Porandudas políticas

Postado às 08h15 | 19 maio 2021 |

A BÚSSOLA DA OPINIÃO PÚBLICA

Todos os dias ouvimos ou lemos sobre os danosos efeitos da pandemia nas classes que povoam a pirâmide social. Os efeitos estarão na lista prioritária dos fatores que influenciarão o processo decisório do eleitor em 2022, daí a conveniência de um olhar analítico sobre a questão. Pesquisa recente do Instituto Locomotiva dá conta de que cerca de 5 milhões de brasileiros saíram da classe média C para a classe baixa. As classes médias com cerca de 100 milhões de pessoas, abrigam três grupamentos, com ganhos entre R$ 3 mil e R$ 10 mil; pela primeira vez em 10 anos, a faixa com renda familiar entre R$ 265 e R$ 2,2 mil, ou seja, 47% da população, desce um degrau na escada.

A par da perda de renda, essa classe média sofre o forte choque causado por perda de status. Sabe-se que o sonho de uma família é não apenas garantir sua posição na pirâmide social, mas tentar subir mais um degrau, alcançando um andar mais alto. O trauma psicológico decorrente dessas perdas se traduz em acentuada sensação de desconforto, insegurança, ansiedade, com sequelas sobre comportamentos e atitudes. Se a tendência de queda bater no segundo semestre do próximo ano, teremos um eleitor de classe média profundamente contrariado. Por lógica simples, trata-se de um perfil tendente a votar em candidatos abrigados nas roças da oposição.

Ora, dos cerca de 150 milhões de eleitores brasileiros, o grupamento reunido sob o teto de conscientização política provém das áreas da classe média. Se considerarmos três faixas de classes médias – C, B e A (menor, médio e maior poder aquisitivo), veremos que aí se abrigam profissionais liberais, pequenos e médios proprietários, comerciantes e comerciários, servidores públicos de todas as esferas e poderes, autônomos, que perderam suas vagas no mercado de trabalho, enfim, pessoas que acompanham a política de forma mais estreita, discutem fatos do cotidiano, tecem loas e críticas aos protagonistas da cena institucional.

São tais figurantes os principais sopradores do balão da Opinião Pública. Esse balão,  lembre-se, é formado pelos inputs - cargas informativas, interpretativas e opinativas - que batem no sistema de cognição de participantes da vida social. Os fatos – notícias, ações, boatos – entram em tubas de ressonância, sendo uma voltada para o nivelamento da compreensão e outra para exageros e exacerbação. Ou seja, as pessoas tendem a nivelar os inputs que lhes chegam pelo conhecimento de política, pela compreensão sobre o disse-disse das ruas. Ou a superdimensionar as versões que conhecem, sendo, neste caso, canais de propagação de exageros. A massa amalgamada de pensamentos – de todos os tipos e portes - forma o balão da Opinião Pública.

Papel de destaque terão as lideranças comunitárias. Cada comunidade, seja na esfera horizontal (bairro, região) ou vertical (profissionais liberais, gêneros), possui uma liderança, alguém de destaque, sendo essas referências boas fontes de expressão e pensamento. Comportam-se como tubas da Opinião Pública.

Haverá, portanto, uma tendência maior e é esta que produzirá o discurso eleitoral de 2022. As classes médias, sob esse entendimento, darão o tom do ano eleitoral. É evidente que as margens exercem influência, mas sua forma de pensar liga-se mais à micropolítica, o atendimento às demandas do cotidiano, alimento mais barato, transporte rápido e barato, eficaz atendimento na saúde sem filas, educação de qualidade. O nível de conscientização segue o fluxo das demandas, preenchidas ou não. Também tais nichos serão influenciados pelo caldeirão que ferverá no andar acima.

Referimo-nos, aqui, à conhecida tese sobre o poder de irradiação de ideias das classes médias. A força da pedra jogada no meio da lagoa. Formam-se marolas que correm até as margens. Essas ondas de opinião acabam sendo internalizadas pelas margens carentes, engrossando os dutos centrais do pensamento da Opinião Pública. São fatores, tendências, posicionamentos periodicamente aferidos por pesquisas de opinião.

Em suma, senhores protagonistas do teatro político, entrem no palco com os olhos e ouvidos colados à Opinião Pública.

Postado às 08h15 | 06 maio 2021 |

Porandudas políticas

Abro com o meu RN.

"Da casa do cacete"

No primeiro mandato de Garibaldi Filho como governador deu-se a largada dos projetos de recursos hídricos, com as adutoras que se tornaram marca registrada do seu governo. Em Pau dos Ferros, na inauguração oficial, Garibaldi foi cobrado de público pelo abastecimento d'água da cidade. Sem se afobar, como é do seu hábito, o governador pegou carona na cobrança popular com indisfarçável irritação: "Vou botar água em Pau dos Ferros nem que a água venha da casa...". Aí parou. Sentindo que não podia ir além, repetiu a frase: "Já autorizei Rômulo Macêdo a elaborar o projeto e vou botar água em Pau dos Ferros nem que a água venha da casa do...". Parou de novo. Populares de raciocínio apressado completaram: "Da casa do cacete...". O orador foi sutil e perspicaz: "Eu não queria dizer essa palavra...". Risos gerais. "Gari" guardara a postura e conseguiu o resultado.

(História contada pelo espirituoso escritor e acadêmico da ANRL (Associação norte-rio-grandense de Letras, Valério Mesquita).

  • Panorama

Pandemia

Tudo como d'antes no quartel d'Abrantes. A CPI começou e as primeiras oitivas se comportam como o previsível. O barulho ainda não ensurdece. O governo tem minoria na Comissão. Independentes e opositores somariam sete, governistas, quatro. Mas o governo conta com sua artilharia pesada, menos falas de seu grupo e mais cargos. Daqui a um mês, será possível a regularização da remessa de vacinas. E o passado transformar-se-á em nuvem fugidia. Arthur Lira e Rodrigo Pacheco não teriam disposição para abrir um processo de impeachment se o relatório final da CPI apontar para este caminho.

Ruas

Convém ouvir o murmúrio das ruas. No 1º de maio, as ruas de diversas cidades foram ocupadas por militantes bolsonaristas. Com todas as imperícias e falas desastradas do mandatário-mor, não se pode fechar os olhos para sua militância, algo em torno de 25%. Quem viu as maiores manifestações da história do Brasil, como alguns torcedores fanáticos do bolsonarismo fizeram questão de dizer a este analista, estava com os olhos embaçados. Tinha bastante gente na avenida Paulista, algo como três quarteirões cheios. Mas o chutômetro costuma aparecer jogando a bola para o teto ou para as laterais. Temos, geralmente, três faixas de números: uma da PM, outra dos organizadores (ONGs, movimentos) e Institutos de Pesquisa.

Cálculos

Usando imagens de satélite, pesquisadores e medições, o Instituto Datafolha apura que a av. Paulista tem 136.000 metros quadrados disponíveis para a concentração de pessoas, incluindo calçadas, canteiro central e vias, vão livre do MASP e até espaços dos túneis. Para comportar 1 milhão de pessoas, a Paulista deveria abrigar concentração de 7,5 pessoas por metro quadrado ao longo de toda a área disponível. Coisa inviável. Nos horários de pico do metrô, a concentração nos vagões é algo entre 6 e 7 pessoas por metro quadrado. Para abrigar 1 milhão, deveriam os estatísticos dos eventos na Paulista considerar toda a extensão da avenida da Consolação e 7 pessoas por metro quadrado. Geralmente, esse número oscila entre 3 e 5.

Nos EUA

Para aperfeiçoar a contagem e reduzir a margem de erro, o arquiteto Curt Westergard, fundador da empresa Digital Design and Imaging Service (DDIS), desenvolveu, segundo a Veja, uma nova metodologia. A emissora CBS News contratou a empresa para estimar o número de pessoas que se reuniu em uma manifestação organizada por um apresentador da Fox News e em outra coordenada por comediantes. No primeiro evento, os organizadores anunciaram 500.000 pessoas; Westergard e sua equipe contaram 87.000, com uma margem de erro de 9.000 pessoas para mais ou menos. Na segunda manifestação, visivelmente mais numerosa, um dos comediantes brincou que havia 10 milhões de pessoas; mas a DDIS contou 250.000, com uma margem de erro de 10%. Em suma, o chutômetro fica por conta dos torcedores a favor e contra.

Sudeste mais Nordeste

Tem sido assim nas últimas décadas. Os eventuais candidatos presidenciáveis procuram arrumar suas chapas com a tentativa de inserir perfis a vice com visibilidade e domínio político em duas regiões: Sudeste e Nordeste. Apenas São Paulo tem 46 milhões de votos, com Minas Gerais, em segundo lugar, com cerca de 17 milhões e o Rio de Janeiro, com 12 milhões. O Nordeste soma mais de 27% dos votos. Nessa região o favoritismo de Lula já foi maior. O porcentual de intenções de voto no petista representa uma perda na fatia do eleitorado de 2020 até agora. Em maio do ano passado, por exemplo, o ex-presidente tinha ali 38,4%. No mesmo período, Bolsonaro avançou de 16,6% para 26,8%.

Nomes

O PSDB tem três nomes para disputar prévias: Tasso Jereissati, João Doria e Eduardo Leite. Tasso começa a ser chamado de "Biden brasileiro". Seria um nome forte para mobilizar o Nordeste. Caso escolhido, seu vice seria naturalmente da região Sudeste. Já se o candidato for o governador de São Paulo, João Doria, inverte-se: o vice deveria ser do Nordeste. A região Sul tem a terceira posição no ranking eleitoral. Leite, escolhido candidato, deveria compor com um nome do Sudeste ou do Nordeste. Mais especulação: Minas Gerais, desde a morte de Tancredo, crê que o Brasil lhe deve um tributo, a vaga que perdeu. Dilma, mesmo tendo nascida em Minas, não é considerada como tal para efeitos de composição política. Cheguemos ao Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, boa pinta, boa expressão, perfil moderado. Vai depender de sua atuação no comando da Câmara Alta. Escolhido, puxaria um bom nome do Nordeste ou mesmo de São Paulo, um leite com café retemperado.

E Bolsonaro, hein?

Com o vice Mourão praticamente descartado de sua chapa, Jair Bolsonaro teria de escolher um político com o pé no Nordeste ou mesmo em São Paulo para enfrentar os adversários. De pronto, deve excluir a possibilidade de mais um militar compondo sua chapa. A não ser que decidisse "engrossar o caldo" e "remilitarizar" o governo com novas levas de quadros das Forças Armadas. Para aliviar a identidade pesada, um bom nome deveria agregar valores como renovação, assepsia política, respeitabilidade, inserção nas camadas jovens, visão avançada, empreendedorismo.

Alckmin e França

Acabo de receber de Murilo Hidalgo a pesquisa do Paraná Pesquisas, dando Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB) como líderes na disputa para o governo de São Paulo em outubro de 2022. No principal cenário, Alckmin tem 19,9% das intenções de voto contra 15,4% de França. Tecnicamente empatados. Fernando Haddad (PT) tem 13,4% e Guilherme Boulos (PSOL) soma 11,4%, também ambos empatados. Paulo Skaf, por enquanto ainda no MDB, tem 10,2%. Rodrigo Garcia (DEM), atual vice-governador, tem 3,1% e o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), Mamãe Falei, tem 6,4%. Skaf, pelo que se comenta, gostaria de ser o candidato bolsonarista em São Paulo.

Bolsonaro

Segundo a pesquisa, Bolsonaro lidera a eleição em SP, mas 49,4% desaprovam o seu governo. Presidente aparece com 32% das intenções de voto contra 23,7% do ex-presidente Lula em levantamento feito no estado pelo Instituto.

Bruno Covas

O prefeito de São Paulo, o tucano Bruno Covas, enfrenta com firmeza e disposição o câncer que o ataca. Tirou licença de 30 dias. O prefeito interino Ricardo Nunes (MDB) cumprirá a agenda de Bruno. Nossos votos de plena recuperação ao prefeito. Um homem de coragem como seu avô, Mário Covas.

Aécio recuperando

Aécio Neves, passo a passo, recupera sua capacidade de articulação nos bastidores da política. Voltará ao palco principal.

Hauly

Um destemido, resiliente e respeitado tributarista, o ex-deputado Luiz Carlos Hauly. O Brasil muito deve a ele pelo esforço que vem fazendo para lapidar a reforma tributária.

BO+BA+CO+CA

Minha velha equação Bolso, Barriga, Coração, Cabeça, aguarda com muita expectativa os próximos tempos. A classe média C caiu de posição e adentra na D. Auxílio Emergencial, Bolsa Família e que tais estão de olho nos governos e na burocracia, que impede rapidez no acesso aos parcos recursos. Tempos pandêmicos, barriga roncando. Ainda bem que a solidariedade brasileira se faz presente na seara das doações de alimentos.

Catacumbas do desperdício

Jogamos fora 50% dos alimentos produzidos (perda estimada em R$ 15 bilhões anuais, o que daria para alimentar 30 milhões de pessoas), 40% da água distribuída, 30% da energia elétrica. Os cálculos foram feitos pelo professor de Engenharia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro José Abrantes, autor do livro Brasil, o País dos Desperdícios. Há simplesmente um bom pedaço do PIB desperdiçado, ou seja, jogam-se no lixo R$ 4,0 trilhões. Se a montanha de riquezas perdidas pudesse ser preservada, o país estaria, há tempos, no ranking das potências.

Res privada

A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura política plasmada no patrimonialismo, assim explicada: a res publica é entendida como coisa nossa, o dinheiro dos cofres do Tesouro tem fundo infinito, o Estado é um ente criado para garantir nosso alimento e bem-estar. O jeito perdulário de ser do brasileiro começa, portanto, com a visão do Estado-mãe, providencial e protetor, no seio do qual se abrigam a ambição das elites políticas e o utilitarismo de oportunistas. O (mau) exemplo dado pelos faraós do topo da pirâmide acaba descendo pelas camadas abaixo, na esteira do ditado "ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos", que uns atribuem a Stanislaw Ponte Preta e outros ao Barão de Itararé.

Municipalização x nacionalização das campanhas?

Questões que florescerão no jardim do Marketing Eleitoral: campanhas próximas serão municipalizadas ou tenderão a receber inputs federais? Micropolítica - política das pequenas coisas - ou macropolítica, temáticas abrangentes? O discurso da forma (estética) suplantará o discurso semântico? Campanhas privilegiarão pequenas ou grandes concentrações? Qual é o papel das entidades de intermediação social (associações, movimentos, sindicatos, federações, clubes, etc.)? Telegráficas respostas: 1) Ambiente geral - estado geral de satisfação/insatisfação - adentra esfera regional/local (temas locais darão o tom, mas a temperatura ambiental será sentida); 2) Micropolítica, escopo que diz respeito ao bolso e a saúde, estará no centro dos debates; 3) O discurso semântico - propostas concretas e viáveis - suplantará a cosmética; 4) Pequenas concentrações, em série, gerarão mais efeito que grandes concentrações; 5) Organizações sociais mobilizarão eleitorado.

Lições táticas

As lições de táticas e estratégias dos clássicos da política e das guerras parecem não merecer nenhuma consideração por parte de nosso presidente. Lembremos conselhos de Sun Tzu:

a) "Quando em região difícil, não acampe. Em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos seus aliados. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de cerco, deve recorrer a estratagemas. Numa posição desesperada, deve lutar. Há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas".

b) "Não marche, a não ser que veja alguma vantagem; não use suas tropas, a menos que haja alguma coisa a ser ganha; não lute, a menos que a posição seja crítica. Nenhum dirigente deve colocar tropas em campo apenas para satisfazer seu humor; nenhum general deve travar uma batalha apenas para se vangloriar. A ira pode, no devido tempo, transformar-se em alegria; o aborrecimento pode ser seguido de contentamento. Porém, um reino que tenha sido destruído jamais poderá tornar a existir, nem os mortos podem ser ressuscitados".

Para a cidade inteira

Volte sua atenção para a cidade inteira, todas as associações, todos os distritos e bairros. Se você atrair à sua amizade seus líderes, facilmente vai ter nas mãos, graças a eles, a multidão restante. (Cícero - Manual do candidato às eleições, 34 A.C.)

Defesa e ataque

"A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante". (Sun Tzu)

Sinal de derrota

"O maior sinal da derrota é quando já não se crê na vitória". (Montecuccoli)

Postado às 08h45 | 29 abril 2021 |

A ONDA DO MEIO DA PIRÂMIDE

O clima eleitoral estará mais elevado nos próximos meses, mesmo que as aflições sociais com a pandemia se estendam até o fim do ano e continuem a influir na agenda política de 2022. A inferência se faz oportuna: o coronavírus será o grande eleitor em outubro do próximo ano. E mais: servirá para elevar o tom da tuba de ressonância que se formará nos próximos tempos, adensando o fenômeno social que vimos por ocasião da polarização entre Bolsonaro e o PT em 2018.

Inicialmente, é oportuno mostrar que se viu por aqui no último pleito um conjunto de situações assemelhadas ao quadro eleitoral norte-americano, com a eleição de Donald Trump. Thomas Frank, respeitado analista político, argumenta que o megaempresário foi eleito por “conservadores em um movimento de contrarreação”. Nesse rolo compressor social, movido à contrariedade em relação ao status quo, reuniram-se norte-americanos brancos, parcela da classe operária, parcela das classes médias, faixas que sentiram perda de status e de renda.

A raiva, indignação, a constatação de que o bolso se esvaziava, não dando para cumprir obrigações com a família – alimentação, saúde, educação – motivaram a identificação desses grupos com Deus, com as Forças Armadas e com os valores pátrios, principalmente aqueles com foco na defesa do emprego e contrários à invasão do território por estrangeiros. Afastando-se de suas associações de referência, aquelas que defendiam seus interesses, refugiaram-se numa uma asa do partido republicano. Deu no que vimos, Trump na Casa Branca.

Por aqui, os sentimentos difusos confluíram para a via conservadora, onde se abrigam núcleos religiosos, com destaque para os credos evangélicos, as Forças Armadas e a defesa dos eixos centrais da família, sob um clima geral de rechaço ao lulopetismo, cuja identidade ficou intensamente rompida e suja ante os escândalos da Operação Lava Jato massivamente expostos pela mídia nacional. Bolsonaro canalizou a contrariedade, transformando-se em extensão dos contingentes que se mostravam dispostos a “aceitar tudo contra o PT”. O capitão não foi eleito por suas qualidades, mas pelos erros e defeitos de outros.

Em 2022, a polarização voltará a se repetir? Lembrando que, em política, tudo é possível, é mais plausível, porém, acreditar que o cenário terá matizes diferentes. Uma análise sobre a realidade: o governo Bolsonaro não tem entregue o que prometeu. A mudança política, conceito inspirador de todos os governos, não se realizou. O acordo com o Centrão lembra o mesmo tipo de compromisso de administrações passadas. O presidente, em vez de moderar e modular sua linguagem e adotar uma postura de equilíbrio e harmonia, é fator de permanente tensão. Parece governar apenas para sua base.

Ora, no vácuo que se reabre no meio social, os mais espertos sobem aos palanques com o velho-novo discurso da esperança. Lula, o metalúrgico, de réu se transforma em vítima. E ganha alta visibilidade, mostrando-se (quem diria!) a voz do bom senso. Tudo voltará à estaca zero em matéria de seus processos, mas a impressão que perpassa na sociedade é a de que Lula é inocente, vitimizado pelo ódio do ex-juiz Sérgio Moro a ele. Mas o rio não correrá em sua direção como em 2002 e 2006. Hoje, mesmo o STF imprimindo a marca de suspeito em Sérgio Moro, será complicado para Lula vestir o manto de candidato. As águas são outras.

Nesse ponto, convém levantar o painel de fundo que acolhe o “animus animandi” nacional. Percorre os estratos da pirâmide social um sopro que varre o déjà vue, a sensação de coisa dita e repetida, os velhos e novos escândalos, antigas promessas embaladas no celofane da mentira, refrãos e slogans batidos. Portanto, como em 2018, constata-se intensa indignação. O cobertor social, geralmente agasalhador, mostra-se curto. A lengalenga governamental não para de cantar loas ao próprio umbigo.

A vontade de passar uma borracha não terá como foco apenas um lado, com tiros em uns e livrando outros. Todos serão alvo. Portanto, lulopetismo e bolsonarismo serão cara e coroa de uma moeda que perde valor. O nível de consciência crítica subiu alguns centímetros. Classes médias (B e C) formarão um remoinho com força para mover as águas das margens. Os núcleos organizados – a miríade de organizações não governamentais, principalmente as de profissionais liberais (médicos, advogados, economistas, engenheiros, enfim, os integrantes das forças produtivas), atuarão na linha de frente, construindo uma gigantesca fortaleza, de onde emergirão inputs e ecos do pensamento social.

Essa é a razão que nos leva a enxergar um ponto no meio do arco ideológico capaz de aglutinar a vontade da maioria.

Postado às 08h45 | 14 abril 2021 |

NEM IMPEACHMENT NEM QUARTELADA

Nem impeachment nem golpe. Essa é a conclusão deste analista político sobre o episódio que culminou com a saída dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica do governo Bolsonaro. E os motivos são claros: as circunstâncias não propiciam o afastamento do presidente pela via congressual e nem uma quartelada com apoio dos quartéis para conferir ao mandatário a condição de ditador ou dar-lhe mais poder do que prescreve a carta constitucional.

Comecemos com a leitura do momento em que vive o país. A pandemia que já ceifou a vida de cerca de 320 mil pessoas é uma gigantesca sombra que cobre a população, causando pavor e tolhendo seus movimentos, principalmente as grandes mobilizações populares. Sem povo, sem o clamor incessante da grita social, afasta-se o risco de impeachment, eis que os representantes costumam tomar decisões com um olho em seus interesses e outro nas ruas.

Ora, na seara dos interesses individuais e grupais, ao que se infere, as coisas caminham ao gosto do freguês, no caso o núcleo parlamentar que forma maioria nas casas congressuais. O Centrão avança todo tempo na roça governamental, ganhando cargos e posições e aumentando sua influência sobre o presidente. Bastou um recado no puro idioma franciscano - “os remédios são amargos” -, dado pelo presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, para que o capitão aceitasse sua indicação para nomear a deputada Flávia Arruda (PL-DF) como ministra da articulação institucional.

O Centrão percebe que sua pressão gera efeitos junto ao Executivo. E usará esse método para calibrar sua caminhada até o pleito eleitoral de 2022, se não saltar do barco antes de borrascas que façam naufragar o transatlântico presidencial. Este, por sua vez, precisa do rolo compressor dos centralistas para evitar emboscadas e jogadas brutas do time parlamentar, principalmente da oposição, comuns em ciclos próximos ao pleito. Portanto, nos vãos da política, cabe fechar todos os buracos. No Senado, o estilo moderado de Rodrigo Pacheco parece não aceitar bombas de efeito demolidor, como impeachment.

Na área militar, teria havido uma operação traumática, longe, porém, de provocar sequelas de alto grau. Com a demissão dos comandantes das Forças, Bolsonaro, sem querer, conseguiu torná-las mais unidas em torno de seu ideário funcional. Conversas com renomados nomes do Exército apontam para esta hipótese. O princípio constitucional que as torna instituições do Estado e não de Governo é o lume que guia e guiará as Forças. Não há clima, não há motivos, não há motivação, não há condição para qualquer gesto ou ruptura da letra constitucional.

Pensar diferente é ignorar a trajetória das FFAA no país. São profissionalizadas. O dilema que hoje enfrentam é o de ver inseridos na máquina governamental quadros da ativa. Não há objeção sobre a participação de militares da reserva na gestão pública. Mas há certo mal-estar com a entrada no Executivo de perfis ainda na ativa. O general Edson Pujol, ex-comandante do Exército, expressava com muita clareza seu ponto de vista sobre a politização das Forças. A César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Parecia dizer.

Bolsonaro tentou, sim, politizar as Forças, chegando, certa feita, a proclamar: “meu Exército”. Com boa vontade, podemos, até, inferir que se referia à corporação onde serviu, o Exército. Mas o pronome abriga a ideia de que a Força lhe dá apoio, engaja-se ao bolsonarismo, é aliada de seu escopo. Nada mais errado. As três Armas dão suporte à Constituição e como instituições de Estado, preservam a res publica e todos os eixos que a sustentem.

A disciplina, sob a qual se instala a hierarquia, é regra inafastável das Forças Armadas. É o princípio que lhe confere respeito e admiração. Por isso, os militares procuram preservá-la, sob a crença de que se trata de um manto protetor. O critério de antiguidade, por exemplo, é norteador de decisões. O capitão Bolsonaro sabe muito bem disso. E o general Braga Netto, agora ministro da Defesa, sob o receio de aumentar as tensões, escolhe os três novos comandantes das Forças entre os mais antigos. Alívio geral.

Em suma, as frentes política e militar atuarão nesses tempos nebulosos sob o condão do bom senso, evitando que fogueiras acesas por oportunistas de plantão (dos lados da situação e da oposição) não provoquem incêndio nos pilares da República. Não alimentarão radicais. Essa é a leitura que nos afasta de impeachment e de quartelada.

Postado às 08h45 | 14 abril 2021 |

Porandudas políticas

Hoje, a coluna está muito pretensiosa. Tentará explicar o fenômeno Brasil. O motivo: a razão pela qual os brasileiros tentam se desviar do manual de combate à epidemia. Arrisco-me a desvendar esse mistério, ou melhor, essa índole. Faça uma leitura, mesmo por cima. Antes, porém, notinhas de abertura.

Kit Covid-19

Bolsonaro insiste em defender a cloroquina. Hoje, foi a Chapecó, levando a tiracolo o ministro da Saúde, Queiroga. P.S. Chapecó está com 100% dos leitos hospitalares ocupados, segundo o Estadão. Os catarinenses usaram muito a cloroquina. SC é motivo de visitas constantes do presidente.

Empresariado

Bolsonaro participará, hoje à noite, de jantar na casa do empresário Washington Cinel, da área de segurança. Cerca de 20 empresários devem estar presentes. Sua Excelência faz esforço para atrair o empresariado, que se mostra desconfiado. Cinel recebe regularmente governantes e políticos e sua casa é uma espécie de consulado de articulação política.

Nunes Marques

O ministro Kassio Nunes Marques, recém-escolhido por Bolsonaro para integrar o STF, mostra-se a cada dia afinado com o bolsonarismo. A liberação de cultos e missas nesse momento da pandemia é um soco na cara da sociedade. O dízimo, o dízimo, o dízimo, gritam os pastores. Silas Malafaia e Edir Macedo agradecem. O voto de Gilmar, proibindo os eventos em liminar para julgar decretos do governo de São Paulo, jogou a questão em plenário.

Lula seria vice?

Ciro Gomes pede a Lula que seja mais humilde e aceite dar um passo atrás. E mostra o caso da Argentina, onde Christina Kirchner entrou como vice na chapa de Alberto Fernandez. Lula como vice? O PT no bastidor: nem a pau, Juvenal.

5 mil

A continuar o país com medidas meia-boca para combater a pandemia, chegaremos em julho com o índice de cinco mil mortos por dia.

Covas distante de Doria?

Bruno Covas tenta estabelecer cronograma de vacinação diferente do esquema organizado pelo governador João Doria, em São Paulo. Prefeito e governador parecem estar de birra. Mas sempre voltam às boas.

Análise do fenômeno Brasil

Crise de liderança

A crise política, que se arrasta há décadas no país, decorre de nossa precária institucionalização. Não temos instituições sólidas, fincadas com firmeza no território, eis que nosso sistema democrático vive altos e baixos, intermediando tempos de autoritarismo com tempos de liberdade. Que lideranças novas podemos contar cenário? Os que sobraram são extensões dos tempos do golpe de 64, com destaque para Luiz Inácio, ainda gozando algum prestígio junto às massas. Fernando Henrique é um schollar, José Serra é um perfil forjado nas lides universitárias. Ciro Gomes teve vida na antiga Arena, João Doria é protagonista da atualidade. A crise de liderança no país está por trás de nossas mazelas.

Sísifo e o eterno retorno

O Brasil se parece com Sísifo. Como é sabido, em decorrência dos pecados que cometeu, os deuses aplicaram em Sísifo, que foi rei em Corinto, um castigo para jamais ser esquecido: carregar uma imensa pedra sobre os ombros até o cume da montanha. Tarefa que jamais conseguiria completar. Prestes a cumprir a missão, a pedra resvala dos ombros e rola ao sopé da montanha. Exercício que Sísifo repetirá por toda a eternidade. O Brasil tem semelhança com a execrável figura. A metáfora aponta para as mazelas que herdamos do nosso berço civilizatório, condenando-nos ao eterno retorno. Quando achamos que a coisa vai dar certo, tudo vai por água abaixo, e temos de recomeçar o que foi construído com sacrifício.

As coisas não dão certo

Para melhor compreensão de nossa vivência nesses tempos da Covid-19, relembro a historinha que diz haver quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, a mais civilizada, onde tudo é permitido, salvo o que é proibido. A segunda é a alemã, sob rígidos controles, onde tudo é proibido, salvo o que é permitido. A terceira é a totalitária, pertinente às ditaduras, na qual tudo é proibido, mesmo o que é permitido. E, coroando a tipologia, a sociedade brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que é proibido. Como se explica o fato de o Brasil ser um país tão caricatura? Por quê, sob lockdown e mil recomendações sobre os cuidados que devemos ter, os jovens se juntam em festas de arromba no fim de semana?

Nosso jeito de ser

A explicação pode ser encontrada na composição do ethos nacional. A engenharia social brasileira, assentada sobre a miscigenação de raças (colonizadores portugueses, índios e negros), expressa heterogênea coleção de valores. Conservamos, porém, uma unidade étnica básica, apesar da confluência de variados matizes formadores, que poderiam, na visão de Darcy Ribeiro, resultar numa sociedade multiétnica, "dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis". Complementa o nosso famoso antropólogo e ex-senador em seu livro "O Povo Brasileiro": "Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um Povo-Nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Somos o contrário da Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na América, por exemplo, que são sociedades multiétnicas regidas por Estados unitários".

homo brasiliensis

A adjetivação para qualificar o homo brasiliensis é vasta e, frequentemente, dicotômica: cordial, alegre, trabalhador, preguiçoso, verdadeiro, desconfiado, improvisado. Afonso Celso, em "Porque me Ufano do meu País", divide as características psicológicas do brasileiro entre positivas e negativas, dentre elas a independência, a hospitalidade, a afeição à paz, caridade, acessibilidade, tolerância, falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente. Gilberto Freyre, em "Casa Grande & Senzala", pontifica: "Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo".

O primeiro mito

Três mitos formam o pano de fundo sobre o qual se teceu nosso tecido valorativo. Primeiro, o mito do Éden. Ao aportarem, os nossos colonizadores se depararam com a exuberância da natureza e seus habitantes, rudes e inocentes, índios sem vestes, uma paisagem deslumbrante, o jardim do paraíso, tão bem emoldurados por Sérgio Buarque de Holanda, no clássico Visão do Paraíso, ao mostrar a atmosfera mágica que as novas descobertas proporcionaram ao europeu: "o enlevo ante a vegetação sempre muito verde, o colorido, a variedade e estranheza da fauna, a bondade dos ares, a simplicidade e inocências das gentes", como, aliás, já escrevera Pero Vaz de Caminha. Sob essa primeira visão, a seara valorativa produziu seus primeiros frutos: o ócio, a indolência, a sensualidade, a voluptuosidade, a glutonaria, a improvisação, a festa, a dança, o eterno carnaval.

O segundo mito

O segundo mito abriga o Eldorado. As riquezas apareciam ao longo das descobertas do ouro e das pedras preciosas. Na esteira da exploração predatória, outro conjunto de valores tomou corpo: a cobiça, a ganância, a traição, a destruição da natureza, a ambição, a disputa, a guerra entre grupos, os conflitos.

O terceiro mito

O inferno verde é o terceiro mito. A cobiça levou os colonizadores ao interior profundo. A floresta despontava como ambiente inóspito, selvagem, agressivo. As doenças debilitaram corpos, fustigando as mentes. Claude Lévi-Strauss, em seu celebrado Tristes Trópicos, radiografava o Brasil como o lugar mais inabitável do planeta, onde seria impossível a um homem sobreviver. Na paisagem da conquista do interior do país, outro feixe de características aparece: a miséria, a desorganização, a improvisação, a sujeira, a marginalidade, o desleixo.

A dubiedade

Ao lado dos três mitos, outros conjuntos valorativos surgiam, frutos da miscigenação. Quem não conhece o perfil individualista e de grandeza do brasileiro? "Você sabe com quem está falando?". E a nossa propensão para a imprecisão, para a ausência de objetividade? "Quantas horas você trabalha por semana?". Eis a previsível resposta: "trabalho mais ou menos 40 horas". O mais ou menos é coisa muito nossa. O fingimento é outro traço. O político, ao cumprimentar o interlocutor, pisca para alguém que está ao lado. Quem não já se defrontou com a expressão catastrofista ou o complexo de grandeza, comuns em nossa interlocução diária? Somos os melhores e os piores do mundo em matéria disso e daquilo; temos os maiores potenciais, as maiores riquezas ou a mais degradante miséria. Não somos um povo do imediatismo. Mas treinados na arte da protelação.

Traços de anarquia

Cultivamos a semente da anarquia. Ou, como bem o diz Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil: "os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir". Gostamos de adiar atos e decisões. Apreciamos o apadrinhamento, o patrocínio dos favores, o ludismo. Somos o país do futebol. E um vulcão de explosões emotivas. Trocamos com facilidade o riso pelo choro. Na festa de arromba, costuma-se haver balbúrdia, briga.

A árvore do patrimonialismo

Para agravar, herdamos valores que plasmaram nosso caráter. A fonte inicial é o patrimonialismo, que alimenta o fisiologismo, mazela central do nosso sistema político, o qual remonta aos primórdios de nossa história. Diz-se, em tom de piada, que o primeiro índio a receber espelhos de Pedro Álvares Cabral, em 1500, na Bahia, emprestou o DNA às tribos políticas festejadas, hoje, com "pacotes mais substantivos" do Palácio do Planalto. Quem duvida que os presentinhos do início da colonização estejam na origem do troca-troca de hoje, apoios e benefícios, convênios entre Ministérios e organizações não governamentais?

Capitanias

Quando Dom João III dividiu o Brasil em 15 capitanias hereditárias, em 1534, semeava a cultura patrimonialista. Hoje, semente que se espalhou pelo território. A semente patrimonialista resultou na mistura entre o público e o privado, gerando os "ismos" (caciquismo, mandonismo, paternalismo, nepotismo, familismo, grupismo), que invadem a esfera política. Não há como deixar de registrar as profundas marcas deixadas pelo sistema de colonização do país, a partir do feudalismo indígena, gerado espontaneamente, segundo a expressão de Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, pela conjunção das mesmas circunstâncias que produziram o europeu. "Feudalismo renascido na América, renovação da velha árvore multissecular portuguesa. O quadro teórico daria consistência, conteúdo e inteligência ao mundo nostálgico de colonos e senhores de engenho, opulentos, arbitrários, desdenhosos da burocracia com a palavra desafiadora à flor dos lábios, rodeados de vassalos prontos a obedecer-lhes ao grito de rebeldia. Senhores de terras e senhores de homens, altivos, independentes, atrevidos - redivivas imagens dos barões antigos".

As tetas do Estado

Sob essa "herança maldita", descortina-se a fonte de egocentrismo, que se impregna nas instâncias da Federação. Temas transcendentais, como reestruturação produtiva da economia, reestruturação do Estado, inovações tecnológicas, relações de trabalho, segurança pública, pobreza e desigualdade social e até programas sociais acabam contaminados por visões personalistas, corporativistas, circunstanciais e eleitoreiras. Vejam-se os programas assistencialistas, como Bolsa Família, Auxílio Emergencial etc. Vão se perpetuar. Aqui, o maná cai do céu. Milhões esperam mamar nas tetas do Estado.

Estadania, a inversão da lógica de Marshall

Analisemos nossa modelagem política. José Murilo de Carvalho observa que, entre nós, a cultura do Estado prevalece sobre a cultura da sociedade. Os direitos políticos apareceram antes dos direitos sociais, gerando uma sobrevalorização do Estado. Ou seja, houve uma inversão da lógica descrita por Thomas Marshall, em Cidadania, Classe Social e Status. As nações democráticas, a partir da Inglaterra, implantaram, primeiro, as liberdades civis, a seguir, os direitos políticos e, por último, os direitos sociais. Por aqui, o Poder Executivo, operando as ações públicas, aparece como a salvaguarda das 'benesses'. Direitos são vistos como concessões, e não como prerrogativas da sociedade, criando uma 'estadania' que sufoca a cidadania. Tudo depende do Estado. Um processo de tutela amortece o ânimo social, dificultando sua emancipação política. Não por acaso, critica-se a força avassaladora do nosso presidencialismo de cunho imperial.

Centrão, centrinho e otras cositas

Não a toa, o nosso presidencialismo de coalizão agasalha muito bem os grupamentos que se formam na área parlamentar. Centrão, com sua bocarra, abocanha nacos de poder. E há centrinhos, aqui e ali, pegando as sobras. Sem estes grupamentos, é difícil governar. Para uns, impossível. A governabilidade é, assim, uma biruta de aeroporto, que muda de posição conforme o vento.

Pergunta

Deu para entender alguma coisa sobre o homo brasiliensis?

Um pouco de humor.

5 minutos de silêncio

A onda de um minuto de silêncio faz parte da liturgia do poder. Surfam nessa onda políticos de todos os espectros. Vereador, então, usa a onda para capturar todos os votos da família do morto. Vejam este caso que ocorreu na Vila São José, bairro periférico de Macaíba/RN. O ex-vereador e candidato Moacir Gomes, ao usar a palavra, inicia a oração rogando aos assistentes do comício um minuto de silêncio pelo falecimento de um morador do bairro. Seu assessor e cabo eleitoral, ao lado, pensando no tamanho da família do falecido, sopra no ouvido de Moacir:

- Um minuto é pouco. Peça cinco. Tem muito voto lá!

(Historinha de Valério Mesquita, ótimo contador de causos)

Postado às 08h45 | 14 abril 2021 |

REORGANIZANDO NOSSAS VIDAS

Imaginem a aflição de um náufrago à procura de uma tábua de salvação, qualquer coisa para agarrar no meio do oceano. O desespero de famílias que perdem, nesses dias de pandemônio, entes queridos. Ou a angústia trazida por desastres ambientais, como o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em Minas Gerais, no dia 25 de janeiro de 2019, que deixou um rastro de destruição e mortes.

Estamos vivendo momentos de aflição e angústia. A ansiedade cai sobre nós com seus reflexos sobre o cotidiano, paralisando projetos iniciados, afastando outros que ainda estavam na prancheta do planejamento e, acima de tudo, injetando em nosso espírito a incerteza, a dúvida, o medo. Por mais planejada que seja uma pessoa, ela se junta ao gigantesco cordão dos desvalidos que se sentem perdidos por ter suas vidas desorganizadas.

É certo que a resiliência e a coragem de enfrentar os mais terríveis males fazem parte do roteiro da sobrevivência humana. Por isso, vemos perfilados na arena do combate gente de todos os calibres, homens e mulheres, jovens e velhos, dispostos a afastar ameaças e a lutar pelo bem-estar. Mas o fato é que esse vírus que contamina nossos corpos e atormenta nosso espírito causa mudanças em nosso dia a dia. Na vida de uns, produz profunda alteração, em outros, provoca o reordenamento de tarefas cotidianas, introduzindo novos hábitos, determinando rotas diferentes dos traçados originais. Nossas vidas foram, sim, desarrumadas.

Por mais que o empresário, o executivo de um grande grupo, quadros tarimbados e experimentados na arte de enfrentar desafios, acreditem que pouca coisa mudará em suas vidas, o amanhã não será o mesmo. O trabalho assume nova modelagem com o enxugamento de estruturas, o home office, a simplificação da papelada, o redimensionamento de budgets, a procura incessante de inovação, o uso da internet, enfim, as redes sociais funcionando como extensões de nosso cérebro e nossos braços.

Mas as mudanças de ordem material, em pleno curso, terão infinitamente menor impacto do que as forjadas por nossa mente. A começar pelo conceito de tempo, morte e vida. Sêneca (4.aC – 65) já pregava: “Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é que não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores”. 

A cada dia dos recordes de mortos, somos levados a enxergar que a eternidade está ali, a um palmo. Os dribles mentais que às vezes costumamos fazer, pensando que temos ainda o vigor da adolescência, a capacidade de saborear as coisas boas da vida, fenecem.

O translúcido espelho da realidade está ali adiante de nós. Como ia dizendo, no plano espiritual o facho das mudanças será bem luminoso. A solidariedade, por exemplo, é uma das sementes a germinar na seara dos valores. Viveremos com mais intensidade a virtude da amizade, que é a cola da fraternidade. Os amigos serão inseridos no círculo do compartilhamento, característica de uma sociedade convivencial. Bem sabemos que a rotina do cotidiano forma oceanos entre amigos, os laços vão se desmanchando, o tecido social se esgarça na poeira do tempo. Por isso, teremos de batalhar para que o distanciamento não maltrate a integração espiritual, procurando retomar os caminhos encruzilhados do passado, evitando a competitividade leonina do presente, reconhecendo que o viver sob intenso sufoco corrói a humanidade que nos habita.

Teremos de recolocar a vida e toda sua intensidade no mais alto pedestal dos valores. Hoje, de tanto ouvirmos a numerologia da morte, este ato final da espécie torna-se banalizado. A imaginar “um tanto faz, tanto fez”, como se a vida não fosse o sagrado dom que Deus nos deu.

Poderemos, sim, ser competidores, ambiciosos, heróis de grandes empreendimentos, sem esquecer, porém, nossa identidade humana. Pinço Confúcio: “a humanidade é mais essencial para o povo do que água e fogo. Vi homens perderem sua vida por se entregarem à água ou ao fogo; nunca vi alguém perder a vida por se entregar à humanidade”.

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