Porandudas políticas

Postado às 07h30 | 11 junho 2021 |

MARIA VAI COM AS OUTRAS

Conta a história que a mãe de D. João VI, a rainha Maria I, conhecida pela insanidade mental, manifestada após a morte do filho, costumava passear às margens do rio Carioca, no então bairro de Águas Férreas. Tratada como louca, era levada por suas damas de companhia, originando a expressão popular: Maria vai com as outras. Que hoje designa pessoa influenciável, manobrada, sem ideias próprias.

Há poucos dias, para justificar a razão pela qual o Partido dos Trabalhadores não deve se aliar a outros partidos na organização de manifestações contra o governo, Lula disse que o partido não pode ser “maria vai com as outras”. O sempiterno mandão do PT apenas atesta a sentença que, por décadas, tem sido o lume do petismo: “primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu”. O PT não tem jeito. Continua a se considerar um território sem mácula, povoado por castos e puros, jamais vestindo a couraça larga da corrupção, desvendada pela Operação Lava Jato. E como sabe tirar proveito das ocasiões.

Veja-se o favoritismo de Luiz Inácio, nesse pior momento do governo Bolsonaro, alvo da indignação social que cobra vacinas e melhor gestão da pandemia. Solto por decisão do STF, parece vítima de uma trama engendrada para condenar o lulopetismo, que novamente se arvora como a Salvação da Pátria, desfraldando as bandeiras da Justiça, Liberdade e Democracia. É tudo que o atual mandatário-mor deseja, por saber que a polarização entre as duas bandas – a extrema esquerda e a extrema direita – acabará por beneficiá-lo, bastando para tanto uma economia recuperada na proximidade de outubro de 2022. Lula não quer que o PT siga o rumo dos demais partidos, mas gostaria que as massas fossem “gado de mais” na caminhada petista.

Nesse ponto, voltemos ao “maria com as outras” que abre este texto. Tanto o lulismo como o bolsonarismo sabem que o cabo-de-guerra a ser puxado pelas alas contrárias será imã para atrair um eleitorado sem rumo, sem autonomia, disposto a integrar um dos dois exércitos e, deste modo, fechar a oportunidade para uma candidatura que represente verdadeiro compromisso de mudança, de harmonia e equilíbrio, de bom senso e abertura de horizontes.

Confiar na mudança de postura de Bolsonaro? Confiar em um PT como partido de centro, como hoje prega Lula? Lorota. Nem um nem outro mudarão suas identidades, forjadas no embate das e no maquiavelismo mistificador que embala suas posições no arco ideológico.

É razoável apostar na racionalidade que tem transferido o voto do coração para a cabeça. Racionalidade que aumenta com a sensação do déjà vu, da velha briga, das linguagens chulas que têm sujado as páginas da política, enfim, da sensação de que o país patina, mas não sai do lugar.

É triste constatar que o preceito de John Stuart Mill, em Considerações sobre o Governo representativo, continua iluminando as cabeças ignaras de nossas plagas: há cidadãos ativos e cidadãos passivos, e os governantes preferem os segundos, porque podem transformá-los em um bando de ovelhas acostumadas a pastar o capim, uma ao lado da outra, e a não reclamar mesmo que, de vez em quando, o capim seja escasso. Haja Bolsa Família.

Só mesmo uma revolução pela educação conseguirá alargar os horizontes de um amanhã próspero e mais feliz. Enquanto vivermos sob regime de bolsas, prêmios, recompensas, toma lá dá cá, grupismo, neocoronelismo, nossas raízes continuarão amarradas ao status quo. Rebanhos comendo capim sob a sombra do Estado, levadas de um lado para outro, tocadas pelo cajado de guias ambiciosos, jamais terão autonomia e independência. A única alternativa para sair dos currais é a semente de uma educação libertadora e vitalizante.

 

 

 

 


 

 




 

Postado às 07h30 | 11 junho 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna de hoje com uma historinha do Paraná.

Conversa de jardim

Manuel Ribas, interventor no Paraná (1932/1935), depois governador (1935/1937), despachava no palácio, mas gostava de morar em sua casa. Bem cedinho, chega um rapaz e encontra o jardineiro regando o jardim:

- Seu Ribas está? Sou filho de um grande amigo dele. Meu pai me mandou pedir um emprego a ele. Eu podia falar com ele?

- Poder, pode. Mas, e se ele não lhe arrumar o emprego?

- Bem, meu pai me disse que, se ele não arranjasse o emprego, eu mandasse ele à merda.

- Olhe, rapaz, passe às 4 da tarde lá no palácio, que é a hora das audiências, e você fala com ele.

Às 4 horas, o rapaz estava lá. Deu o nome, esperou, esperou. No salão comprido, sentado atrás da mesa, o jardineiro. Ou seja, o governador. O rapaz ficou branco de surpresa.

- O que é que você quer mesmo?

Repetiu a história. "Meu pai me mandou pedir um emprego ao senhor".

- E se eu não arranjar o emprego?

- Então, seu Ribas, fica valendo aquela nossa conversa de hoje de manhã, lá no jardim.

Cordão esgarçado

O cordão umbilical que ligava Jair Bolsonaro ao Exército está esgarçado. Não a ponto de se romper, mas deixando a ver fiapos. A entrevista do ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, passando uma toalha sobre a ferida, pode ter acalmado a cúpula das FFAA, mas a sensação é a de que altas patentes - da ativa e da reserva - estão aborrecidas com o affaire Pazuello, ou seja, com o deixa pra lá que o comandante do Exército determinou ao não dar punição ao ex-ministro da Saúde por ter participado de ato político por ocasião da motociata no Rio de Janeiro.

Afastamento

Multiplicam-se as vozes que interpretam as constantes falas do presidente sobre eventuais fraudes a ocorrerem no processo eleitoral de outubro de 2022 como aceno longínquo a "um golpe" engendrado pelo sistema cognitivo do capitão. Vocação para o embate, cooptação do "meu exército", culto ao passado de chumbo, esforço quase diário para endurecer a linguagem e animar suas bases- seria o pano de fundo da maquinação. Parcelas das Forças, porém, parecem querer distância da política. Sob pena de verem naufragados todos os esforços realizados nas últimas décadas na meta sempre almejada de impregnar sua imagem com densa camada de profissionalismo.

Haveria condições?

Não é fácil responder à questão: haveria condições para um ato golpista? Ora, não se trata apenas de querer e fazer. Trata-se de querer e poder. O conceito de poder, nesse caso, abriga ponderáveis - elementos determinantes e componentes - que ultrapassam os limites de uma visão conservadora, ideológica, radical. De direita ou de esquerda. Estariam em jogo o estágio civilizatório do país, o grau de amadurecimento político, o estado geral da economia, a satisfação/insatisfação das classes sociais, a organicidade social, a pressão dos grupamentos organizados, o rolo compressor das classes médias, a fome e a miséria e a vinculação das mazelas sociais às administrações. E quem diria que o clamor social, em uma crise, seria a favor de um golpe desferido pelo governante do dia? Seja quem for?

O Brasil no mundo

Outra face a se contemplar seria a do papel do Brasil no mundo, a inserção na ordem planetária, seus parceiros e compromissos, suas políticas em todos os campos, moldura que certamente impactaria na hora de desfechar um golpe. As FFAA são integradas por perfis de alta qualificação, figuras que vão a fundo na análise das revoluções e contrarrevoluções. Imaginar que um golpe é um ato vapt-vupt sacramentado pela sociedade organizada é pensamento de ignaros e radicais, que têm soluções guardadas no bolso furado ou em mente distorcida.

Terceira via? É cedo

A esta altura, políticos e analistas estão dando à polarização entre direita e esquerda, Bolsonaro e Lula, como coisa certa e acabada. Não compartilho desta tese. É muito cedo para definir rumos. O vento que hoje corre numa direção tomará outros rumos amanhã. E sabendo como se faz política no Brasil, nada se define de antemão. Peru não morre de véspera. Os finais de história são decididos em instantes finais. O Senhor Imponderável costuma nos visitar. E o país está com um imenso vazio a ser ocupado no meio da sociedade. Que processos cognitivos poderão ocorrer? Faço curtas observações.

Instinto de sobrevivência

Sergei Tchakhotine, cuja obra A Mistificação das Massas pela Propaganda Política é meu livro de cabeceira, lembra os quatros instintos estudados por Pavlov: a) o instinto combativo; b) o instinto nutritivo; c) o instinto sexual e d) o instinto paternal. Os dois primeiros ligados à conservação do indivíduo e os dois últimos relacionados à preservação da espécie. Fiquemos com os dois primeiros. O ser humano combate para sobreviver. Ante uma ameaça, pega a arma mais próxima para vencer o inimigo. Vê-se acuado. Duas feras tentam abrir a bocarra em sua direção. Como sair? Ora, se a saída da emboscada é o aceno de uma pessoa que aparece na paisagem de medo e horror, ela corre, pressurosa. O salvador o chama: corre pra cá, corre pra cá. Ela aceita e foge na direção do figurante, que parece a única alternativa para escapar da enrascada.

O figurante

E quem seria esse figurante? Ora, alguém que o desesperado até então não conhecia. Só o viu até deparar com a ameaça fatal de duas feras de boca arreganhada. Uma pessoa nova nesse canto da floresta, com jeito de ser gente do bem, disposta a ajudar o medroso a fugir do perigo. Esse figurante não ocupava espaço central na paisagem e foi se aproximando, chegando. Seria a melhor opção. Ou seja, era um terceiro lugar por onde se refugiar. Lá estaria ele com seu aceno: um homem ou até uma mulher (sim, não se descarta essa possibilidade), com jeito de que não é caçador voraz como outros da floresta política. E em que tempo poderia aparecer? Março, abril, maio? Até as convenções partidárias.

A barriga

Atentaram para o segundo impulso ligado à sobrevivência? Pois é, o instinto nutritivo. Ou seja, as pessoas vão buscar no alimento a seiva da vida. Sem alimento, o ser humano não sobrevive. Donde tenho insistido na equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Se as famílias brasileiras estiverem com suas barrigas satisfeitas nas margens de outubro de 2022, podem, até, caminhar na direção de uma das feras da floresta, no caso, o governante que proporcionou o alimento. Mas se as barrigas estiverem roncando, o desesperado faminto e seus vizinhos tenderão a correr na direção do figurante que acena com a saída. Este consultor acha que a pandemia implicará refluxo da economia, não havendo tempo para sua recuperação até outubro de 2022. Dito isto, emerge a hipótese: a terceira via será viável.

Kassab, o articulador

Gilberto Kassab tem demonstrado ser um dos mais hábeis articuladores da política brasileira. Nesses tempos de pandemia, com CPI da Covid e seus reflexos, Kassab tem se desdobrado para adensar o seu PSD, atraindo nomes de alto coturno, como Eduardo Paes, prefeito do RJ, Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara, possivelmente Geraldo Alckmin, ex-governador de SP, e outros. Ex-ministro dos governos Dilma Rousseff e Michel Temer, Kassab é ponderado, sabe ouvir, tem palavra firme e joga todo tempo na costura de situações. Será parceiro fundamental na montagem das peças do pleito de 2022.

Muito sigilo

O processo envolvendo o ex-ministro Pazuello no ato político do presidente Bolsonaro ganhou um século para vir à tona. Isso mesmo, alto segredo de Estado. 100 anos sob uma capa de silêncio.

Mozart

Esta Coluna presta uma homenagem especial a um amigo que parte: Mozart Vianna, o braço direito de 12 presidentes da Câmara há quatro décadas. Educado, afável, voz baixa, competente, sabia o regimento da Câmara do capítulo 1º ao último. "Meu amigo, me explique esse PL". Cerimonioso: dava todas as explicações. E sempre acrescentava: "leio todos os seus artigos semanais". Que tristeza. P.S.: Faço observação do ex-deputado, sociólogo, grande pensador e amigo Paulo Delgado: "No Brasil, infelizmente, o elogio vem sempre em hora errada".

Fecho com um "causo" de Pernambuco.

O verbo não "vareia"

A Câmara Municipal de Paulista/PE vivia sessão agitada em função da discussão de um projeto enviado pelo prefeito, que pedia crédito para assistência social. Um vereador da oposição combatia de maneira veemente a proposição. A certa altura, disse que "era contra o crédito porque a administração municipal não merecia credibilidade". O líder da bancada governista intervém, afirmando que "o nobre colega não pode jogar pedras no telhado alheio, pois já foi acusado de algumas trampolinagens".

- Menas a verdade - retrucou o acusado. Sou homem honesto, de vida limpa.

- Vejam, senhores, - disse o líder - o nobre colega, além de um passado nada limpo, ainda por cima é analfabeto, pois, "menas" é verbo, e verbo não "vareia".

Postado às 09h30 | 27 maio 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com a noiva.

A morada do doutô Agriço

Mais uma do mestre Leonardo Mota.

Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte:

Pagamento adiantado, hóspedes sem bagagens e conferencistas

Também em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba, há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando, ao indagar ao major Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação que me deixou tonto:

- O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d'A Noiva...

Panorama

Terceira onda?

Nos últimos 15 dias os hospitais privados de São Paulo registraram alta de 7% de contaminados de Covid-19 com ingresso em leitos e UTIs. Interrogações dos médicos: seria uma terceira onda? O relaxamento aumentou bastante. E os vacinados com segunda dose se achando imunizados. Não é bem assim.

CPI da Covid-19

Em uma semana pouca coisa mudou no front da política. A CPI da Covid-19 continua a mobilizar as atenções, os bolsonaristas tentam sair pela tangente no banco de testemunhas e, ao que se infere, o relatório final incriminará o governo e membros de sua equipe apontando má gestão da pandemia e provas recaindo sobre a responsabilidade de gestores e ex-gestores. Indagação que se impõe: o presidente será responsabilizado, além de seus auxiliares? Sim. Mas será punido com impeachment? Não. Não haveria tempo e condições objetivas para uma decisão com tal dimensão.

Pazuello

O depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello, hoje, é o que cria maior expectativa. O ministro tem um salvo-conduto para não se incriminar. Mas é obrigado a falar sobre terceiros. A questão de fundo é: falando ou silenciando, o general terá curta sombra para se abrigar. Aliás, o silêncio, como já acentuei neste espaço, é uma grande forma de expressão, traduzindo coisas como medo, insegurança, versão distante da verdade, escapadas ao fogo interrogativo. Esta também é a alternativa da "Capitã Cloroquina", que enviou carradas do remédio para Manaus, no auge da crise, orientando sobre sua adoção.

O Centrão de olho

O Centrão, com eixo central no PP, está de olhos esbugalhados: um focado em Bolsonaro e em seu governo, outro fixado nas pesquisas que mostram imagem em queda na avaliação da administração. Como se sabe, a tendência de integrantes do bloco é de caminhar na direção apontada pelo peso da balança. Caso seja o da oposição a Bolsonaro, lá pelos meados de 2022, talvez até antes, o desembarque dos participantes do Centrão é algo previsível. Primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu. Este é o velho lema do blocão. Perspectiva de poder - eis a bússola que orienta a esfera política.

Lula submergindo

Para evitar desgaste com lançamento prematuro, Luiz Inácio foi aconselhado a mergulhar. Sair a campo muito cedo é se sujeitar a bombardeios prévios. Ademais, Lula não está seguro sobre sua condição de elegibilidade. A primeira instância voltará a analisar seus casos. Mas, e a pressão da opinião pública? Já começa a funcionar a favor dele. Lula inicia um discurso de vítima, de inocente. A OP tende a favorecê-lo, como indicam as pesquisas. É evidente que os juízes balizarão em suas decisões por impulsos dos balões de pressão social.

DEM

Padece sua maior crise dos últimos tempos.

PRTB

Esnobou e decidiu não entregar a legenda para Bolsonaro. Continuará nas mãos da família de Levy Fidelix. Historinha: por ocasião do lançamento do meu livro - Era uma Vez Mil Vezes - na livraria Cultura, Levy chegou trovejando sua voz: "desculpem, tenho outro compromisso. Vou furar a fila e cumprimentar meu amigo". Passou bom tempo posando para fotos ao lado da mesa. E a gritaria o impediu de ficar mais tempo. Uma figura.

Alckmin

Geraldo Alckmin está entre a cruz e a caldeirinha. Se permanecer no PSDB, ameaça perder a condição de candidato ao governo de São Paulo, posição hoje nas mãos de Rodrigo Garcia, que deixa o DEM pelo tucanato. Se sair, pode ser candidato da sigla em que ingressar. E vai brigar contra João Doria, seu discípulo. O que seria melhor?

Bolsonaro

Cai o índice de avaliação positiva de Jair Bolsonaro. Poderá cair mais ou ele terá condições de resgatar o prestígio anterior? Em política, tudo pode ocorrer. Mas, a continuar seu destampatório, emerge a alternativa de perder o favoritismo. Lula, para ele, seria o candidato ideal. Há quem não acredite nesta hipótese.

Mourão

Hamilton Mourão, o vice-presidente da República deverá ser candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Opção mais atrativa. Não integrará a chapa de Bolsonaro.

Militares

Alas insatisfeitas com os "feitos" do capitão se espalham.

Classes médias

Continuam a observar o cenário e a aguardar momento de descer do muro da indecisão. Hoje, pendem para Lula por falta de opção. E parcela vai de Bolsonaro, por convicção.

Pobreza

Aumentando a olhos vistos. Os pedintes agora querem víveres, comida, em vez de dinheiro. Em São Paulo, na porta de supermercados, os famintos marcam ponto.

Redes sociais

Decrescem ímpeto e tom violento das brigadas bolsonaristas nas redes sociais. Sinal dos tempos.

Bruno Covas

Certo dia, em evento num sindicato, disse para ele: "Bruno, siga o exemplo de firmeza de seu avô, Mário". Ele me respondeu: "Gaudêncio, ele me inspira na vida. É minha bússola". Bruno era um homem corajoso, determinado, transparente e simples. Sem arrogância. Teria um grande amanhã na política. Muito ligado ao avô.

Renan

O relator da CPI da Covid-19, senador Renan Calheiros (MDB-AL), passa a ganhar simpatia em setores que o recriminavam. É a gangorra da política.

Angarita

Liguei, ontem, para cumprimentar meu amigo Antônio Angarita, ex-presidente da Vasp, ex-professor da FGV, ex-secretário de Estado em São Paulo, tendo ajudado muito o governo Mário Covas. Lembrei os velhos tempos em que me acolheu para integrar a equipe de preparação do programa do governo, levado que fui por João Doria. Viva Angarita.

Fatores da eficácia eleitoral

Pré-candidatos já começam a pôr os ouvidos junto aos bochichos das ruas. Pedem a este consultor para dizer o que pode acontecer em outubro de 2022. Consulto minha bola de cristal e vejo apenas nuvens plúmbeas. Mas arrisco o alinhamento de 10 fatores que jogarão/não jogarão votos nas urnas:

1. Economia - dinheiro no bolso, barriga satisfeita.

2. Pandemia - Gestores bem avaliados serão bafejados.

3. Cobertor social - Quanto menos curto, melhor, permitindo cobrir pés e cabeça.

4. Mais ação, menos discurso - Tempos de observação para quem age e para quem fica no blá blá blá.

5. Inovação - Palavra enganadora. Não adiantará dizer que vai inovar. A boca expressiva deve garantir credibilidade.

6. Tendência de caras novas ganharem preferência. Mas as caras antigas, respeitadas, terão sucesso.

7. Partidos políticos - Sem grande importância, mas serão alavanca em termos de espaço midiático.

8. Polarização do discurso - Abrigo de 15% do eleitorado. A maioria não engrossará turbas radicais.

9. Dinheiro/Recursos - Continua abrindo porta, mas bolso largo deixou de ser decisivo.

10. Circunstâncias - O espírito do tempo. O Produto Nacional Bruto da Felicidade, conjunto de situações vividas naquele momento eleitoral. O Senhor Imponderável, que costuma nos fazer visitas, deve aparecer em algumas regiões.

Fecho a coluna com uma historinha das Minas Gerais.

Da burrice e da engenharia

Viajando pelo interior de Minas, o arquiteto Marcos Vasconcelos encontrou um grupo de trabalhadores abrindo uma estrada:

- Esta estrada vai até onde?

- Muito longe, muito longe, doutor. Atravessa o vale, retorce na beirada da serra, quebra pela esquerda, retoma pela direita, desemboca em frente, e vai indo, vai indo, até chegar a Ponte Nova, passando pelos baixios e cabeceiras.

- Vocês têm engenheiro, arquiteto, teodolito, instrumentos de medição?

- Num tem não, doutor. Nós tem um burro, que nós manda ir andando, andando. Por onde ele for, aí é o melhor caminho. Nós vai picando, picando.

- E quando não tem burro?

- Aí não tem jeito, doutor; nós chama um engenheiro mesmo.

O arquiteto seguiu adiante filosofando sobre as artes da burrice e da engenharia.

Postado às 09h30 | 27 maio 2021 |

UM NOVO ILUMINISMO

A humanidade vive às margens de um dilema: resgatar os paradigmas da ciência, da razão, do humanismo ou derrubar os ideais do Iluminismo, dando impulso aos tribalistas, com sua visão retrógrada, postura autoritária, culto ao passado e desprezo pelos avanços proporcionados pelo conhecimento.

Norberto Bobbio, em O Futuro da Democracia, já fizera o alerta sobre a era da insídia, das ciladas, que se fortalece com as promessas não cumpridas pela democracia, e aponta para a necessidade de um “novo contrato social, capaz de administrar as paixões do indivíduo, regular e coordenar seus interesses e satisfazer suas necessidades. Já Steven Pinker argumenta na direção de um Novo Iluminismo, obra em que prega a defesa da razão e da ciência.

O fato é que a sociedade global está à procura de uma bússola que indique o rumo dos ventos que a conduzirão a uma vida melhor. A credibilidade nas instituições desabou. A harmonia na tríade do Poder, arquitetada pelo barão de Montesquieu, dá lugar a tensões intermitentes, bastando olhar para o caso brasileiro, onde o Poder Executivo é referenciado por abuso da caneta, o Poder Legislativo não cumpre a contento suas funções representativas e o Poder Judiciário é acusado de legislar.

Os pressupostos de igualdade, justiça para todos, elevação da cidadania, transparência dos governos, combate às máfias que se formam nos intestinos da administração pública e o próprio combate à violência estão muito aquém das metas programadas pelos sistemas democráticos. No vácuo gerado por deveres e princípios não cumpridos, floresce o neopopulismo, forma rasteira de governantes de todos os calibres adotarem políticas de agrado das massas, mesmo que essa vertente inviabilize no longo prazo o equilíbrio (administrativo e financeiro) do Estado.

Os horizontes do planeta estão distantes da paz e da felicidade. Conflitos se multiplicam ou se repetem, disputas por território registram a mortandade de civis inocentes, entre as quais crianças, como se vê nas escaramuças entre Israel e a Faixa de Gaza (Hamas). Instala-se o paradigma do “puro caos”, como descreve Samuel Huntington, em O Choque das Civilizações: a quebra da lei e da ordem, Estados fracassados, anarquia crescente, onda global de criminalidade, imigração e deportação, debilitação da família, cartéis de drogas, declínio da confiança e da solidariedade.

O panorama é propício para o reinado de “salvadores da Pátria”, falsos heróis que se abastecem da boa-fé e de réstias de esperança de populações em estado de miséria. Ante economias em estado de refluxo, incapazes de prover a sustentação de milhões de famílias, avolumam-se os pacotes assistencialistas, criando eterna dependência dos habitantes aos governos passageiros ou, como diz o nosso historiador José Murilo de Carvalho, instalando uma “estadania” em contraposição à cidadania.

Sai governo, entra governo, e o “bolsismo” assistencialista torna-se política de Estado, até porque não interessa ao maquiavelismo de muitos governantes a autonomia individual, a autogestão dos cidadãos na vida pessoal. A dependência ao Estado significa cooptar as massas com migalhas de pão sobre a mesa, ainda mais quando o sofrimento se expande com as pandemias que consomem energias de Nações. E, para agravar a situação, a competição eleitoral tem início muito antes do tempo, desviando recursos para ações não prioritárias, desorganizando a administração e abrindo as filas de pedintes nas cercanias da representação política.

Pois é esse retrato que estamos vendo na nossa paisagem. Os mortos pela COVID 19 beiram os 450 mil, devendo atingir logo mais a casa de meio milhão. Responsabilidades são jogadas de um para outro. É um jogo de “esconde-esconde”. O povo clama por vacinas, a floresta amazônica pede socorro, um ministro de Estado é acusado de ajudar as madeireiras, a imagem internacional do Brasil vai à lona, e tudo acontece sob a égide do comando maior do país.

A hora chegou. Ou resgatamos a moralidade ou o país afunda no pântano. Ou respeitamos a ciência ou cairemos na vulgaridade. Ou voltamos a ser solidários, elevando os valores do humanismo, ou o nosso habitat será o da barbárie. Evitemos a síndrome do touro - pensar com o coração e arremeter com a cabeça. É hora de cantar um hino à racionalidade.

 

Postado às 09h15 | 27 maio 2021 |

Porandudas políticas

Panorama

Burrice ou estultice?

Depois de comparecer duas vezes à CPI da Covid-19, o ex-ministro da Saúde, general da ativa Eduardo Pazuello, compareceu ao ato de domingo passado, um evento de motoqueiros em homenagem ao presidente Bolsonaro. Erro crasso. Militar na ativa não pode comparecer a evento político. Pior é que essa subida em palanque ocorre depois de Pazuello ter dito e repetido que Bolsonaro e ele defendem o uso de máscara. Pois nem ele nem o presidente usaram máscara. O general confessa que errou. Errou na logística do comparecimento? Burrice ou estultice? Uma asneira arrematada.

Punição

Se o general errou, deve ser punido. Mourão, o vice-presidente, deu a pista: sair logo da ativa para aliviar a pena. O respeitado general Santos Cruz proclama: um erro que não pode passar em branco sob pena de desmoralizar a Força. P.S. O presidente Jair Bolsonaro ordenou a lei do silêncio nas investigações sobre a participação do general Pazuello na "motorciata", domingo passado, no Rio de Janeiro. P.S. E se o general enveredar pelos caminhos da política, hein? Mosca azul?

A lei do 1/3

Está na boca dos analistas políticos: as oposições à esquerda contam, hoje, com 1/3 do eleitorado e simpatizantes (PT, PSOL, parte do PSB); os núcleos de centro contam com 1/3 (PSDB, MDB, DEM, parte do PSD e outros) e os governistas, à direita, partidos no entorno do presidente agregariam também 1/3 (PP na liderança e parcelas de outros). Essa equação dos três terços é a mais referenciada (não reverenciada). A mais repetida. Quem vai desarrumar a equação para lá ou para cá é o motor da economia. A conferir.

Lula de centro?

Minha querida mãe, que Deus levou aos 102 anos, sempre me dizia: "meu filho, nunca diga - desta água não beberei". Popular e sábia advertência. Lula ser considerado, hoje, um perfil de centro, é uma entortada no canivete suíço. Lâminas indobráveis. Mas o próprio já chegou a dizer que é a própria "metamorfose ambulante".

Desgaste de material

Eis o imbróglio que pegará muita gente pelo gogó. O eleitor/consumidor vota, convive, consome o mesmo produto por anos a fio. Com o tempo, uma crosta de bolor se forma em torno dele. Parede velha, esburacada, carecendo de reboco. Pintar sobre a parede sem cuidar do reboco é gastar tinta. O tempo desgasta os materiais. Por isso, as paredes precisam receber um tratamento mais adequado. Com argamassa nova e resistente. Cimento de boa qualidade. Pensem, agora, quem está rebocando suas paredes?

Lista do reboco

Quem, entre esses, vocês acham que carece de fina (F), média (M) ou grossa argamassa (G)? Um lembrete: perfis apontados como G tendem a sofrer maior resistência do eleitor/consumidor. Minhas pontuações: - Luiz Inácio Lula da Silva - G; - Ciro Gomes - G; - João Doria - M; - Sérgio Moro - F; - Luiz Mandetta - F;- ACM Neto - M; - Jaques Wagner - M; - Fernando Haddad - M - Jair Bolsonaro- G; - Rui Costa - F; - Eduardo Leite - F; - Eduardo Paes- M; - General Mourão - G.

O paradoxo do mentiroso

Em época de muita mentira e lero-lero, vale a pena lembrar o quebra-cabeças atribuído a Eubulides, aluno de Euclides, conhecido como "o paradoxo do mentiroso". Se alguém (escolha um político ou governante, ministro ou ex-ministro) disser "essa afirmação é falsa", estaremos diante do seguinte paradoxo. Se a afirmação for falsa, então a afirmação do emissor é verdadeira, pois foi o que ele disse. Mas se ele falou verdadeiramente, a afirmação tem de ser falsa, porque ele falou que era falsa. Arremate: se é falsa, conclui-se que a afirmação é verdadeira; e se é verdadeira, segue-se que é falsa afirmação. Deixemos que os senadores quebrem a cabeça na CPI da Covid-19.

Diógenes

Governo parece querer oxigenar os espaços do patrimônio cultural. O advogado, poeta, escritor e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, foi convidado para integrar o Instituto Histórico e Artístico Nacional. O Iphan cuida do patrimônio cultural do país. Diógenes é o escritor que mais escreveu sobre Câmara Cascudo, com quem conviveu. E guarda uma coleção de histórias e depoimentos sobre o maior folclorista brasileiro, orgulho do Rio Grande do Norte.

Cascudo

Vejam este depoimento, pinçado do livro "Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz", colhido por Diógenes da Cunha Lima: "Eu só escrevi, pesquisei, trabalhei naquilo que amava. De maneira que não posso escolher entre meus livros aquele que mais amo. Todos foram feitos com amor, com a mesma técnica de pesquisa. O povo, depois a pesquisa bibliográfica. O povo entrava com 70% e depois vinha a identificação no tempo e no espaço do que eu tinha ouvido do povo. Eu tenho um livro, Trinta Histórias Brasileiras, que foi editado em Portugal e lá se esgotou. São estórias contadas pela mesma velha, uma velha de Ceará-Mirim, branca. Analfabeta, cuja área de percurso na vida era de Ceará-Mirim a Natal. Foi uma das minhas professoras do ponto de vista de literatura oral".

A médica Mayara

A médica Mayara Pinheiro, que comanda uma Secretaria no Ministério da Saúde (Gestão do Trabalho e na Educação da Saúde) e que depôs ontem na CPI da Covid-19, muito falante, relativizou os conceitos por trás das perguntas que lhe foram feitas. A verdade é relativa; a ciência não tem respostas para muitas questões; nenhum país é obrigado a seguir as orientações da OMS; Manaus foi a maior experiência de sua vida profissional; há mais de mil textos defendendo a cloroquina no combate à Covid-19; foi convidada pelo então ministro Luiz Mandetta, a quem tem respeito e apreço e assim por diante. Defendeu com veemência o uso da cloroquina, inclusive para crianças. Deve entrar na política.

Terceira dose?

Ante evidência de que algumas vacinas apresentam baixa eficiência em idosos, especialistas começam a pensar e a falar sobre uma terceira dose. Pesquisas preliminares. É uma hipótese bastante viável mais adiante.

Transformista

A maior performance do transformismo na frente da administração Federal cai no perfil do ministro da Economia, Paulo Guedes. O pleno liberal privativista é um camaleão, um bicho mimético que ganha as cores das folhas ao seu redor. Não é de admirar que acabe pregando o Estado paquidérmico, com reabsorção de empresas de todos os tamanhos.

Pessimismo e otimismo

Os vetores de decisão do eleitorado são influenciados por dois elementos que parecem paradoxais. De um lado, um pessimismo galopante, que se faz presente nas locuções de que o "o país não tem jeito, estamos todos perdidos, não vale a pena lutar por isso, a roubalheira vai continuar, etc.". De outro, um otimismo extravagante, que evidencia a superlativa dose emotiva da alma nacional. Nesse sentido, as alavancas de força se apresentam nas festas de época e fora de época, no carnaval, nas antigas folias cotidianas dos bares e até na esteira da bagunça que, em maior ou menor grau, transparece na fisionomia das cidades, na improvisação dos motoristas de trânsito e na linguagem desabrida das ruas. A pandemia, porém, deixou o país mais pessimista e triste.

Bandeira

Hora de puxar para a paisagem o lamento de Manuel Bandeira: "que adianta a glória, a poesia, a beleza, a linha do horizonte? Eu só vejo o triste beco".

Juro dizer a verdade

Juro dizer a verdade, nada mais que a verdade. O Brasil é a terra da ética, do respeito aos valores morais que dignificam o homem e do cumprimento exemplar das leis. O caráter de seu povo é reto e imaculado, fruto de uma herança cultural profundamente alicerçada no civismo, na solidariedade, no culto às tradições, na religiosidade, no respeito aos mais velhos, no carinho e proteção às crianças e na repartição justa dos bens produzidos. Neste país, atingir a honra de um cidadão equivale a ferir a alma da pátria. Aqui, preserva-se e cumpre-se o abençoado lema "todos por um e um por todos". A ironia também se faz presente na paisagem institucional.

A grandeza de uma nação

A grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas riquezas materiais, o produto nacional bruto. É o conjunto de seus valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o cumprimento da lei, o culto à liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram. A anulação de alguns desses valores faz das Nações uma terra selvagem. Responsabilidade que se deve, em grande parte, à incúria dos governantes, cujo olhar se descola da realidade social para mirar o espelho narcisista das ambições pessoais.

Curto conto

Uma parábola: "há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao redor. Não veem que não veem, não sabem que não sabem".

Zé cai em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olha para os céus e não vê o buraco. Desesperado, começa a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passa o dia fazendo tentativas. As energias começam a faltar. No dia seguinte, alguém que passa pelo lugar ouve um barulho. Olha para o fundo do poço. Enxerga o vulto de Zé. Corre e pega uma corda. Lança-a no buraco. Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa: "pegue a corda, pegue a corda". Surdo, sem perceber a realidade, Zé continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso:

- O que você quer? Não vê que estou ocupado?

O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar:

- Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo.

Mais irritado ainda, Zé responde sem olhar para cima:

- Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda.

E recomeça seu trabalho.

Postado às 08h15 | 19 maio 2021 |

AMADORISMO TRAZ O CAOS

“O Brasil é feito por nós. Está na hora de desatá-los”. A verve do Barão de Itararé cai bem nesse momento em que o país desaba no despenhadeiro de uma pandemia que já ceifou a vida de mais de 360 mil pessoas, numa média diária de 3.500. Como desatar os nós? Eliminando o amadorismo, a improvisação e a falta de planejamento, fatores que entopem os vãos e desvãos da administração pública.

Por aqui, a meritocracia, instrumento adequado para oxigenar, qualificar e expandir a produtividade na gestão, é substituída pelo QI das indicações partidárias, grupais e pessoais, contribuindo para inchar estruturas, expandir a inércia e as teias de interesses escusos. Não por acaso, já tivemos 24 trocas de ministros, em 2 anos e 3 meses, entre os quais 4 na área da saúde, afora as centenas de cargos preenchidos sob o tacão da politicagem.

Vamos ao ponto. O país precisa acabar ou restringir ao máximo os milhares de cargos comissionados, substituindo-os por uma carreira de Estado, à semelhança do que existe em sistemas parlamentaristas, nos quais quadros permanentes, qualificados e motivados são imunes às crises políticas. Mudam-se os dirigentes, mas as equipes continuam comandando a gestão pública.

Por aqui, o tal presidencialismo de coalizão submete o Poder Executivo aos reclamos da base parlamentar governista, e esta, com errática mentalidade na indicação de seus ocupantes, acaba sedimentando um modus operandi espelhado em uma visão (caolha ou fisiológica), e não as necessidades sociais. O fato é que o representante eleito se considera dono de um pedaço do poder, restando-lhe, assim, um naco na partilha. Não se sujeita à ordem do mercado nem às leis da livre concorrência, como ocorre na iniciativa privada.

Ora, de uma burocracia comprometida com o mérito são cobrados resultados dentro de metas preestabelecidas, reconhecidas as qualidades dos perfis, sob um modelo de premiação e promoção para motivar equipes. O que falta para se fazer isso? Vontade política, liderança da autoridade maior, capacidade de articulação, um pacto entre os Poderes com vistas à instalação de uma nova burocracia. Não será fácil.

Maquiavel lembrava que nada é mais difícil de executar, mais duvidoso de obter êxito ou mais perigoso de manejar do que iniciar uma nova ordem de coisas. E arrematava: “o reformador tem inimigos na velha ordem, que se sentem ameaçados pela perda de privilégios, e defensores tímidos na nova ordem, temerosos que as coisas não deem certo”.

Um dos papas da ciência política, o sociólogo Alain Touraine, em seus estudos, prega o aumento da capacidade de intervenção do Estado como forma de um país atenuar as desigualdades. O Estado tem sido fraco para debelar as mazelas. Por causa disso, os governos agem no varejo, trabalhando no curto prazo, com o presidente praticamente se limitando a fazer agrados e benesses para operar a administração. A análise do professor, nesses tempos de economias interdependentes, é um hino de louvor às utopias. Estado forte, por aqui, tem sido sinônimo de autoritarismo, arbitrariedade, estrutura burocrática gigante e ineficiente.

Como encolher o Estado com uma estrutura paquidérmica, dando-lhe capacidade de planejar a longo prazo, sem reformas capazes de deflagrar novos costumes e consolidar as instituições? O diagnóstico é conhecido: fazendo a reforma do Estado, pressupondo-se que ela se complete com as reformas política, fiscal-tributária (onde você está, Hauly?), educacional, trabalhista (com seu término), etc.

É evidente que sem quadros formados e adequados, qualquer reforma fenecerá. O fortalecimento das áreas de formação, reciclagem e aperfeiçoamento de recursos humanos, voltadas para a operação do Estado, deve ser prioridade. As ideias parecem consensuais entre grupos de bom senso. Por quê não se aplicam? Por assimetria à lógica da organização do poder. Ora, quem dá o tom é a orquestra patrimonialista, para onde os integrantes são indicados pelos Senhores do Poder. O círculo vicioso da política gira trocando figuras e mandos, não o sistema. Mas há brechas para avançar.

Produtividade, eis o conceito de comando. Menos discurso, mais ação. O Brasil lidera o ranking mundial em matéria de fabricação legislativa. Temos milhares de leis federais, milhares de decretos-leis, mais de 1,5 milhão de atos normativos e centenas de resoluções da Câmara e do Senado, com validade de lei, além das medidas provisórias. Dá para lembrar o chanceler Bismarck (1862-1890): “se as pessoas soubessem como se fazem as leis e as salsichas”, possivelmente não cumpririam as primeiras nem comeriam as segundas.

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