BLOG - Porandudas políticas

postado às 08h45 | 16 de março de 2022

PRESIDENCIALISMO SATURADO

Estamos chegando ao fim de um ciclo na esfera do presidencialismo, batizado, como sabemos, pelo dito franciscano: é dando que se recebe. A constatação é auspiciosa se levarmos em conta que, ao se fechar a bodega das trocas, outro sistema político poderia florescer, algo como um parlamentarismo à moda portuguesa ou mesmo à francesa. O primeiro-ministro governa com o Parlamento, deixando ao presidente as funções de representação do Estado, condição que ganha impulso na crise contemporânea.

Sabemos, no entanto, quão difícil é estabelecer uma nova ordem política em nossas plagas, em consequência do longo trajeto presidencialista, moldado ainda numa forte herança cultural. O sociólogo francês Maurice Duverger chega a lembrar o gosto latino-americano pelo sistema presidencialista, o qual, em sua visão, tem a ver com o apa­rato monárquico na região. O vasto e milenar império inca, com seus caciques, e depois o poderio espanhol, com seus reis, vice-reis, conquistadores, aventureiros e corregedores, teriam direcionado a inclinação para regimes de caráter autocrático.

O nosso presidencialismo agrega boa dose de autocracia. O executivo chega a criar um amontoado número de leis que, algumas vezes, supera a quantidade produzida pela casa que devia fazê-las, o Legislativo. Já na Europa, o parlamentarismo teria se inspirado na ideologia liberal da Revolução Francesa, cujo alvo era a derrubada do soberano. O fato explica a frie­za europeia sobre o modelo presidencialista. A disposição monocrática de exercer o poder apareceu no Brasil desde 1824, quando a Constituição atribuiu a chefia do Executivo ao imperador. A adoção do presidencia­lismo, na Carta de 1891 – que absorveu princípios da Carta americana de 1787 –, só foi interrompida no interregno de 1961 a 1963, quando o País passou por ligeira experiência parlamentarista.

O presidencialismo, sob essa configuração, está entronizado no altar da cultura política. O poder que dele emana impregna a figura do man­datário, elevando-o à condição de pai da Pátria, protetor, benemérito. Por conseguinte, essa cadeia de mando corre de cima para baixo, do presidente da República para governadores e prefeitos. No caso brasileiro, nos últimos tempos, vimos uma realidade ancorada no “parlamentarismo de ocasião”, concretizado pelo lema: ou o presidente dá o que nós queremos, ou não aprovará nada no Parlamento. Grupos parlamentares, como o Centrão, tomam as rédeas do Executivo.

Costumo lembrar outra herança que finca as estacas presidencialistas em nosso roçado. A estadania. O sociólogo  inglês Thomas Marshall argumenta que os ingleses construíram sua cidadania abrindo, primeiro, a porta das liberdades civis, depois, a dos direitos políticos e, por fim, a dos di­reitos sociais. Entre nós, Getúlio abriu, primeiro, a porta dos direitos sociais. Basta ver o apoio que deu ao sindicalismo. Adensa legislação social (benefícios trabalhistas e previdenciários) foi implantada entre 1930 e 1945, sob a castração de direitos civis e políticos. Portanto, o civismo e o sentimento de participação fica­ram adormecidos por muito tempo no colchão dos benefícios sociais. Em lugar da cidadania, forjamos a estadania. Sob essa configuração, o parlamentarismo só tem chance de se instalar sob o desgaste dessa modelagem de viés franciscano.

Sabemos que o fardão presidencialista só será modernizado ante uma intensa e continuada campanha de comunicação. Sem o apoio da sociedade, não sairemos do lugar. O rolo compressor comprimiria a política personalista. Formaríamos gi­gantesca estrutura comprometida com o bem comum. Coisa difícil, pois o bem da coletividade passa pela filtragem personalista, a marca pessoal. A ação institucional quase sempre é precedida pela louvação do mandatário. Fulanos e sicranos dão o tom da política e da administração pública, imprimin­do à orquestra o seu compasso. Alas se formam no interior de estruturas, matizes políticos dão o tom de operações e a algazarra do espetáculo acende fogueiras. A querela se espalha pela teia dos Poderes. Esse aparato teria de ser desmontado. O que fazer com a massa contenciosa que agita atores?

A resposta aponta para a obviedade: cumprir o dever nos limites prescritos pela lei, despir-se de vaidades, usar o bom senso para evitar duplicação de tarefas e, por fim, profissionalizar as estruturas, deixan­do-as imunes aos partidarismos. Os Poderes devem ocupar os espaços que lhes cabem. Sem mais nem menos.

 



postado às 09h15 | 11 de março de 2022

A ERA DOS RESSENTIMENTOS

No campo da análise política nesses tempos de pandemia, alguns fenômenos se fazem sentir, como o aparecimento de uma nova cepa do populismo de direita, a intensificação da polarização, os vieses que cercam a discussão sobre liberdade de expressão, todos contribuindo para adensar uma era de ressentimentos.

Essa teia fenomenológica, exposta por cientistas políticos, com destaque para Francis Fukuyama, o famoso pregador do “fim da História”, conservador e especialista em relações internacionais da Universidade Stanford (EUA), puxa da gaveta fantasmas que pensávamos definitivamente mortos, como o totalitarismo representado pela aproximação ideológica entre China e Rússia.

No pano de fundo, desenha-se a decadência da democracia norte-americana, a maior do planeta. O fato é que o mundo, na percepção de Fukuyama, convive com a ameaça de conflitos nunca d’antes vistos e hipóteses aparentemente absurdas, como uma nova guerra civil nos EUA, coisa até então impensável. Pesquisas atestam que uma minoria significativa dos norte-americanos aceita a ideia de atos violentos contra o governo.

O professor Samuel P.Huntignton, de Harvard, já descrevia, em seu livro “O Choque das Civilizações”, uma paisagem que flagra o “paradigma do caos”: “quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver.” Partia do pressuposto que essa moldura se apresentaria no painel de duas civilizações em conflito, a ocidental, e a de feição muçulmano-fundamentalista.

Os conflitos que ameaçam a vida no planeta são periodicamente lembrados, aqui e ali, em livros, ensaios, entrevistas e documentários sobre os tênues limites do processo civilizacional e sinais apontando para ruptura de seus eixos. O atual momento parece ser o mais sensível e instigante das últimas décadas para um olhar sobre as ameaças às democracias.

Nesse veio, é oportuno pinçar as promessas não cumpridas pelas democracias, como a igualdade entre as classes, a educação para a cidadania, a justiça para todos, o combate ao poder informal e invisível (os ajuntamentos criminosos que agem nos intestinos das organizações do Estado visível) e a transparência dos governos. Esse é o retrato em preto e branco exposto pelo filósofo Norberto Bobbio, em seu clássico O Futuro da Democracia.

As conquistas da ciência, os passos avançados que as Nações têm dado nos últimos 50 anos para melhorar a vida de seus cidadãos não tem sido suficientes para fechar as feridas abertas pela fome e pela miséria que assolam milhões de pessoas em quase todas as esferas do habitat terreno.     

E é nesse território nebuloso, cheio de tormentas e hoje vivenciando uma das maiores catástrofes da história, que agem  dirigentes e mandatários, muitos elevados aos cargos pela vontade do povo, outros sustentados por um populismo com toques de agrado ao coração das massas. Infelizmente, a semente da árvore populista encontra áreas para se expandir em instantes críticos da Humanidade. As demandas nas áreas de alimento, moradia, saúde, educação, segurança, explodem, exigindo dos governantes medidas para conter a convulsão social.

Parece exagero? Não. A Humanidade pede socorro. A pandemia tende a ser dominada pela ciência, mas os vírus que ceifam vidas não irão embora. Vamos conviver com eles por tempos. As mentiras produzem camadas de desinformação e ignorância. A liberdade de expressão ganha vieses. No afã de perpetuar seus mandos, governantes usam de artimanhas e dribles, manobrando com recursos e floreios para ganhar o aplauso das ruas. Tal conjunto de mazelas acaba sendo um corrosivo poderoso que fragiliza os corpos democráticos.

A ciência, negada por alguns, continuará sua trajetória de descobertas. Trata-se da luz no fim do túnel, a esperança dos povos, a argamassa para construção dos dutos civilizatórios. Mas não podemos e não devemos permitir que seja usada para beneficiar os donos do poder. E jamais usada como ferramenta para atiçar a política de ressentimentos, como a que se vê, por exemplo, na defesa/ataque aos processos identitários. Inventam-se, até, figuras estrambóticas, como essa do “racismo reverso”, que acirram ânimos de comunicadores e intelectuais. Que os palanques eleitorais em nossas plagas abriguem um discurso de bom senso.

 



postado às 09h15 | 11 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro Porandubas com o espetacular Adriano Suassuna, o famoso autor de Auto da Compadecida e grandes aulas sobre o conhecimento humano. Antes, um parêntesis. Este escriba tem o maior respeito por suas leitoras e leitores. A historinha de hoje não sinaliza desrespeito, tão somente um exemplo dos "causos" hilários protagonizados por Ariano, que incluo na categoria tão celebrada por Vergílio na Eneida: "poetis et pictoribus omnia licet" ("Aos poetas e pintores, tudo é permitido").

Dito isto, vamos à historinha.

O escritor pernambucano Ariano Suassuna (1927-2014) estava terminando a aula quando certo estudante, tatuado, jeitão de hippie, óculos redondos, bolsa com franjas e chinelo de couro, faz a pergunta respondida de pronto:

— O senhor não acha que o rock é um som universal?

— Meu filho, som universal só conheço três: arroto, espirro e peido.

A estrela do bolsonarismo

Olavo de Carvalho, a estrela que brilha nas mentes bolsonaristas, desaparece aos 74 anos de idade. Era um descrente da Covid e das vacinas. Perdeu para o vírus, que deve ter se aproveitado do conjunto de comorbidades do guru. Foi embora do Brasil por descrédito na política e esperançoso de que, longe, poderia fazer "uma igreja" com seus crentes. Nunca polemizei com o "filósofo", que massacrava todos aqueles de quem discordava.

Certa vez

Certa vez, deparei-me com um artigo de Olavo disparando flechadas contra esse escriba. Não entendi a razão. Fiz, ao longo de minhas análises políticas, severas críticas ao lulismo. Nunca li na cartilha de Lula. Mas sempre reconheci seu valor e sua persistência na política. Olavo foi duro, considerando-me um lulista. Risos. Leu errado. Era de sua índole questionar tudo e todos. Não respondi. Morreu sem minha resposta. Descanse em paz.

E agora?

Pergunto-me: e agora, o que poderá ocorrer com a leva de crentes que liam nas páginas do guru? Continuar a desacreditar na Covid? Dizer que morreu de causas naturais? E os fiéis ex-ministros Abraham Weintraub, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores? Aliás, o que fará Weintraub? Candidato a que? Deputado Federal por São Paulo, talvez esta seja sua melhor opção.

Viabilidade

Só para lembrar os fatores que explicam a viabilidade de um governo, segundo Carlos Matus, ideólogo chileno: a) a viabilidade política; b) a viabilidade econômica; c) a viabilidade cognitiva e d) a viabilidade organizativa. Bolsonaro acertou os ponteiros da viabilidade política, com o apoio do Centrão. Está perdido na questão da organização de seu governo, com ministros o desajudando. Está carente na viabilidade econômica, com o PIB sendo rebaixado pelo FMI. E quanto à viabilidade cognitiva, também fica a dever, com a montanha de dúvidas que persistem e obscurecem a identidade do governo. Afinal, o que quer e para onde pretende levar o país?

O que espera Bolsonaro?

Afinal de contas, quais os trunfos que se escondem na cabeça do Bolsonaro? O programa Auxílio Brasil? Recuperação da economia? Capacidade de Carlos Bolsonaro fazer milagres nas redes sociais? Ora, o filho Eduardo, o deputado Federal, está sendo isolado da campanha por seu radicalismo? Em política, tudo é possível. Mas, mesmo como reconhece a Bíblia, será difícil passar um elefante no buraco de uma agulha.

Lula

E Luiz Inácio, hein? Da esquerda do "vira a mesa", dos velhos tempos da luta de classes, Lula agora vira um perfil que quer atrair os integrantes do centro e até da direita. E até, tu, Geraldo Brutus? O que te impressionou a ponto de apagar tudo que disseste de Lula e fazer de conta que ambos são amigos desde os tempos dos primeiros passos? O que a política não faz, hein?

Matreirice

Lula transformou-se em renomada raposa da política. Matreiro como jamais foi. Uma espécie de José Maria Alkmin dos tempos de outrora. Conhecem esta?

O milagre de Fátima

José Maria Alkmin, a raposa mineira, mestre da arte política, chegava da Europa com cinco garrafas enroladas na pasta. A Alfândega quis saber o que era.

– Água milagrosa de Fátima.

– Mas tudo isso?

– Lá em Minas o pessoal acredita muito nos milagres da água de Fátima. Não dá para quem quer.

– O senhor pode desenrolar?

– Pois não, meu filho.

– Mas, deputado, isso é uísque.

– Ué, não é que já se deu o milagre?

Pico da contaminação

O pico da contaminação está à vista. Teremos novamente a avassaladora onda de contaminação que persistiu por ocasião da variante Delta no ano passado. Espera-se que tudo volte ao normal? Sonho. O desespero está nos estabelecimentos hospitalares, onde faltam insumos e mão de obra para enfrentar a onda da Ômicron. Quem entrou em hospital ou conversa com profissionais da saúde sabe o tamanho da encrenca.

Tasso e Simone

Tasso Jereissati está sendo procurado por Lula para papear sobre sua adesão ao candidato petista. Esse analista não acredita que Tasso embarque nessa. E Simone Tebet, Tasso? Quem sabe ela não dá um salto? Quem sabe, cai a ficha de milhões de brasileiros que desejam aposentar o radicalismo? Fui amigo de Ramez Tebet. Um dos perfis mais dignos que este escriba conheceu em sua vida profissional de comunicação política. Simone é uma política de respeito. Já provou ser uma grande administradora. Foi prefeita de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, onde deixou um rastro forte de sucesso.

E se o bicho for longe...

E se o vírus Ômicron não sair da paisagem e continuar no pano de fundo da campanha eleitoral? A radicalização tende a se intensificar. A conferir.

Federações

As federações partidárias constituem uma solução para clarear a política. Partidos com um mesmo tronco identitário tendem a se unir, ficando mais fácil ao eleitor compreender os espaços do arco ideológico, direita, centro-direita, centro, centro-esquerda, esquerda. Os partidos se comprometem a passar quatro anos juntos. Distribuição correspondente aos espaços midiáticos e recursos partidários. Se um quiser sair, as federações precisam contar com pelo menos três protagonistas. A política mais clara permitirá escolher por conteúdos e programas ideológicos.

SP e MG

Olhem o que pode acontecer com Minas Gerais, que é uma síntese do Brasil, uma banda virada para o Nordeste, outra banda virada para o Sudeste. E o carro-chefe da Federação, São Paulo?

O interiorzão

Este analista costuma conversar com eleitores do fundão do país, em sua maioria, eleitores fanáticos de Bolsonaro, que não se cansam de conclamar: "aqui, Lula já era. Bozo ganha de lavada". Podem até acertar suas previsões. Mas nos centros médios e avançados, o voto em Bolsonaro se esvai, diminui, seca a olhos vistos. A não que ser que nossos olhos não consigam mais enxergar bem. Estou há 40 anos olhando para a paisagem.

Fecho a coluna com a fama dos políticos.

Ninguém tem provas

Numa festa, a dona de casa recebe um político famoso.

— Muito prazer! — diz ele.

— O prazer é meu! Saiba que já ouvi muito falar do senhor!

— É possível, minha senhora, mas ninguém tem provas!



postado às 09h15 | 11 de março de 2022

O ESTOURO DA BOIADA

Mensurar o índice de racionalidade no discurso político é tarefa para pesquisadores pacientes. No nosso caso, por falta de conhecimento – ausência de dados e pesquisas – mas, sobretudo, por falta de paciência, tendemos a achar que, a cada pleito, são mínimas as doses de adubo na lavoura da racionalidade, sob a capenga modelagem de um sistema educacional que mantém os bovinos no curral.

Não me levem a mal por tratar a incultura das massas como um gigantesco curral que aprisiona a maior parte do eleitorado. Valho-me, aqui, da imagem lapidada por Stuart Mill em Considerações sobre o Governo Representativo, quando retrata a composição social de sua época, infelizmente válida até hoje: há cidadãos ativos e cidadãos passivos, e os governantes preferem os segundos, porque podem transformá-los em um bando de ovelhas acostumadas a pastar o capim, uma ao lado da outra, e a não reclamar mesmo que, de vez em quando, o capim seja escasso. Haja capim.

Pois bem, a campanha deste ano, a se acirrar a partir de agosto, será puxada por milhões de eleitores que tendem a votar por forte impulso de seus corações, eis que o voto, mesmo ganhando ínfimas taxas de racionalidade, não chegou de todo à cabeça. Esses contingentes que ainda selecionam candidatos por causa de recompensas ou pelo estouro da boiada que sai dos currais – correndo atrás dos líderes – infelizmente terão o condão de definir aquele que vai se sentar na cadeira presidencial.

“O Maria vai com as outras” persiste em continuar marcando os passos do nosso eleitorado, em torno de 155 milhões de eleitores. Vale aqui ligeira pincelada de história para aliviar o conceito que pode entrar no dicionário do “politicamente incorreto”. Contam os livros  que a mãe de D. João VI, a rainha Maria I, que tinha insanidade mental, manifestada após a morte do filho, costumava passear às margens do rio Carioca, no então bairro de Águas Férreas. Tratada como louca, era levada por suas damas de companhia, originando a expressão popular: Maria vai com as outras. Que hoje designa pessoa influenciável, manobrada, sem ideias próprias.

Insistamos nas gotas de racionalidade que molharão a campanha. Grupamentos organizados estão com seus copos de caldo político transbordando, desejando, por conseguinte, sorver novos sabores, experimentar outras misturas, que não as preparadas por dois perfis posicionados nos extremos do arco ideológico. São núcleos inseridos principalmente nas classes médias, que costumam decidir seus rumos após intensa observação da paisagem. O fato positivo é que sua movimentação em semanas anteriores ao pleito ajuda a influenciar parcela das massas amorfas, funcionando, assim, como a pedra jogada no meio da lagoa. Pequenas ondas correm até as margens. 

As decisões de grandes grupos eleitorais levam em conta, ainda, o fator surpresa, esse elemento que embute uma carga de novidade, expressão diferenciada e até maneira de se apresentar ao eleitorado. Esses indivíduos são empurrados por um vento a favor, aquela sensação de que constituem o remédio do momento, a vacina contra o vírus da velha política, o tônus revigorante da campanha. Meu pai, que fez política por décadas, costumava dizer: se o candidato estiver na direção do vento, não há força capaz de deter sua caminhada rumo à vitória. Quem será o candidato empurrado pelo vento?

Pergunta recorrente: como um país pode melhorar seus índices de racionalidade política? Ora, só mesmo uma revolução pela educação conseguirá alargar os horizontes de um amanhã próspero. Enquanto vivermos sob regime de bolsas, prêmios, recompensas, toma lá dá cá, grupismo, neocoronelismo, nossas raízes continuarão amarradas ao status quo. Rebanhos comendo capim sob a sombra do Estado, levadas de um lado para outro, tocadas pelo cajado de guias ambiciosos, jamais terão autonomia e independência. A única alternativa para sair dos currais é a semente de uma educação libertadora e vitalizante.

É mais que hora de sairmos da escravidão. Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego (Bernardo Soares), poetava: “Toda a alma digna de si própria/deseja viver a vida em extremo/contentar-se com o que lhe dão/é próprio dos escravos”. Essa citação do belo “Livro das Citações”, que ganhei do autor, o imortal José Paulo Cavalcanti Filho, é um retrato fiel do Brasil.

 



postado às 09h30 | 23 de fevereiro de 2022

UM ANO DE AFLIÇÕES

Um desafio e tanto analisar o Brasil sob a égide do ano que chega ao fim. Mas ao analista político sobram hipóteses: um ano de muito sofrimento; um ano de perdas; um ano que ainda vai continuar; um ano de mentiras mirabolantes; um ano de governo enviesado, para alguns; um ano de desgoverno, para outros; um ano de governo sem rumo; um ano de retrocesso; um ano de reversão de expectativas; um ano de mortes e luta pela sobrevivência.

Seja qual for o resumo, certamente ele conterá sua dose de verdade. Para não cairmos na onda de opção política, vamos escolher esta visão: um ano de aflições. Todos, de qualquer banda da sociedade, haverão de concordar que 2021 mexeu com um dos quatro instintos que explicam as ações do ser humano, segundo Pavlov: o impulso combativo, ligado à sobrevivência do indivíduo (o outro é o instinto nutritivo) e mais dois ligados à preservação da espécie (sexual e paternal). Contam-se nos dedos os números de pessoas que passaram ao largo da crise sanitária que padecemos.

Usarei os eixos que se apresentam no meu entendimento, na esteira do ensinamento de Hannah Arendt: “Pensar sem corrimão”, sem injunções de natureza ideológica. Dessa forma, começo pelo usual: o ano foi ruim para milhões de pessoas, inclusive este que aqui está, e também valeu para outros milhões (em menor número), o que significa, foi positivo para muitos, inclusive para este escriba.

No nosso interior, espraia-se um sentimento de perda. Algo foi embora. Fugiu. Escorregou de nossas vidas. Pequenas tochas de depressão, ondas de tristeza, um recolhimento forçado pelas circunstâncias. Um coração que deixou de bater no ritmo. Saiu de sua órbita. Uma perda civilizatória. Uma defasagem sem possibilidade de resgatar a parte da vida que se foi.

Milhões estagnaram, perderam empregos e negócios, ou até deram passos para trás, nas ondas da pandemia, do fechar de portas, da limitação de atividades profissionais, exigência que se fez como estratégia para conter o novo vírus. Vidas em atraso. Vidas saindo de um território de certo equilíbrio – até porque sabíamos jogar o jogo do mercado – para adentrar em um espaço nebuloso ou em um terreno pantanoso. Sob essa ótica, houve uma parada na roda civilizatória. Uma sensação de patinação no gelo, porém sem sair do mesmo lugar.

Temos de considerar, porém, o resultado da luta travada contra o coronavírus 19 e seus efeitos na rotina de nossas vidas. Como ensina Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. O fato é que aprendemos, e muito, com a pandemia. A ver a vida com outros olhos. A ter mais cuidados em nossas rotinas. A evitar certas posturas. A prestigiar a ciência. A dar valor aos profissionais da saúde. A trabalhar em condições que não sugiram o afastamento dos nossos postos de trabalho. A usar a criatividade para mostrar resultados e atenuar os danos ocasionados por nossas ausências nos espaços tradicionais do trabalho.

A vida ganhou um largo espaço para repensar posturas e atitudes. Os minutos da vida ganharam mais importância, até parecendo que o sábio Sêneca ganhou o status de nosso conselheiro-mor: “A vida é breve e a arte é longa. Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa o bastante e nos foi generosamente concedida para a execução de ações importantes, caso toda ela seja bem aplicada. Porém, quando se dilui no luxo e na preguiça... aquela que não havíamos percebido passar, sentimos que já passou”.

Pensemos nos efeitos destruidores para alguns segmentos. Para as crianças e os jovens, um refluxo grave em suas vidas, eis que o vácuo educacional ultrapassou o tamanho da idade, lançando-os no fim da fila civilizatória. Será complicado retomar o tempo perdido, mesmo para aqueles que contam com ferramentas tecnológicas. Para os servidores da saúde, uma intensa mobilização tomou conta de suas tarefas. Cumpriram sua missão e são vistos por nós como “anjos da guarda”. Portanto, o ano não foi totalmente de perdas. Nossas vidas mudaram. E agora, com a iminência de uma nova onda (quarta, quinta?) da pandemia, com a variante ômicron, a ideia de que o planeta está tumultuando os passos rotineiros de seus habitantes emerge com força.

Alguns atores na passarela mundial perderam: aqueles que vaticinaram (isso mesmo, não confundir com vacinaram) contra as vacinas, incluindo o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e outros com jeitinho de ditador. Perderam os grupos fanáticos, os torcedores da pandemia, aqueles que desacreditam nos postulados da ciência, os incréus, os que usam o sabão dos sistemas autoritários para limpar sua pele e sujar a dos outros.

Ganharam com a pandemia as farmacêuticas, que enchem seus cofres, os cientistas – infectologistas, epidemiologistas, estudiosos do fenômeno – os profissionais da saúde, principalmente os grupos de vanguarda e da retaguarda que enfrentam o coronavírus 19, as autoridades governamentais que autorizam(ram) medidas de combate à pandemia, organizações planetárias de enfrentamento à doença.

2022 se abrirá com um painel de interrogações.



postado às 09h30 | 23 de fevereiro de 2022

Porandudas políticas

Começo a coluna pinçando historinhas do ex-governador de MG, o folclórico Newton Cardoso.

Pasteurizar

Preocupado com as notícias de que o leite estava contaminado, Newton pegou um pastel e começou a mexer dentro da xícara. Um assessor perguntou:

- "Por que você está fazendo isso?" Respondeu:

- "Para pasteurizar o leite."

Porquinos

Newton no palanque: "Minas sempre se preocupou mais com a criação de bovinos e equinos. Agora, eu vou cuidar também da criação de porquinos".

Uso o M

Newton, numa entrevista: "Precisamos acabar com a fila do IMPS."

O assessor cochicha:

- "Não é IMPS, é INPS."

- "Nada disso. Desde lá de Brumado que eu aprendi que antes de P se usa M."

Raposa e leão

"Um príncipe precisa usar bem a natureza do animal; deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos." Conselho de Maquiavel, que arremata: "não é necessário ter todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las."

Breve leitura

Fevereiro começa com a temperatura eleitoral um pouco mais elevada. A corrida eleitoral ganha volume, os protagonistas se movimentam, o eleitorado começa a tomar pé nas ondas que se formam nos Estados, onde os partidos focam nas composições e alas. Na linha de frente da política, o ator Luiz Inácio continua a ter o maior desempenho no palco, recebendo a maior atenção midiática.

O arco de Lula

É evidente que seu favoritismo chama a atenção dos próceres da política, eis que a ideia que os move é a conquista do poder, custe o que custar. O Centrão não tem tanta certeza de que perfilará ao lado de Jair Bolsonaro até o fim da corrida. Agirá sob os impulsos do pragmatismo, o que abre grandes dúvidas em seus líderes. Isso significa a alternativa de poder se bandear para o lado vencedor, lá mais adiante. Haverá, claro, a correia partidária que segurará os indecisos, mas sempre aparecerá uma saidinha à brasileira, que é a de piscar um olho para a direita, outro para a esquerda. Lula se aproveita dessa tendência para fechar um arco de alianças com os centristas.

A nova carta aos brasileiros

Esta é a nova carta de Lula aos brasileiros: alianças aqui e acolá, diluindo o vinagre petista, que parte considerável do eleitorado se recusa a provar. Com o aceno ao centro e à direita, Lula espera quebrar as barreiras que ainda restam como oposição ao petismo. As massas não estão preocupadas com ideologia, indo ao encontro do perfil que restaure para elas a esperança. Mas os setores médios, integrados por fortes correntes de profissionais liberais, pequenos e médios proprietários, setores da intelligentzia, núcleos da educação e da mídia, executivos da iniciativa privada, entre outros, ainda exibem rejeição ao lulopetismo.

O Busílis

O problema do PT ainda se concentra no território da confiabilidade. Escrevo há tempos sobre o refrão: primeiro, eu, segundo eu, terceiro, eu. Assim raciocina o PT. Tornou-se uma religião fechada. Quem não é petista, é inimigo que merece o fogo do inferno. Os outros é que roubam, praticam ilegalidades. Por quatro décadas, temos visto este manto sagrado cobrindo o PT. Como confiar no fato de que não mais prega a luta rancorosa de classes, a velha clivagem ideológica, a defesa intransigente do regime cubano, o elogio à "democracia" venezuelana? Para efeito eleitoral, o PT é mutante. Porém, e depois? Lula se esforça para retocar as paredes do petismo.

Conservadorismo radical

Já o contraponto é o presidente Jair Bolsonaro, que deseja ressuscitar a polarização de 2018. Sim, teremos uma campanha muito polarizada, em alguns aspectos até mais contundente que a de 2018. É a alternativa que sobra a Bolsonaro: ele e o outro, o outro, representando a maldade e ele, representando o dragão montado no cavalo de São Jorge. Radicalizar, para ele, significa ganhar visibilidade, apresentar-se como o guerreiro que luta contra o comunismo, combate a ciência e defende obscurantismo.

O paradoxo

Eis o paradoxo de nossos tempos: nunca a ciência avançou tanto no campo das descobertas das vacinas, nunca os laboratórios se dedicaram com tanto afinco às pesquisas científicas. Nunca os conhecimentos foram tão repartidos pelos habitantes do planeta. A Sociedade da Informação nos acolhe. No entanto, mesmo vivenciando esse Novo Iluminismo, propagam-se a mentira, as falsas versões, as inverdades, a desinformação. A ignorância se alastra formando camadas de estupidez aqui e alhures. Populistas se aproveitam da incerteza das massas para jogar iscas e atrair os incautos. Esse é o paradoxo desse novo mundo que se descortina.

A construção da racionalidade

Tempo de eleição é tempo de emoção. O engajamento de um eleitor se dá, inicialmente, pelo coração. O eleitor descobre em seu candidato preferido elementos que os torna próximos, designados pela psicologia como identificação e projeção. Os candidatos escolhidos são aqueles que mais se identificam com as demandas dos eleitores, aqueles que são os mais aptos a suprir as carências dos conjuntos sociais. Esse processo tem muito a ver com emoção. Mas também há uma dose de racionalidade, que serve para efeito de comparação entre perfis e decisão de voto. A construção da racionalidade emerge, não com tanto ímpeto, mas começa a brotar nas searas sociais.

A terceira via

Diante dessa moldura, pode ocorrer uma decisão coletiva que tenha como foco uma via que se afaste do único corredor do pleito. Essa via dependerá das circunstâncias, entre elas, o esgotamento dos palanques radicais, a exaustão de discursos polarizados, a fragilidade da economia, menos dinheiro no bolso das massas, a estética da miséria aumentando seus pontos de visibilidade.

Miséria

A moldura da miséria se apresenta na paisagem destroçada que se torna mais nítida nesses tempos de pandemia e chuvas torrenciais que matam famílias e destroem seu habitat. A pandemia continua subindo ao teto, com a variante ômicron massificando a contaminação. Mas o cidadão já não tem tanto medo como na primeira onda da variante delta. Já a paisagem de desolação e destruição por causa das chuvas é a estética que toma conta dos meios de comunicação. O problema será jogado no colo dos governantes, que mostram suas caras nos espaços destruídos, mas não foram capazes de implantar programas de prevenção.

A economia

Já a economia aparece com dados que sinalizam soerguimento, recuperação. As contas públicas reagem com um saldo positivo de mais de R$ 64 bilhões. Os dados do PIB tendem a subir um pouco. O emprego começa a reagir, quadro mostrado pelo aumento no número de carteiras de trabalho assinadas. O tal auxílio Brasil acalma os ânimos das populações mais carentes. Ou seja, a economia se mostra reagindo bem às intempéries.

Segundo turno

Esse é o desenho que anima Bolsonaro e suas bases. Daí sua confiança em entrar no segundo turno. Lula sabe que se for para uma segunda rodada, com a economia em recuperação, será difícil levar a melhor. As pesquisas, hoje, o apresentam como favorito. Hoje, repito. Tendências eleitorais são como nuvens. Mostram figuras diferentes de minuto a minuto. Mas este analista acredita que se um novo figurante entrar em um segundo turno, com ele estarão as chances de vitória.

Fecho a coluna com uma observação sobre o marketing de campanha.

Marketing não ganha campanha

Marketing não ganha campanha. Quem ganha campanha é o candidato. Marketing ajuda um candidato a ganhar a campanha, ao procurar maximizar seus pontos fortes e atenuar seus pontos fracos. O profissional de marketing é importante, na medida em que funciona como um estrategista a definir linhas de ação, orientando a escolha do discurso, ajustando a linguagem, definindo padrões de qualidade técnica, sugerindo iniciativas e ponderando sobre o programa do candidato, os compromissos e ações a serem empreendidas. Esse figurante precisa, sobretudo, ser um profissional com visão sistêmica abarcando todos os eixos do marketing. Que não entenda uma campanha apenas como apelo publicitário, proposta de programa televisivo. Que seja capaz de visualizar os novos nichos de interesse de uma sociedade exigente, crítica e sensível aos mandos e desmandos.

O protagonismo capenga

Não adianta um bom marketing se o candidato é um boneco sem alma. Candidato não é sabonete. Tem vida, sentimentos, emoção, tristeza e alegria. Muita coisa depende dele, de sua alma, de seu fervor, de suas crenças, enfim, de sua identidade. Protagonistas da política não são produtos de gôndolas de supermercado. As inserções publicitárias na mídia até podem exibir um candidato de forma genérica, por falta de tempo para expor conteúdo. Mas o eleitor não se conformará com meros apelos emotivos e chavões antigos, como aqueles que embalam perfis saturados - candidatos beijando crianças e apertando a mão de pessoas, tomadas em câmera lenta mostrando o candidato no meio do povo.



AUTOR

Gaudêncio Torquato