Porandudas políticas

Postado às 10h45 | 25 fevereiro 2021 |

DISTANTES DO SENSO COMUM

Quanto maior a desarmonia social, mais longe a ideia de encontrarmos o senso comum, esse ponto na régua dos hábitos e costumes vivenciados pela sociedade. Pois bem, estamos atravessando um ciclo de intensa dissonância cognitiva, caracterizada por dúvidas, incertezas, polêmicas, que se formam no espírito de um tempo carregado de desolação. Querelas de toda a natureza se espraiam no espaço nacional, a mostrar as diferenças entre alas e grupos. Em tempos idos, dois temas embutiam conflitos de posições: futebol e religião. Hoje, o campo se alarga com a inserção da política, dos governos e suas gestões e, sem dúvida, da crise sanitária deflagrada pela covid-19 e suas variantes.

Qual o fato gerador dessa paisagem tão conflituosa? Não há um aspecto que possa ser identificado como eixo-mor, a não ser que possamos agrupar os principais fatores em torno do que podemos carimbar como Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF). Que junta, por exemplo, dinheiro no bolso, barriga satisfeita, exemplares transportes coletivos, alimento barato, casa habitável, água encanada, esgoto, equipados e eficientes hospitais e maternidades, vacinas rápidas e para todos, enfim, um clima de satisfação coletiva. Esses aspectos nas margens positiva e negativa apontam para o que vem a ser bom senso.

Ademais, conforme narra Guy Debord, em seu livro A Sociedade do Espetáculo, toda a vida “nas sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”. Nessa mesma linha, pontua Roger-Gérard Schwartzenberg, quando descreve em O Estado-Espetáculo,  os protagonistas do palco da política imitando os atores. No mundo atual, o que mais importa aos representantes é aparecer, ganhar visibilidade, dourar a imagem, fazendo com que a cópia seja mais importante que o original, a representação tendo mais destaque que a realidade. “A ilusão é sagrada e a verdade é profana”, arremata Debord.

Tempos de conflito e de ódio destilado nas usinas humanas, que se formam em torno de uns e outros perfis da política utilitarista, aquela que se banha nas águas franciscanas do “é dando que se recebe”. O descrédito campeia de todos os lados. A desconfiança grassa, para lembrar o timoneiro Simon Bolívar que, há mais de dois séculos, fazia ecoar seu lamento: “Não há boa-fé na América, nem entre os homens, nem entre as nações. Os tratados são papéis, as Constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia, e a vida um tormento”. Emboscadas e traições na política nunca pontuaram de modo tão avassalador. A banalização das coisas impregna o cotidiano. A morte? Coisa banal. Mais de mil pessoas morrem por dia no Brasil. O índice já não mais comove.

Pior é sentir que a resignação banha as vontades. “Ah, não há jeito de melhorar, devemos nos acostumar com isso; ah, não tem outro, não; ele vai ser reeleito facilmente; essas oposições partidárias são fracas e não resistem a um rolo compressor”. A linguagem social ruma em direção às encruzilhadas do conformismo, do catastrofismo, da leniência. “Se os maiorais roubam, por que não posso roubar só um pouquinho”? Forma-se uma densa camada de desonestidade, que tem como lume o exemplo que vem de cima, o modus operandi dos maiorais, o novo triângulo que se desenvolve no seio das democracias, juntando políticos, máquinas burocráticas e círculos de negócios. Essa tendência reforça o que alguns autores chamam de “tecnodemocracia”.

E onde estão os remédios ou, melhor, as vacinas éticas e morais de que nos fala o padre João Medeiros Filho, em celebrado artigo recente no jornal Tribuna do Norte (RN), “Uma Vacina em Prol da Ética e da Moralidade”? “Além das vacinas contra a epidemia que grassa pelo Brasil, necessita-se também imunizá-lo contra o ódio, radicalismo, egoísmo, interesses escusos, desrespeito, injustiças e mentira. É incontestável que a fragilidade da saúde pública é um problema crônico, que se arrasta há décadas. Não faltam alertas e denúncias de profissionais e líderes. Não se improvisam soluções duradouras, nem existem respostas automáticas e mágicas. Urge uma dose maior de solidariedade e otimismo. É necessário crescer no altruísmo, inoculando na sociedade mais respeito, diálogo e amor.”

Eis aí uma tarefa para gerações. Altruísmo, civismo, progresso espiritual, elevação moral de um povo são metas que integram o mais alto grau civilizatório. Mas não alcançaremos esse ideal sem a base do edifício da cidadania: Educação. Sem essa semente, a floresta humana não dará bons frutos.

 

Postado às 08h30 | 10 fevereiro 2021 |

ADEUS A UMA LÍDER EXEMPLAR

Daqui a sete meses, dará adeus ao poder uma das maiores líderes da política de todos os tempos: a mulher que em 22 de novembro de 2005 foi anunciada pelo então presidente do Parlamento alemão, Norbert Lammert, como a chefe do Governo da Alemanha: Ângela Merkel, uma doutora em química quântica e também formada em física, que cresceu sob o regime comunista da Alemanha Oriental.

Com quase 16 anos de poder, deixa o cargo sob os aplausos de todo o povo alemão, que festeja com orgulho a mulher simples que não usa vestidos de luxo, não tem empregadas domésticas, mora em modesto apartamento, faz comida com o marido, sóbria, modesta, sincera, sem dribles na linguagem.

- Chanceler, estou vendo que a senhora não troca muito de vestido, não é mesmo?

- Caro jornalista, eu sou funcionária pública, não sou modelo.

Assim a líder que atravessou um imenso corredor de crises, como o colapso do Lemon Brothers, em 2008, que levou a economia mundial ao caos, a crise de imigração, a cisão na União Europeia, as tensões constantes com a França tendo como pano de fundo as posições sobre o futuro da Europa e, mais recentemente, a pandemia da Covid-19, sendo essa crise sanitária a mais difícil de administrar, segundo seu balanço de governo.

Ângela Merkel pode não ser carismática, não brilhante no palco da oratória. Não usa a grandiloquência para adornar seu cotidiano. Mas é altamente confiável, uma mulher flexível, podendo mudar de opinião se as circunstâncias assim o determinarem. É o caso se sua posição pessoal contra a união homoafetiva. Sempre se posicionou contra, mas, em 2017, afirmou que não impediria que o tema fosse colocado em pauta no Parlamento. “Cada parlamentar deve votar de acordo com suas consciências”. A lei foi aprovada por 393 por 226 votos. Da mesma forma, seu partido, o CDU (União Democrática Cristã) foi contra o fim do serviço militar, também aprovado. Essas derrotas não abalaram seu prestígio, fato que pode-se atribuir à expressão recorrente: “vocês me conhecem”.

Chegou-se a verbalizar seu estilo de governar com os verbetes: 'merkelizar', 'merkiavelismo: modus faciendi' da política; mesmo de forma hesitante, sem demonstrações de força ou conflitos diretos, atinge seus objetivosA propósito, o neologismo "zu merkeln", segundo texto da BBC, “significa algo como não ter uma opinião contundente sobre determinado assunto, ser passivo, hesitante. Características que, na política, podem ser virtudes ou defeitos, a depender da situação”. Outro conceito que banha seu perfil é o de Mutti, mãezinha em alemão, aquela que protege.

O fato é que a índole de Ângela Merkel foi a chave para abrir portas entravadas. Mesmo sem maioria no Parlamento, governou com uma grande coalizão, o que explica mudanças de abordagens em algumas matérias. Lançou intensa campanha para mudar o perfil energético da Alemanha, dando um prazo até 2022 para acabar com as 17 usinas nucleares do país. A Alemanha vem batendo recordes no uso de energia renovável.

A imagem de mãe e protetora emerge, por exemplo, na abertura das fronteiras, o que deu à Alemanha o primeiro lugar no ranking de acolhimento aos imigrantes, cerca de 1,3 milhão. E qual foi a expressão-chave para esta política? “Nós conseguiremos”. Que lembra o “nós podemos”, de Obama.

Zelo pelo dinheiro do contribuinte – eis outra estaca na vasta seara da chanceler. “Não daremos dinheiro a países que não conseguem controlar suas contas”. Uma defesa do tesouro alemão. Defesa da indústria e do mercado de trabalho. A economia alemã vive uma fase de crescimento. E, por último, a mais grave crise de seu governo, a pandemia, que considera o maior desafio após a II Guerra Mundial. “Levem a sério”, alertou Merkel. E vieram os lockdowns. A população aceitou a orientação da líder, que chegou ao ponto de emocionar a população: “pode ser o último Natal que você passará com seus avós”.
Eis aí um breve relato sobre uma das grandes condutoras da política na contemporaneidade. O que os governantes poderão aprender com ela? Ora, se absorvessem parcela, mesmo mínima, dos valores que a identificam, já passariam no teste da governança. Humildade, flexibilidade, simplicidade, despojamento, modéstia, sinceridade, defesa do contribuinte, responsabilidade, linguagem adequada, seriedade no trato dos problemas, senso do dever.

E, sobretudo, capacidade de saber o espírito do tempo. Sem viés político-ideológico. A grandeza de um país depende, e muito, da nobreza e da dignidade de seus dirigentes.

 

Postado às 08h30 | 08 fevereiro 2021 |

Porandudas Políticas

Abro a coluna com uma historinha de Tancredo Neves.

"Os livros errados"

Brasília, Congresso Nacional, 11 de abril de 1964. Castello Branco não teve o voto de Tancredo Neves, seu amigo pessoal de longa data, companheiro na Escola Superior de Guerra, em 1956. Tancredo bateu o pé. Comunicou ao PSD que votaria em branco, apesar dos méritos e credenciais do general Castello Branco. Questão de princípio: era contra o golpe. Não queria nem um minuto de regime militar, não abria mão da democracia. Conta-se que, esgotados todos os argumentos dos pessedistas para convencê-lo, o amigo e ex-chefe JK, então senador por Goiás, fez um apelo: "Mas, Tancredo, o Castello é um sorbonniano, estudou na França. É militar diferente, um intelectual como você. Já leu centenas de livros!". Tancredo: "É verdade, Juscelino. Só que ele leu os livros errados". Dois meses depois o governo cassou o mandato e os direitos políticos de JK, que partiu para o exílio e o sofrimento sem fim.

(Caso narrado por Ronaldo Costa Couto).

Dualibi, lenda da propaganda

Segunda feira, dia 1º, foi o Dia do Publicitário. Em 1º de fevereiro de 1966 a profissão foi regulamentada pelo decreto-lei 57.690. A coluna tem a alegria de fazer singela homenagem aos publicitários brasileiros na figura de um perfil emblemático da profissão: Roberto Dualibi. O famoso "D"da DPZ (fundador da Agência com Francesc Petit e José Zaragoza) é uma lenda na publicidade brasileira. Pinço de uma entrevista antiga em Época Negócios duas considerações sobre sua profissão.

O que encantou você na publicidade?

Duailibi - Na loja de meus pais tínhamos muito material promocional das Linhas Corrente, das agulhas Guterman, da Colgate, além dos manequins de cera e das vitrines sempre renovadas. E um irmão desenhava muito bem, e eu aprendi com ele a fazer caricaturas. Comecei aos 14 anos a propor material para algumas lojas vizinhas na Vila Mariana, mas nunca fui bem-sucedido. Depois trabalhei no jornal do bairro, e além de escrever matérias, tinha de vender espaço. Finalmente, fui trabalhar na Colgate Palmolive - e tive a sorte de ser aprovado na Escola de Propaganda. E me encantavam as aulas com profissionais tão consagrados, Alfredo da Silva Carmo, José Kfouri, Renato Castelo Branco, Rodolfo Lima Martensen, Caio Domingues, Gherard Wilda, e tantos outros. Ao mesmo tempo, fazia o curso na Escola de Sociologia e Política.

E o que desencantou (se desencantou)?

Duailibi - Nunca me desencantei da publicidade, com exceção de um período em que as boas agências foram afastadas das contas governamentais, que passaram a ser cuidadas por agências sem credenciais, mas alinhadas ideologicamente com políticos ou políticas. Mas hoje vejo que, no fundo, foi uma sorte não ter participado dos negócios desse período. Outro desencanto foi ver, em algumas empresas, pessoas que pediam propina. Perdemos, ou deixamos de ganhar, algumas contas por causa disso, mas nunca cedemos. Acho que também foi uma sorte. Vi grandes marcas serem destruídas por administradores corruptos.

Seleciono três citações de um dos seus mais famosos livros (Livro das Citações):

"Sempre peça emprestado a um pessimista. Ele nunca espera receber".

"Ninguém jamais morreu afogado em seu próprio suor".

"A chave para o sucesso nos negócios é reservar oito horas por dia para o trabalho e oito para dormir e ter certeza de que não são as mesmas".

  • Panorama da política

VITÓRIAS e vitórias

Há VITÓRIAS, como a dos aliados na II Guerra Mundial contra Hitler e seu nazismo, e há vitórias como a de Pirro, o rei grego que comandou seu exército contra os romanos, chegando a esmagá-los, mas com a perda de muitos generais. Os romanos conseguiram rapidamente repor suas baixas, mas não Pirro, que viu Roma se tornar uma potência. O que pode parecer uma espetacular vitória, hoje, a depender das condições dos adversários e suas circunstâncias, ameaça, tempos depois, ser humilhante derrota. Vejam o caso da vitória de Napoleão Bonaparte na Rússia. Em setembro de 1812, ganhou a luta contra os russos, que custou aos franceses a perda de 35 mil vidas, enquanto os adversários contabilizaram 40 mil mortos. Moscou foi incendiada. Rapidamente, os russos repuseram seus efetivos, enquanto os franceses, não suportando o rigoroso inverno, entraram em Paris humilhados. Imensa catástrofe. Vitórias como as de Pirro ocorrem aqui e ali. P.S. É oportuno lembrar a guerra dos EUA no Vietnã.

Vitória de Bolsonaro

O governo Bolsonaro acaba de registrar grande vitória na guerra pelo comando do Senado e da Câmara. A conversa à boca pequena é: ele fez barba, cabelo e bigode. Será? É claro que Bolsonaro ganhou. E ganhou bem, derrotando figuras de porte, como o ex-presidente e prócer do DEM, Rodrigo Maia. Teria usado armas pesadas, do tipo R$ 3 bilhões, para atrair votos que iriam para Baleia Rossi, MDB-SP, e Simone Tebet, MDB-MT. E mais: puxou o apoio do Centrão. Esse ente que monta no cavalo do poder, livra-se do cavalo cansado e pega adiante outra montaria cheia de saúde e viço. O Centrão é assim. Muda de posição como as nuvens. Hoje, é governo, amanhã será governo, arrumando sempre um jeito de se acomodar.

O Centrão indiano

O Centrão é um ente amalgamado. Tem um pouco de tudo. E possui três olhos, o terceiro no meio da testa, o bindi. Maneira fácil de identificar sua religião franciscana: é dando que se recebe. Lembrando: o terceiro olho é aquela pinta que indianas usam para mostrar que seguem o hinduísmo. No caso do Centrão, é um olho que enxerga coisas do arco da velha, apetrechos que os olhos comuns não conseguem ver. O olho da direita detecta as coisas que vão bem; o olho da esquerda aponta o que está errado, as ruindades de governos e suas administrações. Os dois olhos mandam as informações para o cérebro dos membros do Centrão. O terceiro olho aponta qual o caminho a seguir. Pois bem, Bolsonaro tem hoje o apoio desse bloco. Não haverá impeachment. A agenda do Executivo será cumprida. Porém, no curto prazo. No médio prazo, se os olhos do Centrão detectarem ameaças de perigo, a corrida para outro lugar será bem previsível.

Mudanças

O fato é que as eleições no Senado sinalizam mudanças na paisagem da política: 1. Extingue-se o que Bolsonaro designava, em sua campanha, como a nova política ou a antipolítica, como queiram; 2. Vai para o lixo a prerrogativa, no Senado, de conceder ao maior partido o comando da Casa (hoje é o MDB); 3. O conceito de independência do Legislativo continuará a ser peça de ficção; 4. O Centrão dará as cartas em um primeiro momento, mas será um milagre se continuar cacifando o jogo por mais de um ano; 5. Grandes partidos, como PSDB, DEM e o próprio MDB, assumem explicitamente sua identidade de Janus, o deus de duas caras: uma, a de um homem velho, de cabelos longos e enorme barba; outra, um rosto jovial, de cabelos não tão longos e sem pelo na face. Janus é a entrada e a saída; 6. Em suma, as eleições no Legislativo confirmam a hipótese da sentença: plus ça change, plus c'est la même chose (quanto mais muda, mais permanece a mesma coisa).

O divisionismo

A atração do Centrão para fincar estacas na administração de Bolsonaro atende ao seguinte pressuposto: quanto maior a divisão de alas que habitam o centro do arco ideológico, com ramificações à esquerda e à direita, maior a probabilidade de o capitão-presidente levar a melhor no pleito de 2022. Ou seja, ele prevê que a dispersão do centro produzirá um conjunto de candidatos nessa esfera, deixando que ele e o PT voltem a ser os polos de uma batalha contundente: nós, os libertários, contra eles, os comunistas, os destruidores dos valores da família. O comandante parece esquecer a lição de Heráclito de Éfeso: ninguém entra em um rio duas vezes no mesmo lugar. As águas serão outras. O espírito do tempo puxa suas circunstâncias. Ou seja, a economia, a alegria ou a tristeza, a felicidade ou a infelicidade, uma quantidade maior ou menor de dinheiro no bolso, os impactos duradouros da gestão/congestão da economia, o rolo das pressões e contrapressões, o estágio civilizatório do país - serão, entre outros, fatores a determinar a caminhada dos eleitores em outubro de 2022.

O perfil do líder

Nessa moldura, a própria índole de Sua Excelência estará sob o olhar das massas. Continuará a ser o fogueteiro que incendeia o ânimo de um grupo que habita a parte da extrema direita do arco ideológico? Terá adocicado a língua amarga? Seus filhos persistirão no monitoramento da administração? O presidente ainda ouvirá o eco dos gritos clamando pelo "mito"? O senador Flávio, o número 1, já teria resolvido seu caso na Justiça? Paulo Guedes ainda estará no leme na economia? O auxilio emergencial continuará bancando o apoio de parcela ponderável das massas? Respostas a essas questões influirão na avaliação positiva/negativa do líder. (É possível que vejamos certo impulso ao neopopulismo).

Maia

Rodrigo Maia deixa a presidência da Câmara muito comovido. Chorou em seu discurso, o que é compreensível ante a traição que sofreu com a debandada de muitos de seus aliados, incluindo seu próprio partido, o DEM, que liberou a bancada para votar em Arthur Lira. Maia foi um dos melhores presidentes da Câmara. Merece figurar na galeria dos grandes. Será difícil permanecer no DEM. Para onde ir? Mais adiante, conhecendo bem o corpo parlamentar, poderá se transformar em exímio articulador das forças de centro-direita e centro-esquerda. A conferir.

Homenagem a Nelson

Dia 10 de fevereiro, quarta-feira, às 17h, será realizada pela Academia Norte-rio-grandense de Letras a homenagem in memoriam ao acadêmico Nelson Ferreira Patriota Neto, sucessor 3 da cadeira 8, que tem como patrona Isabel Gondim. A Saudação de Louvor será proferida pelo acadêmico Lívio Oliveira, que ocupa a cadeira 15. Nelson, escritor, jornalista, sociólogo, tradutor e crítico literário, faleceu aos 71 anos, dia 6 de janeiro, deixando uma vasta obra, com destaque para Livro das OdesColóquio com um Leitor Kafkiano-ContosUns Potiguares- Escrito sobre as Letras Norte-rio-grandensesUm Equívoco de Gênero e Outros Contos e Tribulações de um Homem chamado Silêncio.

Postado às 08h45 | 03 fevereiro 2021 |

TEMPOS DE BARBÁRIE

É fato inquestionável que a modernização melhorou a base material da civilização. Mas teria contribuído para melhorar as dimensões morais e éticas da Humanidade? A resposta é não. E a argumentação leva em conta aquilo que o professor Samuel Huntington, de Harvard, chama de “paradigma do caos”: Estados fracassados, anarquia, repulsa aos princípios democráticos, inclusive no seio das maiores democracias mundiais, caso dos Estados Unidos, quebra da lei e da ordem, ondas de criminalidade, cartéis de drogas, deterioração dos valores da família e assim por diante.

O caos se instala em todos os quadrantes do planeta, sob sistemas democráticos vivendo momentos de tensão e risco, e ante a frustração de não se alcançar a regra fundamental para a convivialidade planetária: a necessidade de que uma civilização se esforce para buscar e consolidar os valores em comum de povos de outras civilizações. Tarefa que parece cada vez mais distante pela diferença entre gentes e Nações, Ocidente e Oriente, muçulmanos, cristãos de todas as seitas, ateus, enfim, os povos que habitam o planeta nesse início de segunda década do século XXI. Será que não existiria um elo que pudesse transcender vontades individuais, uma corrente que fosse capaz de unir as fronteiras, agregar interesses, criar aspectos uniformes em todas as culturas?

Difícil. Mas sem essa unidade global em torno de anelos comuns, estaremos cada vez mais corroendo os níveis da vida humana no planeta. E ameaçando destruir os pilares da existência do ser humano. Essa projeção pode ser entendida como catastrofista, mas é isso mesmo. Não estamos vendo, a cada dia, a foice da morte abater milhões aqui e alhures? Já são mais de 2 milhões de mortos pela Covid-19. E quem garante que ameaças não estão à espreita?

O fato é que estamos vendo ressurgir a barbárie. A paisagem é mais agressiva do que aquela dos filmes do velho oeste americano, quando desfilam bandidos e homens da lei, uns matando os outros, com balaços que nunca esvaziam os arsenais (como é divertido ver Clinton Eastwood, dirigido por Sérgio Leone, mastigando seu charutinho e fazendo um escarcéu). A paisagem de hoje é de barbárie. As democracias – governo do povo pelo povo e para o povo, na antológica frase de Abraham Lincoln em 1863 – estão sendo corroídas por dentro, usando-se artifícios como dribles legais em nome da Constituição, falsidades, mentiras tonitruantes repetidas à exaustão para que ganhem o tom da verdade.

Pois foi isso que ocorreu nos EUA, com Donald Trump, ocorre em muitas Nações e também por nossas plagas, como se viu com esta preciosa pérola sobre democracia, pinçada do dicionário do nosso governante-mor: “Quem decide se o povo vai viver democracia são as Forças Armadas”. Ora, trata-se de um libelo contra a democracia, que apenas traduz a índole autoritária do Chefe de Estado do país.

Imagine-se, agora, o modo de vida do planeta nos dias de amanhã, quando se sabe que a pandemia abrirá um rombo de cerca de US$ 12 trilhões na produção econômica global, tirando o Brasil do ranking das 10 maiores economias mundiais. A pobreza mundial aumentará, fazendo padecer ainda mais massas carentes, como as do nosso país, que tem 50 milhões abaixo da linha da pobreza, os EUA, com 25 milhões e a Europa com 70 milhões.

A tendência dos países é de tentar salvar suas economias, ampliar o cobertor social, salvaguardar seus Tesouros, apesar de os Estados Unidos de Joe Biden anunciarem políticas abertas aos imigrantes, respeito à pluralidade, defesa do meio ambiente, o que nos leva a imaginar que os grupos do nacional-populismo irão fazer pressões em sentido contrário.

Estamos diante da possibilidade de a China se transformar na maior potência econômica já nos próximos anos, conduzindo-nos à outra hipótese: as democracias serão instadas a mudar posturas, flexibilizar políticas, banir preconceitos sob o pragmatismo dos mercados. E a evitar as ameaças que, segundo o Relógio do Juízo Final (criado em 1947 por cientistas atômicos), pairam sobre nossas cabeças: avanços russos, americanos e chineses em mísseis hipersônicos, riscos de uma guerra entre a Índia e o Paquistão, o desmantelamento do acordo nuclear iraniano e o risco de guerra com os EUA, novos armamentos da Coréia do Norte e a Guerra Fria 2.0 entre Pequim e Washington.

Que os ponteiros do Relógio nos afastem do Juízo Final.

Postado às 08h15 | 28 janeiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha sobre o mestre Câmara Cascudo, contada com a verve do presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, no livro "Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz".

Exposição

Uma artista famosa reclamou a ausência de Cascudo na sua exposição:

- Você não veio ver os meus quadros. Prometeu e não veio. Esperei até tarde da noite.

- Não fui pela impossibilidade material de ver os seus quadros. Ficaria olhando exclusivamente para você.

Vamos à análise política.

O estado do país

As coisas melhoraram em uma semana? Um pouco mais de esperança irriga as veias sociais com a chegada das primeiras (e pequenas) doses de vacina. E a má gestão da epidemia abate alguns pontos no ranking da imagem positiva do governo. A querela entre Bolsonaro e João Doria sobre os vencedores da "guerra da vacina" deu ao governador paulista alguns pontos de vantagem. Mas o PNBF - Produto Nacional Bruto da Felicidade ainda está muito baixo e não sinaliza expansão no curto prazo.

Adjutório emergencial

O auxílio emergencial continua na gangorra. Ora, sobe a possibilidade de renascer sob a nova designação - Renda Brasil - incorporando o Bolsa Família, ora desce com as referências crescentes ao teto de gasto. Paulo Guedes está de olho no Tesouro e põe a boca no mundo ante a ameaça de se furar o bloqueio imposto pelo teto. Mas a tábua de salvação de Bolsonaro foi e continuará a ser o cobertor social. Sem ele, de corpos expostos aos impactos das crises (sanitária, econômica, política etc), os contingentes mais carentes abrirão o berro. E nenhum governante se elege ou se reelege sem o apoio das massas.

Economia frágil

A economia, por sua vez, não será alavancada no curto prazo. Os empresários indicam a continuidade de graves distorções. Os investidores, com seus mega investimentos, fogem do país. Até a substituição de Guedes volta a frequentar os corredores da rádio-peão. Este consultor não aposta na hipótese, apesar de estar à vista uma mexida na Esplanada dos Ministérios. Pazuelo esgotou seu tempo na administração. A cúpula das Forças Armadas está insatisfeita com sua ação, e não são poucos os que discordam de sua continuidade como um general ainda na ativa. O militar recusa-se a usar o pijama de aposentado.

A briga pelo comando das Casas

O remanejo ministerial levará em conta a estratégia de ampliar e consolidar a base de apoio ao governo, começando com a eleição do presidente da Câmara, nesse caso, Arthur Lira, do PP de Alagoas, sobre o qual recaem denúncias que estão no STF. O opositor, Baleia Rossi, MDB-SP também é alvo de acusações. Mas o vitorioso ganhará com o voto de uma parcela que tende a decidir caminhar na rota das benesses. Já no Senado, a força de Rodrigo Pacheco, do DEM-MG, é mais visível, eis que conta com o rolo compressor do Davi Alcolumbre (DEM-AP), atual presidente, e o próprio apoio do governo, mesmo que o senador Fernando Bezerra, MDB-PE, líder do governo no Senado, tenha garantido seu apoio à senadora Simone Tebet (MDB-Mato Grosso do Sul).

Reeleição no tabuleiro

Pois é, as pedras do pleito de 2022 já estão no tabuleiro. Condições positivas para Bolsonaro: 1. Recuperação da economia; 2. Remontagem do cobertor social - Renda Brasil; 3. Presidentes da Câmara e do Senado do seu lado; 4. Recuperação do desgaste com a gestão da economia; 5. Melhoria da imagem do Brasil no conjunto das Nações, com mudanças na condução do meio ambiente e das relações exteriores; 6. Absorção de facções do centro, agregando eleitores centristas e ampliando sua base radical; 7. Grande divisão da direita, centro e centro-esquerda, o que pode lhe render maior apoio e unidade. 8. Menor radicalização da política. Condições negativas para Bolsonaro: moldura acima não será como a descrita.

Desabafo

Um renomado professor e médico virologista da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP, desabafou: "o saco encheu, no seu c..". Assim, de forma curta e direta, o médico Maurício Lacerda Nogueira respondeu às mentiras que viu no Facebook sobre a vacina contra o coronavírus. A mentira: duas pessoas teriam morrido após serem imunizados. O pesquisador diz que não planejou nada e apenas vocalizou o que pensam milhões de brasileiros contra os negacionistas. A resposta viralizou nas redes.

Barbárie

Nesses tempos de pandemia, resta esperança de voltarmos aos tempos da convivialidade, quando a solidariedade, o respeito ao próximo, o exemplo do bom viver nos envolvia? Ortega y Gasset, há 95 anos, quando começou a escrever "A Rebelião das Massas", parecia já não acreditar no homem fraterno. Enxergava a barbárie, a incivilidade, o homem-massa, em quem via o novo protagonista da vida pública. E lembrava Hegel, apocalíptico: "sem um novo poder espiritual, nossa época produzirá uma catástrofe". E também apontava para Nietsche berrando num penhasco de Engadine, na Suíça: "vejo subir a preamar do niilismo".

Academia I

Mas a Humanidade sempre encontra no meio do deserto de ideias uma fonte para saciar a sede do saber: os centros e espaços da ciência e da cultura, onde as descobertas estendem os limites da vida humana. No campo das artes, das letras e da cultura, emergem, por exemplo, as academias, essa bela herança que os gregos antigos nos deixaram. Sócrates andava pelas ruas de Atenas, dialogando e tentando se descobrir: "só sei que nada sei". Platão, seu maior discípulo, formou o "Jardim de Academus". Academia vem daí. Aristóteles deixou também seu "Liceu", onde praticava a arte da educação.

Academia II

E, desde então, as academias se espalharam. No caso das Academias Literárias, adotamos o modelo francês, criação de Richelieu em 1635, organizada com número fixo de membros e patronos, com vitaliciedade acadêmica. A teia das academias se espalhou pela Europa. Por aqui, uma ganhou muita importância, a Academia Real da História Portuguesa (1720 - 1776), em Lisboa. Em março de 1724, na cidade de Salvador, Bahia, fundou-se a "Academia dos Esquecidos". Em junho de 1759, um grande intelectual, José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho Melo, fundou a Academia dos Renascidos. Pombal mandou então "sepultá-lo vivo". A barbárie voltava. Até que em 1894, foi fundada a Academia Cearense de Letras, três anos antes da Academia Brasileira de Letras, criada em 20 de julho de 1897.

A academia potiguar

E aí chegamos à ANRL, a academia do meu torrão potiguar, criada em 1936, por inspiração e iniciativa de um grupo de amigos, liderados por um dos maiores gênios da cultura brasileira, Câmara Cascudo. Seu contemporâneo, o também fundador Onofre Lopes, o chamava de "nossa mais antiga universidade". Nesse ciclo de pandemia, que se alimenta de desinformação, mentiras (fake news) e falsas versões, devemos enaltecer os espaços onde se cultuam valores nobres, como a pluralidade das ideias, a elevação das letras e das artes, a promoção do saber, o convívio com perfis que emolduram a galeria da grandeza de um Estado.

Murilo

Reverencio a memória do querido amigo Murilo Melo Filho, um potiguar que representou a nossa terra na Academia Brasileira de Letras, um mestre do jornalismo, com suas célebres entrevistas na revista Manchete, com a cobertura de grandes eventos internacionais, com seus livros e com seu amor ao torrão potiguar.

Encontro com a emoção

Esta semana tive oportunidade de mergulhar profundamente no poço da emoção. Fiz um mergulho no Museu do Sertão, em uma surpreendente viagem virtual, onde me deparei com coisas da minha infância em Luis Gomes: cerca de 3 mil pec¸as distribuídas em 11 pavilhões temáticos, abrigando casa de taipa, mobília típica, pátio de artes ao ar livre, plantas, objetos e utensílios do semiárido nordestino, implementos agrícolas, equipamentos e máquinas das agroindústrias do passado (casa de farinha, engenho de rapadura, alambique de cachac¸a, oficina de carne de charque, cozinha de queijo de coalho e de manteiga de garrafa, descaroc¸ador de algodão, casa de beneficiamento de cera de carnaúba, usina de preparação de óleo de oiticica, galpão de beneficiamento de fibra de caroá, galpão de preparo de borracha de manic¸oba e sala de fiar e tecer. P.S. Meu pai tinha bolandeira (casa de farinha), engenho (rapadura, alfenim) e comercializava algodão.

Um obstinado professor

A fundação e a manutenção desse Museu se devem a um obstinado cearense, o professor Benedito Vasconcelos Mendes, (que foi colega de escola de Belchior, falecido), quando chegou a Mossoró, na década de 70, para ensinar na Escola Superior de Agricultura, hoje UFERSA - Universidade Federal do Semi-Árido. Aberto ao público em 3 de agosto de 2003, por ocasião dos 58 anos do mestre Benedito, mantido com seus proventos do professor, o visitante, para entrar, leva um kg de alimento não perecível, destinado ao Lar da Criança pobre de Mossoró.

Uma aula magna sobre o semiárido

Uma obra admirável sobre o homem e a cultura do semiárido e um empreendimento de inestimável valor social. Assim se deu meu recente reencontro com a querida cidade, onde estudei no Seminário Santa Terezinha, dirigido por padres holandeses, do preliminar ao último ano do ginásio. Desde cedo tive contato com latim e grego. Obrigado, professor Benedito, também pelas interessantes aulas sobre Civilização da Seca e Religiosidade. Tenho aprendido muito com suas palestras virtuais e exposições. O sertão decifrado. Um modelo para outros Estados.

Postado às 09h00 | 25 janeiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha de PE, já contada e sempre requisitada.

"O verbo não vareia"

A Câmara Municipal de Paulista/PE vivia sessão agitada em função da discussão de um projeto enviado pelo prefeito, que pedia crédito para assistência social. Um vereador da oposição combatia de maneira veemente a proposição. A certa altura, disse que "era contra o crédito porque a administração municipal não merecia credibilidade". O líder da bancada governista intervém, afirmando que "o nobre colega não pode jogar pedras no telhado alheio, pois já foi acusado de algumas trampolinagens".

- Menas a verdade - retrucou o acusado. Sou homem honesto, de vida limpa.

- Vejam, senhores, - disse o líder - o nobre colega, além de um passado nada limpo, ainda por cima é analfabeto, pois, "menas" é verbo, e verbo não "vareia". (Historinha de Ivanildo Sampaio).

Ufa, a vacina chega

Depois de querelas e muita polêmica, a vacina chega aos postos de saúde e hospitais. Vestida do vermelho chinês da Sinovac e de verde e amarelo do Butantã, é aprovada pela Anvisa e abre o processo de vacinação no país. Houve uma queda de braço entre Jair Bolsonaro e João Doria. Este venceu. A vacina da AstraZeneca, sob o selo da Fiocruz, ostentada como trunfo do governo, está em compasso de espera. Os atores são chamuscados.

Bolsonaro e Pazuello

O militar que Bolsonaro impôs no Ministério da Saúde ganha o TI - Troféu da Incompetência. Diz e desdiz o que disse. Entra bem no traje de comediante. Ou de uma personagem mais tétrica, porque o país vive uma tragédia, não uma comédia. O Imponderável pregou mais uma das suas. A "vacina chinesa de João Doria", que o Brasil não compraria, segundo promessa do presidente, acabou se tornando a grande esperança nacional. E os chineses, agora, terão condições de esnobar. Como?

Insumos

Lembra a professora Margareth Dalcomo, da Fiocruz, que todas as vacinas, repito, todas usam insumos produzidos na China. O Brasil não fabrica insumos para doenças pandêmicas. De modo que o mundo todo usa vacinas com o tempero chinês. E qual a melhor vacina, professora? Ela responde: a primeira que chegar. Uma vacina que propicia 50% de possibilidade de uma pessoa não ser afetada é, segundo ela, uma enorme vantagem. Ainda sob as hipóteses de que alguns podem ter leves/moderados danos ou graves, mas estes não morrerão por Covid-19. Viva a Coronavac.

Heróis do momento

Vale homenagear os heróis do momento: os contingentes mobilizados na frente da saúde, aqueles que estão nos hospitais, enfermeiras (os) e médicas (os), e os cientistas que comparecem aos meios de comunicação para explicar, de forma didática, todo o aparato informativo necessário para os leigos entenderem melhor o fenômeno.

A Anvisa

Merece os aplausos dos brasileiros por ter dado uma decisão sob parâmetros técnicos, condenando, ainda, as alternativas de tratamento precoce como cloroquina, vermífugos e quetais. Um tapa com mão de luva nos cloroquínicos e adjacentes.

E agora, José

Tentarei responder Drummond.

A festa não acabou. A fogueira vai continuar acesa por todo o ano de 2021. Queimará as pestanas de alguns protagonistas da política, a partir de Bolsonaro. E esquentará os corações das pessoas de fé.

A luz apagou.

Apagou no Amapá, um pouco em Teresina e continuará a apagar com os danos em equipamentos mal conservados.

O povo sumiu.

Sumiu nada. Vai reaparecer em alguns espaços, bastando a confiança voltar a habitar suas cabeças. E vai voltar reivindicando outras coisas, como auxílio emergencial.

A noite esfriou.

Pouco, esse ano. Apenas em partes do sul do país.

E agora, José? E agora, Pazuello? Qual a logística para vacinar todo o país, se vocês execram a China?

E agora, Bolsonaro?

Você que é sem nome.

Sem nome? Ora, carrega o nome de Messias.

Que zomba dos outros.

Pois é, Excelência, não zombe dos outros, dos que tomarão vacina, daqueles que põem fé na Ciência. E acreditam que a terra é redonda.

Impactos na política

Bolsonaro será atingido por respingos de protestos e indignação de milhões de brasileiros que enxergam incúria, desleixo, má gestão no enfrentamento da pandemia. Pazuello descarrega um caminhão de lixo sobre a imagem das Forças Armadas. A curto prazo, o desgaste na frente política será pequeno, não devendo mudar o curso das eleições na Câmara e no Senado. Mas os pontinhos de queda na pesquisa do Antonio Lavareda, esta semana, serão atentamente acompanhados pelo corpo parlamentar. Os políticos são pragmáticos. Com um olho, enxergam benesses da máquina governamental; com outro, a reação das ruas. Se a economia não melhorar a condição do bolso das margens carentes, auxílio emergencial acabando, pandemia ainda com seus surtos, ante um quadro como esse, a esfera política acaba tomando distância de Bolsonaro.

Governadores

Os governadores, uns mais, outros menos, procurarão tirar algum proveito da vacinação em seus Estados. Entrarão nas molduras fotográficas sob certa desconfiança. 2021 será um laboratório de experiências. Saúde estará liderando o rol de demandas. Deverá ocorrer um realinhamento partidário, com a saída e entrada de representantes e governantes. Mas a pandemia marcará a política com sinais de desconfiança, descrédito, certo desprezo e até rancor.

O milagre de Maomé

Alguns tentarão fazer como Maomé, que levou o povo a acreditar que poderia atrair uma montanha. Do cume, faria preces para aqueles que o seguissem. O povão reuniu-se. Maomé chamou a montanha diversas vezes. E a montanha quieta desafiava o profeta, que não se deu por vencido. Gritou para a massa: "se a montanha não quer vir até Maomé, Maomé irá ter com a montanha". Ensina Francis Bacon: "assim, esses homens que prometem grandes prodígios e falham vergonhosamente, passam por cima de tudo, dão meia volta e realizam os seus feitos". São audaciosos.

O espírito da nação

A fé é a mola que impulsiona a vida social. Por mais que seja amortecida por crises intermitentes - sanitária, econômica, política - a fé tem a capacidade de renascer e fortalecer os ânimos. O povo brasileiro padece de uma grande crise de fé. Futricas, apropriação do bem público, conluios, emboscadas, traições, maquinações são alguns dos ingredientes que entram nesse caldeirão da fé. É evidente que a autoestima do brasileiro está em baixa. Uma questão de ausência de fé no amanhã. O Produto Nacional Bruto da Felicidade está entre 0 e 3 numa escala de 10.

Enem, um fracasso

Aplicou-se a lei. Fez-se o Enem, o exame do Ensino Médio. Mas a voz do bom senso pedia o adiamento desse exame, ameaça nesse momento em que a epidemia volta ao pico. Mais de 50% de abstenção. E onde está ou esteve o Ministério da Educação? Ganha um picolé de araçá (ih, como eu apreciava essa frutinha na infância) quem disser, agora, o nome do ministro da Educação.

Trump saindo pelos fundos

O general Figueiredo detestava Sarney. Saiu por uma porta lateral do Palácio do Planalto, não por uma porta dos fundos, como se conta para aumentar o impacto. Mas Donald Trump está saindo, com sua trupe, de forma a evitar flagrantes. Sai pelos fundos. Mas vai ser difícil escapar ao retrato. Trump tem ainda um batalhão de simpatizantes, proprietários rurais e desempregados do Círculo da Ferrugem (Arizona, Ohio,etc.). Sai de forma arrogante, com seu sobretudo preto, que não consegue apagar o contraponto: um sobrenada (rsrs).

Reversão de expectativas

Roberto Campos era um crânio, como se diz na linguagem para designar um homem de extraordinários conhecimentos. Ele sempre dizia que a pior coisa que pode ocorrer com um governo/governante é "uma reversão de expectativas". Ou seja, o governante promete tudo. E o povo recebe nada. Ministro do Planejamento do presidente Castelo Branco, foi a Recife, em 1965, e na Sudene fiz a ele a pergunta: "ministro, sua estratégia é a de pulverizar a distribuição de verbas no Nordeste"? Embutia a ideia de uma distribuição pequena, migalhas, para cada Estado. Pegou este iniciante de surpresa, gerando uma reversão de expectativas. Ao lado esperando resposta, ouvi dele: "o que o jovem entende por pulverização"? Fiquei pasmo e mudo.

Fecho a coluna com mais uma historinha de PE.

"Só expectorante"

Reunião de vereadores com o chefe político da região numa pequena cidade de Pernambuco. Cada um tinha de falar sobre os problemas do município, reivindicações, sugestões, etc. Todos falaram alguma coisa, com exceção de um deles, meio acabrunhado no canto da sala. O chefe político cobrou dele a palavra:

- E você, amigo, não tem nada a dizer?

O vereador, tonto com a provocação, não teve saída. Respondeu:

- Não, doutor, estou apenas expectorante.

Abriu a gargalhada dos companheiros espectadores. ("Causo" contado por Marco Maciel e relatado à Coluna por Geraldo Alckmin.)

​ ​