BLOG - Porandudas políticas

postado às 09h30 | 23 de março de 2022

REVIVENDO A SÍNDROME DO TOURO

Abrimos 2022 com a sinalização de que viveremos um ciclo de tensão, envolto no cobertor eleitoral. A par das costumeiras escaramuças que o país costuma abrigar sob a teia de uma guerra pelo poder entre protagonistas que lutam para aumentar sua fatia de bolo, desta feita estaremos diante de uma encruzilhada: à direita, descortina-se uma trilha de curvas e buracos, que dificultam a caminhada dos peregrinos pela régua civilizatória; à esquerda, uma vereda também sinuosa, que impede descortinar horizontes claros. 

O fato é que, mais uma vez, padeceremos da síndrome do touro, caracterizada pela sentença: pensar com o coração e arremeter com a cabeça. Não é novidade. Os ciclos eleitorais são propícios a expandir os níveis de emoção e a enfraquecer as taxas de racionalidade. País tropical, o Brasil lapida a feição de  território emotivo, diferente do modus vivendi de nações que forjaram a identidade no cimento da racionalidade, como os países nórdicos, por exemplo.

Olhemos para o pano de fundo, onde está a lenha que alimentará fogueiras de múltiplos tamanhos: a avaliação de três anos do governo Bolsonaro; a crise sanitária, com a troca de chumbo grosso entre guerreiros da situação e da oposição; a discussão sobre as vacinas, um tema de intensa polêmica; a avaliação dos governos estaduais; as operações espetaculosas da Polícia Federal, como esta recente que teve como alvo o ex-governador de São Paulo, Márcio França, que volta a disputar o governo em outubro próximo pelo PSB; a crise hídrica, com falta de chuva em algumas regiões, rebaixamento do nível dos reservatórios e excesso de água em outras: as inundações na Bahia, Minas Gerais e outros Estados garantindo imagens fortes no espaço eleitoral. 

Os dois principais fogueteiros serão Jair e Luis Inácio. O presidente, como mostra todos os dias, tende a reforçar a condição de vítima, valendo-se do escudo emotivo originado pela facada de um maníaco, Adélio Bispo, cuja recorrência ilustra a expressão do bolsonarismo desde 2018. A recente obstrução intestinal, que interrompeu o périplo do presidente em SC, foi mais um episódio perpetrado pelo Senhor Imponderável, que costuma nos visitar.  

Lula, de seu lado, mostra-se como o benfeitor dos pobres, famintos e distantes do pão sobre a mesa. E mais: sem o rancor verborrágico de outrora; ao contrário, veste o manto da união, sob a bandeira de um pacto super-partidário, com que espera ter apoio de entes à esquerda e ao centro-direita. Sua aliança com Geraldo Alckmin, ex-tucano, possível candidato a vice em sua chapa, está sendo chamada de “estratégia das tesouras, cujas bandas abertas parecem mostrar diferenças. Ambas, porém, cortam apenas para o lado desejado por quem as manuseia. As redes sociais batem bumbo: gato e rato se unem. Até composições musicais viralizam exibindo as “peculiaridades” destes animais.

O lavajatismo será acusado de exorbitâncias. O troco virá na esteira de lembranças sobre o mensalão e o petrolão, a serem tirados do baú e exibidos como trunfo para mostrar a corrupção na era lulista. A questão será: o discurso “pegará”? As massas se incomodarão com o passado ou preferirão ouvir mensagens diferentes que denunciavam os subterrâneos da corrupção? Eis algumas situações que tendem a balizar atitudes e o sistema cognitivo dos eleitores: o estado da economia, falta de dinheiro no bolso, greves controladas ou um cordão de movimentos reivindicatórios, enfim, o Produto Nacional Bruto da Felicidade Social, o PNBF. Entre 0 e 10, que nota ganhará em setembro/outubro?

A insatisfação/satisfação se fará presente nas urnas. As emoções ganharão teor expressivo junto às correntes das margens, mas encontrarão resistência por parte de contingentes do meio da pirâmide. Assistiremos a uma campanha eleitoral paralela, com registros bombásticos nas redes sociais. Será uma guerra de verbos e adjetivos, desfechados principalmente por partidários de Bolsonaro e de Lula.  

Chegaremos esgotados em outubro. Afinal, o país continuará patinando no mesmo lugar ou dará um salto seguro para enfrentar o amanhã? O sentimento deste escriba é de que a crise ensejará oportunidades para o Brasil. Mesmo revivendo a síndrome do touro.



postado às 09h30 | 23 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do querido Rio Grande do Norte.

Estar com Deus não ofende

Noé, conta Sebastião Nery, era uma figura folclórica do Rio Grande do Norte. Tinha o hábito de cortejar todos os governos. No levante comunista de 1935, quando o deputado pela Bahia e secretário-Geral do PC, Giocondo Dias, tomou o poder ocupando o Palácio Potengi, enquanto Dinarte Mariz marchava de Caicó para Natal subindo a Serra do Doutor, a multidão enfurecida invadiu o jornal A República, de propriedade do governo. Na sala da direção, encontram Noé. Agarram-no pela gravata:

– Com quem você está?

– Estou com Deus. Isso ofende?

Não ofendia. Salvou-se.

Panorama

Vamos aos nossos pequenos retratos.

Pandemia e democracia

O que aconteceu com as democracias sob a teia sombria da pandemia? Perderam força. Os governos, particularmente os dirigidos por perfis autoritários, reforçaram seus espaços de mando e poder. Agregaram forças. Passaram a ter voz mais ativa nos territórios, ganharam visibilidade, arregimentaram apoios. No caso do Brasil, defendendo o negacionismo, indo contra a ciência e desfechando tiros contra a vacina, o presidente da República, ao contrário de muitos dirigentes, nada em maré baixa. P.S. Extinguiu muitas instituições e órgãos de controle. A participação social no processo decisório encolheu.

Agitando as bases

Bolsonaro aposta na hipótese de que, apesar dos pesares, ele é a principal fortaleza de defesa do país contra as ameaças do "comunismo", sistema que costuma jogar no colo de Luiz Inácio. Por isso, seu principal objetivo é animar as bases de simpatizantes e alas radicais, esperando que elas lhe dêem os votos para entrar no segundo turno. Espera repetir 2018, quando encarnou o papel de São Jorge empunhando a espada contra o dragão da maldade.

20 a 25 pontos

Se obtiver entre 20 e 25 pontos, terá condições de entrar no turno seguinte da campanha. O nome da terceira via mais provável no momento é o do juiz Sergio Moro, que ainda não empolga os segmentos do meio da pirâmide. As classes médias tendem a ser o pêndulo do pleito. Para onde se inclinarem, definirão o favorito do pleito. Ainda não fecharam por completo suas preferências.

São Paulo

O Estado de São Paulo abriga cerca de 40 milhões de pessoas. Unidade mais populosa da Nação, o Estado será centro de uma batalha contundente. É mais populoso do que 178 países, colocando-se abaixo de apenas 29 em termos de habitantes. Na América do Sul, somente a Colômbia abriga um número maior de pessoas que São Paulo. Abriga 35 milhões de eleitores, sendo o maior colégio eleitoral brasileiro. A capital de São Paulo representa também o maior município em número de eleitores, com cerca de nove milhões do total.

O Triângulo das Bermudas

Costumo lembrar que o Triângulo das Bermudas será o decisor da campanha. Constituído por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. MG possui cerca de 16 milhões de eleitores, concentrando quase 11% do eleitorado do país, que, neste ano, deve ultrapassar 150 milhões de pessoas. Terceiro maior colégio eleitoral do país, o estado do Rio de Janeiro tem mais de 12 milhões de eleitores, mais de um terço na capital fluminense, com cerca de cinco milhões.

Os maiores polos

Em SP, MG e RJ estão os maiores grupos de pressão e opinião: os maiores conglomerados empresariais; as mais fortes organizações não governamentais; os maiores contingentes das classes médias; os maiores grupos de profissionais liberais; os maiores núcleos estudantis; enfim, os maiores polos de poder social. Passam, portanto, por aqui os clamores e gritos que embasam o discurso nacional.

As estatísticas

Dito isto, resta aduzir com outras estatísticas: a região Sudeste é a maior em número de eleitores, com cerca de 65 milhões de eleitores, 43% dos aptos a votar. Em seguida vem a região Nordeste, onde há mais de 40 milhões de eleitores ou 27,01% do total. O Sul conta com 14,47% dos eleitores, contabilizando 22 milhões brasileiros. A região Norte tem 12 milhões, ou 7,91% de votantes. A região Centro-Oeste concentra o menor número de eleitores: 10.943.887, ou 7,27% do total. Há 509.988 (0,33%) brasileiros aptos a votar no exterior. A maioria do eleitorado brasileiro é formada por mulheres, que representam 52,49% do total, somando 77.649.569 eleitores. Os homens totalizam 70.228.457 eleitores, correspondendo a 47,48% do total.

O discurso tatibitate

Infelizmente, no ano eleitoral seremos vítimas do blá blá blá das campanhas. Do tipo:

- o Brasil tem jeito, basta saber governar.

- Fulano de tal é o "pai dos pobres".

- Sicrano é o patrono dos trabalhadores.

- Beltrano é o benfeitor da saúde.

- Hora de reconstruir o país.

- Vamos combater a corrupção.

- Nossas crianças precisam de melhor educação.

- Vamos baratear a comida no prato.

- Com fulano de tal, éramos felizes e não sabíamos.

É o chamado discurso tatibitate

O discurso substantivo

O contraponto será o discurso substantivo, que abrigará densidade, argumentos, propostas concretas e como serão aplicadas. Algo como:

- O salário-mínimo será reajustado um pouco acima dos índices da inflação.

- Um projeto para o país, contemplando as prioridades e demandas regionais. Com coordenação centralizada e operação descentralizada.

-Transparência, melhoria dos serviços públicos (qualificar e quantificar metas).

- Algo como criação de centrais de abastecimento em todas as regiões para suprir demandas nas áreas de:

- alimentos

- remédios/equipamentos de saúde

- educação – livros didáticos

Enfim, setores que sejam altas prioridades. Densidade e explicação das formas de operação.

O Brasil na retomada

A pandemia continua acusando índices alarmantes. A Ômicron, a nova variante do Coronavírus, pode ser menos mortal, mas a propagação é maior que o primeiro ciclo da Delta. A indicar que as filas de contaminados são e serão imensas. No meio dessa tempestade, o Brasil parece sair do caos e começar a movimentar suas estruturas, escancarando as portas da normalidade. Para onde se olha, veem-se traços e paisagens cheias de gente e de ações. A retomada das atividades produtivas é fato.

Superação

A sensação é de que o pior já passou. Os incautos, que relaxam condutas de prevenção, enchem planilhas de dados e hospitalizações. Mas as conversas e as rotinas cotidianas atestam que o brasileiro passa a confiar na superação de tempos sombrios. Muitos reiniciam a volta ao labor sob a crença de que as coisas não serão como antes. Algo se insere nos passos profissionais e pessoais.

Lula e Alckmin

Parte do PT é contra o nome de Geraldo Alckmin como vice o na chapa de Lula. Rui Falcão, ex-presidente da sigla, em entrevista à Folha, segunda, foi duro: Lula não precisa de muleta eleitoral. E Alckmin, segundo uma ala do petismo, representa tudo que o petismo rejeita. A essa altura, o ex-governador de SP fica com a imagem borrada. Se Lula impuser o nome, vai encontrar resistências. Ou seja, nesse início de jornada eleitoral, contenda e acusações não ajudam a alavancar nomes. Alckmin fica numa sinuca de bico. Os tiros contra o ex-governador surgem a cada instante.

A volta

Se Lula ganhar a disputa, veremos uma luta engalfinhada de petistas para voltar ao Planalto Central. Os quadros da velha guarda contra os novos perfis. O Brasil do Eterno Retorno. Mantega, Mercadante, Rui Falcão, para onde serão deslocados? E para onde iria a ex-presidente Dilma Rousseff?

18 Estados

O PT terá candidatos próprios em 18 Estados. Domina o ranking de candidaturas. Pode fazer a maioria e grande bancada de deputados.

PSL e PT

Serão os dois partidos com os maiores cofres de campanha. Com o fundão eleitoral turbinado, os partidos terão um total de R$ 5,96 bilhões nas eleições. O valor corresponde à soma de R$ 4,9 bilhões para campanhas eleitorais com R$ 1,06 bilhão para o Fundo Partidário. PSL e PT, que têm as maiores bancadas, levarão 10,14% e 9,97% do total cada, respectivamente.

Os evangélicos

O PT se esforça para pescar o apoio dos evangélicos, que nunca foram tão disputados.

As chances

Quais as chances dos pré-candidatos hoje (repito, hoje) de entrarem no segundo turno? Mais uma vez, a resposta é complexa. Vai depender das circunstâncias e do Senhor Imponderável. Hoje, medidas em números de 0 a 10, o palpite sugere essa pontuação:

- Lula, 9

- Bolsonaro, 6

- Sergio Moro, 4

- João Doria, 3

- Luiz Mandetta (?), 1

- Simone Tebet, 1

- Ciro Gomes, 2

- Rodrigo Pacheco(?), 1

Terceira via

Eleitorado vai fechar posição na última hora. E a terceira via só dará as caras lá para maio/junho. A depender da polarização. E mais: a terceira via só tem possibilidades se o Senhor Imponderável nos visitar e afastar do páreo um dos dois principais corredores: Lula ou Bolsonaro. O fato é que este Senhor faz visitas ao Brasil sem aviso prévio.

O Imponderável

O clima eleitoral pode ser afetado pela visita do Senhor Imponderável. Na forma de:

- uma denúncia bombástica

- um escândalo nos bastidores do governo

- uma renúncia no meio da campanha

- eventos extremados que puxem o povo para as ruas/ um acidente/incidente de proporções calamitosas

- caos, com desorganização da economia e furos no cobertor de proteção social



postado às 09h30 | 23 de março de 2022

UM ANO DE AFLIÇÕES

Um desafio e tanto analisar o Brasil sob a égide do ano que chega ao fim. Mas ao analista político sobram hipóteses: um ano de muito sofrimento; um ano de perdas; um ano que ainda vai continuar; um ano de mentiras mirabolantes; um ano de governo enviesado, para alguns; um ano de desgoverno, para outros; um ano de governo sem rumo; um ano de retrocesso; um ano de reversão de expectativas; um ano de mortes e luta pela sobrevivência.

Seja qual for o resumo, certamente ele conterá sua dose de verdade. Para não cairmos na onda de opção política, vamos escolher esta visão: um ano de aflições. Todos, de qualquer banda da sociedade, haverão de concordar que 2021 mexeu com um dos quatro instintos que explicam as ações do ser humano, segundo Pavlov: o impulso combativo, ligado à sobrevivência do indivíduo (o outro é o instinto nutritivo) e mais dois ligados à preservação da espécie (sexual e paternal). Contam-se nos dedos os números de pessoas que passaram ao largo da crise sanitária que padecemos.

Usarei os eixos que se apresentam no meu entendimento, na esteira do ensinamento de Hannah Arendt: “Pensar sem corrimão”, sem injunções de natureza ideológica. Dessa forma, começo pelo usual: o ano foi ruim para milhões de pessoas, inclusive este que aqui está, e também valeu para outros milhões (em menor número), o que significa, foi positivo para muitos, inclusive para este escriba.

No nosso interior, espraia-se um sentimento de perda. Algo foi embora. Fugiu. Escorregou de nossas vidas. Pequenas tochas de depressão, ondas de tristeza, um recolhimento forçado pelas circunstâncias. Um coração que deixou de bater no ritmo. Saiu de sua órbita. Uma perda civilizatória. Uma defasagem sem possibilidade de resgatar a parte da vida que se foi.

Milhões estagnaram, perderam empregos e negócios, ou até deram passos para trás, nas ondas da pandemia, do fechar de portas, da limitação de atividades profissionais, exigência que se fez como estratégia para conter o novo vírus. Vidas em atraso. Vidas saindo de um território de certo equilíbrio – até porque sabíamos jogar o jogo do mercado – para adentrar em um espaço nebuloso ou em um terreno pantanoso. Sob essa ótica, houve uma parada na roda civilizatória. Uma sensação de patinação no gelo, porém sem sair do mesmo lugar.

Temos de considerar, porém, o resultado da luta travada contra o coronavírus 19 e seus efeitos na rotina de nossas vidas. Como ensina Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. O fato é que aprendemos, e muito, com a pandemia. A ver a vida com outros olhos. A ter mais cuidados em nossas rotinas. A evitar certas posturas. A prestigiar a ciência. A dar valor aos profissionais da saúde. A trabalhar em condições que não sugiram o afastamento dos nossos postos de trabalho. A usar a criatividade para mostrar resultados e atenuar os danos ocasionados por nossas ausências nos espaços tradicionais do trabalho.

A vida ganhou um largo espaço para repensar posturas e atitudes. Os minutos da vida ganharam mais importância, até parecendo que o sábio Sêneca ganhou o status de nosso conselheiro-mor: “A vida é breve e a arte é longa. Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa o bastante e nos foi generosamente concedida para a execução de ações importantes, caso toda ela seja bem aplicada. Porém, quando se dilui no luxo e na preguiça... aquela que não havíamos percebido passar, sentimos que já passou”.

Pensemos nos efeitos destruidores para alguns segmentos. Para as crianças e os jovens, um refluxo grave em suas vidas, eis que o vácuo educacional ultrapassou o tamanho da idade, lançando-os no fim da fila civilizatória. Será complicado retomar o tempo perdido, mesmo para aqueles que contam com ferramentas tecnológicas. Para os servidores da saúde, uma intensa mobilização tomou conta de suas tarefas. Cumpriram sua missão e são vistos por nós como “anjos da guarda”. Portanto, o ano não foi totalmente de perdas. Nossas vidas mudaram. E agora, com a iminência de uma nova onda (quarta, quinta?) da pandemia, com a variante ômicron, a ideia de que o planeta está tumultuando os passos rotineiros de seus habitantes emerge com força.

Alguns atores na passarela mundial perderam: aqueles que vaticinaram (isso mesmo, não confundir com vacinaram) contra as vacinas, incluindo o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e outros com jeitinho de ditador. Perderam os grupos fanáticos, os torcedores da pandemia, aqueles que desacreditam nos postulados da ciência, os incréus, os que usam o sabão dos sistemas autoritários para limpar sua pele e sujar a dos outros.

Ganharam com a pandemia as farmacêuticas, que enchem seus cofres, os cientistas – infectologistas, epidemiologistas, estudiosos do fenômeno – os profissionais da saúde, principalmente os grupos de vanguarda e da retaguarda que enfrentam o coronavírus 19, as autoridades governamentais que autorizam(ram) medidas de combate à pandemia, organizações planetárias de enfrentamento à doença.

2022 se abrirá com um painel de interrogações



postado às 08h45 | 22 de março de 2022

IMBRÓGLIO NAS REDES SOCIAIS

Ao ser perguntado sobre as leis que outorgara aos atenienses, Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, respondeu: “Dei-lhes as melhores que eles podiam aguentar.”

Essa poderia, até, ser uma boa resposta dos nossos legisladores se fossem indagados sobre o vasto arsenal legislativo. Temos leis para tudo e todos. A questão, pois, não é de quantidade, mas de aplicação. Os brasileiros, só mesmo depois de alguma punição, “aguentam” se reger dentro das normas. Foi difícil implantar o cinto de segurança no trânsito. Em espaços delimitados para uso exclusivo de pedestres, como no parque do Ibirapuera, em São Paulo, os ciclistas não se conformam em correr em seus corredores sinalizados e acabam atropelando pedestres.

Questão de cultura, dizem. Em Singapura, jogar na rua a pasta de um chiclete mastigado ou a bituca de um cigarro é motivo de punição. Em suma, seja qual for a reforma, esta precisa ser internalizada pelo sistema cognitivo dos consumidores. 

Esperemos para ver o fenômeno das fake news nas redes tecnológicas durante a campanha. Será uma onda gigante de mentiras e versões estapafúrdias que deverão inundar os espaços do ciclo eleitoral. Os dispositivos arrumados para coibir as meias verdades não darão conta do recado. 

A adoção de ferramentas tecnológicas, como a internet, faz parte do mundo contemporâneo e qualquer instrumento mais afiado para controlar e monitorar a expressão será considerado uma forma de censura. É oportuno lembrar que temos sido críticos sobre as decisões que teimam em impor controles, principalmente em um momento em que se clama pela liberdade de expressão no Estado democrático. O valor da transparência é muito cobrado. 

Seria até compreensível que as redes sociais - blogs e sites – tivessem como parâmetro as disposições que regulam as mídias jornalísticas, como jornais e revistas, que não são concessões do Estado. Afinal, os limites entre a verdade e as múltiplas versões no terreno eleitoral são tênues. O argumento da isonomia que ampara o arcabouço normativo – garantir os mesmos espaços para todos os candidatos, por exemplo – é frágil. Se imaginarmos que todos os candidatos terão espaço para responder mentiras sobre eles, feitas pelos internautas, veríamos apenas uma enxurrada de pontos e contrapontos, e densas nuvens nos horizontes da campanha. A ética, como sabemos, não tem sido uma variável no tabuleiro da política.

Em suma, atentemos para a natureza da rede tecnológica. Não há nela limites físicos e até a unidade tempo, que afere os passos das pessoas e das estruturas, assume outra dimensão. As fronteiras entre público e privado se imbricam no espaço virtual, sob a égide da liberdade de qualquer um para fazer e desfazer, criar e recriar, buscar e interagir com interlocutores, enfim, de entrar numa disputa sangrenta e movida à ódio. 

A conectividade propicia a usuários a efetivação do processo criativo. Deixa de haver aquela margem de subordinação e passividade do leitor/ouvinte das mídias tradicionais. Na Telépolis, global e intensamente interativa, tentar  garantir espaços iguais para cada candidato, com direito de resposta a quem se sentir atingido por uma adjetivação mais forte, é querer caçar dinossauros na Avenida Paulista.

Impor rigidez a uma esfera pluridimensional faz parte da mania de fazer leis sobre coisas impossíveis, como é costume por essas plagas.  É por isso que muitas leis acabam sendo um tiro de festim.

Para complicar ainda mais a moldura eleitoral, o ministro Alexandre de Moraes, que presidirá o pleito, terá de administrar o questionamento da urna eletrônica, um considerável avanço, ante as investidas contrárias a ela, feitas pelo presidente Bolsonaro. Em caso de derrota, certamente se escudaria no argumento de que o sistema eletrônico foi manipulado. Um imbróglio nos espera no princípio de outubro. O eleitorado bolsonarista estará mobilizado para cumprir as ordens do seu “mito”. Estaria disposto a sair às ruas em caso de derrota do atual mandatário-mor.

Lembram-se de Sísifo, condenado pelos deuses a subir a montanha, todos os dias, com uma pedra nos ombros para depositá-la no topo? A nossa esperança de que, algum dia, o condenado pudesse cumprir a meta, se esvai. E mais uma vez assistiremos ao desfecho do eterno retorno: ver a pedra rolando montanha abaixo, para desespero de Sísifo, que fará esse exercício (?) por toda a eternidade.



postado às 08h45 | 21 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com Albert Einstein.

Certa vez, Einstein recebeu uma carta da Miss New Orleans (EUA) onde ela dizia: "Prof. Einstein, gostaria de ter um filho com o senhor. A minha justificativa se baseia no fato de que eu, como modelo de beleza, teria um filho com o senhor e, certamente, o garoto teria a minha beleza e a sua inteligência". Einstein respondeu: "Querida miss New Orleans, o meu receio é que o nosso filho tenha a sua inteligência e a minha beleza".

Panorama

A III Guerra

Não parece quimera. Basta Putin atacar um país integrado à OTAN para ter uma reação da instituição. Para não ficar desmoralizado, poderia acionar o seu arsenal atômico. E uma reação em cadeia seria a consequência. Claro, essa configuração depende de muitos fatores. Coisa complexa. O fato é que o autocrata Vladimir Putin não esperava reação tão forte da Ucrânia. Censura os meios de comunicação. Os russos imaginam que a "operação especial" na Ucrânia é para livrar aquele país do nazismo. A mentira se propaga. Ora, vejam bem: Zelensky é o único judeu que governa um país da Europa. Desnazificar a Ucrânia....é risível.

Conselheiros

Há um grupo de conselheiros de Trump que caiu no poço da descrença, incluindo o todo poderoso ministro da Defesa, o general Serguei Choigu, que faz muita articulação política, mas não tem experiência no campo de batalha. Os conselheiros do czar diziam que tudo se resolveria rapidamente e de acordo com o planejado. Os russos estão sofrendo e enfrentando muita resistência. Ganharão a guerra porque têm efetivos militares bem superiores aos da Ucrânia. Mas o planejado não está saindo nos conformes. Noutros tempos, esses conselheiros acabariam tremendo de frio na Sibéria.

A cadeia de efeitos

Exportações de fertilizantes sustadas. Brasil sofrerá para suprir as demandas internas. Setembro, mês de plantação, vem aí. A alta do petróleo – podendo chegar aos U$ 120 o barril (brent) – dispara a subida dos preços de alimentos. O exagerado aumento da gasolina pela Petrobras atinge produtores e consumidores de alimentos, impacta a mobilidade urbana e rural, diminui a grana no bolso, produz bolhas de contrariedade. P.S. Os generais da ativa fazem um escudo de proteção ao presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, que, segundo se sabe, apenas endossa a posição do Conselho e cumpre o ajuste da tabela internacional.

Milagre? É possível

Ganhar uma eleição sob esse teto nas alturas é um milagre. O Bolsa Auxílio pagará menos do que aquele adjutório no início da pandemia. As massas pensarão que o governo as engana com o alto preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha. Mas os subsídios virão.

Lula em dúvida?

Luiz Inácio é cauteloso. Todos sabem que será candidato, mas ele mesmo nunca disse isso. E se perceber que o quadro político se complicará para o PT, com a ausência de grandes coligações e apoios, Lula pode até desistir. Ele precisa ganhar no primeiro turno. Ganhar no segundo turno será difícil. Muito mais. Sua trajetória está em jogo. Se perder, adeus à política.

Eduardo Leite

Segundo diz o próprio Gilberto Kassab a este analista, está tudo certo para que o governador do RS, Eduardo Leite, venha para o PSD, deixando o PSDB. E na mira dele, a candidatura à presidência da Republica. Chapa dos sonhos de Kassab: Eduardo Leite para presidente e Simone Tebet, do MDB, para vice. Simone, no entanto, quer a cabeça de chapa. Mais um problema: os senadores do PSD já estão alinhados à Lula e Bolsonaro.

Poder360

O *Poder360* bateu mais uma vez um recorde de audiência em janeiro de 2022. Os dados são da Comscore (o "padrão ouro" na medição de tráfego na internet). No primeiro mês do ano, a audiência do *Poder* superou a de vários sites de veículos respeitados da mídia tradicional. Segundo Fernando Rodrigues, o competente jornalista que chefia a equipe, "tudo é resultado do bom jornalismo profissional praticado diariamente por uma equipe de aproximadamente 80 profissionais que trabalham no *Poder*".

Sem máscara

Os Estados estão amainando o uso de máscaras. Alguns permitem tirar a máscara em ambientes abertos e fechados, outros apenas em ambientes abertos. Brasil, Brasil. Não se surpreendam se, daqui a pouco, voltarem a subir os índices da pandemia do coronavírus. Na China, os casos estão aumentando.

Olaf Scholz

O novo chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, não tem o carisma de Angela Merkel, mas é um bom articulador. Tem estado na linha de frente das articulações Rússia/Ucrânia. Scholz é um advogado que já exerceu o cargo de ministro das Finanças, prefeito de Hamburgo, de 2011 a 2018, e vice-líder do seu partido, Partido Social Democrata da Alemanha, de 2009 a 2019.

E a energia, hein?

São Pedro abriu as torneiras e as chuvas torrenciais caem em todo o país. A crise energética não deve ocorrer, pelo menos com a gravidade anunciada em princípios do ano. Os reservatórios estão com índices razoáveis.

E o PL, hein?

Com a última operação da PF nos terrenos do PL, um grupo de deputados dispostos a entrar no partido de Valdemar da Costa Neto já não exibe tanto entusiasmo para nele ingressar. Valdemar está com receio de perder o mando em sua sigla, que fez história nos tempos do embaixador Álvaro Vale. A abertura do programa do PL com o "Coro dos Escravos Hebreus", do terceiro ato da ópera Nabucco (1842) de Giuseppe Verdi, era um show.

O troca-troca

A mudança de partido levará em conta os recursos destinados a cada ente. O fundão de quase R$ 5 bilhões é o alvo de todos.

Golpe? O Brasil é outro

Um golpe militar em tempos atuais é algo praticamente impossível. Não haveria apoio militar. O mundo mudou. É mais interdependente. As Forças Armadas, em seu conjunto, estão profissionalizadas. Fariam continência a Lula, se este ganhasse. Mas a ignorância teima em aparecer na desinformação. Dá conta de um eventual golpe de Bolsonaro, com apoio militar, caso perca a eleição. Os tempos são outros. E as urnas eletrônicas, como ferramenta da ilegalidade, só mesmo na cabeça de incréus e radicais apaixonados.

Um pouco de história: Sócrates

De corpo franzino e tido como muito feio, Sócrates aceitou de bom humor participar da simulação de um concurso de beleza com seu amigo Critóbulus; era uma brincadeira, com um júri falso. Sócrates tinha certeza de que, por meio da argumentação, conseguiria vencer o amigo:

– Sócrates: "O que é beleza?"

– Critóbulus: "São as coisas boas e belas que são bem-feitas para cumprir respectivas funções para as quais nós as obtemos ou as coisas bem constituídas para servir às nossas necessidades."

Sócrates jogou o anzol e pegou o amigo com a técnica de deixar que o interlocutor discorra para extrair as consequências.

– Sócrates: "Tu sabes a razão por que necessitamos de olhos?"

– Critóbulus: "Ora, obviamente para ver."

– Sócrates: "Nesse caso, parece que meus olhos, sem qualquer esforço de argumentação, são melhores do que os teus."

– Critóbulus: "Como assim?"

– Sócrates: "Porque enquanto os teus só veem o que está na frente, os meus, esbugalhados como são, veem também o que está dos lados."

– Critóbulus: "Quer dizer que um caranguejo está muito bem equipado visualmente, mais do que qualquer outra criatura?"

– Sócrates: Exatamente.

– Critóbulus: "Bem que seja assim, mas de quem é o melhor nariz, o teu ou o meu?"

– Sócrates: "O meu, acho, considerando-se que a Providência fez nossos narizes para cheirar. Pois tuas narinas olham em direção ao chão, enquanto as minhas estão bem abertas e voltadas para fora, de modo que posso captar aromas de todos os lados."

– Critóbulus: "Mas como tu achas possível que um nariz achatado como o teu seja mais bonito que o meu, que é reto?"

– Sócrates: "Pelo fato de não produzir nenhuma barreira entre os olhos, permitindo a eles uma visão desobstruída para que vejam o que querem, enquanto teu nariz reto e afilado, como que para compensar, separa, como uma barreira, um olho do outro."

– Critóbulus: "Já no que diz respeito à boca, até faço uma concessão. Pois se ela foi criada para morder os alimentos, então a tua pode abocanhar muito mais do que a minha pode. E tu não achas que o teu beijo é também mais doce porque os teus lábios são grossos?"

– Sócrates: "Pois não é? Mas, de acordo com os argumentos, parece que minha boca é mais feia do que a de um asno."

– Critóbulus: "É impossível continuar argumentando contigo. Vamos aos votos."

Mesmo com a lógica de Sócrates, os jurados de mentirinha, com pena de Critóbulus, concederam-lhe a vitória.

Política e teatro

O discurso estético tem muito a ver com os recursos teatrais. Com efeito, a teatralização é imanente à política. Os atores políticos contemporâneos procuram aperfeiçoar sua performance com recursos técnicos da mídia eletrônica e do teatro. O ex-ditador de Uganda, o cabo Idi Amin Dada, dizia conversar com Deus tantas vezes quanto necessário. Hitler treinava a voz e os gestos. Mussolini, com sua voz de bronze e máscara imperial, espelhava-se em D'Annunzio, guerreiro-tribuno. A história antiga é cheia de exemplos que mostram os governantes posando de ator, alguns com feições de comediantes, outros encarnando o perfil de estadistas. Luis XIV fazia exibição de danças. O marechal Pétain tomava aulas de dicção para diminuir a timidez. O próprio De Gaulle dizia que "os maiores medem cuidadosamente as suas intervenções, fazendo delas uma arte". Valéry Giscard d'Estaing, o chefe de Estado francês, tocava acordeon nas praças de Paris. Fernando Collor usou um traje de piloto para fazer uma viagem à Amazônia.

O vedetismo

O vedetismo do poder pode ser explicado pela psicologia. As pessoas percebem no ator político estados e situações afetivas que lhe são próprias. Identificam-se com ele. E se satisfazem. Trata-se do fenômeno de autovalorização por meio de um herói interposto. Freud também explica: "a maioria das pessoas experimenta a imperiosa necessidade de admirar uma autoridade, perante a qual possa inclinar-se e pela qual seja dominada e por vezes maltratada".

Os três maiores oradores

Os três maiores oradores da Antiguidade foram: o general Péricles; o tribuno Cícero, mais conhecido pelas Catilinárias; e aquele que é considerado o maior de todos, Demóstenes. Uma figura curiosa. Gago e com muita vontade de superar deficiências. Construiu um lugar para estudo numa caverna, onde ia diariamente treinar oratória e exercitar a voz. Lá permanecia, por vezes por dois ou três meses sem interrupção, raspando o cabelo de metade da cabeça, para que, por vergonha, não conseguisse aparecer em público e se afastar da caverna. Um determinado.

Fecho a coluna com mais uma história de padre.

O bom senso

Uma historinha de Zé Abelha, o nosso contador de causos de Minas. No auge da discussão nacional sobre a lei do divórcio, o então bispo auxiliar de Belo Horizonte, D. Serafim Fernandes de Araújo, reitor da Universidade Católica de Minas Gerais, democrata, liberal, torcedor roxo do Galo, o Clube Atlético Mineiro, foi entrevistado:

– O senhor não acha que o bom senso evitaria muitos divórcios?

– Acho sim, meu filho, e muitos casamentos também.

 



postado às 08h45 | 16 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do querido Rio Grande do Norte.

Estar com Deus não ofende

Noé, conta Sebastião Nery, era uma figura folclórica do Rio Grande do Norte. Tinha o hábito de cortejar todos os governos. No levante comunista de 1935, quando o deputado pela Bahia e secretário-Geral do PC, Giocondo Dias, tomou o poder ocupando o Palácio Potengi, enquanto Dinarte Mariz marchava de Caicó para Natal subindo a Serra do Doutor, a multidão enfurecida invadiu o jornal A República, de propriedade do governo. Na sala da direção, encontram Noé. Agarram-no pela gravata:

– Com quem você está?

– Estou com Deus. Isso ofende?

Não ofendia. Salvou-se.

Panorama

Vamos aos nossos pequenos retratos.

Pandemia e democracia

O que aconteceu com as democracias sob a teia sombria da pandemia? Perderam força. Os governos, particularmente os dirigidos por perfis autoritários, reforçaram seus espaços de mando e poder. Agregaram forças. Passaram a ter voz mais ativa nos territórios, ganharam visibilidade, arregimentaram apoios. No caso do Brasil, defendendo o negacionismo, indo contra a ciência e desfechando tiros contra a vacina, o presidente da República, ao contrário de muitos dirigentes, nada em maré baixa. P.S. Extinguiu muitas instituições e órgãos de controle. A participação social no processo decisório encolheu.

Agitando as bases

Bolsonaro aposta na hipótese de que, apesar dos pesares, ele é a principal fortaleza de defesa do país contra as ameaças do "comunismo", sistema que costuma jogar no colo de Luiz Inácio. Por isso, seu principal objetivo é animar as bases de simpatizantes e alas radicais, esperando que elas lhe dêem os votos para entrar no segundo turno. Espera repetir 2018, quando encarnou o papel de São Jorge empunhando a espada contra o dragão da maldade.

20 a 25 pontos

Se obtiver entre 20 e 25 pontos, terá condições de entrar no turno seguinte da campanha. O nome da terceira via mais provável no momento é o do juiz Sergio Moro, que ainda não empolga os segmentos do meio da pirâmide. As classes médias tendem a ser o pêndulo do pleito. Para onde se inclinarem, definirão o favorito do pleito. Ainda não fecharam por completo suas preferências.

São Paulo

O Estado de São Paulo abriga cerca de 40 milhões de pessoas. Unidade mais populosa da Nação, o Estado será centro de uma batalha contundente. É mais populoso do que 178 países, colocando-se abaixo de apenas 29 em termos de habitantes. Na América do Sul, somente a Colômbia abriga um número maior de pessoas que São Paulo. Abriga 35 milhões de eleitores, sendo o maior colégio eleitoral brasileiro. A capital de São Paulo representa também o maior município em número de eleitores, com cerca de nove milhões do total.

O Triângulo das Bermudas

Costumo lembrar que o Triângulo das Bermudas será o decisor da campanha. Constituído por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. MG possui cerca de 16 milhões de eleitores, concentrando quase 11% do eleitorado do país, que, neste ano, deve ultrapassar 150 milhões de pessoas. Terceiro maior colégio eleitoral do país, o estado do Rio de Janeiro tem mais de 12 milhões de eleitores, mais de um terço na capital fluminense, com cerca de cinco milhões.

Os maiores polos

Em SP, MG e RJ estão os maiores grupos de pressão e opinião: os maiores conglomerados empresariais; as mais fortes organizações não governamentais; os maiores contingentes das classes médias; os maiores grupos de profissionais liberais; os maiores núcleos estudantis; enfim, os maiores polos de poder social. Passam, portanto, por aqui os clamores e gritos que embasam o discurso nacional.

As estatísticas

Dito isto, resta aduzir com outras estatísticas: a região Sudeste é a maior em número de eleitores, com cerca de 65 milhões de eleitores, 43% dos aptos a votar. Em seguida vem a região Nordeste, onde há mais de 40 milhões de eleitores ou 27,01% do total. O Sul conta com 14,47% dos eleitores, contabilizando 22 milhões brasileiros. A região Norte tem 12 milhões, ou 7,91% de votantes. A região Centro-Oeste concentra o menor número de eleitores: 10.943.887, ou 7,27% do total. Há 509.988 (0,33%) brasileiros aptos a votar no exterior. A maioria do eleitorado brasileiro é formada por mulheres, que representam 52,49% do total, somando 77.649.569 eleitores. Os homens totalizam 70.228.457 eleitores, correspondendo a 47,48% do total.

O discurso tatibitate

Infelizmente, no ano eleitoral seremos vítimas do blá blá blá das campanhas. Do tipo:

- o Brasil tem jeito, basta saber governar.

- Fulano de tal é o "pai dos pobres".

- Sicrano é o patrono dos trabalhadores.

- Beltrano é o benfeitor da saúde.

- Hora de reconstruir o país.

- Vamos combater a corrupção.

- Nossas crianças precisam de melhor educação.

- Vamos baratear a comida no prato.

- Com fulano de tal, éramos felizes e não sabíamos.

É o chamado discurso tatibitate

O discurso substantivo

O contraponto será o discurso substantivo, que abrigará densidade, argumentos, propostas concretas e como serão aplicadas. Algo como:

- O salário-mínimo será reajustado um pouco acima dos índices da inflação.

- Um projeto para o país, contemplando as prioridades e demandas regionais. Com coordenação centralizada e operação descentralizada.

-Transparência, melhoria dos serviços públicos (qualificar e quantificar metas).

- Algo como criação de centrais de abastecimento em todas as regiões para suprir demandas nas áreas de:

- alimentos

- remédios/equipamentos de saúde

- educação – livros didáticos

Enfim, setores que sejam altas prioridades. Densidade e explicação das formas de operação.

O Brasil na retomada

A pandemia continua acusando índices alarmantes. A Ômicron, a nova variante do Coronavírus, pode ser menos mortal, mas a propagação é maior que o primeiro ciclo da Delta. A indicar que as filas de contaminados são e serão imensas. No meio dessa tempestade, o Brasil parece sair do caos e começar a movimentar suas estruturas, escancarando as portas da normalidade. Para onde se olha, veem-se traços e paisagens cheias de gente e de ações. A retomada das atividades produtivas é fato.

Superação

A sensação é de que o pior já passou. Os incautos, que relaxam condutas de prevenção, enchem planilhas de dados e hospitalizações. Mas as conversas e as rotinas cotidianas atestam que o brasileiro passa a confiar na superação de tempos sombrios. Muitos reiniciam a volta ao labor sob a crença de que as coisas não serão como antes. Algo se insere nos passos profissionais e pessoais.

Lula e Alckmin

Parte do PT é contra o nome de Geraldo Alckmin como vice o na chapa de Lula. Rui Falcão, ex-presidente da sigla, em entrevista à Folha, segunda, foi duro: Lula não precisa de muleta eleitoral. E Alckmin, segundo uma ala do petismo, representa tudo que o petismo rejeita. A essa altura, o ex-governador de SP fica com a imagem borrada. Se Lula impuser o nome, vai encontrar resistências. Ou seja, nesse início de jornada eleitoral, contenda e acusações não ajudam a alavancar nomes. Alckmin fica numa sinuca de bico. Os tiros contra o ex-governador surgem a cada instante.

A volta

Se Lula ganhar a disputa, veremos uma luta engalfinhada de petistas para voltar ao Planalto Central. Os quadros da velha guarda contra os novos perfis. O Brasil do Eterno Retorno. Mantega, Mercadante, Rui Falcão, para onde serão deslocados? E para onde iria a ex-presidente Dilma Rousseff?

18 Estados

O PT terá candidatos próprios em 18 Estados. Domina o ranking de candidaturas. Pode fazer a maioria e grande bancada de deputados.

PSL e PT

Serão os dois partidos com os maiores cofres de campanha. Com o fundão eleitoral turbinado, os partidos terão um total de R$ 5,96 bilhões nas eleições. O valor corresponde à soma de R$ 4,9 bilhões para campanhas eleitorais com R$ 1,06 bilhão para o Fundo Partidário. PSL e PT, que têm as maiores bancadas, levarão 10,14% e 9,97% do total cada, respectivamente.

Os evangélicos

O PT se esforça para pescar o apoio dos evangélicos, que nunca foram tão disputados.

As chances

Quais as chances dos pré-candidatos hoje (repito, hoje) de entrarem no segundo turno? Mais uma vez, a resposta é complexa. Vai depender das circunstâncias e do Senhor Imponderável. Hoje, medidas em números de 0 a 10, o palpite sugere essa pontuação:

- Lula, 9

- Bolsonaro, 6

- Sergio Moro, 4

- João Doria, 3

- Luiz Mandetta (?), 1

- Simone Tebet, 1

- Ciro Gomes, 2

- Rodrigo Pacheco(?), 1

Terceira via

Eleitorado vai fechar posição na última hora. E a terceira via só dará as caras lá para maio/junho. A depender da polarização. E mais: a terceira via só tem possibilidades se o Senhor Imponderável nos visitar e afastar do páreo um dos dois principais corredores: Lula ou Bolsonaro. O fato é que este Senhor faz visitas ao Brasil sem aviso prévio.

O Imponderável

O clima eleitoral pode ser afetado pela visita do Senhor Imponderável. Na forma de:

- uma denúncia bombástica

- um escândalo nos bastidores do governo

- uma renúncia no meio da campanha

- eventos extremados que puxem o povo para as ruas/ um acidente/incidente de proporções calamitosas

- caos, com desorganização da economia e furos no cobertor de proteção social

Mais ação, menos discurso

O eleitor quer mais ação e menos discurso.

 



AUTOR

Gaudêncio Torquato