Porandudas políticas

Postado às 08h15 | 30 junho 2021 |

Porandudas políticas

Dois "causos" hilários, antes da leitura da conjuntura.

Deu-se o vice-versa

Dr. Dantinhas, deputado da Bahia, elo de todo um clã político do Estado (neto do barão de Geremoabo), foi convidado para padrinho de casamento da filha de um coronel do sertão. No dia de viajar, recebeu telegrama:

- Compadre, não precisa vir. Deu-se o vice-versa. Menina morreu.

Puxa-sacos

Tempos eleitorais. Tempos de fidelidade e infidelidade. Guararé era cabo eleitoral do governador Sebastião Archer, do Maranhão. Convenção do PSD, alguém acusou Guararé de puxa-saco. Guararé argumentou:

- Cada um puxa quem pode. Eu puxo o senhor, governador Archer. O senhor já puxa o senador Vitorino Freire. E o senador puxa o general Dutra. É a lei da fidelidade partidária.

Tópicos sobre a conjuntura

Canalhas

O encontro do presidente Jair com jornalistas, anteontem, em Guaratinguetá/SP, mostrou o capitão nervoso e virulento. Mandou uma jornalista calar a boca, chamou outros de canalhas, fazem um jornalismo porco, atirando na CNN e na TV Globo. A postura presidencial, mesmo que não cause surpresas, sabendo-se como usa a linguagem, chamou a atenção em razão da indignação ter como motivo a manifestação contra ele no sábado último. Bolsonaro ainda tirou a máscara quando falava e arrematou dizendo que o "nove dedos" só ganhará dele em outubro de 2022 se houver fraude.

Por antecipação?

A campanha está nas ruas. Mas nem Bolsonaro nem qualquer analista, por mais arguto que seja, podem dizer quem ganhará o pleito. Veremos muita água a correr por baixo da ponte até outubro do próximo ano. Bolsonaro quer o voto impresso, quando se sabe que esta modalidade favorece fraudes. E sinaliza com uma convulsão social se a comprovação impressa do voto não for aprovada. A Câmara votará nos próximos dias o processo. Pelo que se infere das extravagâncias do mandatário-mor, ele tenta desenhar um cenário de fraudes para tentar reverter o impacto de eventual derrota. P.S. Lembre-se que ele esbravejou contra "fraude" na eleição de 2018, garantindo que ganhou no primeiro turno. A propósito, o corregedor do TSE, ministro Luiz Felipe Salomão, acaba de estipular o prazo de 15 dias para que Bolsonaro apresente provas da fraude.

Condições

Como tenho exaustivamente descrito, a vitória do atual comandante do país dependerá da economia saudável + bolsas e auxílios emergenciais + vacinação em massa da população + garantia de equilíbrio, credibilidade e segurança. Imagem de que poderá virar a mesa causará medo. A economia saudável, por exemplo, é uma variável com raízes na conjuntura internacional. A quantas andará a inflação? E o nosso PIB? O país receberá afluxo de investimentos?

Candidatos de Bolsonaro

Há um grupo, a cada dia ganhando mais corpo, que tentará se abrigar na sombra de Bolsonaro para enfrentar a tempestade eleitoral. E o próprio presidente acredita que sua sombra é como tiro e queda: quem ficar sob sua proteção, chegará ao paraíso. Pura ilusão. O eleitorado de um pleito costuma não repetir o modelo anterior. Se o presidente imagina que tudo será como 2018, quando uma leva de figurantes chegou ao pódio graças a ele, engana-se. Mesmo que consiga vencer - o quadro será bem mais difícil pela vacina ética que oxigena os eleitores - não se repetirá a situação. Tarefa das mais difíceis será eleger um candidato tirado do bolso do colete.

A mosca azul

A nota acima é um lembrete aos atuais ministros e assessores: cuidado com a mosca azul.

Salles

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é persona non grata na paisagem ambiental das Nações. É designado "ministro do desmatamento". Nas redes, o humor: há uma nova dupla caipira no mercado musical, Mata e Desmata. Bolsonaro e Salles.

Luz 15% mais cara

A crise hídrica apertará o bolso, a partir de julho, com um aumento em torno de 15% nas contas. Bandeira vermelha. Aperto no bolso, barriga roncando.

Covax, 1000%

A vacina da Covax foi comprada a um preço 1000% mais alto do que o anunciado pela própria fabricante, Bharat Biotech, seis meses antes da aquisição. De US$ 1,34 a dose, o Ministério da Saúde a adquiriu por US$ 15 por unidade. Teve intermediário. E processo acelerado.

Sonhos que se vão....

Sonhos que se esfumaçam sob o empuxo das crises sanitária e econômica. Dado de arrepiar: quase metade dos jovens brasileiros entre 15 e 29 anos (47%) pensa em sair do país para ter estabilidade e melhores condições de vida. É o que escancara a pesquisa Atlas das Juventudes da FGV Social. A maioria não pertence à classe média alta que vai para o exterior fazer intercâmbio, cursar um MBA ou garantir um diploma internacional de mestrado. Muitos dos jovens estão à procura de uma vaga de trabalho há mais de um ano e acreditam que no exterior é possível juntar dinheiro, conseguir a casa própria, um carro e ter condições financeiras para viajar e comer fora de casa.

A autoestima se esvanece

É triste constatar que a autoestima dos brasileiros está em um dos níveis mais baixos de toda a história. As populações aflitas rogam aos céus. O conceito de Pátria se esvanece. O que vemos não é o anelo comum, a união de ideais, a comunhão da coletividade na mesa da harmonia, da satisfação, das expectativas atendidas, da felicidade. A Nação, que é a congregação de valores, dá lugar ao território, o espaço físico que se torna mero habitat, onde a barbárie se instala e se estende, sob a forma da banalidade da morte, dos milhões de seres que vivem na extrema pobreza, da má gestão da coisa pública, dos precários serviços do Estado, da irresponsabilidade dos governantes. Tristeza e angústia enchem os corações.

Em São Paulo

No Estado mais poderoso da Federação, mais de um milhão de famílias vivem na condição de extrema pobreza.

Bolsonaro na CPI

O vice-presidente da CPI da Covid-19, senador Randolfe Rodrigues (Rede Sustentabilidade-AP), diz que o presidente Jair Bolsonaro será preso. O relator, senador Renan Calheiros(MDB-AL), anuncia que vai tentar inserir o presidente no rol dos depoentes. As duas sinalizações podem dar com os burros n'água. Bolsonaro se mostra um rebelde contra as normas. Como sempre lembra, faz o que quer, vai aonde quiser.

O nó górdio e o ovo de Colombo

Se a paisagem política fosse outra, as alternativas poderiam ser as mesmas que Alexandre, o Grande, e Cristóvão Colombo, escolheram para suas manobras. O oráculo prognosticara que o guerreiro que conseguisse desatar o nó que atava o jugo à lança do carro de Górdio, rei da Frígia, dominaria a Ásia. Muitos tentaram. Desistiram. Alexandre Magno, a quem também foi posto o desafio, tinha duas opções: desfazer o nó, corda a corda, ou cortá-lo com a espada. Foi o que fez. Num lance rápido, cortou o nó. Cristóvão Colombo não ficou horas tentando equilibrar o ovo em posição vertical, que era o desafio imposto. Muitos tentaram e não conseguiram. Colombo chegou, olhou, pensou. Com uma batida na extremidade mais larga, pumba, o ovo fixou-se sobre a mesa. Alexandre e Cristóvão exibiram a capacidade de antever possibilidades, quando a maioria das pessoas só enxerga restrições. Se as circunstâncias políticas assim o permitissem - derrocada da economia, falta de apoio congressual, bombas reveladas pela CPI da Covid - o nó górdio e o ovo seriam o impeachment. Este analista não acredita nesta hipótese. A não ser que o Brasil inteiro fosse para as ruas. Alternativa também complicada. O capitão tem por volta de 25% do eleitorado hoje.

A ponderabilidade

O território da ponderabilidade é vasto. Abriga tudo o que é provável ocorrer, numa escala que abriga situações com forte, média ou tênue previsibilidade. Veja-se o caso das vacinas. Mesmo com a comprovação de delitos, irresponsabilidade, compras superfaturadas, o ambiente político tende a amainar a situação dos implicados. Haverá manifestações de ruas nos próximos tempos? É bem possível, tendo em vista a estampa de indignação e a crescente participação de grupos militantes com interesse em antecipar a campanha eleitoral. A inflação poderá enervar os consumidores da cesta básica e contribuir para a desestabilização eleitoral? Se subir muito, sem dúvida. E uma virada de mesa? Golpe? Ah, coisa bem mais complexa. Terreno da imponderabilidade.

Fecho com um pouco de humor.

Farta feição

José Aparecido chegou à sua Conceição do Mato Dentro/MG, começou a romaria dos amigos. Entrou um coronel, mansos passos e chapéu na mão:

- Bom dia, doutor. Boa viagem?

- Boa. Como vão as coisas?

- Tudo correndo como de costume. Novidade aqui nunca tem e lá pra fora não sei, porque minha televisão está defeituada.

- O que é que aconteceu com ela?

- Não sei não. Às vez, farta prosa, às vez, farta feição.

(José Aparecido foi deputado Federal, ministro da Cultura, governador de Brasília e embaixador em Portugal. Excepcional figura).

Postado às 08h15 | 30 junho 2021 |

DEMOCRACIAS NA GANGORRA

As democracias padecem em ambiente de crise. Uns e outros, aqui e alhures, portando a bandeira do bem da coletividade, fazem pontuações de viés autoritário, sem excluir sinalizações de “convulsão social’, como se as massas estivessem rogando aos protagonistas com mando sobre o poder militar intervenção (um ponto fora da curva) na direção do Estado. Estaria, assim, justificado um “golpe”, um ato de força em pleno início da terceira década do século XXI.

Para não dizer que esse tipo de ameaça ocorre apenas no seio de democracias incipientes, sustentadas por instituições não plenamente consolidadas, como a brasileira, que vagueiam para lá e para cá, sob o empuxo de pressões e contrapressões, o fato ocorre também em outros sistemas. A democracia francesa é considerada uma das mais fortes do planeta, sendo considerada a que acendeu o farol da liberdade no ciclo contemporâneo. Pois bem, em abril passado, mil membros das Forças Armadas da ativa e vinte generais da reserva assinaram uma carta aberta onde afirmavam que a França estava a caminho de uma “guerra civil”, culpando “apoiadores fanáticos” pela divisão social, entre eles, os islamitas que estariam tomando conta de regiões inteiras. O país estaria em perigo. 

Quem diria que isso poderia ocorrer no berço contemporâneo da democracia? Bravata dos generais? Maneira de cutucar a onça com vara curta, melhor dizendo, alertar o presidente Macron para a imigração descontrolada? Voltemos aos nossos trópicos. Por aqui, tem sido usual a resposta da esfera política para amenizar as crises: as instituições estão funcionando. Ora, não é bem assim.

Nunca o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal, foi tão questionado e submetido a um bombardeio incessante. Ministros sendo objeto de ferrenha crítica em redes sociais e em plenário de casas congressuais, alguns considerados “suspeitos” por terem sido nomeados por fulano e sicrano, decisões que seriam de competência do Poder Legislativo, outras inseridas no bornal de recompensa a determinadas figuras.

Os legisladores, por sua vez, por mais que se comprometam em votar de acordo com as demandas sociais, acabam decidindo, por maioria, aprovar pautas do interesse do Poder Executivo, integrados de corpo e espírito ao chamado presidencialismo de coalizão, que se ancora no toma lá, dá cá. Os dribles de um lado e de outro exibem as constantes manobras para viabilizar a governabilidade, como emendas parlamentares, orçamentos “secretos” e quetais. Mesmo assim, são volumosas as tensões entre a comunidade política e o Palácio do Planalto.

As reformas, de vida tão prolongada nas pautas congressuais, ganham camadas de bolor e cores do descrédito. A própria reforma política entrou no índex das coisas imexíveis, só avançando normas defendidas pelo dono da caneta com maior carga de tinta, o presidente da República, defensor, por exemplo, do voto impresso ou coisa assemelhada, como um papel para garantir que o eleitor votou. Um demérito à urna eletrônica, que era, até então, o nosso cartão de modernidade no panorama eleitoral do planeta. Um retrocesso está para ser aprovado. Mais grana e mais burocracia.

Quando teremos apenas nove, oito ou sete partidos? Partido virou empreendimento negocial. Em função do descrédito das entidades partidárias, todas se juntam no pântano das negociações, o que motiva a permanência de 35 siglas e a tentativa de se chegar a 70. Os fundos partidários semeiam os recursos reunidos com boas votações, como se viu no caso do desconhecido PSL, que aparece hoje na linha de frente dos mais ricos. E onde estão os escopos ideológicos ou doutrinários? No baú das coisas esquecidas.

Tendo como pano de fundo esse queijo suíço, de buracos por todos os lados, o mandatário-mor, com sua índole guerreira, de atirador de vanguarda e retaguarda, bola artifícios para sustentar o tempo de seu assento na cadeira presidencial. Ganhará as eleições de 2022, garante ele,  e derrotará o adversário a quem se refere como o “nove dedos”. Por isso, prega o voto impresso, aquele tipo que, na década de 30, era a arma secreta dos “coronéis” da política. (P.S. “Seu coroné, posso abrir o envelope para saber em que tô votando? Tá doido, cabra, ocê não sabe que o voto é secreto?”)

Pergunta de fecho: seria viável um golpe no Brasil? Gasset escreveu que o homem é ele e suas circunstâncias. Eis algumas: apoio social, economia saudável, pandemia controlada, contexto internacional e imagem do Brasil, felicidade nacional líquida e ameaça de divisão extremada na sociedade. 

Postado às 08h00 | 16 junho 2021 |

ABUSOS E INSANIDADES

A história da Humanidade é recheada de coisas e perfis extravagantes. O imperador Calígula nomeou senador seu cavalo de estimação. Diz-se que o sultão otomano Ibrahim I praticava arco e flecha nos servos de seu palácio e ainda mandava conselheiros à busca da mulher mais gorda para ser sua esposa.

O imperador romano Heliogábalo começou suas loucuras aos 17 anos. Com amantes de ambos os gêneros, usava mulheres nuas para carregá-lo enquanto estava em cima de uma carruagem, de onde as chicoteava. Certa ocasião, seus convidados foram amarrados a uma roda d'água, que girou lentamente e os afogou. O presidente do Turcomenistão, Turkmenbashi, dava seu nome aos dias da semana e, não satisfeito, construiu uma estátua dourada de 24 metros voltada para o sol.

Já o rei Sol, Luis XIV, desfilava no Palácio de Versalhes em um cavalo cravejado de diamantes. Seu compatriota, o rei francês Charles VI, imaginava ser feito de vidro. E Idi Amin Dada, o ditador de Uganda, garantia que conversava com Deus. Outros se consideravam deuses.

E por aí segue o desfile de excentricidades. Entre nós, o que mais se narra é sobre os escândalos da vida privada de um ou outro governante. Sabemos, por exemplo, que Pedro I dava vazão a mexericos. Disfarçado, saía à noite para a farra. Chegou a se relacionar com Maria Benedita, irmã mais velha de sua amante, Domitila de Castro, a marquesa de Santos. De lá para cá, a fileira cresceu.

O fato é que, hoje, a estampa das coisas mirabolantes se volta para o cotidiano da política, principalmente na área do disse-que-disse, mentiras, versões e meias verdades. Flagremos a paisagem seca de Brasília. Na quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro chegou a insinuar que o vírus foi um instrumento da “guerra química” para propiciar a um país asiático crescimento econômico:  “Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês. O que está acontecendo com o mundo todo, com sua gente e com o nosso Brasil?”. Foi mais um torpedo contra a China nesse momento em que grande parte do território aguarda os insumos lá produzidos para abastecer o Instituto Butantan, que fabrica a Coronavac.

Desleixo, falta de sensibilidade, couraça de jacaré, diplomacia no lixo? Essas são  expressões atiradas contra Sua Excelência, quando se sabe que a tese defendida por nosso mandatário é contestada por cientistas e pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS). O que esse destampatório pode criar? Mais contrariedade, mais rechaço por parte das autoridades chinesas, que já ouviram tais insinuações do governo brasileiro algumas vezes. Será que ainda terão paciência para aguentar os tiros do capitão?

Dito isto, reaparece a recorrente hipótese: e se o presidente, porta-voz maior do negacionismo contra a ciência, defensor do tratamento precoce contra a Covid 19 à base de cloroquina, for também simpático ao polêmico conceito da “imunidade de rebanho”? Navegando nessa corrente, parece desejar que a população atinja logo esse estado. Quanto mais cedo se chegar a essa imunidade, melhor seria para o governo, eis que as massas estariam naturalmente protegidas e os números de contaminação tenderiam a baixar. É triste ver que um pensamento com esse escopo seja defendido por pessoas que enxergam os mais de 400 mil mortos como meros CPFs cancelados”.

Ora, se o presidente insiste em culpar a China nesse momento em que o principal parceiro comercial do Brasil está sendo procurado por muitos países, que esperam por seus insumos e vacinas, é porque deve estar se lixando para isso. Se não tem cuidado para ser um pouco “mais diplomata” nesses tormentosos momentos pandêmicos é porque teria intenção de jogar o país no fundo das trevas. Porque no meio ele já está.

A linguagem presidencial, pelo visto, vai continuar a espalhar fagulhas. Não há como fazer o homem mudar de postura. A fogueira está acesa. E ele, em vez de apagá-la com muita água, joga querosene. O ditado lhe cai bem: “o pau que nasce torto nunca se endireita”. Resta pedir aos quadros do seu entorno que administrem o ímpeto presidencial. O decreto, que sinalizou, proibindo governadores e prefeitos de fechar serviços, é visto como descaso para com o próprio STF, que julgou a constitucionalidade da matéria. Eles possuem esse direito.

O presidente garantiu que o decreto seria cumprido. E que ninguém ouse desobedecer. O que significa isso? Alguma extravagância pela frente?

Postado às 08h00 | 16 junho 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com este lindo poema enviado pelo amigo Antônio Imbassahy.

De acordo com a agência Lupa, o texto é de autoria do poeta cubano Alexis Valdés, publicado originalmente em 21 de março deste ano, em sua conta pessoal no Instagram, sob o título de "Esperança" e também no site Periódico Cubano, em 28 de março.

Esperança

Quando a tempestade passar,
as estradas se amansarem,
E formos sobreviventes
de um naufrágio coletivo,
Com o coração choroso
e o destino abençoado
Nós nos sentiremos bem-aventurados
Só por estarmos vivos.

E nós daremos um abraço ao primeiro desconhecido
E elogiaremos a sorte de manter um amigo.

E aí nós vamos lembrar tudo aquilo que perdemos e de uma vez aprenderemos tudo o que não aprendemos.

Não teremos mais inveja pois todos sofreram.
Não teremos mais o coração endurecido
Seremos todos mais compassivos.

Valerá mais o que é de todos do que o que eu nunca consegui.
Seremos mais generosos
E muito mais comprometidos

Nós entenderemos o quão frágeis somos, e o que
significa estarmos vivos!
Vamos sentir empatia por quem está e por quem se foi.

Sentiremos falta do velho que pedia esmola no mercado, que nós nunca soubemos o nome e sempre esteve ao nosso lado.

E talvez o velho pobre fosse Deus disfarçado...
Mas você nunca perguntou o nome dele
Porque estava com pressa...

E tudo será milagre!
E tudo será um legado
E a vida que ganhamos será respeitada!

Quando a tempestade passar
Eu te peço Deus, com tristeza.
Que você nos torne melhores.
como você "nos" sonhou.

  • Cenário brasileiro

A banalidade do mal I

O conceito de banalidade do mal foi analisado e aprofundado por Hannah Arendt no livro "Eichmann em Jerusalém", cujo julgamento histórico foi acompanhado pela filósofa por meio de artigos na revista The New Yorker. Ela defende a ideia de que, em virtude da massificação social, as massas são incapazes de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar. E assim, Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela solução final, não é avaliado como monstro, mas como um funcionário zeloso que foi incapaz de resistir às ordens que recebeu.                         

A banalidade do mal II

Tomo emprestado de Arendt o clássico conceito que a tornou famosa. Por nossas plagas, o mal está tão banalizado que perdeu peso na balança da gravidade. Veja-se esse surrealista diálogo, gravado, entre um senador e o presidente da República. Bolsonaro é contundente: que se paute no Senado o impeachment de ministros do STF. E que acabará na "porrada" com um senador "bosta", o parlamentar que pediu a CPI da Covid-19, Randolfe Rodrigues, do Amapá. E por aí vai. Os Poderes vivem alto grau de tensão. Será difícil realizar uma CPI presencial no cume da pandemia. O mal: interferência do Executivo no Legislativo; interferência no Judiciário; falta de decoro; gravação (combinada ou não) de uma conversa com o presidente da República; linguagem desaforada. Dias sombrios.

Pátria, ih, o que é isso?

Os países são expressões geográficas e os Estados formas de equilíbrio político. A Pátria, porém, transcende esse conceito: é sincronismo de espíritos e corações, aspiração à grandeza, comunhão de esperanças, solidariedade sentimental de uma raça. Enquanto um país não é Pátria, seus habitantes não formam uma Nação. Este breve resumo, pinçado de um dos mais belos ensaios sobre a mediocridade, de autoria do escritor argentino José Ingenieros, serve como lição aos nossos governantes. Construir a Pátria para se alcançar o nível de grandeza no concerto das Nações deveria ser o farol a iluminar os nossos representantes e governantes. Para eles, Pátria é um naco patrimonialista que lhes pertence.

Que partido?

O presidente Jair Bolsonaro continua sem partido. O Aliança pelo Brasil, que estava sendo criado, morre no nascedouro. O capitão está de olho em uns e outros. A propósito, lembro uma historinha com o ex-vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, que foi uma das alavancas do antigo PP. Em tempos idos, trabalhou para engordar o partido. Ligava para os prefeitos. "Fulano, já se inscreveu em algum partido?". "Não. Esperava as suas ordens". Lembo pede para ele entrar no PP. E lá vem a pergunta: "No PT do Lula?". Não estou ouvindo bem. O ex-vice-governador de São Paulo replica: "No PP". Matreiro, o amigo diz: "continuo a ouvir mal". O arremate é hilariante, segundo conta Sebastião Nery. "Vou soletrar alto e devagar: PP. P de partido e P de banco". O amigo prefeito entendeu ligeirinho a mensagem.

Hora da virada?

Impressão de que a virada nos rumos da política, tão esperada pela comunidade nacional após a eleição de Bolsonaro, não se deu. A cada dia, cresce o cordão dos desvalidos e zonzos com o estado da Nação. Muitos desistiram do sonho. Uma leva esperará por 2022. Os bolsonaristas acreditam que as coisas boas começaram a acontecer. Não é piada. É o que se ouve da boca dos radicais. Este analista de política prefere sentir o espírito aguerrido de Zaratustra, o profeta de Nietzsche, gritando no cume da montanha para fazer descer sua voz sobre a placidez dos vales: "Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; cansei-me das velhas línguas. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas".

Vida pregressa         

O mais do mesmo. Essa é a impressão que se tem quando se tenta distinguir os avanços e inovações no cenário institucional. A crise da pandemia ocorre no pico de outra crise que se arrasta há décadas: a crise política. O que haverá de novidade pelas bordas de 2022, por exemplo? E a corrupção implicará novos perfis, mais assépticos e menos oportunistas? Ouvi um alto tribuno, que me passou essas ideias. Um candidato de vida pregressa, plena de desvios, deve ser inelegível. E exibe a força do argumento: os princípios constitucionais do direito coletivo, entre os quais o da soberania popular e a delegação para ser representado, devem sobrepor-se aos direitos individuais, como o princípio da não-culpabilidade. Não por acaso se inseriu na Carta de 88 (artigo 14, § 9º) uma cláusula com a finalidade de proteger a probidade administrativa e a moralidade para o exercício do mandato. Além disso, há referência explícita à vida pregressa do candidato. Aqui pra nós, tenho as minhas dúvidas.

Credenda e miranda

Para fechar a nota acima, uma lembrança. Há duas referências que ilustram o cenário da política: os "credenda", coisas a serem acreditadas, a partir do sistema legal; e os "miranda", coisas a serem admiradas, a partir dos símbolos. Daí a inescapável pergunta: o que há para crer na política brasileira e o que há para admirar? Abra os ouvidos: nada. As razões para tanto se abrigam em campos múltiplos, mas a origem dos males recentes é a continuidade de um alto PNBC - Produto Nacional Bruto da Corrupção.

Recorde de mortos

A cada dia, entre 20h30 e 21h40, aparece o refrão: Brasil atinge o recorde na média de mortos e na mortalidade em 24 horas de vítimas da Covid-19. E entre as cenas, algumas sobre aglomerações, desleixos, desvios na vacinação, malandragem na aplicação. A índole brasileira? Com a palavra, Roberto DaMatta.

Crueldade

Sobre essa índole, costumo pinçar velha historinha. Um dia um maometano se encontra com um canibal. "Sois muito cruéis, pois comeis os cativos que fazeis na guerra", disse o maometano. "E o que fazeis com os de vocês?", indagou o canibal. "Ah, nós os matamos, mas depois que estão mortos não os comemos". Montesquieu arremata a passagem contada no livro Meus Pensamentos: "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular". Tomemos emprestada a observação do pensador que inspirou os principais fatos políticos do século 18 para dizer que os governos podem se assemelhar a um dos interlocutores. Execram heranças malditas e acabam fazendo as suas.

Escapismo

Quem gostava de explicar a psique de países em desenvolvimento era Roberto Campos. Esses países, segundo ele, apresentam dois traços característicos: a ambivalência e o escapismo. Ambivalência é querer equacionar o descontrole aéreo, por exemplo, sem controlar os controladores. E escapismo é argumentar que os confrontos frequentes nas metrópoles ocorrem porque o poder do crime é maior que o poder de um Estado, cuja leniência torna-se cada vez mais patente ante a escalada de violência que se abate sobre a sociedade. O espaçoso terreno público se apresenta todo esburacado.

Fecho a coluna com uma pitada de humor.

Adiantando os resultados

Há historinhas que merecem um repeteco.

O coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi/RN, não dormia em serviço. Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os títulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fotógrafo "tirar a chapa" do seu rebanho, aliás, do seu eleitorado. Numa fazenda, um eleitor tirava o leite da vaca quando foi orientado a posar para a foto. Não teve dúvida: escolheu a vaca como companheira do flagrante. Mas o fotógrafo, por descuido, deixou-o fora. O coronel Lucas Pinto não teve dúvida. Ao entregar as fotos aos eleitores, deparando-se com a vaca, não perdeu tempo e ordenou ao eleitor: "prega a foto aí, vote assim mesmo, na próxima eleição nós arrumamos a situação". Noutra feita, o coronel levou as urnas de Apodi para o juiz, em Mossoró, quase 15 dias após as eleições. Tomou uma bronca.

- Coronel, isso não se faz. As eleições ocorreram há 15 dias.

- Pode deixar, seu juiz. Na próxima, vou trazer bem cedo.

Não deu outra. Na eleição seguinte, três dias antes do pleito, o velho Lucas Pinto chegava com um comboio de burros carregando as urnas. Chegando ao cartório, surpreendeu o juiz:

- Taqui, seu juiz, as urnas de Apodi.

- Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias.

- Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problema.

Idos das décadas de 50/60. Não havia grandes empreiteiras financiando campanhas. A empreitada ficava mesmo a cargo dos coronéis.

 


 

 

   

 





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Postado às 08h00 | 16 junho 2021 |

AS LIÇÕES DA CRISE

A crise sanitária que continua a assolar o planeta, sendo o fenômeno mais nocivos dos últimos 100 anos, abre um denso livro de lições para governos e protagonistas da política. Impõe o que na esfera da educação se chama “aprendizagem pelo erro”. Um conjunto de situações se escancara: o despreparo do Estado para enfrentar a pandemia; a concentração da produção de vacinas em poucos países, submetendo imensa parcela das Nações ao mando dos produtores; a precária rede social de muitos territórios, que foi drasticamente destruída desde a crise financeira de 2008; a lentidão das economias no processo de reconversão de parques industriais para a produção de máscaras e equipamentos de proteção.

No início, pensava-se que o surto seria rapidamente controlado. Com a evolução da pandemia e o crescente aumento do número de mortes e contaminação, os maiores centros de pesquisa, a partir da China, sacaram suas armas de defesa e passaram a dar respostas mais eficazes no combate à pandemia, como a produção de vacinas, surgidas em menos de um ano, feito inédito. Mas aqueles ambientes que ainda sofriam com restrições fiscais advindas da crise de 2008, como Grécia, Itália, Portugal, Espanha, na Europa, e outros que haviam cortado benefícios sociais, foram lerdos na operação de combate à Covid-19.

Os Estados Unidos, cujo papel na liderança mundial foi corroído na era Trump, um governante inclinado a fechar o país em copas e a apoiar o clamor nacionalista, despertaram com Joe Biden para a necessidade de retomar o protagonismo. Depois de vivenciarem um ciclo de despreparo de seu sistema de saúde, com uma taxa de mortalidade entre as mais altas do mundo, os EUA passaram a aplicar pacotes de socorro, culminando com os planos de recuperação anunciados pelo presidente somando cerca de US$ 4 trilhões. Na Europa, um pacote de 750 bilhões de euros foi a resposta para recuperar a economia continental.

Quem mais avançou na crise, sob os aspectos econômicos e geopolíticos, foi a China que, mesmo sob a grita de o vírus ter vazado de um dos seus laboratórios, na cidade de Wuhan, tem sido o principal produtor de vacinas. Usando de modo estratégico essa condição, a China avolumou seu protagonismo no campo científico, o que, em tempos de tormenta como o que vivemos, acaba quebrando resistências e atenuando a onda crítica que bate no regime comunista chinês.

O fato é que as Nações abriram os olhos para a meta de abrigar parques de produção, em um esforço para evitar a superconcentração de vacinas e insumos em poucos lugares e tentando nivelar o poder geopolítico entre eles. A ideia inspiradora é a de se chegar a uma produção, hoje insuficiente, capaz de suprir a demanda global. O susto foi grande, motivando governos ao compromisso de atrair ou instalar empresas de alta tecnologia para fabricar equipamentos médicos e fármacos.

No feixe das discussões, incluem-se reclamações sobre a missão da Organização Mundial da Saúde e sugestões para mudanças em suas operações. Mais uma vez, o viés ideológico impregna esse foro discursivo.

O pano de fundo mostra o aparente conflito entre dois discursos: a globalização e o nacionalismo, ou seja, continuar a abrir fronteiras físicas e ideológicas ou fechar a porteira. Globalização é um fenômeno que ultrapassa a simples ideia de abertura de fronteiras físicas. Trata-se de interpenetração de valores, princípios, costumes, enfim, um ideário cada vez mais exposto ao acesso dos habitantes do planeta e em visibilidade intensa e permanente pelas redes sociais, inseridas nos eixos tecnológicos da internet.

Difícil de desmontar tal engrenagem. Já o nacionalismo volta ao centro do debate na onda da garantia do trabalho, com a pregação de que seus espaços sejam ocupados pela população originária do país e não por estrangeiros.

O foro tende a acender os ânimos, principalmente quando se abrem as cortinas para mostrar as ferramentas tecnológicas tomando o lugar das pessoas. Sobre o Brasil, as inferências ficam em aberto. Mas o leitor pode fazer a sua leitura.

Postado às 07h45 | 11 junho 2021 |

O PARADOXO DO MENTIROSO

Eubulides, aluno de Euclides, o matemático de Alexandria, no Egito, também conhecido como pai da Geometria, marca presença em nossa árida paisagem institucional. Ele criou o “paradoxo do mentiroso”, que tem sido lume de bandas adversárias na arena política, impulsionando seus ditos, benditos e malditos, mentiras e versões.

Vamos lá: se alguém - parlamentar, governante, ministro, ex-ministro - disser “essa afirmação é falsa”, tende a criar grande confusão, porque um paradoxo se forma na cabeça dos ouvintes. Se a afirmação for falsa, então o dito do emissor é verdadeiro, pois foi exatamente o que ele disse. Mas se ele falou uma grande verdade, a afirmação será falsa, porque ele garantiu que era falsa. Donde se conclui que se é falsa, a afirmação do orador é verdadeira; e se é verdadeira, segue-se que a afirmação é falsa. Lógica simples.

Os argumentos usados pelos integrantes da CPI da Covid 19 dão margem a que, uns e outros, ancorados em afirmações falsas e verdadeiras, mudem de posição a todo momento, trocando com grande desembaraço os papéis de bandidos e mocinhos. Como o palco da crise sanitária ganha, via trombeta midiática, novos capítulos recheados de mortes, contaminados e projeções de uma terceira onda, aqui e alhures, infere-se que a má gestão da pandemia fica no território dos agentes do mal, enquanto combatentes da oposição lutam na arena do bem. Por isso, é visível na CPI o favoritismo dos oradores contrários ao negacionismo que corrói a imagem do governo.

A dúvida que persiste é sobre o que poderá ocorrer com os depoentes convocados a oferecer suas versões na CPI, a partir do afamado, mas não tão proclamado, general da ativa, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. O que ocorrerá em seu terceiro depoimento? Se cair em mentira, será preso como promete o presidente da Comissão, senador Omar Aziz? E, ao final, que tipo de decisão será dada em relação ao presidente Jair Bolsonaro? Não se descarta a hipótese de que as escaramuças no ambiente investigatório poderão dar n’água, algo como a batalha de Itararé, aquela que não houve, ou uma “vitória de Pirro”, aquele evento em que o rei de Épiro, na batalha de Ásculo (279 a.C), mesmo vitorioso, perdeu o que restava de suas tropas.

O fato é que cada protagonista da política quer aparecer como vitorioso. E corajoso. Luta para impor sua verdade, esforço que ganhará intensidade à medida em que se aproxima o ano eleitoral. Afinal, no Estado-Espetáculo, os atores sabem que a lei da visibilidade recomenda aparecer de qualquer maneira, sob a fosforescência dos meios de comunicação e, agora, das redes sociais.

A lição que aprendem com rapidez é a do Breviário dos Políticos, do preceptor de Luís XIV, o cardeal Mazarino, onde se leem estes conselhos: “Simula, dissimula. Mostra-te amigo de todo mundo, conversa com todo mundo, inclusive com aqueles que odeias; eles te ensinarão a circunspeção... quando tiveres que escolher entre duas vias de ação, prefere a facilidade à grandeza com todos os aborrecimentos que ela comporta. Não confies em ninguém. Quando alguém fala bem de ti, podes estar certo de que ele te escarnece. O velhaco manifesta-se ora a favor ora contra o mesmo assunto, dependendo das circunstâncias. Os amigos não existem, há apenas pessoas que fingem amizade”.

A base amoral da política se alarga em todos os quadrantes do planeta, mesmo que estejamos vivenciando um ciclo de maior transparência e elevação da cidadania. Ocorre que as malhas intestinas do Estado, por maior que sejam os controles – Ministério Público, Polícia Federal, Tribunal de Contas da União, Advocacia Geral da União, Tribunais de Contas de Estados e Municípios – continuam como berço predileto das gangues da corrupção, formadas sob o triângulo composto pela burocracia, a esfera política e os círculos de negócios. A corrupção diminuiu? É possível, mas as ferramentas tecnológicas, contábeis e administrativas também são usadas pelo “poder invisível”. A roubalheira pode ter diminuído, mas ainda é uma praga. Ganhou técnicas sofisticadas.

Nem por isso podemos desistir de ver o país restaurado, recuperado, resgatado. Precisamos sempre ter em mente a grandeza da Nação, representada por seus valores: o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o cumprimento da lei, o culto à liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.

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