Porandudas políticas

Postado às 09h30 | 27 maio 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com a noiva.

A morada do doutô Agriço

Mais uma do mestre Leonardo Mota.

Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte:

Pagamento adiantado, hóspedes sem bagagens e conferencistas

Também em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba, há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando, ao indagar ao major Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação que me deixou tonto:

- O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d'A Noiva...

Panorama

Terceira onda?

Nos últimos 15 dias os hospitais privados de São Paulo registraram alta de 7% de contaminados de Covid-19 com ingresso em leitos e UTIs. Interrogações dos médicos: seria uma terceira onda? O relaxamento aumentou bastante. E os vacinados com segunda dose se achando imunizados. Não é bem assim.

CPI da Covid-19

Em uma semana pouca coisa mudou no front da política. A CPI da Covid-19 continua a mobilizar as atenções, os bolsonaristas tentam sair pela tangente no banco de testemunhas e, ao que se infere, o relatório final incriminará o governo e membros de sua equipe apontando má gestão da pandemia e provas recaindo sobre a responsabilidade de gestores e ex-gestores. Indagação que se impõe: o presidente será responsabilizado, além de seus auxiliares? Sim. Mas será punido com impeachment? Não. Não haveria tempo e condições objetivas para uma decisão com tal dimensão.

Pazuello

O depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello, hoje, é o que cria maior expectativa. O ministro tem um salvo-conduto para não se incriminar. Mas é obrigado a falar sobre terceiros. A questão de fundo é: falando ou silenciando, o general terá curta sombra para se abrigar. Aliás, o silêncio, como já acentuei neste espaço, é uma grande forma de expressão, traduzindo coisas como medo, insegurança, versão distante da verdade, escapadas ao fogo interrogativo. Esta também é a alternativa da "Capitã Cloroquina", que enviou carradas do remédio para Manaus, no auge da crise, orientando sobre sua adoção.

O Centrão de olho

O Centrão, com eixo central no PP, está de olhos esbugalhados: um focado em Bolsonaro e em seu governo, outro fixado nas pesquisas que mostram imagem em queda na avaliação da administração. Como se sabe, a tendência de integrantes do bloco é de caminhar na direção apontada pelo peso da balança. Caso seja o da oposição a Bolsonaro, lá pelos meados de 2022, talvez até antes, o desembarque dos participantes do Centrão é algo previsível. Primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu. Este é o velho lema do blocão. Perspectiva de poder - eis a bússola que orienta a esfera política.

Lula submergindo

Para evitar desgaste com lançamento prematuro, Luiz Inácio foi aconselhado a mergulhar. Sair a campo muito cedo é se sujeitar a bombardeios prévios. Ademais, Lula não está seguro sobre sua condição de elegibilidade. A primeira instância voltará a analisar seus casos. Mas, e a pressão da opinião pública? Já começa a funcionar a favor dele. Lula inicia um discurso de vítima, de inocente. A OP tende a favorecê-lo, como indicam as pesquisas. É evidente que os juízes balizarão em suas decisões por impulsos dos balões de pressão social.

DEM

Padece sua maior crise dos últimos tempos.

PRTB

Esnobou e decidiu não entregar a legenda para Bolsonaro. Continuará nas mãos da família de Levy Fidelix. Historinha: por ocasião do lançamento do meu livro - Era uma Vez Mil Vezes - na livraria Cultura, Levy chegou trovejando sua voz: "desculpem, tenho outro compromisso. Vou furar a fila e cumprimentar meu amigo". Passou bom tempo posando para fotos ao lado da mesa. E a gritaria o impediu de ficar mais tempo. Uma figura.

Alckmin

Geraldo Alckmin está entre a cruz e a caldeirinha. Se permanecer no PSDB, ameaça perder a condição de candidato ao governo de São Paulo, posição hoje nas mãos de Rodrigo Garcia, que deixa o DEM pelo tucanato. Se sair, pode ser candidato da sigla em que ingressar. E vai brigar contra João Doria, seu discípulo. O que seria melhor?

Bolsonaro

Cai o índice de avaliação positiva de Jair Bolsonaro. Poderá cair mais ou ele terá condições de resgatar o prestígio anterior? Em política, tudo pode ocorrer. Mas, a continuar seu destampatório, emerge a alternativa de perder o favoritismo. Lula, para ele, seria o candidato ideal. Há quem não acredite nesta hipótese.

Mourão

Hamilton Mourão, o vice-presidente da República deverá ser candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Opção mais atrativa. Não integrará a chapa de Bolsonaro.

Militares

Alas insatisfeitas com os "feitos" do capitão se espalham.

Classes médias

Continuam a observar o cenário e a aguardar momento de descer do muro da indecisão. Hoje, pendem para Lula por falta de opção. E parcela vai de Bolsonaro, por convicção.

Pobreza

Aumentando a olhos vistos. Os pedintes agora querem víveres, comida, em vez de dinheiro. Em São Paulo, na porta de supermercados, os famintos marcam ponto.

Redes sociais

Decrescem ímpeto e tom violento das brigadas bolsonaristas nas redes sociais. Sinal dos tempos.

Bruno Covas

Certo dia, em evento num sindicato, disse para ele: "Bruno, siga o exemplo de firmeza de seu avô, Mário". Ele me respondeu: "Gaudêncio, ele me inspira na vida. É minha bússola". Bruno era um homem corajoso, determinado, transparente e simples. Sem arrogância. Teria um grande amanhã na política. Muito ligado ao avô.

Renan

O relator da CPI da Covid-19, senador Renan Calheiros (MDB-AL), passa a ganhar simpatia em setores que o recriminavam. É a gangorra da política.

Angarita

Liguei, ontem, para cumprimentar meu amigo Antônio Angarita, ex-presidente da Vasp, ex-professor da FGV, ex-secretário de Estado em São Paulo, tendo ajudado muito o governo Mário Covas. Lembrei os velhos tempos em que me acolheu para integrar a equipe de preparação do programa do governo, levado que fui por João Doria. Viva Angarita.

Fatores da eficácia eleitoral

Pré-candidatos já começam a pôr os ouvidos junto aos bochichos das ruas. Pedem a este consultor para dizer o que pode acontecer em outubro de 2022. Consulto minha bola de cristal e vejo apenas nuvens plúmbeas. Mas arrisco o alinhamento de 10 fatores que jogarão/não jogarão votos nas urnas:

1. Economia - dinheiro no bolso, barriga satisfeita.

2. Pandemia - Gestores bem avaliados serão bafejados.

3. Cobertor social - Quanto menos curto, melhor, permitindo cobrir pés e cabeça.

4. Mais ação, menos discurso - Tempos de observação para quem age e para quem fica no blá blá blá.

5. Inovação - Palavra enganadora. Não adiantará dizer que vai inovar. A boca expressiva deve garantir credibilidade.

6. Tendência de caras novas ganharem preferência. Mas as caras antigas, respeitadas, terão sucesso.

7. Partidos políticos - Sem grande importância, mas serão alavanca em termos de espaço midiático.

8. Polarização do discurso - Abrigo de 15% do eleitorado. A maioria não engrossará turbas radicais.

9. Dinheiro/Recursos - Continua abrindo porta, mas bolso largo deixou de ser decisivo.

10. Circunstâncias - O espírito do tempo. O Produto Nacional Bruto da Felicidade, conjunto de situações vividas naquele momento eleitoral. O Senhor Imponderável, que costuma nos fazer visitas, deve aparecer em algumas regiões.

Fecho a coluna com uma historinha das Minas Gerais.

Da burrice e da engenharia

Viajando pelo interior de Minas, o arquiteto Marcos Vasconcelos encontrou um grupo de trabalhadores abrindo uma estrada:

- Esta estrada vai até onde?

- Muito longe, muito longe, doutor. Atravessa o vale, retorce na beirada da serra, quebra pela esquerda, retoma pela direita, desemboca em frente, e vai indo, vai indo, até chegar a Ponte Nova, passando pelos baixios e cabeceiras.

- Vocês têm engenheiro, arquiteto, teodolito, instrumentos de medição?

- Num tem não, doutor. Nós tem um burro, que nós manda ir andando, andando. Por onde ele for, aí é o melhor caminho. Nós vai picando, picando.

- E quando não tem burro?

- Aí não tem jeito, doutor; nós chama um engenheiro mesmo.

O arquiteto seguiu adiante filosofando sobre as artes da burrice e da engenharia.

Postado às 09h30 | 27 maio 2021 |

UM NOVO ILUMINISMO

A humanidade vive às margens de um dilema: resgatar os paradigmas da ciência, da razão, do humanismo ou derrubar os ideais do Iluminismo, dando impulso aos tribalistas, com sua visão retrógrada, postura autoritária, culto ao passado e desprezo pelos avanços proporcionados pelo conhecimento.

Norberto Bobbio, em O Futuro da Democracia, já fizera o alerta sobre a era da insídia, das ciladas, que se fortalece com as promessas não cumpridas pela democracia, e aponta para a necessidade de um “novo contrato social, capaz de administrar as paixões do indivíduo, regular e coordenar seus interesses e satisfazer suas necessidades. Já Steven Pinker argumenta na direção de um Novo Iluminismo, obra em que prega a defesa da razão e da ciência.

O fato é que a sociedade global está à procura de uma bússola que indique o rumo dos ventos que a conduzirão a uma vida melhor. A credibilidade nas instituições desabou. A harmonia na tríade do Poder, arquitetada pelo barão de Montesquieu, dá lugar a tensões intermitentes, bastando olhar para o caso brasileiro, onde o Poder Executivo é referenciado por abuso da caneta, o Poder Legislativo não cumpre a contento suas funções representativas e o Poder Judiciário é acusado de legislar.

Os pressupostos de igualdade, justiça para todos, elevação da cidadania, transparência dos governos, combate às máfias que se formam nos intestinos da administração pública e o próprio combate à violência estão muito aquém das metas programadas pelos sistemas democráticos. No vácuo gerado por deveres e princípios não cumpridos, floresce o neopopulismo, forma rasteira de governantes de todos os calibres adotarem políticas de agrado das massas, mesmo que essa vertente inviabilize no longo prazo o equilíbrio (administrativo e financeiro) do Estado.

Os horizontes do planeta estão distantes da paz e da felicidade. Conflitos se multiplicam ou se repetem, disputas por território registram a mortandade de civis inocentes, entre as quais crianças, como se vê nas escaramuças entre Israel e a Faixa de Gaza (Hamas). Instala-se o paradigma do “puro caos”, como descreve Samuel Huntington, em O Choque das Civilizações: a quebra da lei e da ordem, Estados fracassados, anarquia crescente, onda global de criminalidade, imigração e deportação, debilitação da família, cartéis de drogas, declínio da confiança e da solidariedade.

O panorama é propício para o reinado de “salvadores da Pátria”, falsos heróis que se abastecem da boa-fé e de réstias de esperança de populações em estado de miséria. Ante economias em estado de refluxo, incapazes de prover a sustentação de milhões de famílias, avolumam-se os pacotes assistencialistas, criando eterna dependência dos habitantes aos governos passageiros ou, como diz o nosso historiador José Murilo de Carvalho, instalando uma “estadania” em contraposição à cidadania.

Sai governo, entra governo, e o “bolsismo” assistencialista torna-se política de Estado, até porque não interessa ao maquiavelismo de muitos governantes a autonomia individual, a autogestão dos cidadãos na vida pessoal. A dependência ao Estado significa cooptar as massas com migalhas de pão sobre a mesa, ainda mais quando o sofrimento se expande com as pandemias que consomem energias de Nações. E, para agravar a situação, a competição eleitoral tem início muito antes do tempo, desviando recursos para ações não prioritárias, desorganizando a administração e abrindo as filas de pedintes nas cercanias da representação política.

Pois é esse retrato que estamos vendo na nossa paisagem. Os mortos pela COVID 19 beiram os 450 mil, devendo atingir logo mais a casa de meio milhão. Responsabilidades são jogadas de um para outro. É um jogo de “esconde-esconde”. O povo clama por vacinas, a floresta amazônica pede socorro, um ministro de Estado é acusado de ajudar as madeireiras, a imagem internacional do Brasil vai à lona, e tudo acontece sob a égide do comando maior do país.

A hora chegou. Ou resgatamos a moralidade ou o país afunda no pântano. Ou respeitamos a ciência ou cairemos na vulgaridade. Ou voltamos a ser solidários, elevando os valores do humanismo, ou o nosso habitat será o da barbárie. Evitemos a síndrome do touro - pensar com o coração e arremeter com a cabeça. É hora de cantar um hino à racionalidade.

 

Postado às 09h15 | 27 maio 2021 |

Porandudas políticas

Panorama

Burrice ou estultice?

Depois de comparecer duas vezes à CPI da Covid-19, o ex-ministro da Saúde, general da ativa Eduardo Pazuello, compareceu ao ato de domingo passado, um evento de motoqueiros em homenagem ao presidente Bolsonaro. Erro crasso. Militar na ativa não pode comparecer a evento político. Pior é que essa subida em palanque ocorre depois de Pazuello ter dito e repetido que Bolsonaro e ele defendem o uso de máscara. Pois nem ele nem o presidente usaram máscara. O general confessa que errou. Errou na logística do comparecimento? Burrice ou estultice? Uma asneira arrematada.

Punição

Se o general errou, deve ser punido. Mourão, o vice-presidente, deu a pista: sair logo da ativa para aliviar a pena. O respeitado general Santos Cruz proclama: um erro que não pode passar em branco sob pena de desmoralizar a Força. P.S. O presidente Jair Bolsonaro ordenou a lei do silêncio nas investigações sobre a participação do general Pazuello na "motorciata", domingo passado, no Rio de Janeiro. P.S. E se o general enveredar pelos caminhos da política, hein? Mosca azul?

A lei do 1/3

Está na boca dos analistas políticos: as oposições à esquerda contam, hoje, com 1/3 do eleitorado e simpatizantes (PT, PSOL, parte do PSB); os núcleos de centro contam com 1/3 (PSDB, MDB, DEM, parte do PSD e outros) e os governistas, à direita, partidos no entorno do presidente agregariam também 1/3 (PP na liderança e parcelas de outros). Essa equação dos três terços é a mais referenciada (não reverenciada). A mais repetida. Quem vai desarrumar a equação para lá ou para cá é o motor da economia. A conferir.

Lula de centro?

Minha querida mãe, que Deus levou aos 102 anos, sempre me dizia: "meu filho, nunca diga - desta água não beberei". Popular e sábia advertência. Lula ser considerado, hoje, um perfil de centro, é uma entortada no canivete suíço. Lâminas indobráveis. Mas o próprio já chegou a dizer que é a própria "metamorfose ambulante".

Desgaste de material

Eis o imbróglio que pegará muita gente pelo gogó. O eleitor/consumidor vota, convive, consome o mesmo produto por anos a fio. Com o tempo, uma crosta de bolor se forma em torno dele. Parede velha, esburacada, carecendo de reboco. Pintar sobre a parede sem cuidar do reboco é gastar tinta. O tempo desgasta os materiais. Por isso, as paredes precisam receber um tratamento mais adequado. Com argamassa nova e resistente. Cimento de boa qualidade. Pensem, agora, quem está rebocando suas paredes?

Lista do reboco

Quem, entre esses, vocês acham que carece de fina (F), média (M) ou grossa argamassa (G)? Um lembrete: perfis apontados como G tendem a sofrer maior resistência do eleitor/consumidor. Minhas pontuações: - Luiz Inácio Lula da Silva - G; - Ciro Gomes - G; - João Doria - M; - Sérgio Moro - F; - Luiz Mandetta - F;- ACM Neto - M; - Jaques Wagner - M; - Fernando Haddad - M - Jair Bolsonaro- G; - Rui Costa - F; - Eduardo Leite - F; - Eduardo Paes- M; - General Mourão - G.

O paradoxo do mentiroso

Em época de muita mentira e lero-lero, vale a pena lembrar o quebra-cabeças atribuído a Eubulides, aluno de Euclides, conhecido como "o paradoxo do mentiroso". Se alguém (escolha um político ou governante, ministro ou ex-ministro) disser "essa afirmação é falsa", estaremos diante do seguinte paradoxo. Se a afirmação for falsa, então a afirmação do emissor é verdadeira, pois foi o que ele disse. Mas se ele falou verdadeiramente, a afirmação tem de ser falsa, porque ele falou que era falsa. Arremate: se é falsa, conclui-se que a afirmação é verdadeira; e se é verdadeira, segue-se que é falsa afirmação. Deixemos que os senadores quebrem a cabeça na CPI da Covid-19.

Diógenes

Governo parece querer oxigenar os espaços do patrimônio cultural. O advogado, poeta, escritor e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, foi convidado para integrar o Instituto Histórico e Artístico Nacional. O Iphan cuida do patrimônio cultural do país. Diógenes é o escritor que mais escreveu sobre Câmara Cascudo, com quem conviveu. E guarda uma coleção de histórias e depoimentos sobre o maior folclorista brasileiro, orgulho do Rio Grande do Norte.

Cascudo

Vejam este depoimento, pinçado do livro "Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz", colhido por Diógenes da Cunha Lima: "Eu só escrevi, pesquisei, trabalhei naquilo que amava. De maneira que não posso escolher entre meus livros aquele que mais amo. Todos foram feitos com amor, com a mesma técnica de pesquisa. O povo, depois a pesquisa bibliográfica. O povo entrava com 70% e depois vinha a identificação no tempo e no espaço do que eu tinha ouvido do povo. Eu tenho um livro, Trinta Histórias Brasileiras, que foi editado em Portugal e lá se esgotou. São estórias contadas pela mesma velha, uma velha de Ceará-Mirim, branca. Analfabeta, cuja área de percurso na vida era de Ceará-Mirim a Natal. Foi uma das minhas professoras do ponto de vista de literatura oral".

A médica Mayara

A médica Mayara Pinheiro, que comanda uma Secretaria no Ministério da Saúde (Gestão do Trabalho e na Educação da Saúde) e que depôs ontem na CPI da Covid-19, muito falante, relativizou os conceitos por trás das perguntas que lhe foram feitas. A verdade é relativa; a ciência não tem respostas para muitas questões; nenhum país é obrigado a seguir as orientações da OMS; Manaus foi a maior experiência de sua vida profissional; há mais de mil textos defendendo a cloroquina no combate à Covid-19; foi convidada pelo então ministro Luiz Mandetta, a quem tem respeito e apreço e assim por diante. Defendeu com veemência o uso da cloroquina, inclusive para crianças. Deve entrar na política.

Terceira dose?

Ante evidência de que algumas vacinas apresentam baixa eficiência em idosos, especialistas começam a pensar e a falar sobre uma terceira dose. Pesquisas preliminares. É uma hipótese bastante viável mais adiante.

Transformista

A maior performance do transformismo na frente da administração Federal cai no perfil do ministro da Economia, Paulo Guedes. O pleno liberal privativista é um camaleão, um bicho mimético que ganha as cores das folhas ao seu redor. Não é de admirar que acabe pregando o Estado paquidérmico, com reabsorção de empresas de todos os tamanhos.

Pessimismo e otimismo

Os vetores de decisão do eleitorado são influenciados por dois elementos que parecem paradoxais. De um lado, um pessimismo galopante, que se faz presente nas locuções de que o "o país não tem jeito, estamos todos perdidos, não vale a pena lutar por isso, a roubalheira vai continuar, etc.". De outro, um otimismo extravagante, que evidencia a superlativa dose emotiva da alma nacional. Nesse sentido, as alavancas de força se apresentam nas festas de época e fora de época, no carnaval, nas antigas folias cotidianas dos bares e até na esteira da bagunça que, em maior ou menor grau, transparece na fisionomia das cidades, na improvisação dos motoristas de trânsito e na linguagem desabrida das ruas. A pandemia, porém, deixou o país mais pessimista e triste.

Bandeira

Hora de puxar para a paisagem o lamento de Manuel Bandeira: "que adianta a glória, a poesia, a beleza, a linha do horizonte? Eu só vejo o triste beco".

Juro dizer a verdade

Juro dizer a verdade, nada mais que a verdade. O Brasil é a terra da ética, do respeito aos valores morais que dignificam o homem e do cumprimento exemplar das leis. O caráter de seu povo é reto e imaculado, fruto de uma herança cultural profundamente alicerçada no civismo, na solidariedade, no culto às tradições, na religiosidade, no respeito aos mais velhos, no carinho e proteção às crianças e na repartição justa dos bens produzidos. Neste país, atingir a honra de um cidadão equivale a ferir a alma da pátria. Aqui, preserva-se e cumpre-se o abençoado lema "todos por um e um por todos". A ironia também se faz presente na paisagem institucional.

A grandeza de uma nação

A grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas riquezas materiais, o produto nacional bruto. É o conjunto de seus valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o cumprimento da lei, o culto à liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram. A anulação de alguns desses valores faz das Nações uma terra selvagem. Responsabilidade que se deve, em grande parte, à incúria dos governantes, cujo olhar se descola da realidade social para mirar o espelho narcisista das ambições pessoais.

Curto conto

Uma parábola: "há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao redor. Não veem que não veem, não sabem que não sabem".

Zé cai em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olha para os céus e não vê o buraco. Desesperado, começa a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passa o dia fazendo tentativas. As energias começam a faltar. No dia seguinte, alguém que passa pelo lugar ouve um barulho. Olha para o fundo do poço. Enxerga o vulto de Zé. Corre e pega uma corda. Lança-a no buraco. Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa: "pegue a corda, pegue a corda". Surdo, sem perceber a realidade, Zé continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso:

- O que você quer? Não vê que estou ocupado?

O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar:

- Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo.

Mais irritado ainda, Zé responde sem olhar para cima:

- Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda.

E recomeça seu trabalho.

Postado às 08h15 | 19 maio 2021 |

AMADORISMO TRAZ O CAOS

“O Brasil é feito por nós. Está na hora de desatá-los”. A verve do Barão de Itararé cai bem nesse momento em que o país desaba no despenhadeiro de uma pandemia que já ceifou a vida de mais de 360 mil pessoas, numa média diária de 3.500. Como desatar os nós? Eliminando o amadorismo, a improvisação e a falta de planejamento, fatores que entopem os vãos e desvãos da administração pública.

Por aqui, a meritocracia, instrumento adequado para oxigenar, qualificar e expandir a produtividade na gestão, é substituída pelo QI das indicações partidárias, grupais e pessoais, contribuindo para inchar estruturas, expandir a inércia e as teias de interesses escusos. Não por acaso, já tivemos 24 trocas de ministros, em 2 anos e 3 meses, entre os quais 4 na área da saúde, afora as centenas de cargos preenchidos sob o tacão da politicagem.

Vamos ao ponto. O país precisa acabar ou restringir ao máximo os milhares de cargos comissionados, substituindo-os por uma carreira de Estado, à semelhança do que existe em sistemas parlamentaristas, nos quais quadros permanentes, qualificados e motivados são imunes às crises políticas. Mudam-se os dirigentes, mas as equipes continuam comandando a gestão pública.

Por aqui, o tal presidencialismo de coalizão submete o Poder Executivo aos reclamos da base parlamentar governista, e esta, com errática mentalidade na indicação de seus ocupantes, acaba sedimentando um modus operandi espelhado em uma visão (caolha ou fisiológica), e não as necessidades sociais. O fato é que o representante eleito se considera dono de um pedaço do poder, restando-lhe, assim, um naco na partilha. Não se sujeita à ordem do mercado nem às leis da livre concorrência, como ocorre na iniciativa privada.

Ora, de uma burocracia comprometida com o mérito são cobrados resultados dentro de metas preestabelecidas, reconhecidas as qualidades dos perfis, sob um modelo de premiação e promoção para motivar equipes. O que falta para se fazer isso? Vontade política, liderança da autoridade maior, capacidade de articulação, um pacto entre os Poderes com vistas à instalação de uma nova burocracia. Não será fácil.

Maquiavel lembrava que nada é mais difícil de executar, mais duvidoso de obter êxito ou mais perigoso de manejar do que iniciar uma nova ordem de coisas. E arrematava: “o reformador tem inimigos na velha ordem, que se sentem ameaçados pela perda de privilégios, e defensores tímidos na nova ordem, temerosos que as coisas não deem certo”.

Um dos papas da ciência política, o sociólogo Alain Touraine, em seus estudos, prega o aumento da capacidade de intervenção do Estado como forma de um país atenuar as desigualdades. O Estado tem sido fraco para debelar as mazelas. Por causa disso, os governos agem no varejo, trabalhando no curto prazo, com o presidente praticamente se limitando a fazer agrados e benesses para operar a administração. A análise do professor, nesses tempos de economias interdependentes, é um hino de louvor às utopias. Estado forte, por aqui, tem sido sinônimo de autoritarismo, arbitrariedade, estrutura burocrática gigante e ineficiente.

Como encolher o Estado com uma estrutura paquidérmica, dando-lhe capacidade de planejar a longo prazo, sem reformas capazes de deflagrar novos costumes e consolidar as instituições? O diagnóstico é conhecido: fazendo a reforma do Estado, pressupondo-se que ela se complete com as reformas política, fiscal-tributária (onde você está, Hauly?), educacional, trabalhista (com seu término), etc.

É evidente que sem quadros formados e adequados, qualquer reforma fenecerá. O fortalecimento das áreas de formação, reciclagem e aperfeiçoamento de recursos humanos, voltadas para a operação do Estado, deve ser prioridade. As ideias parecem consensuais entre grupos de bom senso. Por quê não se aplicam? Por assimetria à lógica da organização do poder. Ora, quem dá o tom é a orquestra patrimonialista, para onde os integrantes são indicados pelos Senhores do Poder. O círculo vicioso da política gira trocando figuras e mandos, não o sistema. Mas há brechas para avançar.

Produtividade, eis o conceito de comando. Menos discurso, mais ação. O Brasil lidera o ranking mundial em matéria de fabricação legislativa. Temos milhares de leis federais, milhares de decretos-leis, mais de 1,5 milhão de atos normativos e centenas de resoluções da Câmara e do Senado, com validade de lei, além das medidas provisórias. Dá para lembrar o chanceler Bismarck (1862-1890): “se as pessoas soubessem como se fazem as leis e as salsichas”, possivelmente não cumpririam as primeiras nem comeriam as segundas.

Postado às 08h15 | 19 maio 2021 |

A BÚSSOLA DA OPINIÃO PÚBLICA

Todos os dias ouvimos ou lemos sobre os danosos efeitos da pandemia nas classes que povoam a pirâmide social. Os efeitos estarão na lista prioritária dos fatores que influenciarão o processo decisório do eleitor em 2022, daí a conveniência de um olhar analítico sobre a questão. Pesquisa recente do Instituto Locomotiva dá conta de que cerca de 5 milhões de brasileiros saíram da classe média C para a classe baixa. As classes médias com cerca de 100 milhões de pessoas, abrigam três grupamentos, com ganhos entre R$ 3 mil e R$ 10 mil; pela primeira vez em 10 anos, a faixa com renda familiar entre R$ 265 e R$ 2,2 mil, ou seja, 47% da população, desce um degrau na escada.

A par da perda de renda, essa classe média sofre o forte choque causado por perda de status. Sabe-se que o sonho de uma família é não apenas garantir sua posição na pirâmide social, mas tentar subir mais um degrau, alcançando um andar mais alto. O trauma psicológico decorrente dessas perdas se traduz em acentuada sensação de desconforto, insegurança, ansiedade, com sequelas sobre comportamentos e atitudes. Se a tendência de queda bater no segundo semestre do próximo ano, teremos um eleitor de classe média profundamente contrariado. Por lógica simples, trata-se de um perfil tendente a votar em candidatos abrigados nas roças da oposição.

Ora, dos cerca de 150 milhões de eleitores brasileiros, o grupamento reunido sob o teto de conscientização política provém das áreas da classe média. Se considerarmos três faixas de classes médias – C, B e A (menor, médio e maior poder aquisitivo), veremos que aí se abrigam profissionais liberais, pequenos e médios proprietários, comerciantes e comerciários, servidores públicos de todas as esferas e poderes, autônomos, que perderam suas vagas no mercado de trabalho, enfim, pessoas que acompanham a política de forma mais estreita, discutem fatos do cotidiano, tecem loas e críticas aos protagonistas da cena institucional.

São tais figurantes os principais sopradores do balão da Opinião Pública. Esse balão,  lembre-se, é formado pelos inputs - cargas informativas, interpretativas e opinativas - que batem no sistema de cognição de participantes da vida social. Os fatos – notícias, ações, boatos – entram em tubas de ressonância, sendo uma voltada para o nivelamento da compreensão e outra para exageros e exacerbação. Ou seja, as pessoas tendem a nivelar os inputs que lhes chegam pelo conhecimento de política, pela compreensão sobre o disse-disse das ruas. Ou a superdimensionar as versões que conhecem, sendo, neste caso, canais de propagação de exageros. A massa amalgamada de pensamentos – de todos os tipos e portes - forma o balão da Opinião Pública.

Papel de destaque terão as lideranças comunitárias. Cada comunidade, seja na esfera horizontal (bairro, região) ou vertical (profissionais liberais, gêneros), possui uma liderança, alguém de destaque, sendo essas referências boas fontes de expressão e pensamento. Comportam-se como tubas da Opinião Pública.

Haverá, portanto, uma tendência maior e é esta que produzirá o discurso eleitoral de 2022. As classes médias, sob esse entendimento, darão o tom do ano eleitoral. É evidente que as margens exercem influência, mas sua forma de pensar liga-se mais à micropolítica, o atendimento às demandas do cotidiano, alimento mais barato, transporte rápido e barato, eficaz atendimento na saúde sem filas, educação de qualidade. O nível de conscientização segue o fluxo das demandas, preenchidas ou não. Também tais nichos serão influenciados pelo caldeirão que ferverá no andar acima.

Referimo-nos, aqui, à conhecida tese sobre o poder de irradiação de ideias das classes médias. A força da pedra jogada no meio da lagoa. Formam-se marolas que correm até as margens. Essas ondas de opinião acabam sendo internalizadas pelas margens carentes, engrossando os dutos centrais do pensamento da Opinião Pública. São fatores, tendências, posicionamentos periodicamente aferidos por pesquisas de opinião.

Em suma, senhores protagonistas do teatro político, entrem no palco com os olhos e ouvidos colados à Opinião Pública.

Postado às 08h15 | 06 maio 2021 |

Porandudas políticas

Abro com o meu RN.

"Da casa do cacete"

No primeiro mandato de Garibaldi Filho como governador deu-se a largada dos projetos de recursos hídricos, com as adutoras que se tornaram marca registrada do seu governo. Em Pau dos Ferros, na inauguração oficial, Garibaldi foi cobrado de público pelo abastecimento d'água da cidade. Sem se afobar, como é do seu hábito, o governador pegou carona na cobrança popular com indisfarçável irritação: "Vou botar água em Pau dos Ferros nem que a água venha da casa...". Aí parou. Sentindo que não podia ir além, repetiu a frase: "Já autorizei Rômulo Macêdo a elaborar o projeto e vou botar água em Pau dos Ferros nem que a água venha da casa do...". Parou de novo. Populares de raciocínio apressado completaram: "Da casa do cacete...". O orador foi sutil e perspicaz: "Eu não queria dizer essa palavra...". Risos gerais. "Gari" guardara a postura e conseguiu o resultado.

(História contada pelo espirituoso escritor e acadêmico da ANRL (Associação norte-rio-grandense de Letras, Valério Mesquita).

  • Panorama

Pandemia

Tudo como d'antes no quartel d'Abrantes. A CPI começou e as primeiras oitivas se comportam como o previsível. O barulho ainda não ensurdece. O governo tem minoria na Comissão. Independentes e opositores somariam sete, governistas, quatro. Mas o governo conta com sua artilharia pesada, menos falas de seu grupo e mais cargos. Daqui a um mês, será possível a regularização da remessa de vacinas. E o passado transformar-se-á em nuvem fugidia. Arthur Lira e Rodrigo Pacheco não teriam disposição para abrir um processo de impeachment se o relatório final da CPI apontar para este caminho.

Ruas

Convém ouvir o murmúrio das ruas. No 1º de maio, as ruas de diversas cidades foram ocupadas por militantes bolsonaristas. Com todas as imperícias e falas desastradas do mandatário-mor, não se pode fechar os olhos para sua militância, algo em torno de 25%. Quem viu as maiores manifestações da história do Brasil, como alguns torcedores fanáticos do bolsonarismo fizeram questão de dizer a este analista, estava com os olhos embaçados. Tinha bastante gente na avenida Paulista, algo como três quarteirões cheios. Mas o chutômetro costuma aparecer jogando a bola para o teto ou para as laterais. Temos, geralmente, três faixas de números: uma da PM, outra dos organizadores (ONGs, movimentos) e Institutos de Pesquisa.

Cálculos

Usando imagens de satélite, pesquisadores e medições, o Instituto Datafolha apura que a av. Paulista tem 136.000 metros quadrados disponíveis para a concentração de pessoas, incluindo calçadas, canteiro central e vias, vão livre do MASP e até espaços dos túneis. Para comportar 1 milhão de pessoas, a Paulista deveria abrigar concentração de 7,5 pessoas por metro quadrado ao longo de toda a área disponível. Coisa inviável. Nos horários de pico do metrô, a concentração nos vagões é algo entre 6 e 7 pessoas por metro quadrado. Para abrigar 1 milhão, deveriam os estatísticos dos eventos na Paulista considerar toda a extensão da avenida da Consolação e 7 pessoas por metro quadrado. Geralmente, esse número oscila entre 3 e 5.

Nos EUA

Para aperfeiçoar a contagem e reduzir a margem de erro, o arquiteto Curt Westergard, fundador da empresa Digital Design and Imaging Service (DDIS), desenvolveu, segundo a Veja, uma nova metodologia. A emissora CBS News contratou a empresa para estimar o número de pessoas que se reuniu em uma manifestação organizada por um apresentador da Fox News e em outra coordenada por comediantes. No primeiro evento, os organizadores anunciaram 500.000 pessoas; Westergard e sua equipe contaram 87.000, com uma margem de erro de 9.000 pessoas para mais ou menos. Na segunda manifestação, visivelmente mais numerosa, um dos comediantes brincou que havia 10 milhões de pessoas; mas a DDIS contou 250.000, com uma margem de erro de 10%. Em suma, o chutômetro fica por conta dos torcedores a favor e contra.

Sudeste mais Nordeste

Tem sido assim nas últimas décadas. Os eventuais candidatos presidenciáveis procuram arrumar suas chapas com a tentativa de inserir perfis a vice com visibilidade e domínio político em duas regiões: Sudeste e Nordeste. Apenas São Paulo tem 46 milhões de votos, com Minas Gerais, em segundo lugar, com cerca de 17 milhões e o Rio de Janeiro, com 12 milhões. O Nordeste soma mais de 27% dos votos. Nessa região o favoritismo de Lula já foi maior. O porcentual de intenções de voto no petista representa uma perda na fatia do eleitorado de 2020 até agora. Em maio do ano passado, por exemplo, o ex-presidente tinha ali 38,4%. No mesmo período, Bolsonaro avançou de 16,6% para 26,8%.

Nomes

O PSDB tem três nomes para disputar prévias: Tasso Jereissati, João Doria e Eduardo Leite. Tasso começa a ser chamado de "Biden brasileiro". Seria um nome forte para mobilizar o Nordeste. Caso escolhido, seu vice seria naturalmente da região Sudeste. Já se o candidato for o governador de São Paulo, João Doria, inverte-se: o vice deveria ser do Nordeste. A região Sul tem a terceira posição no ranking eleitoral. Leite, escolhido candidato, deveria compor com um nome do Sudeste ou do Nordeste. Mais especulação: Minas Gerais, desde a morte de Tancredo, crê que o Brasil lhe deve um tributo, a vaga que perdeu. Dilma, mesmo tendo nascida em Minas, não é considerada como tal para efeitos de composição política. Cheguemos ao Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, boa pinta, boa expressão, perfil moderado. Vai depender de sua atuação no comando da Câmara Alta. Escolhido, puxaria um bom nome do Nordeste ou mesmo de São Paulo, um leite com café retemperado.

E Bolsonaro, hein?

Com o vice Mourão praticamente descartado de sua chapa, Jair Bolsonaro teria de escolher um político com o pé no Nordeste ou mesmo em São Paulo para enfrentar os adversários. De pronto, deve excluir a possibilidade de mais um militar compondo sua chapa. A não ser que decidisse "engrossar o caldo" e "remilitarizar" o governo com novas levas de quadros das Forças Armadas. Para aliviar a identidade pesada, um bom nome deveria agregar valores como renovação, assepsia política, respeitabilidade, inserção nas camadas jovens, visão avançada, empreendedorismo.

Alckmin e França

Acabo de receber de Murilo Hidalgo a pesquisa do Paraná Pesquisas, dando Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB) como líderes na disputa para o governo de São Paulo em outubro de 2022. No principal cenário, Alckmin tem 19,9% das intenções de voto contra 15,4% de França. Tecnicamente empatados. Fernando Haddad (PT) tem 13,4% e Guilherme Boulos (PSOL) soma 11,4%, também ambos empatados. Paulo Skaf, por enquanto ainda no MDB, tem 10,2%. Rodrigo Garcia (DEM), atual vice-governador, tem 3,1% e o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), Mamãe Falei, tem 6,4%. Skaf, pelo que se comenta, gostaria de ser o candidato bolsonarista em São Paulo.

Bolsonaro

Segundo a pesquisa, Bolsonaro lidera a eleição em SP, mas 49,4% desaprovam o seu governo. Presidente aparece com 32% das intenções de voto contra 23,7% do ex-presidente Lula em levantamento feito no estado pelo Instituto.

Bruno Covas

O prefeito de São Paulo, o tucano Bruno Covas, enfrenta com firmeza e disposição o câncer que o ataca. Tirou licença de 30 dias. O prefeito interino Ricardo Nunes (MDB) cumprirá a agenda de Bruno. Nossos votos de plena recuperação ao prefeito. Um homem de coragem como seu avô, Mário Covas.

Aécio recuperando

Aécio Neves, passo a passo, recupera sua capacidade de articulação nos bastidores da política. Voltará ao palco principal.

Hauly

Um destemido, resiliente e respeitado tributarista, o ex-deputado Luiz Carlos Hauly. O Brasil muito deve a ele pelo esforço que vem fazendo para lapidar a reforma tributária.

BO+BA+CO+CA

Minha velha equação Bolso, Barriga, Coração, Cabeça, aguarda com muita expectativa os próximos tempos. A classe média C caiu de posição e adentra na D. Auxílio Emergencial, Bolsa Família e que tais estão de olho nos governos e na burocracia, que impede rapidez no acesso aos parcos recursos. Tempos pandêmicos, barriga roncando. Ainda bem que a solidariedade brasileira se faz presente na seara das doações de alimentos.

Catacumbas do desperdício

Jogamos fora 50% dos alimentos produzidos (perda estimada em R$ 15 bilhões anuais, o que daria para alimentar 30 milhões de pessoas), 40% da água distribuída, 30% da energia elétrica. Os cálculos foram feitos pelo professor de Engenharia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro José Abrantes, autor do livro Brasil, o País dos Desperdícios. Há simplesmente um bom pedaço do PIB desperdiçado, ou seja, jogam-se no lixo R$ 4,0 trilhões. Se a montanha de riquezas perdidas pudesse ser preservada, o país estaria, há tempos, no ranking das potências.

Res privada

A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura política plasmada no patrimonialismo, assim explicada: a res publica é entendida como coisa nossa, o dinheiro dos cofres do Tesouro tem fundo infinito, o Estado é um ente criado para garantir nosso alimento e bem-estar. O jeito perdulário de ser do brasileiro começa, portanto, com a visão do Estado-mãe, providencial e protetor, no seio do qual se abrigam a ambição das elites políticas e o utilitarismo de oportunistas. O (mau) exemplo dado pelos faraós do topo da pirâmide acaba descendo pelas camadas abaixo, na esteira do ditado "ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos", que uns atribuem a Stanislaw Ponte Preta e outros ao Barão de Itararé.

Municipalização x nacionalização das campanhas?

Questões que florescerão no jardim do Marketing Eleitoral: campanhas próximas serão municipalizadas ou tenderão a receber inputs federais? Micropolítica - política das pequenas coisas - ou macropolítica, temáticas abrangentes? O discurso da forma (estética) suplantará o discurso semântico? Campanhas privilegiarão pequenas ou grandes concentrações? Qual é o papel das entidades de intermediação social (associações, movimentos, sindicatos, federações, clubes, etc.)? Telegráficas respostas: 1) Ambiente geral - estado geral de satisfação/insatisfação - adentra esfera regional/local (temas locais darão o tom, mas a temperatura ambiental será sentida); 2) Micropolítica, escopo que diz respeito ao bolso e a saúde, estará no centro dos debates; 3) O discurso semântico - propostas concretas e viáveis - suplantará a cosmética; 4) Pequenas concentrações, em série, gerarão mais efeito que grandes concentrações; 5) Organizações sociais mobilizarão eleitorado.

Lições táticas

As lições de táticas e estratégias dos clássicos da política e das guerras parecem não merecer nenhuma consideração por parte de nosso presidente. Lembremos conselhos de Sun Tzu:

a) "Quando em região difícil, não acampe. Em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos seus aliados. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de cerco, deve recorrer a estratagemas. Numa posição desesperada, deve lutar. Há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas".

b) "Não marche, a não ser que veja alguma vantagem; não use suas tropas, a menos que haja alguma coisa a ser ganha; não lute, a menos que a posição seja crítica. Nenhum dirigente deve colocar tropas em campo apenas para satisfazer seu humor; nenhum general deve travar uma batalha apenas para se vangloriar. A ira pode, no devido tempo, transformar-se em alegria; o aborrecimento pode ser seguido de contentamento. Porém, um reino que tenha sido destruído jamais poderá tornar a existir, nem os mortos podem ser ressuscitados".

Para a cidade inteira

Volte sua atenção para a cidade inteira, todas as associações, todos os distritos e bairros. Se você atrair à sua amizade seus líderes, facilmente vai ter nas mãos, graças a eles, a multidão restante. (Cícero - Manual do candidato às eleições, 34 A.C.)

Defesa e ataque

"A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante". (Sun Tzu)

Sinal de derrota

"O maior sinal da derrota é quando já não se crê na vitória". (Montecuccoli)

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