BLOG - Porandudas políticas

postado às 09h00 | 26 de abril de 2022

A TRILHA DA INSENSATEZ

Para começo de conversa, o perdão concedido pelo presidente Jair Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira é um ato de natureza política que não puxará um único voto para o bornal do candidato à reeleição.

A hipótese parte do princípio de que a graça ofertada ao parlamentar tem o condão de agradar as bases bolsonaristas, setores dispersos, grupos que defendem um regime de força, algo que soasse como a expressão: “sou o chefe do Estado, sou o chefe da administração federal, sou o comandante das Forças Armadas, portanto, quem manda nessa joça sou eu”.

Sem adentrar o caminho das tecnicalidades – tarefa que cabe aos juristas – este analista enxerga no ato político a índole autoritária do presidente e de sua família. Lembre-se que o deputado Eduardo Bolsonaro, tempos atrás, já dissera que bastam um soldado e um cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal, resposta que deu a um questionamento sobre possível ação do Exército, caso seu pai fosse impedido de assumir a presidência por alguma decisão da Corte Suprema.

O bolsonarismo oscila entre 20% a 25%, o que, convenhamos, é um índice valioso para dar competitividade a qualquer candidato, mas insuficiente para ganhar uma eleição presidencial. E não agregaria bolsões novos porque o perdão só é bem-visto pelas bases do candidato governista. O que se divisa é uma tomada de posição pelos núcleos ainda indecisos e inclinados a pender para um lado mais adiante, em agosto ou setembro.

As classes médias, como se sabe, detêm a imagem de uma pedra jogada no meio do lago: ela cria pequenas ondas que correm do centro até as margens. Até agora, mantinham-se em estado de observação, olhando para a direita, para o centro e para a esquerda, sem abrir muito o jogo. Pois bem, elas tendem a adensar sua expressão, tomando partido, o que influenciará correntes acima e abaixo da pirâmide social. Por isso, o perdão pode ser um bumerangue, a se voltar contra o próprio presidente.

A repercussão negativa do indulto individual também encherá os balões da Opinião Pública, formando um paredão de contrariedades. Juristas de todos os calibres, mesmo admitindo a prerrogativa presidencial, inserem o ato numa conduta de afronta ao Judiciário, e mais: é inconstitucional por quebrar os eixos da probidade administrativa, a imparcialidade, a conveniência, a oportunidade.

Não houve comoção social, como Bolsonaro leu em seus “considerandos”. O que se viu foi uma interlocução entre participantes da base bolsonarista elogiando a decisão. E, como seria previsível, a solicitação de parlamentares do centrão para que o presidente da Câmara, Arthur Lira, avoque a prerrogativa de anular a perda de mandato de Daniel Silveira, por ser isso função do Poder Legislativo. Significa um enfrentamento contra o STF.

O fato é que a campanha eleitoral, em curso, agora entra na fase de aquecimento, com polarização aguçada e querelas abertas. Quem pode se beneficiar? O antilulismo, a partir de São Paulo, é uma realidade. Possivelmente, Lula agregue uma cesta (pequena) de votos, particularmente dos eleitores que já não temem votar no PT. Mas as velhas teses do comandante petista ainda ecoam em ouvidos atentos: revogação da reforma trabalhista, controle dos meios de comunicação, aborto livre, revogação de teto de gastos etc.

Nesse ponto, cabe a inflexão: o meio poderá ganhar forças, com a entrada em cena de um nome palatável por todas as correntes partidárias do centro (direita/esquerda) do arco ideológico. Essa é a oportunidade para a viabilização do candidato da terceira via. A probabilidade de ocorrência da alternativa leva em conta o argumento de que o indulto de Bolsonaro a Daniel Silveira mexerá com os pilares do edifício político. Quer dizer, abrirá uma chance para a caminhada de um protagonista mais central.

Pergunta recorrente: e o STF vai se pronunciar? Claro, vai.  Será acionado por membros do Parlamento. E tomará posição, convalidando sua prerrogativa de intérprete da Constituição Federal. E é isso que Bolsonaro também quer. Em outros termos, quanto mais alta a fogueira, mais próxima sua intenção de ver o circo pegar fogo. E se o incêndio for de alto grau, ele pode tirar do colete um papel convocando suas forças, e confiando que elas, as Forças Armadas, corram ao seu encontro. A trilha da insensatez foi aberta. E a fervura ambiental é o ambiente em que os insensatos, os impuros, os desleais, os radicais desejam, para arrebentar quem não concordar com seu ideário.



postado às 09h45 | 20 de abril de 2022

O ELEITOR É UMA CAIXA-PRETA

Quem é o eleitor brasileiro? Eis a pergunta sobre a qual, a esta altura, estão debruçados candidatos e assessores. O que os leva à decisão de voto? Quais são os fatores que balizam o processo decisório? Tentemos mostrar nuances.

Cerca de 150 Milhões de eleitores brasileiros deverão ser envolvidos pela “feitiçaria” que a publicização política haverá de construir, nos próximos meses. Como podemos evitar a embrulhada engendrada pela atmosfera criada pela propaganda eleitoral, já em pleno curso, com as inserções partidárias? Primeiro, é oportuno identificar a simulação usada por candidatos, que querem aparecer mascarados, sem sua identidade.

Ora, “nenhum homem, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura”, diz a Bíblia, e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano. Mesmo usando a engenharia de artimanhas do marketing. Há, de fato, cerca de 30 milhões de brasileiros que vivem em estado deplorável. O país mostra sinais de anomia e degeneração de valores. Mas tem uma base sobre a qual se pode navegar com segurança. Usar o acervo de mazelas, sob o artifício de emoções falsas, costuradas na colcha de diagnósticos por demais conhecidos, sem apontar caminhos e soluções para os avanços, é querer instrumentalizar a catarse coletiva.  

Candidato não é sabonete. O eleitor quer um candidato honesto e com experiência administrativa, mas banhado pelo conceito da assepsia, da higienização política. O ideário da inovação e da renovação ganha espaço em meio a nomes carimbados do quadro nacional. Também quer votar em pessoas que passem a ideia de bons controladores do orçamento municipal. Nesse aspecto, as candidatas levam vantagem - a mulher sempre controla o orçamento doméstico e transmite maior confiança. Chega ao fim o “candidato sabonete”, apresentado como um verdadeiro produto para o consumo de massa, cuja imagem era construída por meio da cosmética publicitária.

Outra questão é sobre as redes sociais. A influência da Internet será maior do que nas eleições passadas, mas ela não constitui, ainda, um veículo fundamental. Nada substitui o contato pessoal do candidato com seu eleitorado. Diante da crise social, da desconfiança e da descrença, as pessoas sentem necessidade de ver seus candidatos de perto. Os políticos devem sair às ruas e andar pelas casas e pelos bairros. Mais importante do que os grandes comícios serão os pequenos encontros, como cafés da manhã, visitas, mutirões e carreatas.

A esperteza, a dramatização, os recursos artificiais, a hipocrisia e a insinceridade têm sido a tônica da cultura política. Mais uma questão: “o que faz um eleitor preferir um candidato a outro?” Não há uma resposta fechada para a questão. Dependendo do candidato e da região, certos fatores pesam mais que outros. O primeiro apelo é o do bolso. Relaciona-se à luta pela sobrevivência e à necessidade de se garantir o alimento. Esse é um dos impulsos básicos do ser humano, que age principalmente em épocas de contenção, crise e desemprego.

Tenho escrito bastante sobre o uso de instintos em campanhas eleitorais, com destaque para o instinto nutritivo. Até formei uma hipótese que tenho usado para explicar o processo de decisão de voto. Que parte do cinturão econômico é ciclicamente usado por governos para afrouxar ou apertar a barriga do eleitor. O “xis” da questão resume-se na equação BO+BA+CO+CA: bolso (BO) cheio enche a geladeira, satisfaz a barriga (BA), emociona o coração (CO) e induz a cabeça (CA) dos bem alimentados a recompensar os patrocinadores do pão sobre a mesa. E o troco, a recompensa? O voto na urna. A recíproca é verdadeira. Bolso vazio é reviravolta eleitoral.

Quaisquer propostas para garantir o sustento de pessoas e famílias, quando feitas de maneira crível e objetiva, laçam o interesse das pessoas. Um bom emprego ou a perspectiva de melhorar de vida simbolizam o eixo desse discurso. Outro fator de interesse liga-se à região, ao município, ao bairro, à rua. Trata-se do fator proximidade, que, nos últimos tempos, tem despertado a intenção dos eleitores. O voto está ficando distritalizado, regionalizado.

Mais um elemento emerge com importância: a proximidade psicológica entre eleitor e candidato. Trata-se, no caso, do conhecimento que o eleitor tem do candidato, aí incluídos os contatos, a aproximação, a tradição familiar, o grau de intimidade. É como o eleitor estivesse votando em alguém da família.

Por último, a onda das circunstâncias. Os bons candidatos sempre recebem uma ajudazinha do clima psicológico dos momentos, formado pelos ventos que sopram a seu favor, e que o projetam como a pessoa que melhor cristaliza os sentimentos gerais.



postado às 09h15 | 12 de abril de 2022

A GANGORRA DEMOCRÁTICA

Duas notícias alvissareiras. A primeira é a da aprovação pelo Senado americano da primeira juíza negra na Suprema Corte do país, Ketanji Brown Jackson, por indicação do presidente Joe Biden, no lugar do magistrado Stephen Bryer, que vai sair em breve. A segunda boa informação é a suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos pela maioria dos membros da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ambas estão ancoradas nos valores do Estado Democrático de Direito, a primeira com realce para o conceito de direitos e justiça para todos, sem preconceito de gêneros, cores e raças, e a segunda estimulada pela cruel mortandade em Butcha, cidade da Ucrânia, onde a Rússia teria cometido um massacre contra civis em fuga no conflito que ali se desenvolve há quase dois meses.

A democracia estaria ganhando de lavada não fossem os contrapontos que se formam no interior das próprias decisões que denotam avanço dos sistemas democráticos. A começar pela derrota de Donald Trump, que lutou de maneira desbravada na justiça americana para provar ter havido fraude nas eleições. Quando imaginávamos que Trump significasse um furacão fora de estação, não é que ele, refugiado em suas magnificas propriedades na Flórida, continua a atirar a torto e a direito, sob os índices de queda de popularidade de Joe Biden, de quem se esperava ser a estrela brilhante no horizonte da democracia americana? O fato é que o ricaço não abandonou a política e mais parece um guerrilheiro ensaiando a nova batalha que travará em 2024.

Significa intuir que o conservadorismo está longe de ser banido dos vãos da democracia. Aqui e ali, sinais, mesmo não tão próximos, transmitem a impressão de que os conservadores estão fincando estacas fortes nos férteis terrenos democráticos. O presidente francês, Emmanuel Macron, cai quatro pontos na pesquisa e vê se aproximar dele a deputada Marine Le Pen, de 53 anos, que deve chegar ao segundo turno, neste domingo.

A vitória, mais que expressiva, de Viktor Orbán, para ser o premier da Hungria, é mais um exemplo de como o conservadorismo vai enxertando as hortas da democracia pelo continente europeu. Orbán é um dos amigos de Vladimir Putin. Se formos dar uma olhada no nosso continente, poderemos até comentar que a vitória de Gabriel Boric, de 36 anos, no Chile, é sinal de renovação.

No Peru, protestos contra o governo de Pedro Castilho são respondidos com repressão e toque de recolher. Bolhas de insatisfação explodem em diversos recantos do planeta, a comprovar que os sistemas democráticos padecem por conta de demandas reprimidas das massas. Os liberais tampouco têm conseguido atender aos reclamos e expectativas das populações, razão pela qual o ambiente geral de indignação dá guarida aos governos autoritários.

Aliás, é sensível essa guinada autoritária, segundo reconhece a historiadora Lilia Schwarcz, ao lembrar que o mundo “está reagindo às crises recessivas com governos populistas”, que mais sensibilizam as populações. Para ela, no caso brasileiro, o PT e o PSDB fizeram um pacto por mais de 30 anos, cujo objetivo era se perpetuarem no poder, deixando de olhar para setores que estavam desgostosos com a política.

Entre as questões polêmicas entre os dois partidos está a do meio ambiente, que bate de frente com o setor do agronegócio, a par das políticas de inclusão social pela educação. Os setores mais progressistas enfrentam os núcleos mais autoritários, faltando uma intermediação que faça confluir o jogo de interesses. Este será um tema na mesa do debate eleitoral. Donde emerge a interrogação: como reagirão as massas carentes ante temáticas que muito as afligem, como o alimento barato, o transporte rápido e eficiente, o sistema hospitalar bem desenvolvido?

Teremos uma campanha onde o vetor autoritário será tão forte quando o pensamento progressista. E o populismo dos programas de auxílio será fundamental para a decisão sobre o voto. Vivemos, por enquanto, um clima ainda ameno. Que tende a esquentar a partir de agosto. A especulação grassará intensa. Mas ninguém pode se considerar vencedor. Nem mesmo franco favorito. O verso, por estas plagas, às vezes é lido pelo reverso.



postado às 08h30 | 07 de abril de 2022

Porandudas políticas

Um final surpreendente.

Freyre com y

Abro a coluna com a lembrança de Gilberto Freyre (com Y), um nome que se eleva no panteão da sociologia brasileira. Final de 1963. Festa de Formatura da turma do 3º colegial do Colégio Americano Batista, na rua Dom Bosco. Paraninfo escolhido: Gilberto Freyre, que havia estudado no colégio durante seus primeiros anos. Este escriba foi escolhido orador da turma. Também era presidente do Diretório Estudantil, que tinha como secretário o amigo e grande escritor (falecido) Marcus Accioly. Fomos, em um pequeno grupo, até Apipucos (bairro longínquo), entregar a carta-convite. Subimos a bela escadaria. Um gostoso licor de pitanga nos foi servido, enquanto, ansiosos, esperávamos a chegada do mestre. Sentou-se numa espreguiçadeira e iniciamos a fala. Entreguei a carta por mim assinada. Olhou o envelope, abriu a carta e, para nossa imensa surpresa, disse:

- Meus jovens, estou muito honrado com o convite. Até porque foi no Colégio Americano Batista que adquiri meus primeiros saberes. Mas vou devolver a carta. E esperarei que, na próxima semana, vocês a tragam, agora corrigida. Meu pai, Alfredo Freyre, quando recebia alguma correspondência como seu sobrenome grafado com I, ele a devolvia e pedia que os remetentes a corrigissem com o Y. Dessa forma, conservo a tradição.

Surpresos e frustrados, saímos de fininho e nunca mais grafei um Freyre sem perguntar, antes, se o destinatário é com Y ou com I.

Fiz o discurso de saudação. Recebi loas do paraninfo, que deixou o palco sob aplausos. É pena que não tenha mais esse discurso. P.S. A seguir, assistimos a um memorável show de Zé Vasconcelos e Lúcio Mauro, comediantes, que iniciavam sua trajetória profissional por Recife.

Brevíssimas

- Mais de 130 parlamentares, aproveitando a janela partidária, trocaram de siglas.

- Lula promete demitir, caso seja eleito, cerca de oito mil militares.

- Sergio Moro saiu arranhado do Podemos.

- Eduardo Leite não descarta ser vice de Simone Tebet.

- A reviravolta da Covid, na China, volta a causar medo no planeta.

- Putin ganha a batalha, mas perde a Guerra de versões para a Ucrânia.

- A jogada de João Doria, de ameaçar desistir, foi mais um tiro no pé.

- O conservadorismo está levando a melhor nas candidaturas vitoriosas por alguns redutos.

- Uma nova ordem mundial é o prenúncio de novos conflitos.

- China é a pedra que pode desequilibrar o jogo.

- Petrobras continuará a ser o calcanhar de Aquiles.

- As eleições serão tumultuadas. Ante os cenários que se desenham.

- A cada dia, fica mais difícil Lula levar no primeiro turno.

Homo brasiliensis

Nesse ano de eleições, não faltarão adjetivos para qualificar o homo brasiliensis, o nosso homem portador de vícios e costumes. A adjetivação para qualificar o homo brasiliensis é vasta e, frequentemente, dicotômica: cordial, alegre, trabalhador, preguiçoso, verdadeiro, desconfiado, improvisado. Afonso Celso, em seu Porque me Ufano do meu País, divide as características psicológicas do brasileiro entre positivas e negativas, dentre elas a independência, a hospitalidade, a afeição à paz, caridade, acessibilidade, tolerância, falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente.

Resumo de Freyre

Nessa linha, Gilberto Freyre (com Y, conforme vocês leram na abertura) em Casa Grande & Senzala, pontifica: "Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo".

As mulheres na política

A participação das mulheres na política vem de longe. Mais precisamente de 1928, quando a potiguar Alzira Soriano foi eleita prefeita do pequeno município de Lajes. Mas o sufrágio feminino só viria a ser promulgado por Getúlio Vargas em 1934. Portanto, foi uma pioneira. Bem como a primeira deputada eleita no Brasil e na América Latina, a paulistana Carlota Pereira de Queirós (São Paulo, 13 de fevereiro de 1892 — São Paulo, 14 de abril de 1982), médica, escritora, pedagoga e política.

Madame Trudeau

Uma curiosidade: a mãe do atual primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, também esteve da linha de frente da batalha da mulher pela emancipação política. Margareth Trudeau, então com 27 anos, calça jeans e uma t-shirt, por ocasião da visita do seu marido, o então primeiro ministro Pierre Trudeau à Cuba e Venezuela, dizia: "Não fiz nada de errado (pelo fato de ter voluntariamente se internado numa clínica para fazer psicoterapia). Se faço as coisas de modo autômato, sou considerada um robô. Não vou deixar que me distancie como acontecia no passado. Quero ser algo mais que uma rosa na lapela do meu marido". Outra mulher de político, Lady Bird Johnson, dizia: "o político deveria nascer enjeitado e permanecer solteiro".

Uma pessoa

"Não me considero uma mulher, e sim uma pessoa a exercer um ofício". (Indira Gandhi)

O eleitorado feminino

Na análise que faço sobre o eleitorado feminino, permito-me traçar algumas hipóteses, fruto das observações que venho fazendo ao longo de 40 anos de análise política. O pleito de outubro próximo será o mais racional para o eleitorado feminino, em outras palavras, será o pleito no qual a eleitora dará seu voto com maior convicção. Lembro que esse fenômeno advém do processo de organização da sociedade, em curso há alguns anos, e que tem na mulher um dos seus eixos. A mulher é quem mais sente o peso das carências nas áreas da saúde, educação, alimentos, transporte. Tende a buscar o perfil que mais se encaixe em sua moldura de necessidades. Escolherá o perfil independente do partido. A mulher lidera com 53% o voto no Brasil.

O jovem

Já o voto jovem, principalmente o do jovem com 16, 17 anos, será mais difícil de consegui-lo. O jovem descrê na política, a quem se refere como politicagem. Os políticos, regra geral, são ladrões. O desemprego que os afeta tem a ver com a irresponsabilidade dos governantes. Portanto, só mesmo um perfil que chame sua atenção poderá convencê-lo a ir às urnas. Nesse caso, vão buscar a figura que mais se identifique com os sinais de modernidade e inovação.

Os cinturões do governo

Avalia-se o desempenho de uma administração pela somatória de quatro campos de viabilidade: o político, o econômico, o social e o organizativo. O território social não passa de paisagem devastada pela improvisação. Medidas como as de combate à pandemia foram frouxas. Onde estão os pilares da política de saúde? Onde estão as políticas públicas para equacionar o déficit de seis milhões de unidades habitacionais para abrigar os 30 milhões de brasileiros sem teto? E o cinturão da gestão, da organização administrativa? Temos um ministério sem identidade.

Colcha de retalhos

Que eficiência se pode esperar de um ministério que é uma colcha de retalhos, com partes esburacadas, como as que abrigam ministros sob suspeita, envolvidos em escândalos, gente sem competência gerencial, quadros que vivem em torno de uma Torre de Babel? Como um país se dá ao luxo de ver 3% de sua safra perdida por causa da péssima condição das estradas? O cinturão econômico, esse também está mal ajustado. Trata-se de uma área que navega pelo piloto automático. O desemprego ultrapassa 15 milhões de brasileiros. O arrocho tributário alcança patamar nunca visto.

A maldade é dos outros

Certa feita, Carl Jung perguntou a um rei africano sobre a diferença entre o bem e o mal. Às gargalhadas, o soba respondeu: "Quando roubo as mulheres de meu inimigo, isso é bom. Quando me rouba ele as minhas, isso é ruim". Nessa mesma linha, Alexander von Humboldt indagou a índios da Amazônia a razão para não comerem os colegas. Os índios responderam: "O senhor tem razão. Não podemos compreender que mal há nisso, pois os homens que comemos não são nossos parentes. Quando pertencem a tribos inimigas, canibalismo neles". É o Brasil.

Ainda sobre maldade

Ainda sobre canibalismo. Um turco se encontrou um dia com um canibal. "Sois muito cruéis, pois comeis os cativos que fazeis na guerra", disse o maometano. "E o que fazeis dos vossos?", indagou o canibal. "Ah, nós os matamos, mas depois que estão mortos não os comemos". Montesquieu assim arremata a passagem contada no livro Meus Pensamentos: "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular". P.S. Uma olhada nas cenas de guerra entre Rússia e Ucrânia atualiza a crença.

Homem de papel

No montinho de livros que esperam por minha leitura, o destaque vai para "Homem de Papel", de um dos mais celebrados autores da literatura brasileira, o potiguar e diplomata que honra Mossoró/RN, onde nasceu: João Almino. Ansioso para fruir a imaginação do João, que escolheu o conselheiro Aires, dos romances de Machado de Assis, como protagonista e narrador deste seu último romance. Apenas para lembrar, João Almino foi aclamado por suas obras, entre as quais, Ideias para onde passar o fim do mundo, Samba-enredoAs cinco estações do amor, O livro das emoçõesCidade LivreEnigmas da Primavera e Entre facas, algodão. Seus livros foram publicados na Argentina, Espanha, EUA, França, Holanda, Itália e México, entre outros países. Desde 2017, João integra a Academia Brasileira de Letras. Editora Record. Orelha de Hélio Guimarães., prof. da USP, e posfácio de Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa.



postado às 09h15 | 05 de abril de 2022

UM NOVO CORONELISMO?

No Brasil, o passado é sempre revisitado. E com direito a reviver hábitos, mesmo os pérfidos. É o caso do coronelismo dos anos 30, do ciclo agrícola, que castigava o livre exercício dos direitos políticos. Os velhos coronéis da Primeira República (1889-1930) consideravam os eleitores como súditos, não como cidadãos. Criavam feudos dentro do Estado.

A autoridade constituída esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste País urbano, principalmente em alguns recantos, as autoridades precisam pedir licença para subir morros. O império coronelista do princípio do século passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro. O próprio ex-ministro da Defesa, general Braga Netto, que acaba de deixar o Ministério para se habilitar a ser vice na chapa de Bolsonaro, já chefiou tropas no RJ com o fito de dominar o império miliciano. Pouco conseguiu. entra um, sai outro, e os grupos “donos de votos de cabresto” estão sempre agindo. Nesse ano, a polarização política deve incrementar essa modalidade eleitoral.

As denúncias afloram: comunidades de muitas cidades do segundo maior colégio eleitoral do País chegam a ser dominadas por milícias, quadrilhas comandadas por policiais que ameaçam pessoas que não elegem seus candidatos. E por mais que forças policiais entrem em ação, milicianos posam com seus fuzis e desafiam o poder constituído. O assassinato da vereadora Marielle Franco continua coberto de mistérios.

Em plena segunda década do século XXI, vivemos tempos de um novo coronelismo. Desta feita, até parece que os nossos governantes aprovam a corrente neocoronelista. Para recordar, o  voto de cabresto, prática fraudulenta dos tempos da velha República, transfere-se ao domínio de comandantes de milícias, personagens da urbe violenta que se valem da insegurança para implantar o medo. Os currais eleitorais são comunidades miseráveis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formidável aparato.

 A mudança da identidade nacional pouco tem contribuído para a alteração do mapa político. Nos últimos 70 anos, a população urbana cresceu, no País, de 30% para 80%, agigantando cidades, expandindo demandas, e propiciando a continuação de vícios, dentre eles o voto por encomenda. É verdade que mudanças sociais e políticas, a partir das décadas de 30 e 40, contribuíram para melhorar a participação do povo no processo eleitoral. Mas não se pode negar a imensa distância, hoje muito perceptível, entre a fortaleza econômica e a nossa frágil estrutura política.

O biólogo francês Louis Couty dizia, em 1881, que “o Brasil não tem povo”. Seu argumento era que, dos 12 milhões de habitantes da época, poucos eram os eleitores capazes de impor ao governo uma direção definida. Uma razão para explicar nossa incultura política é a equação que soma componentes como pobreza educacional das massas, perversa disparidade de renda entre classes, sistema político resistente às mudanças, sistema de governo - hiper-presidencialismo de cunho imperial - e patrocínio de mazelas históricas, entre as quais reinam o patrimonialismo e o assistencialismo.

A concentração de forças permanece sob a égide do Estado todo-poderoso, bem duro na função de cobrador de impostos, eixo repressor, distribuidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade. O corolário deste modelo se expressa no conceito de “estadania” em contraposição à “cidadania”, cultura orientada para o Estado e não para a representação política. O brasileiro continua a ser um “cidadão menor” e, sob esta perspectiva, podemos compreender as causas para o ressurgimento de novos coronéis da política, como os quadrilheiros urbanos.

Esse “cidadão precário” integra o maior contingente nacional, sendo a grande maioria dos 150 milhões de eleitores apta a votar. São os aglomerados que se aboletam nas periferias congestionadas do Sudeste, região que abriga quase 50% da população, e os bolsões carentes do Nordeste, onde vivem 27% dos brasileiros. A vassalagem de ontem muda de patrão, mas não de atitude. O drible moral continua a dar as cartas.

Ontem, o coronel rural entregava o voto fechado no envelope para o súdito depositar na urna, sem lhe dar o direito de saber em quem estava votando: “O voto é secreto” Hoje, o coronel miliciano e o chefe da gangue prometem conferir votos dados a seus candidatos. Pior: o comandante em chefe da Nação questiona a urna eletrônica, enxergando nela motivos de fraude.

Não será de admirar se uma nova prática for adotada nas eleições de outubro: o roubo de urnas eletrônicas para driblar o processo eleitoral.



postado às 09h15 | 31 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com pequena aula de política.

Aula de política

Diálogo entre Colbert e Mazarino, durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault:

Colbert: Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, senhor superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.

Mazarino: Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criando outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E sobre os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert : Então como faremos?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos. Cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

  • Parte I

Panorama das candidaturas

1. A estrada aplainada

Os tratores da política aplainam a estrada da política. Abrem os cursos mais estreitos, alargam as margens, limpam a terra no meio do caminho. O Centrão tem os maiores tratores. Mas todos os pré-candidatos usam seus meios e formas. Os mais endinheirados começam a compor suas equipes. E todos pensam em como avançar sem grandes empecilhos. Nenhum deles consegue. A desconfiança é generalizada na política e em seus protagonistas. Façamos uma análise das coisas inconvenientes.

2. Lula - PT

Tem o percurso mais largo, nem por isso o mais fácil. O PT, mesmo com as vitórias de Luiz Inácio nas instâncias da Justiça, continua marcado com o sinal da desconfiança. Para começo de conversa, Lula não foi inocentado. Mas ganha a batalha da comunicação porque o julgamento das Cortes, principalmente, no STF, é que o processo contra ele foi mal conduzido, merecendo começar tudo do zero. Para efeito externo, ele foi inocentado. E mais: com os altos índices nas pesquisas, quem vai condenar Lula? Portanto, a primeira instância de Brasília vai esperar ad aeternum.

3. Costuras desajustadas

As costuras feitas por Lula em torno de sua candidatura não são unanimidade no PT. Parte do petismo duro – as influências tradicionais – não aceitam algumas, nem mesmo a possibilidade de Geraldo Alckmin vir a compor a chama lulista. Marília Arraes, neta de Miguel Arraes, sai do PT para ingressar no partido de Paulinho da Força. E racha alguns partidos, mesmo que venha apoiar Lula. O mercado – o famoso corredor da avenida Faria Lima – ainda vira os olhos com medo do PT. E Lula promete o céu na terra, dizendo, entre outras coisas, que nem José Dirceu, José Genoíno e Dilma Rousseff serão aproveitados em seu eventual governo.

4. Bolsonaro - PL

Recupera alguns pontos na avaliação do governo e no grau de confiança junto a setores que o viam, de modo desconfiado, mas continua o pré-candidato de um olho só: cheio de ódio, uso de termos ácidos, enaltecimento da ditadura, beneficiador de polícias e religiosos, luta do bem (ele mesmo) contra o mal (Lula). Acende todos os dias algumas luzes para o diabo. E acha que os eleitores que não votam nele são metade comunistas ou apaixonados pelo lulopetismo. Olhar completamente enviesado. Ainda por cima, cerca-se de militares sob a ameaça de que ele poderá ser o salvador da Pátria.

5. Moro - Podemos

Sergio Moro entrou na vala comum dos políticos mortais, passando a conviver com as pressões e contrapressões da política. Passa a ser triturado pela máquina destruidora de reputações. Já não porta uma réstia de carisma, coisa que o beneficiava, antes de substituir os ossos do ofício. Não deverá alargar seu caminho, arrumando contingentes eleitorais ou formando frentes partidárias. Será massacrado pelo embate sangrento nas hostes políticas.

6. Ciro - PDT

Ciro Gomes, mesmo com sua costumeira metralhadora giratória, tem dificuldades em se posicionar como alternativa. Atira livremente para todos os lados. E, ao invés de mostrar alto conhecimento do país, como é seu caso, prefere usar balas de canhão. Melhorou o discurso e a postura – obra de João Santana – mas não sai da linha de tiroteio. E o eleitor está saturado de tanto balaço.

7. Doria - PSDB

João Doria faz um bom trabalho no comando do governo de São Paulo, é proativo, trabalhador, incansável. Mas faz o marketing de uma nota só. Até cunhei um nome para isso: egomarketing. O patrocinador número um das vacinas, grande articulador na área dos investimentos, cria rastilhos de pólvora por onde anda e também não é bem visto por alas tucanas. Ganhou as prévias de Eduardo Leite, governador do RS, que tem certo carisma. E poderia vir a ser candidato. Leite, se quiser, terá vida longa na política. Continua no PSDB, após renúncia ao governo do RS.

8. Simone – MDB

Seria ótima opção se viesse a ser candidata de uma frente partidária. É desconhecida no país. Tem fluência ideativa, mas está muito longe das massas.

9. Luiz Felipe D'Ávila – Novo

Desconhecido no país. Sem chances de empolgar as massas.

10. André Janones -Avante

Sem condições - Aproveitamento de oportunidades.

11. Eymael - DC

Sem condições- a musiquinha é antiga: um democrata cristão.

12. Luciano Bivar – União Brasil

Sem condições – Poderá fazer uma grande bancada.

13. Vera Lúcia - PSTU

Sem condições- Marcar presença.

14. Sofia Manzano – PCB

Sem condições- Marcar presença.

  • Parte II

Lições do passado

A morte de Sócrates

Aos discípulos que o visitavam na prisão e o aconselhavam a fugir, Sócrates respondia:

– "Uma das coisas em que acredito é no reinado da lei. Bom cidadão como tantas vezes vos tenho dito, é aquele que obedece às leis de sua cidade. As leis de Atenas condenaram-me à morte, e a inferência lógica é que, como bom cidadão, eu deva morrer."

Narra Max Eastman, em ensaio sobre "O Mais Justo e o Mais Sábio dos Homens", que, ao se aproximar a hora fatal, rodeado de amigos, chega o carcereiro, a quem pergunta:

– "Agora, você que entende dessas coisas, diga-me o que fazer."

– "Beba a cicuta, depois levante-se e ande um pouco até sentir as pernas pesadas. Então, deite-se e o torpor subirá ao coração."

Fez o que foi recomendado. Quando andava, lembrou-se de algo:

- "Crito, devo um galo a Esculápio. Providencie para que a dívida seja paga."

Deitou-se, fechou os olhos e quando Crito lhe perguntou se havia mais recomendações, ele já não respondia.

Confúcio

Quando Confúcio visitou a montanha sagrada de Taishan, encontrou uma mulher cujos parentes haviam sido mortos por tigres. Ele perguntou:

– "Por que não se muda daqui?"

– "Porque os governantes são mais ferozes que os tigres."

Um pouco mais de Confúcio:

"Se você quer ser sábio, aprenda a questionar razoavelmente, a escutar com atenção, a responder serenamente e a calar quando não tiver nada a dizer."

O pensamento de Confúcio gira em torno da educação como fonte de virtudes. Ele prega três virtudes fundamentais: 1) A bondade, que gera alegria e paz interior; 2) A ciência, que permite dissipar as dúvidas, e; 3) A coragem, que afasta todas as formas de medo. Compartilharemos aqui algumas dessas frases de Confúcio que continuam válidas até hoje.

Martin Luther King

Em 28 de agosto de 1963, King discursou para um público de 250 mil pessoas em Washington. O discurso é uma das melhores peças de oratória contemporânea.

Eu tenho um sonho

"Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a história como a maior manifestação pela liberdade na história de nossa nação. Cem anos atrás um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a proclamação da emancipação [dos escravos]. Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana, como exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda. Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho".

Fecho a coluna com pequenas lições de marketing.

Primórdios do marketing político

"Rastreie, vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos". (Quinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, o grande tribuno, em 64. A. C., quando este fazia campanha para o Consulado de Roma).

O marketing de campanha

O marketing político eleitoral abriga duas vertentes: o marketing massivo, voltado para atingir classes sociais e categorias profissionais, indistintamente; e o marketing vertical, segmentado ou diferenciado, voltado para atender agrupamentos especializados: profissionais liberais, donas de casa, formadores de opinião, núcleos religiosos, militares, funcionários públicos, etc. Nas campanhas, o marketing segmentado acaba assumindo tanta importância quanto o marketing massivo. E a razão está na intensa organicidade da sociedade brasileira.

Ciclos da campanha

Orientação para candidatos e assessores: estabelecer adequado cronograma dos ciclos da campanha, que, como se sabe, possui cinco ciclos: lançamento, por ocasião da Convenção; crescimento, entre quatro e cinco semanas após a Convenção; maturidade/consolidação, quando a campanha se firma no sistema cognitivo do eleitor, após ampla visibilidade; clímax, momento em que o candidato alcança seu maior índice de intenção de votos; e declínio, quando o candidato tende a cair nas pesquisas de opinião. Todo esforço se faz necessário para o clímax ocorrer na semana das eleições. A dosagem dos ciclos há de obedecer ao funil da comunicação - jogando-se mais água (volume de comunicação/visibilidade) na segunda quinzena de setembro. Candidato que começa a decair antes do tempo corre o perigo de morrer na praia.

Planejamento de campanhas

Este consultor, ancorado em sua vivência, chama a atenção para o planejamento do marketing das campanhas, que abriga estas metas: 1) priorizar questões regionalizadas, localizadas, na esteira de um bairro a bairro, ou seja, fazer a micropolítica; 2) procurar cria um diferencial de imagem, elemento que será a espinha dorsal da candidatura, facilmente captável pelo sistema cognitivo do eleitor; 3) desenvolver uma agenda que seja capaz de proporcionar "onipresença" ao candidato (presença em todos os locais); 4) organizar uma agenda contemplando as áreas de maior densidade e, concentricamente, chegando às áreas de menor densidade eleitoral; 5) entender que eventos menores e multiplicados são mais decisivos que eventos gigantescos e escassos; 6) atentar para despojamento, simplicidade, agilidade, foco para o essencial, mobilidade, propostas fáceis de compreensão e factíveis. Esse um resumido escopo de planejamento.

Marketing: os cinco eixos

Resgato, aqui, os cinco eixos do marketing eleitoral: pesquisa, formação do discurso (propostas), comunicação (bateria de meios impressos – jornalísticos e publicitários – e eletrônicos), articulação política e social e mobilização (encontros, reuniões, passeatas, carreatas, etc.). A mobilização dá vida às campanhas. Energiza os espaços e ambientes. A articulação com as entidades organizadas e com os candidatos a vereador manterá os exércitos na vanguarda. A comunicação é a moldura da visibilidade. Principalmente em cidades médias e grandes. Sem ideias, programas, projetos, os eleitores rejeitarão a verborragia. E, para mapear as expectativas, anseios e vontade, urge pesquisar o sistema cognitivo do eleitorado.

 



AUTOR

Gaudêncio Torquato