Porandudas políticas

Postado às 10h15 | 01 abril 2021 |

Porandudas políticas

Coisas do Brasil

Um sujeito comprou uma geladeira nova e para se livrar da velha, colocou-a em frente a casa com o aviso: "De graça. Se quiser, pode levar". A geladeira ficou três dias sem receber um olhar dos passantes. Ele chegou à conclusão: ninguém acredita na oferta. Parecia bom demais pra ser verdade. Mudou o aviso: "geladeira à venda por R$ 50,00". No dia seguinte, a geladeira foi roubada!

(Historinha enviada por Álvaro Lopes)

Azevedo abrindo tensões

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, pediu o boné. Maneira de dizer que foi demitido. Surpresa. Não se esperava sua saída. Abrupta. Nota do Ministério: "Agradeço ao presidente da República, a quem dediquei total lealdade ao longo desses mais de dois anos, a oportunidade de ter servido ao País, como ministro de Estado da Defesa. Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituição de Estado. O meu reconhecimento e gratidão aos Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, e suas respectivas forças, que nunca mediram esforços para atender às necessidades e emergências da população brasileira". Ontem no fim da manhã, o Ministério da Defesa soltou uma nota dizendo que os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica serão substituídos. O comunicado dá a entender que a ordem veio de cima. Mas vale ainda a hipótese de terem pedido demissão. Os substitutos serão mais alinhados ao bolsonarismo? Vamos acompanhar sua trajetória.

A mexida

Mexer no Ministério nesse momento crítico que o país atravessa exige cautela, leitura adequada da moldura político-institucional, sensibilidade. E, sobretudo, consciência dos impactos da mexida em cada setor. No ambiente das Forças Armadas, a saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa, seguida da saída dos três comandantes das Forças, azedou o ambiente. E a eventual confirmação dos motivos abrirão pontos de tensão. Comenta-se que o ministro não teria demitido o comandante Edson Pujol, do Exército, pois não estaria fazendo uma gestão ao gosto do presidente Bolsonaro. Pujol sempre se manifestou contrário ao papel político das Forças.

Centrão com força

A escolha da deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a área da articulação é um gol do Centrão. Emplaca mais um dos seus quadros. A deputada é casada com o ex-governador do DF, José Roberto Arruda. Vai ser questionada. Mas tem a proteção de Arthur Lira, presidente da Câmara. André Mendonça desce de posto, deixando o Ministério da Justiça para a Advocacia-Geral da União, de onde saiu. Mas poderá subir mais adiante, chegando ao Supremo. Anderson Flores, da PF, ascende ao Ministério da Justiça. Teria o apoio da "bancada da bala". O general Braga Neto, na Defesa, seria uma forma de harmonizar o ambiente conturbado. E a entrega da Casa Civil ao seu colega de turma na AMAN, general Luiz Eduardo Ramos, Bolsonaro tenta deixar no entorno gente de confiança. Mas a marca dessa mexida sinaliza para as bases. O presidente Jair dá guarida ao seu clamor. Esse ministério estará no olho do furacão quando a campanha pré-eleitoral se iniciar.

Ernesto e sua ideologia

A saída do ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro significa um baque da ideologia de extrema direita que tenta fincar estacas no país e que tem no então chanceler um de seus pilares. Ernesto Araújo fechou fronteiras do multilateralismo, desdenhou das vacinas, isolou o Brasil da modelagem diplomática internacional e, como fecho de sua desastrada atuação no MRE, brigou com a área política. Sua saída era previsível a partir dos recados dados pelos presidentes da Câmara e do Senado. Há dias cerca de 300 diplomatas, em carta, pediam sua demissão. A tarefa do novo chanceler, mesmo que seja identificado com o bolsonarismo, será a de recompor as pontes destruídas no campo das relações internacionais. O novo chanceler, embaixador Carlos Alberto França, é comedido.

Saúde

O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tem reuniões diárias com entidades e políticos. Muitas falas e pouca ação. Deveria, sim, estar na linha de frente, em hospitais, nas UPAs, vendo a tragédia que se espraia.

De fora

Triste notícia: o Brasil fica de fora de pacto internacional contra a epidemia.

Sem rumo

O governo Bolsonaro parece um dândi na escuridão. Procura um rumo. Guedes defronta-se com a questão do orçamento, inflação que sobe, perda de quadros. Auxílio emergencial abaixo das expectativas. Mesmo assim, mostra ainda certa esperança. Mas está angustiado com a situação. Pandemia no pico. Clamor da população sobe o tom. Bolsonaro preocupado com o Congresso. Perdeu a narrativa na frente da pandemia. Nomeou um Comitê, do qual não é o coordenador. A nau parece sem rumo. À procura de uma bússola.

O jogo vai começar

Os jogadores ainda estão no campo de treinamento. E os times começam a providenciar chuteiras e novos uniformes. Alguns começam a treinar imaginando que serão selecionados pelo técnico para compor o time. Outros já sabem que estarão no banco de reserva. E ainda um grupo de jogadores já sabe que só entrarão no jogo de final de campeonato se houver contusão de parceiros. O jogo é o campeonato eleitoral brasileiro, cujo final será disputado em outubro de 2022. Analisemos o panorama.

Calendário I

O jogo eleitoral tem um calendário, que nem a crise sanitária tem força para mudar, eis que tem data fixa para terminar. Sabemos que, por aqui, o processo eleitoral é ininterrupto. Termina um pleito e, no dia seguinte, começa outro. Esse fenômeno acaba deixando o país amarrado no tronco do patrimonialismo, pois os protagonistas só pensam em chegar ao poder central, desprezando agendas prioritárias e fechando os olhos para as grandes carências sociais.

Calendário II

Por isso, pode-se aduzir que estamos no estágio de pré-campanha, quando os nomes aparecem, alguns como balão de ensaio, para se conferir sua receptividade na opinião pública. As primeiras articulações se iniciam, prevendo-se interlocução que vai se fechando ao correr do ano até se compor a moldura com os mais prováveis jogadores. No final do ano, o corpo político, sondando suas bases, firma suas ideias, confirma ou desfaz impressões, compromete-se com alianças, enfim, junta os elementos para finalizar, até abril/maio de 2022, sua visão. A campanha terá início nesse tempo.

Lula

Este analista tem caminhado na direção oposta ao de vários comentaristas de política. Por exemplo, minha leitura sobre Lula é esta: só será candidato se houver uma forte e insuperável mobilização social. Articulações, alianças e compromissos, novas Cartas aos Brasileiros e outras ferramentas do arsenal da política não serão suficientes para tornar Lula candidato. Há um conjunto de fatores que ancoram esta hipótese, a saber: o espírito do tempo; a sombra do passado; a mesmice expressiva; a divisão do país.

O espírito do tempo

Cada ciclo tem sua identidade. Os fatos do presente podem até ter semelhança com o passado, mas o espírito do tempo respira os ares do hoje. O espírito do tempo, que acolheu Lula no passado, compunha-se de um conjunto de circunstâncias que empurravam o poder para seu colo. Depois de Lula e de Dilma, 13 anos, o país entrou em uma nova rota. Ares renovados, escândalos vindos à tona, vísceras expostas de líderes e partidos, versões dando lugar à verdade. Ninguém atravessa um rio duas vezes no mesmo lugar.

Sombra do passado

O passado tem duas facetas: a de saudades, dos entes queridos que se foram, do bucolismo e do atavismo que nos levam às pracinhas de nossa infância, do cheiro de terra molhada pela chuva, das brincadeiras e das músicas que nos embalavam. O passado que não volta mais. Mas há outra faceta: o tempo das coisas nefastas, dos grandes escândalos, da corrupção perversa, dos crimes, das traições e emboscadas, enfim, da maldade instalada nos espaços do nosso território. Esse passado é repelido. "Sai pra lá, peste". Pois bem, esse passado abriga os protagonistas que participaram dos acontecimentos. Não serão assépticos, limpos, em pouco espaço de tempo. O perfil de Lula estará sob a sombra do passado. Aristóteles pontuava: "pode-se considerar o caráter de uma pessoa como o mais eficiente meio de persuasão de que se dispõe".

Mesmice expressiva

O nosso sistema cognitivo é dotado de alavancas para aceitar ou rejeitar o discurso. Clyde Miller designa-as de alavancas psíquicas. A primeira é a adesão, fazendo que as pessoas aceitem ideias, por associá-las a coisas consideradas. Democracia, pátria, cidadania, liberdade, justiça estão nesta lista. Estamos falando de conceitos considerados positivos e bons. A segunda é a alavanca da rejeição, o contraponto, que procura convencer a massa a rejeitar pessoas, coisas, associando-as a símbolos negativos, como guerra, morte, fome, imoralidade, corrupção. A terceira é a autoridade, que traduz valores da experiência, conhecimento, sabedoria, domínio. Deus é a síntese desse escopo. Outros exemplos: Gandhi, Jânio Quadros. Por último, a alavanca da conformização, cujo apelo se volta para a solidariedade, a união, a irmandade. "A união faz a força". Procurem, agora, associar a voz rouca de Lula em palanque com algo. Identifica-se mais com aspectos positivos ou negativos?

A divisão do país

Lula é sempre lembrado pela divisão do país em duas bandas: nós e eles, mocinhos e bandidos. Essa imagem é muito ruim. Destrói a alavanca da unidade, da solidariedade, da harmonia social. E estamos vivenciando um momento em que o lema deve ser suprapartidário, acima das ideologias. Será muito difícil ao PT eliminar os vestígios dos tempos em que pregava "a luta contra a zelite".

A favor de Lula

Há um argumento que as margens podem correr na direção de Lula. Trata-se da hipótese que, há tempos, é inafastável de meus comentários: a equação BO+BA+CO+CA. Ou seja, o uso de instintos em campanhas eleitorais: combativo, nutritivo, sexual e paternal. Destaco o instinto nutritivo. Minha hipótese para explicar o processo de decisão de voto parte do cinturão econômico, ciclicamente usado por governos para afrouxar ou apertar a barriga do eleitor. O xis da questão resume-se na equação: bolso (BO) cheio enche a geladeira, satisfaz a barriga (BA), emociona o coração (CO) e induz a cabeça (CA) dos bem alimentados a recompensar os patrocinadores do pão sobre a mesa. E o troco, a recompensa? O voto na urna. A recíproca é verdadeira. Bolso vazio é reviravolta eleitoral. As massas podem fazer associação com Lula abrindo os dutos do consumo. Mesmo assim, este analista não crê em sua candidatura.

Fecho a coluna com mais um pouco de humor.

Idôneo, o comandante

Em certa cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado:

- Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo.

O coronelão relaxou e gritou para a galera que o ouvia:

- Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo.

(Historinha contada por Leonardo Mota, em seu livro Sertão Alegre)

Postado às 08h45 | 18 março 2021 |

Porandudas políticas

Como os leitores sabem, abro a coluna com uma historinha engraçada e pitoresca, antes de fazer a leitura da política, do clima social e das circunstâncias. Um aperitivo.

Vi, segunda-feira, a entrevista do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que tinha ao lado o assessor Airton Soligo, mais conhecido como Cascavel. Paranaense de Capanema/PR, em 1985 estabeleceu-se em Roraima, em virtude da expansão das linhas de ônibus da empresa paranaense União Cascavel de Transporte e Turismo (Eucatur), na qual trabalhava como assessor da direção. Conheci Cascavel em Boa Vista/Roraima, onde coordenei o marketing de quatro campanhas eleitorais. Cascavel foi eleito vice-governado na chapa de Neudo Campos. Foi também prefeito de Mucajaí e presidiu a Assembleia Legislativa.

Agora, a historinha relembrada por um jornalista amigo.

Povo de Roraima

Comício no bairro popular, zona do meretrício. Chegara a vez de Cascavel dar seu recado.

- Povo de 13 de setembro.

Olhou para o lado, olhou para o outro, encarou a multidão e tascou:

- Meu povo de 13 de setembro.

- Heróis de 13 de setembro.

Não satisfeito, continuou:

- Meu povão de 13 de setembro.

Parou. Faltava verbo. Na fila da frente do palanque, um bebum gritou:

- Desembucha, Cascavel. Que danado de cobra você é. Foi você que pegou minha 86?

Cascavel não perdeu a deixa:

-Tá aí esse filho de uma égua que prova o próprio veneno. Vá se lascar, desgraçado.

O fato é que a cachaça 86 era considerada a pior cachaça do mundo. Hoje, Cascavel é um próspero empresário do norte do país. Assessorava o então ministro Pazuello, a quem ajudou na tarefa de administrar a imigração de venezuelanos em RR. É simpático e tem veia política.

A vida política

A vida de um governo é uma gangorra. Vai ao alto e desce. Chega ao pico da montanha e ao fundo do poço. Lá e cá. Os ciclos obedecem ao espírito do tempo. Em início de gestão, os governantes estão no alto. Vivem a ressaca da vitória, as placas tectônicas da política vão se acomodando com a composição de ministérios e autarquias, o cobertor social é estendido para acolher as margens sociais e a locomotiva do governo - a economia - ajusta seus eixos. Noutra simbologia, podemos dizer que o carro dá partida. Ou, ainda, é a fase do lançamento do governo, quando todos os olhos se voltam para o protagonista principal do jogo.

As visões se clareando

Geraldo Vandré compôs Disparada, sua mais famosa música, que diz: "E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando, as visões se clareando, até que um dia acordei". Pois bem, ao completar um ano de administração, as visões começam a se clarear. E o eleitor a acordar. O carro está na segunda marcha, esperando a terceira, mas já dá para perceber como o motorista dirige, seu jeito, a maneira como pega a direção e avança na estrada. Percebe-se a identidade do governo. Identidade significa a coluna vertebral, o estilo, a substância governativa - programas, ações, fraseado, como se comporta ante elogios e críticas. É a etapa de crescimento.

A terceira marcha

O carro roda e ronca, pedindo mais velocidade. Terceira marcha, que permite saber a real performance do automóvel. Bom de subida, estável em descida e em curvas, respondendo bem ao que dele se espera. Essa fase abre oportunidade para que os consumidores, conhecendo as condições do carro, possam ou não comprá-lo ou recomendá-lo a um amigo. O carro ganha a chance de ser bem ou mal avaliado. Estamos no ciclo da maturidade. A opinião pública forma a imagem do governo, a percepção cognitiva do eleitorado. Imagem, portanto, é projeção da identidade, desenvolvida pela bateria de comunicação.

O clímax

A última fase é a do clímax, quando o carro, em quarta ou quinta marcha (se tiver), chega ao ápice da montanha, demonstrando todo o seu potencial e avançando terreno de maneira rápida e segura. Paremos, aqui, e puxemos essas fases para o governo Bolsonaro.

O lançamento

O governo saiu-se bem no lançamento, na esteira de amplo apoio social, depois de vencer uma guerra contra o PT, seu adversário, e em atendimento a uma poderosa visão crítica da sociedade, saturada com o lema "nós e eles". Esse fraseado foi martelado durante muito tempo, em clara divisão do Brasil em duas alas, a dos mocinhos e a dos bandidos. Ante os estrondosos escândalos que arrebentaram com a imagem do petismo-lulismo e que desbocaram na operação Lava Jato, o "nós e eles" perdeu sentido, até porque as tão combatidas elites, execradas por Lula e o PT, acabaram inseridas nos dutos da corrupção. Juntas com o PT.

O crescimento

O governo Bolsonaro, eleito com o apoio de milhões de brasileiros, de todas as classes, prometia renovação da política. Não fez e não faz isso. A decepção passou a forjar o espírito nacional. O presidente, confiante no antipetismo que se alastrou pelo território, passou a fazer um governo com as mesmas ferramentas que lapidaram os governos petistas, instalando um "eles e nós", eles, os bandidos, nós, os mocinhos. E passou a jogar no prato de suas bases simpatizantes o caldo apimentado de ódio, da vingança e da ferocidade. A identidade - conservadora nos costumes, dúbia no liberalismo, franciscana na política ("é dando que se recebe") - plasmou uma imagem desgastada, tosca, plena de versões e desmentidos.

A pandemia

Para coroar esse leque de situações desencontradas, apareceu a Covid-19, com seu poder mortífero, porém, desacreditada pelo presidente e seus ministros, abrindo a maior crise sanitária vivida pelo país em toda a sua história. A má gestão do governo na pandemia disparou gigantesca teia de críticas, deixando perplexa a comunidade internacional. A indecisão e a má vontade para a aquisição de vacinas se mostraram por meio de uma embalagem ideológica, como se vacina tivesse ideologia, religião, cor. O país está doente, sai mais um ministro da Saúde, a vacinação é lenta e o governo, mesmo a contragosto, teve de encarar a realidade, topando comprar vacinas antes rejeitadas e a apertar, repito, mesmo a contragosto, as mãos da ciência. Mudança de ministro sem mudança de comportamento de Bolsonaro é o mesmo que trocar seis por meia dúzia.

E agora, José?

Estamos, ainda, na fase três. A quarta marcha só será usada em 2022. Temos, agora, uma triste paisagem dos corpos político, econômico e social. Na política, fez-se um arranjo com o Centrão. Na economia, as interrogações aumentam: o bolso do consumidor continuará a esvaziar? A inflação sobe. Os preços dos alimentos, idem. Paulo Guedes engole sapos. O programa de privatizações emperra. Brasil é visto com desconfiança pelo mercado internacional. O pacote social será apertado ou suficiente? E agora, José? O Produto Nacional Bruto da Felicidade baixa, continuará na mesma ou sobe?

Saúde

O Ministério da Saúde é o calcanhar-de-Aquiles do governo. O general da área de logística que sai não mostrou competência para gerir a bagunça que toma conta da saúde no país. O general deveria ter pedido o boné bem antes. O que dizem seus companheiros? A médica Ludhmila Abrahão Hajjar, convidada, declinou do convite. Foi ameaçada de morte. Um grupo de ódio teria ameaçado, até, invadir o hotel onde se hospedou em Brasília. Milícias? De onde vêm ameaças desse tipo? Ao que se infere, o novo ministro Marcelo Queiroga, respeitado, já deu o aviso: governo define a política e Ministério da Saúde executa. Péssimo começo. A lógica recomenda que a Pasta especializada em saúde deve definir a política sobre saúde.

Alternativa

Os governadores e os líderes do Congresso podem avocar a gestão do combate à epidemia e constituir um grupo de comando. Chegou-se ao limite. Sob essa tempestade, aparece Lula como a bonança. Após seus processos terem sido anulados na vara de Curitiba pelo ministro Edson Fachin fez um grande discurso moderado e se posicionando como a virtude para esses tempos nebulosos. Lula prega uma frente ampla. Na visão deste analista, não será candidato, mas protagonista de proa na batalha eleitoral de 2022.

Mais fogo

A quebra de sigilos bancário e fiscal de pessoas e empresas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) revela indícios de que o esquema da rachadinha também ocorria nos gabinetes do pai, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quando este era deputado Federal, e do irmão, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). A Ordem no Planalto é tratar rachadinhas como assunto "de fora do governo. O tema continua na mídia.

O custo da descontinuidade

Fecho a coluna com um alerta sobre o custo da descontinuidade administrativa. No Brasil, o custo atinge bilhões e bilhões de reais. Os sucessores na administração pública costumam apagar as ideias, mesmo ótimos programas, de seus antecessores. Dou um exemplo: o caso da EMPARN, dirigida no início dos anos 80 pelo prof. Benedito Vasconcelos Mendes. Ali, ele fez extraordinário trabalho de inovação da pesquisa agropecuária no Nordeste. Hoje, o professor Benedito dirige o Museu do Sertão, empreendimento exemplar, em Mossoró/RN.

Importação de animais

Na época, criou o Projeto de Introdução de Animais de Desertos, financiado pela FINEP e EMBRAPA e, na época, o mais arrojado para a ser implantado nos Estados nordestinos. Era proibido importar animais da África em razão de uma endemia, a doença do sono, transmitida pela mosca tsé-tsé. Daí ter se decidido pela compra junto a criadores americanos. O mestre conta: "tivemos de pagar ao Departamento de Agricultura Americano para fazer a quarentena e todas as imunizações necessárias para evitar introduzir novas doenças no Brasil. Foram 60 dias de quarentena nos Estados Unidos. Os 12 Elandes (10 fêmeas e 2 machos) e os 12 Órix-de-cimitarra vieram em avião fretado de Dallas para o aeroporto de Natal. Eu mesmo fui escolher os animais nos EUA, mas toda a transação comercial foi feita pela EMBRAPA".

Adaptação

Os animais foram introduzidos para pesquisa de adaptação, para saber se eles iriam se adaptar as condições edafoclimáticas do semiárido nordestino. Mas as pesquisas foram interrompidas depois que o professor deixou de dirigir a empresa. Tudo foi por água abaixo. Um desmonte. Inveja, despeito, apagar o sucesso da administração. Ora, seria muito útil ao semiárido se soubéssemos como estes animais se comportam nas condições do Nordeste. Curiosidades: o elande consome ramas espinhentas (como a rama da jurema), característica que lhe garantiria sobrevivência por ocasião das secas. Benedito arremata: "a jurema não é caducifólia e sim perenifólia, ou seja, não perde as folhas no segundo semestre do ano, nem durante as secas. Um copo de leite de elande seria suficiente para manter uma criança no que diz respeito à proteína e gordura".

Postado às 08h45 | 18 março 2021 |

CHIMPANZÉ E MAQUIAVEL CONTRA GANDHI

O sociólogo chileno Carlos Matus, em seu ensaio Estratégias Políticas, define de maneira interessante os estilos de fazer política. O primeiro é o estilo chimpanzé, ancorado em projeto de poder pessoal, de rivalidade permanente, de hierarquização de forças. Cada protagonista luta para ser o mais forte, o mais poderoso. Luta-se pelo poder como fim, partido contra partido, com foco na micropolítica, longe dos interesses coletivos. O chimpanzé quer preservar sua manada, afastando para longe outros bandos de macacos.

O segundo é o estilo Maquiavel, onde o poder do Príncipe se subordina a um projeto de Estado. Mas um Estado plasmado à luz e à semelhança do Príncipe. Os fins justificam os meios. Tudo é válido para se chegar ao topo. E já a terceira vertente é a de Gandhi, que eleva os valores humanos, da solidariedade, da irmandade, da unidade, da caridade, com o fito de se alcançar a felicidade coletiva.

Puxemos essa modelagem política para o nosso ambiente. Regra geral, os protagonistas ambicionam ascender ao pódio mais alto do poder político. Cada qual quer vencer o outro, mesmo que pertençam a um mesmo bloco do sistema representativo. Agora, tanto Luiz Inácio como Jair Bolsonaro se mostram inclinados a optar pelo modelo Maquiavel, com o personalismo do Príncipe focado em um projeto de Estado, um inclinado à esquerda, outro, à direita, ambos comprometidos em fincar profundamente no solo bandeiras de cortes fortes.

No Congresso, o pragmatismo é o lume da modelagem chimpanzé, a de “o poder pelo poder”. A arma é o voto, com o qual partidos preservam e ampliam territórios, disparando tiros leves e fortes, ameaçando o governo com retiradas de apoio, buscando coalizões. O instinto chimpanzé transparece na conservação da própria espécie (“o fim sou eu mesmo”). O povo? Ah, deixa pra lá.

Já no estilo maquiavélico, o presidente não é o projeto, o projeto é o Brasil. Com um adendo: urge construir a Pátria que o governante pensa ser a que o povo almeja. Todos os meios devem se adequar ao objetivo de Bolsonaro: livrar o Brasil das esquerdas, do PT, do comunismo, das forças que atrasam o país. Todos os meios devem se adequar ao objetivo de Lula: lapidar a Pátria com os matizes do socialismo.

Para tanto, ambos contam com bases, grupos treinados na arte de cortejar, aliados militares, núcleos evangélicos, novos polos de poder criados na sociedade, igrejas, enfim, alas de direita e de esquerda, e, claro, partidos amalgamados e assemelhados. Mas há certa flexibilidade no uso da arquitetura política. Para governar, a conduta maquiavélica faz concessões ao estilo chimpanzé, para que os políticos abocanhem fatias de poder. Já as margens sociais vivem sob a esperança de catar as migalhas que escapam da farta mesa do pão. E os meios da pirâmide – classes médias – têm um olho voltado para o espectro do arco ideológico: centro, esquerda e direita, com suas proximidades.

Como se vê, a democracia é um jogo de cooperação e oposição. É o palco de jogadas entre contrários. No certame de cooperação, as regras são a persuasão, a negociação, os acordos, a busca de consenso. Já no jogo de oposição, procura-se medir forças, confrontar o adversário, provocar tensões, desgastar, impor vontade pela força. O jogo político em nossas plagas acaba de encerrar o primeiro tempo, com a decisão de Edson Facchin, da 2ª Turma do STF, de retirar processos contra Lula na Vara de Curitiba, que considera incompetente para julgar casos que não tenham relação com a Lava Jato. Lembrete: o ministro não entrou no mérito. Lula ainda não está inocentado.

Voltemos ao plano geral. Com olhos em outubro de 2022, Bolsonaro terá a economia, sob Paulo Guedes, como tábua de salvação para atrair os braços das margens sociais. Esse será o busílis. Conseguirá resgatar o bem-estar social que passa pelo crivo da economia? O Bolsa Família e o Auxílio Emergencial serão a cereja do bolo? O povo poderá ter esperança de ver a vitória do bem? Mais: como estará o Brasil em outubro de 2022, com milhões de brasileiros ainda chorando a morte de parentes? (hoje estamos nos aproximando dos 3 mil mortos diários do Covid-19.).

A oração de Gandhi não será suficiente para salvar um país dividido entre Chimpanzé e Maquiavel.

Postado às 09h15 | 04 março 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do Ceará.

Quatro chinelas

O médico Francisco Ibiapina, do Jaguaribe/CE, tratava com muito zelo de um cliente recém-casado e acometido de forte gripe. O clínico fazia prescrições sobre o regime alimentar e sugeria cautelas para evitar recaída. A um lado, a jovem esposa presenciava a conversa, silenciosa e atenta aos conselhos do médico. Fixando nela os olhos amorosos e não se conformando com a desarrumação de sua lua de mel, o doente cochichou um pedido com voz rouquenha:

- Seu doutô: fazerá mal quatro chinela debaixo da minha rede?

(Causo contado pelo historiador Leonardo Mota)

Duas questões centrais

O escritor israelense Yuval Noah Harari (Homo Deus, Homo Sapiens, 21 Lições para o Século XXI) levanta duas questões essenciais que certamente balizarão o nosso futuro: a aparente dicotomia entre a crescente autonomia dos cidadãos e a também tendência em expansão de vigilância totalitária por parte do Estado; e o isolacionismo de viés nacionalista e a globalização solidária. Quem vai predominar nesse conflito e que desenho podemos pintar do amanhã que nos espera? Esse é o dilema que merece nossa reflexão.

A identidade

Na expressão recorrente de nossas análises, temos discorrido sobre a mudança de parâmetros na escala de costumes e valores humanos. O homem-massa, como temos destacado, quer resgatar seu empoderamento, seus potenciais, capacidades, enfim, sua identidade. E isso ocorre nesse oceano turbulento em que navega a Humanidade. Vivemos o maior conjunto de crises da vida contemporânea. A identidade tem sido resgatada pela conquista, mesmo lenta, de direitos, defesa do habitat humano, defesa da privacidade, expansão das condições que formam o Produto Nacional Bruto da Felicidade. Esse grau civilizatório tem balizado as aspirações do conglomerado humano em todos os pedaços do planeta, incluindo territórios marcados pela barbárie.

Os olhos do Estado

Ao mesmo tempo em que se desenvolve tal fenômeno, os olhos do Estado sobre os cidadãos tornam-se mais perscrutadores, querendo saber o que fazem, para onde vão, como estão seu pulso e seu coração, o que comem, quando comem, que meio de transporte usam, com quem se relacionam, quantas vezes vão ao banheiro, qual a cor dos excrementos (tudo importa), para onde olham nas gôndolas de supermercados, que produtos guardam na geladeira, o que difere um queijo de outro, quantas garfadas de alimentos por dia, enfim, tudo, o conjunto de ações do cotidiano das pessoas.

Finalidades

Veja-se a dimensão do conflito: de um lado, os cidadãos na luta por seu pleno empoderamento; de outro, o Estado na luta por pleno domínio de seus entes. O argumento do Estado é denso e vasto: luta contra as mazelas - males, epidemias, pandemias -; realocação de bens e recursos para melhorar o nível de vida das populações; descobertas científicas para a cura de doenças graves; uso de algoritmos extraídos da "grande visão" do Big Brother para definir rumos, novos caminhos, rotas e veredas a serem seguidas ou evitadas. Sob a hipótese de melhorar a vida no planeta, esconde-se o total domínio da vida humana. Daí para o Estado Totalitário, um passo.

O Estado totalitário

Sempre visto como ameaça que paira sobre a Humanidade, chega mais perto com o avanço do sistema tecnológico que se instala na vida cotidiana. A questão é saber se o ser humano, mesmo com a identidade plenamente resgatada, conseguirá evitar os olhos do Grande Irmão e preservar sua privacidade. Lembrando a pergunta de Bobbio: "quis custodiet custodes?" ("quem vigia o vigilante"?) A resposta, pois, pressupõe um controlador superior. O filósofo indaga: Deus, o herói fundador de Estados, o mais forte, o partido revolucionário que conquistou o poder, o povo entendido como a coletividade que se exprime por meio do voto? Teríamos um vidente visível ou invisível?

Poderes invisíveis

Outra escala de problemas é operada nas entranhas do Estado, quando políticos, burocratas e os círculos de negócios, juntos ou separados, exercem um "poder invisível" para defender interesses seus ou de outros, apresentando-se, assim, com força que age contra o "poder visível", este simbolizado pelas instituições de Estado, os poderes constitucionais. Há, ainda, os conglomerados organizados por ondas mafiosas, criminosos de todos os tipos, cartéis de armas e de drogas, que também exercem "poderes invisíveis". O Estado, impregnado desses "exércitos", que lutam nas malhas escondidas das máquinas administrativas, consegue vencer a guerra contra os feitos do mal?

A globalização

Para tornar mais nebulosa a paisagem, eis que a tão aclamada globalização solidária, que poderia ser o espaço de acolhimento ao sonho de ajuda recíproca entre as Nações, de interlocução amigável, parcerias comuns, mãos juntas para fazer avançar a ciência, está ameaçada. E a ameaça começou a surgir antes mesmo da pandemia da Covid-19, quando o isolamento dos países entrou na agenda de grupos populacionais e de políticos populistas. Estamos voltando à era do "quanto mais só, melhor", cada qual com sua realidade. Trata-se, na verdade, de um gesto egoísta, relacionado ao fechamento de fronteiras, um muro que se constrói a cada dia para evitar a imigração de povos em busca de sobrevivência.

Como conjugar?

Como conjugar as necessidades e demandas urgentes de populações em busca de um novo habitat com o ideário de contingentes que se enrolam nas bandeiras do nacionalismo, defesa de empregos exclusivos para os nativos, redomas construídas para abrigar apenas os originários de cada Nação? Um mundo menos solidário causará que tipos de impacto na vida cotidiana? Conservação das culturas ou expansão do egocentrismo, de conflitos entre países, guerras étnicas e raciais? Para onde caminhará a solidariedade? O dilema está à vista: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. Meditemos.

O Brasil solidário

Puxando o fio da meada para as nossas plagas, de pronto aparecem nesgas no horizonte. No lado da sociedade, vê-se alargar o espaço solidário, as mãos dadas de tantos quantos, em desespero, clamam aos céus por mais empregos, mais saúde, domínio da pandemia, remédios, mais vacinas. Do lado do Estado, observa-se uma teia de fatores que contribuem para aumentar a descrença na política: leniência dos governantes, desprezo pela ciência, descaso para com a res publica, enfim, des...des..des..des - prefixo para designar desistir, desprezar, destruir etc. Temos dois Brasis: um, solidário, outro, desordeiro. O primeiro agrega os espíritos conviviais; já o segundo agrega o arbítrio, o descumprimento das normas, a permissividade, o ódio, governantes sem escrúpulo.

Notinhas

Preço dos combustíveis

A Petrobras vai entrar na política de ajustes determinada pelo presidente. A conferir.

Pazuello

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, tenta se agarrar nos números prometidos de vacinas que virão até meados de julho. 80 milhões até junho, é a promessa. Secretários de Saúde dos Estados perderam o prumo.

Luiz Carlos Trabuco Cappi - Em O Estado de S.Paulo, segunda-feira

"As condições objetivas existem. O Brasil tem dois centros de excelência na produção de vacinas - Fiocruz, no Rio de Janeiro, e Butantan, em São Paulo. No segundo semestre, os dois institutos devem inaugurar novas fábricas, capazes de criar também o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), necessário para a fabricação das vacinas da Oxford-AstraZeneca e da chinesa Sinovac. A vacina resolve a crise".

Faria

O ministro Fábio Faria, das Comunicações, tem se revelado um perfil eficiente. Seu gol de placa será a implantação do 5G. Fez uma incursão internacional para medir parâmetros.

Pandemia

Ao que parece, os descrentes começam a acreditar nos efeitos mortais da Covid-19. Jovens morrem mais que no primeiro ciclo e abrem pânico.

Frente ampla

Na paisagem das parcerias, Ciro Gomes avança. Disse que seu projeto é tirar o PT do segundo turno de 2022. A declaração passou a impactar setores antes arredios a seu nome.

Variantes

As variantes do novo coronavírus se espalham. A boa notícia é que vacinas mais avançadas estão em fase final de teste.

Vacina da Johnson

Mais uma boa notícia: a vacina em dose única da Janssen-Cilag, do grupo Johnson & Johnson, passa a ser considerada a mais viável para a imunização em massa do planeta. O Brasil não a comprou até agora. Já o comitê da FDA recomendou que EUA autorizem. O teste clínico fase 3 - do qual o Brasil participou - mostra 66% de eficácia.

Garcia

Rodrigo Garcia, vice-governador de SP, do DEM, está em dúvida: sair para entrar no PSDB ou permanecer onde está? E se João Doria não viabilizar a candidatura dele à presidência? Rodrigo começa a procurar PMDB e outros partidos.

Mandetta

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, começa a se movimentar sob o olhar de 2022. O DEM tem chances de ter candidato? Essa é a questão.

Bolsonaro

Não fecha a expressão. Continua dando corda ao relógio dos simpatizantes. Não percebe que esse tipo de atitude gera bumerangue. Volta-se contra ele.

"Mijar sangue"

'A OAS tem que mijar sangue', diz procurador em diálogos da Lava Jato. Novas mensagens enviadas pela defesa de Lula ao STF mostram Lava Jato discutindo como 'bater, bater e bater' em investigados.

Imposto sobre bancos

Governo deve aumentar impostos sobre bancos para compensar desoneração do diesel e gás de cozinha. De acordo com fonte da equipe econômica, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido deve subir para zerar tributação dos combustíveis, medida que tem custo total de R$ 3,6 bi.

Conflito federativo

Acirra-se a divisão no campo da gestão da pandemia entre governadores e presidente da República. Governadores pedem mais ação, mais firmeza, mais vacinas. Presidente anima suas bases. Pano de fundo: conflito federativo.

Lockdown

Pedido geral de especialistas: lockdown entre 18 horas e 5 da manhã durante 16 dias. Março é mês do pico agudo.

Fecho a coluna com um "causo" paulista.

Eu e Deus

O "causo" ocorreu em Conchas/SP. Era a audiência de um processo - requerimento do Benefício Assistencial ao Idoso para um senhor alto, velho, magro, negro, humilde e muito simpático, tipo folclórico da cidade. Antes da audiência, o advogado lembrou ao seu cliente para afirmar perante o juiz morar sozinho e não ter renda para manter a subsistência. Nisso residiria o sucesso da causa. Na audiência, veio a pergunta:

- O senhor mora sozinho?

- Não! respondeu ele (o advogado sentiu que a coisa ia degringolar).

- Hum, não? Então, com quem o senhor mora?

- Eu e Deus, respondeu o matreiro velhinho.

O advogado tomou um baita susto. Mas a causa foi ganha. O juiz considerou procedente a ação.

(Historinha enviada por Éder Caram e contada pelo pai dele).

Postado às 09h15 | 02 março 2021 |

O FIM DO ANONIMATO

A sociedade de massas está chegando ao seu fim, sob o rolo compressor das mudanças que ocorrem em todos os campos da vida humana. Mesmo se descobrindo, aqui e ali, casos de trabalho escravo, que lembram a era dos feudos, dos impérios e das colônias, com a opressão sobre seres humanos, os nossos tempos são marcados por defesa de direitos, maior autonomia individual e coletiva, aspiração de felicidade. O tacão dos colonizadores é substituído pela chama libertária. E a tendência é a de consolidação de uma comunidade política, onde os anônimos na multidão assumam suas identidades, sob a égide da igualdade. 

Os franceses designam esse fenômeno como “autogestão técnica”, com a qual os cidadãos passam a pautar suas vidas de acordo com o lema “sei o que quero e conheço os meios para chegar lá.” Portanto, aquele velho chavão do “Maria vai com as outras”, com seu viés discriminatório, é enterrado para dar lugar à era da expressão individual e grupal. É evidente que esse atributo da comunidade política é  identificado no seio dos sistemas democráticos, não nos túneis escuros de ditaduras opressoras.

Para se chegar a este estágio, a sociedade planetária navegou por mares turbulentos. Padeceu sob a ferocidade de duas guerras mundiais, vivenciou morticínios realizados por governantes sanguinolentos, passou pelos longos corredores das endemias e pandemias, como esta que hoje assola a Humanidade, experimentou uma infinidade de tipos de governos, até encontrar, aos trancos e barrancos, o sistema que impregna as nações mais desenvolvidas, a democracia. E esta, como se sabe, também atravessa uma crise crônica, a partir dos eixos corroídos que a sustentam, como os partidos, as bases, os Parlamentos e seus componentes, os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário etc.

O cerne da questão reside nos ideários que, ao longo dos tempos, têm impregnado as sociedades, como o liberalismo, o comunismo, o socialismo, e os afluentes que abriram, como a social-democracia, o neoliberalismo, o social-liberalismo e afins. O fato é que, após a queda do Muro de Berlim, em 1989, viu-se a aceleração do fenômeno da desideologização e a emergência do pragmatismo nas fronteiras da política. O arrefecimento ideológico deflagrou a queda da primeira pedra do dominó, responsável pela derrubada das outras pedras do jogo: partidos amalgamados, representantes desacreditados, bases desmotivadas.

Nesse ponto, voltamos ao início da reflexão. A saturação de velhas fórmulas entupiu os pulmões do convívio social. Forte indignação – mistura de descrédito, ódio, grito preso na garganta, expansão de demandas nos serviços públicos - acendeu o pavio dos novos grupamentos, que, por sua vez,  fincaram estacas por todos os lados.

Explico. Sem confiança na política e em seus agentes, os eleitores passaram a enxergar representantes com olhos de desprezo e cobrança por quebra de compromisso. “Candidatos? Ah, só aparecem de quatro em quatro anos”.

Criou-se imenso deserto entre os políticos e as bases. O vazio passou a ser ocupado por novos centros de poder, um conglomerado de entidades com raízes em categorias profissionais, gêneros, raça e etnias. As minorias passaram a se mostrar e a exibir poder de gritar sua indignação. Sindicatos, federações e confederações, grupos, núcleos e movimentos formam esse mural que, agora, reivindica voz e vez para se posicionar na política. No Brasil, há cerca de um milhão de organizações não governamentais, que fazem pressão de lá para cá, das margens para o centro. Constituem as bases e as colunas da democracia participativa.

Essa é a nova realidade na política contemporânea. Se cada pessoa passa a ser identificada nas ruas por câmeras poderosas e invisíveis, é sinal que se chega ao final da era do anonimato. A política dependerá cada vez mais de cidadãos que não admitem ser apenas números. Ou, parafraseando John Stuart Mill, que Bobbio cita em Considerações sobre governo representativo: “há cidadãos ativos e passivos. Os governantes preferem os segundos, mas a democracia necessita dos primeiros. Se prevalecessem os segundos, os governantes acabariam por transformar seus súditos em um bando de ovelhas dedicadas tão somente a pastar o capim e a não reclamar nem mesmo quando o capim for escasso”.

Postado às 10h45 | 25 fevereiro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com um pouco de riso, com esta historinha do Jânio Quadros.

Obrigado, colega

O próprio presidente Jânio Quadros, às vezes, transmitia seus bilhetinhos para os ministros por meio do aparelho de Telex que mandou instalar em seu gabinete, ligado diretamente com os ministérios em Brasília e no Rio de Janeiro. Ele mesmo datilografava os "memorandos". Transmitiu ele um bilhete para um ministro e na mesma hora recebeu a seguinte resposta, pelo telex: "Prezado colega. Não há mais ninguém aqui". Ao que o presidente respondeu: "Obrigado, colega. Jânio Quadros". Do outro lado do fio, porém, o outro não se perturbou: "De nada, às ordens. John Kennedy...".

(Nelson Valente, jornalista e escritor, em seu livro Jânio Quadros - O Estadista)

O homem e suas circunstâncias

A expressão com sua hipótese é do filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1883-1955). Do começo ao fim da vida, o homem navega por um oceano de aprendizado. Está sempre em mudança. E daí emerge o conceito de que a verdade depende de cada um. Nunca esse axioma foi tão recorrente. O ritmo de mudanças vivenciado no planeta é acelerado. Nos campos tecnológico, biogenético e de sondagem sobre a natureza do universo, os avanços são extraordinários. O que não se pode dizer na área dos valores. Este escriba aprecia fazer leituras sobre esse pano de fundo. O que está ocorrendo, onde iremos parar com o gigantesco volume de conflitos na sociedade?

As circunstâncias entre nós

Pois é, o Brasil desta semana é diferente do país de uma semana atrás. As circunstâncias nos levam a lembrar que:

1. Atingimos o pico da pandemia, com os índices mais avassaladores desde seu início. O colapso das estruturas de hospitais é geral. Mortes e internações sobem ao cume da montanha.

2. Mesmo assim, certo amortecimento impregna a alma social, a indicar a conformidade e a resignação ante esse clima de devastação.

3. A taxa de autoritarismo do governo, com a intervenção no comando da Petrobras, chega também ao auge, fazendo derreter resultados positivos que marcavam determinados setores.

4. A Petrobras teve o segundo maior tombo de sua história, com o derretimento de R$ 102 bilhões de seu preço de mercado.

5. O governo coleciona, esta semana, críticas ácidas sobre seu desempenho, chegando ao momento mais conflituoso de sua gestão.

6. Avoluma-se o teor crítico sobre a cooptação do presidente junto aos militares, com evidente prejuízo à imagem das Forças Armadas.

7. A imagem de governantes, em todos os Estados, começa a descer o despenhadeiro sob a aceleração dos índices pandêmicos.

8. O mercado dá recados concretos ao presidente, já desconfiado de sua ideologia liberal.

9. A perplexidade se volta também para o ministro Paulo Guedes, que não está conseguindo segurar suas intenções e seus amigos.

10. A desconfiança e o descrédito avançam celeremente.

Voltemos ao plano global das mudanças em curso no planeta.

A escala de valores

Tendo como mote a moldura das mudanças no campo dos valores, permito-me retomar a leitura, que sempre faço, sobre o espírito do tempo. Muda o planeta, Marte recebe a visita de três artefatos da Terra; Joe Biden assina decretos anulando políticas de Donald Trump; este continua a fazer campanha eleitoral, mesmo recolhido em seu resort; a Europa debate seu futuro e a gestão da pandemia, que consome milhões de vidas e trilhões de dólares das economias mundiais; a China sempre de olho no ranking das maiores economias mundiais; sinais de esperança no campo da imunização.

A espetacularização

A desideologização, que impregnou os sistemas políticos no século XX, amalgamando partidos, esfacelando os mecanismos clássicos da política - engajamento das bases, firmeza das oposições, grandeza dos Parlamentos, harmonia e independência dos Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) - mudou os rumos da democracia. Os entes coletivos cedem lugar ao individualismo. Ressurgem os perfis populistas, demagógicos, que atuam sob a perspectiva do EU sobre o NÓS. Pessoas tomam o lugar de partidos. Nesse eu voto, diz o eleitor. E a força do personalismo resgata o conceito de política como espetáculo. O ator político está no palco, usando sua arte manipulativa para engabelar as massas e expandir o descrédito geral, que se espraia na base, no meio e no cimo da pirâmide social.

Os figurantes

Os figurantes usam a linguagem da oportunidade. Cobertor social, cestas básicas, auxilio emergencial, demissão sumária de figuras da administração, eleição de personagens identificados com o selo "pagou, levou". Salvadores da Pátria, heróis de coragem, justiceiros, pais da pátria e suas bandeiras: combate à corrupção, defesa do patrimônio nacional, defesa do Estado-liberal, de um lado, e defesa do Estado-patrimonial, de outro. A receita de uns e outros.

O ódio

O ódio passa a ser destilado nas fontes de apoio - bases e simpatizantes - e distribuído em imensos jorros pelas redes sociais e nos contatos entre interlocutores, que queimam velhas amizades em nome da defesa de seus "heróis-patrocinadores". Pessoas de quem se imaginava terem uma cota mínima de racionalidade embarcam nas caravanas da bajulação. A convivialidade, que se apresenta como grau elevado do estágio civilizatório, vai para o buraco. As correntes do ódio assumem posicionamentos que mais se assemelham à volta da barbárie sobre o planeta.

O velho habitat

O mundo, até pouco, era carimbado como aldeia global. Todos por um, um por todos. Vimos, maravilhados, a quebra de fronteiras físicas e espirituais, com a ascensão de pobres e necessitados ao banquete dos ricos. Grandes nações acolhiam imigrantes. Davam-lhes teto e comida. E o que temos visto hoje nos quadrantes do planeta? O isolamento. O fechamento de fronteiras. Filhos pequenos separados dos pais. Renasce a noção de que a pátria é nossa. Não de estranhos. Cada nação com sua gente. Os pobres? Que fiquem onde nasceram. P.S. Lembrete histórico: conta-se que o marechal Erwin Rommel, a raposa do deserto, ao contemplar em cima de um morro os aliados destroçados por seus panzers no norte da África, teria dito: "os pobres nunca deveriam fazer guerra". Os pobres, como pensa Trump, deveriam voltar ao seu velho habitat.

O consumo da informação

A pressa, a rapidez, a competição desvairada em um mundo de carências crescentes impedem que a natureza seletiva do homem exerça sua função de enxergar conceitos de certo e errado, viável e inviável, justo e injusto. A abundância informativa acaba entupindo os filtros que purificam as águas. As pessoas acabam misturando coisas, sorvendo misturas maléficas. Paradoxo: em plena era da informação, o grau de aprendizagem não acompanha o ritmo das novidades e mudanças. A defasagem entre o que se consome e o que é necessário assume proporções extraordinárias.

Feita a digressão, passemos novamente ao nosso cotidiano.

Centralização

A inferência é decorrente da troca de comando na Petrobras: o presidente tende a ser mais centralizador nos próximos tempos. Pensa assim: fui eleito, devo meu cargo ao povo, não aos políticos, vou agora governar ao modo Bolsonaro. Troca aqui, troca ali, troca acolá. Parece querer se aproximar do sistema de governo que anunciou, há dias, não esse que temos. Se der certo, tudo bem. Se não der certo, pode dizer que tentou. Paulo Guedes, nesse cenário, não terá alternativa que a de entregar o boné. Questão de tempo. A não ser que decida fazer como os três macaquinhos: não vi, não ouvi, não falei.

Queda de 102 bilhões

As ações da Petrobras sofreram queda gigantesca. O preço da petrolífera caiu em cerca de mais de R$ 100 bilhões com as falas de Bolsonaro, que também viu sua avaliação positiva cair para 33%. A avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro subiu mais de 8 pontos percentuais em quatro meses e atingiu 35,5%, segundo a última pesquisa CNT/MDA. Já a positiva caiu quase nove pontos. O advogado André de Almeida, um dos idealizadores da ação coletiva (class action) que levou a Petrobras a pagar US$ 2,9 bilhões para encerrar uma disputa judicial com acionistas nos Estados Unidos em 2018, já mira uma nova batalha na Justiça em Nova York contra a estatal.

Guedes será vital

Paulo Guedes será peça importante na engrenagem de 2022. Para Bolsonaro confirmar seu favoritismo, precisa administrar uma economia em franca recuperação. Se Guedes não conseguir, o presidente buscará perfil mais populista. Capaz de passar marchas de aceleração no carro da economia, no qual devem caber as demandas populares. Sem cobertor social extenso, Bolsonaro não terá chances. O voto das margens decidirá o rumo do país.

BB, o próximo?

O falatório em Brasília se avoluma: a próxima mudança/intervenção seria no comando do Banco do Brasil. A conferir.

Pfizer

A Pfizer diz que não aceita condições de Bolsonaro para vender vacina ao Brasil. A farmacêutica anuncia que, na América Latina, apenas o Brasil, a Venezuela e a Argentina não aceitaram as cláusulas de seu contrato. Vamos ver se o Congresso muda os paredões legais. P.S. A Anvisa decidiu liberar a vacina, mesmo sob o imbróglio burocrático.

O símbolo I: Lippmann

O emprego de símbolos é um dos estratagemas mais eficazes preferidos pelos líderes para dirigir as massas, para aspirar e inspirar as emoções das multidões (to siphon emotion), segundo a expressão de Walter Lippmann (96) [306]. "É um truque para criar o sentimento da solidariedade e, ao mesmo tempo, explorar a excitação das massas".

O símbolo II: Tchakhotine

"O símbolo pode desempenhar, na formação de reflexos condicionados (como decorre de todo nosso raciocínio) o papel de fator condicionante, que, enxertando-se sobre um reflexo preexistente, absoluto, ou sob um reflexo condicionado constituído anteriormente, adquire, por sua vez, a possibilidade de tornar-se um excitante, determinando essa ou aquela reação desejada por quem faz esse símbolo sobre a afetividade de outros indivíduos. A palavra, falada ou escrita, pode ser utilizada para representar um fato concreto, único e simples, ou um conjunto de fatos, mais ou menos complexos, assim como uma abstração ou todo um feixe de ideias abstratas, científicas ou filosóficas". (Serge Tchakhotine In Mistificação das Massas pela Propaganda Política).

Canetti

A massa I

"A ânsia de crescer constitui a primeira e suprema qualidade da massa. Ela deseja abarcar todo aquele que esteja ao seu alcance. Quem quer que ostente a forma humana pode juntar-se a ela. A massa natural é a massa aberta: fronteira alguma impõe-se ao seu crescimento. Ela não reconhece casas, portas ou fechaduras; aqueles que se fecham a ela são-lhe suspeitos. A palavra aberta deve ser entendida aqui em todos os sentidos: tal massa o é em toda parte e em todas as direções. A massa aberta existe tão somente enquanto cresce. Sua desintegração principia assim que ela para de crescer. Sim, pois tão subitamente quanto nasce a massa também se desintegra".

A massa II

"Seu caráter aberto, que lhe possibilita o crescimento, representa-lhe também um perigo. A massa traz sempre vivo em si um pressentimento da desintegração que a ameaça e da qual busca escapar através do rápido crescimento. Enquanto pode, ela absorve tudo; uma vez, porém, que tudo absorve, tem ela também de, necessariamente, desintegrar-se. Em contraposição à massa aberta - que é capaz de crescer até o infinito, está em toda parte e, por isso mesmo, reclama um interesse universal - tem-se a massa fechada. Esta renúncia ao crescimento, visando sobretudo a durabilidade. O que nela salta aos olhos é, em primeiro lugar, sua fronteira. A massa fechada se fixa. Ela cria um lugar para si na medida em que se limita; o espaço que vai preencher foi-lhe destinado". (Elias Canetti in Massa e Poder).

 

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