lerdeza.

Guedes

Paulo Guedes está mais humilde e, se não houver mais nenhuma turbulência, ele aguentará o voo até 2022. Mas são fortes os comentários no entorno da cúpula de que o ministro da Economia está com o copo quase transbordando.

Amiúde

A estudantada está esperta. Dia desses, um aluno de um grupo de trabalho da Universidade Federal do ABC, que se destaca pela qualidade de seu professorado, inseriu em um texto o advérbio amiúde. Um colega retrucou: por que não substituir por "com frequência"? A grita foi geral. Choveram protestos sob mensagens que pediam a permanência do advérbio. E indicavam letras de musicas: Chão de Giz, de Zé Ramalho: "Eu desço dessa solidão/Espalho coisas sobre um chão de giz/ Há meros devaneios tolos a me torturar/ Fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde"; Geni e o Zepelin, de Chico Buarque: "De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/ Ela já foi namorada/ O seu corpo é dos errantes/Dos cegos, dos retirantes/ É de quem não tem mais nada/Dá-se assim desde menina/ Na garagem, na cantina/Atrás do tanque, no mato/ É a rainha dos detentos/Dos moleques do internato/E também vai amiúde".

O Brasil real

A nomeação do desembargador piauiense Kassio Nunes para o STF vai ser palatável com mais um pouco de tempo. Os evangélicos querem apenas fazer barulho e garantir a vaga de Marco Aurélio, aliás já prometida por Bolsonaro. O presidente percebeu que não governa sem articulação com o Congresso e o STF.

Em chamas

Pantanal, Amazônia, cerrado, caatinga nordestina sem água, o Brasil está em chamas. Perdas incontáveis. Meio ambiente só vai se recuperar em quatro a cinco décadas. O ministro Salles continua arrogante. A criminalidade chega ao ponto de combustão.

Brasil mais plural

Este consultor prevê na composição do primeiro andar do edifício político - prefeitos e vereadores - a construção de um Brasil mais plural, mais representativo das margens e do meio. A participação política de classes e categorias sociais será mais intensa e densa.

21 de outubro

Marcada para o dia 21 de outubro a sabatina de Kassio Nunes Marques no Senado. Passará tranquilamente. O desembargador é bom de articulação.

Campanha eleitoral

À guisa de ligeira orientação.

Conselho aos partidos

1. A negatividade costuma abrir campo nos espaços da mídia eleitoral. Procurem evitar campanhas negativas, caracterizadas por ataques e xingamentos a adversários.

2. Procurem compor programas eleitorais com exposições objetivas e propostas viáveis, demonstrando quanto custarão e de onde virão os recursos.

3. A procura de diferenciais para arrumar os perfis dos candidatos é uma meta desejável e todo esforço de marketing deve ser empreendido para consegui-la. É legítima a comparação de perfis quando dois ou mais contendores debatem suas diferenças no plano das ideias, não na esfera de vida pessoal.

Perfis à mostra

Tenho sido indagado sobre os perfis preferenciais do eleitorado. Cada região tem suas preferências. Há, porém, traços sobre os quais parece haver consenso:

passado limpo, vida decente - candidatos que possam exibir sua trajetória sem ter vergonha de mostrar aspectos de sua vida;

identificação com a cidade - candidatos que busquem vestir o manto da cidade, significando compromisso com as demandas das comunidades e as questões específicas dos bairros;

despojamento, simplicidade - candidatos despojados, simples, descomplicados, sem as lantejoulas e salamaleques que costumam se fazer presentes no marketing exacerbado. Candidatos não afeitos ao 'dandismo' - mania de querer aparecer de maneira diferente;

respeito, decência, dignidade pessoal - candidatos de postura respeitosa para com os eleitores e identificados com uma vida pessoal e familiar digna;

- transparência, verdade - candidatos que não temam contar as coisas como elas são ou foram;

objetividade, viabilidade de propostas, concisão, precisão - candidatos de expressão objetiva e concisa, capazes de fazer propostas viáveis e não mirabolantes. Precisos na maneira de abordar os assuntos.

Fecho a coluna com a Bahia.

Grande prole

Da Bahia, vem a historinha. José de Almeida, contador do Banco do Brasil, fazia o cadastro da agência. Um dia, chega Heroíno Pita, fazendeiro, que respondeu na bucha o formulário: nome, idade, imóveis, renda anual, dívidas. Aí vem a pergunta:

- Quantos filhos o sr. tem?

- 8 filhos

- Tudo isso? O senhor tem uma prole grande.

Heroíno, entre sorridente e cabreiro, faz o gesto com as duas mãos:

- Não, senhor. É normal. Normal.

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