Porandudas políticas

Postado às 09h00 | 27 outubro 2020 |

ORAÇÃO PELA PÁTRIA

Pai nosso que estás no Céu, santificado seja o vosso nome!

Pedimos as suas bênçãos, Senhor, nesse tormentoso ciclo em que nosso país registra mais de 150 mil mortos de uma pandemia que já contaminou até o momento 5,1 milhões de pessoas em todos os Estados. Ouça nossa prece, Senhor, antes que a mortandade continue a se expandir pelo território.

É bem verdade, Senhor, que habitamos um território belo e imenso, do tamanho de um continente, que até abriga a maior reserva de água doce do mundo, 12% do total existente nos 193 países do nosso planeta, mas os nossos biomas terrestres – Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Campos do Sul – padecem de secas, queimadas, incêndios perpetrados por espíritos maldosos. Estamos ameaçados de perder os 20% das espécies que habitam o planeta. Nosso torrão nunca viu destruições tão monumentais, mesmo sem o poder destruidor de tufões, terremotos e furacões que consomem nações poderosas.

Pero Vaz de Caminha certamente tinha razão, Senhor, na carta escrita ao rei Dom Manuel em 1º de maio de 1500, ao descrever que a terra descoberta pelo comandante português Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril, “em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. Também é verdade, Senhor, que mãos sorrateiras surrupiam parcelas das nossas riquezas naturais.

Agradecemos, Senhor, pela extrema generosidade com que nos agraciou, dando-nos terra tão rica, onde se plasmou a índole de uma gente singular, assentada em um “processo de equilíbrio de antagonismos”, como ensina o mestre Gilberto Freyre: as culturas europeia, indígena e africana; o católico e o herege; o jesuíta e o fazendeiro; o bandeirante e o senhor de engenho; a paulista e o emboaba; o pernambucano e o mascate; o bacharel e o analfabeto; o senhor e o escravo”. Mas as desigualdades têm se expandido ao longo de séculos.

A convivência entre contrários plasmou um caráter cordial, um povo hospitaleiro, afeito à paz, acessível, mesmo que também carregue traços negativos, como ilustra Afonso Celso em seu clássico Por que me Ufano do meu País: “falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza”.

Que venha a nós o vosso Reino!

Que venha logo, Senhor. Antes que o nosso Pantanal seja tragado pelo fogo. Antes que a boiada passe nas fronteiras da ilicitude e das estripulias de gente sem escrúpulo. Antes que a extrema pobreza volte a massacrar a base da nossa pirâmide social. Que se derrube para sempre esse muro que separa “nós e eles”. Vivemos um clima de guerra aberta. Irmãos contra irmãos. A violência urbana volta a assolar bairros, ruas, vielas das grandes e médias cidades. Nosso mais bonito cartão postal, o Rio de Janeiro, virou praça de guerra. Balas perdidas matam crianças e sonhos.

A velha luta de classes, Senhor, aposentou suas armas após a queda do muro de Berlim, em 1989, mas por estas plagas figuras que cultivam o populismo teimam em defender a litigiosidade social, pregando a “revolução”, o fim das elites e do ideário progressista.

Dai-nos, Senhor, bom senso para evitarmos usar as armas da intolerância e da condenação aos infernos de quem ousa discordar de métodos como invasão de propriedades, depredação de patrimônios, incitação à violência. Queremos paz. Aquele sinal de uma sociedade que podia sair de casa sem medo de assaltos, roubos, tiros. Tempos bucólicos aqueles dos dias de ontem.

Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

Que a vossa vontade, Senhor, chegue até nós sob a paz dos céus baixando no nosso território, elevando os menos favorecidos a degraus superiores e dando aos habitantes do alto da pirâmide social nobreza de espírito para minorar desigualdades e enxugar as lágrimas dos aflitos.

Perto de 15 milhões de brasileiros estão desempregados, Senhor, e outros milhões não têm recursos para comprar comida em quantidades necessárias para sua sobrevivência. Falta pão sobre a mesa nos lamacentos espaços das periferias das grandes cidades, onde favelas, palafitas, construções de papelão e lonas plásticas desenham a estética da miséria.

O pão nosso de cada dia nos daí hoje. Esse pão que é para uns e escasso para outros.

Rogamos, Senhor, que injete na consciência dos homens públicos o dever sagrado de cumprir sua missão sem manchas. Temos uma eleição no próximo mês. Ilumine, Senhor, a consciência dos candidatos, fazendo-os assumir compromissos para garantir qualidade aos serviços públicos. E não permitam aumentos exagerados de impostos.

Perdoai as nossas ofensas. Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

O perdão, Senhor, é para as ofensas do nosso cotidiano, essas comuns que se revelam em deselegância na interlocução, em gestos mal educados que ferem a sensibilidade do interlocutor. Mas assaltantes do Estado, que formam as milícias do poder invisível, esses precisam prestar contas à Justiça.

E não nos deixei em tentação, mas livrai-nos do mal.

Amém!

Postado às 08h45 | 27 outubro 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com o querido RN.

O sabiá do senador

Quando senador pelo Rio Grande do Norte, Agenor Maria (sindicalista rural, falecido em 1997), visitando o município de Grossos, foi interpelado pelo prefeito Raimundo Pereira. "Estamos precisando de uma escola para a comunidade de Pernambuquinho". De pronto, Agenor garantiu-lhe apoio à proposição. Semanas depois, um telegrama traz a boa-nova ao prefeito. "Escola está assegurada. Mande-me o croqui". Tomado pelo espírito de gratidão, Raimundo visita Agenor para agradecer o empenho, carregando uma gaiola à mão. Diante do senador, que estranha o acessório, Raimundo vai logo se explicando. "Eu não peguei um concriz como o senhor pediu, mas trouxe esse sabiá. O bichinho canta que é uma beleza"!

(Historinha narrada em Só Rindo 2, de Carlos Santos)

Eleição fria

A campanha eleitoral segue com a temperatura de água fria. Pelo menos nesse maior conglomerado eleitoral, que é São Paulo, capital com os seus quase nove milhões de eleitores. Mesmo nos programetes eleitorais, os candidatos parecem cumprir pauta obrigatória. Um desfile de promessas antigas. Quem dispõe de mais tempo, como Bruno Covas, apela para o espaço do "povo fala", quando se veem eleitoras (es) fazendo seus agradecimentos pelo hospital A, B ou C. Quem tem pouco tempo, fica no sorriso. Tempo médio, como o de Russomano, apela mesmo para velhíssimos chavões: creche vai permitir que as mães arranjem trabalho fora de casa.

Eleição quente

Em algumas regiões, a campanha começa a ficar quente. Recolho informações do Nordeste, onde as comunidades do interior fazem festança todos os dias para seus candidatos, com carreatas, passeatas, encontros, aglomerações. Todos ao lado do eleitor mortífero, o sr. Cornavídio-19. Há até quem se agarra ao jogo de palavras, principalmente quem está nos lugares baixos nas pesquisas: darei uma coronhada nos meus adversários; podem esperar a virada. Ou seria a virusada?

Vacina obrigatória

Quer dizer que tomará a vacina quem quiser? Não será obrigatória, diz o presidente. Será obrigatória em São Paulo, diz o governador. O presidente se vale da Constituição para liberar o não uso. A especialista em Direito Médico, Mérces da Silva Nunes, diz não haver dúvidas sobre o tema. "O limite entre imposições estatais e a autonomia individual das famílias é a Constituição". Segundo ela, a Constituição Federal estabelece que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, a não ser em virtude da lei.

Mas o ECA

Mas a lei 8.069/90, "o Estatuto da Criança e do Adolescente", impõe aos seus responsáveis legais o dever de proteger a saúde desta população. Ela dispõe que a vacinação das crianças é obrigatória nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias, levando em conta que a proteção é indispensável para evitar que essa população fique doente, em decorrência de doenças para as quais há vacinas comprovadamente seguras e eficazes.

Obrigatoriedade

Arremata a especialista Mérces: "O Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito à vida e à saúde de crianças e adolescentes e impõe aos seus representantes legais o dever de proteger a saúde desta população, sob pena de responsabilidade". O parágrafo 1º do artigo 14, do ECA, dispõe que a vacinação das crianças é obrigatória nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias. E a legislação assim determina porque a proteção das crianças e adolescentes é indispensável para evitar que essa população fique doente, em decorrência de doenças para as quais há vacinas comprovadamente seguras e eficazes e para impedir que essa mesma população não atue como agente propagador dessas doenças.

Imunização

O Programa Nacional de Imunização (Ministério da Saúde) dispõe sobre a vacinação infantil e estabelece que as vacinas já comecem a ser aplicadas ainda na maternidade, logo após o nascimento do bebê. Não é possível que o jogo político entre nessa questão pandêmica. O STF deveria, logo, estabelecer sua diretriz, sem esperar que a politicagem seja a bússola da pandemia.

Doxa

Os gregos foram os primeiros a defender de maneira intensa suas crenças, fé, ideias, opiniões. O termo Doxa, em grego d??a, expressa o conceito. Pois bem, estamos vivenciando na Humanidade a Era da Opinião, das livres ideias. Cada qual defende seu ideário, suas crenças, mesmo que essas sejam invariavelmente jogadas no cesto da inverdade, das versões estapafúrdias, do invencionismo arraigado em radicalismos ideológicos. Daí a ressurreição do negacionismo, que políticos, autoridades e "falsos" profetas teimam em confirmar. A terra é plana e a Covid-19 é uma "gripezinha".

E Galileu, hein?

Lembrem-se de Galileu Galilei, condenado à prisão por defender a tese de Nicolau Copérnico de que a terra não ficava no centro do universo, e sim orbitava em torno do sol. Galileu foi obrigado a negar sua pregação e a viver confinado em prisão domiciliar. Até que, em 31 de outubro de 1992, o papa João Paulo II reconheceu os enganos cometidos pelo tribunal eclesiástico que condenou Galileu Galilei à prisão. Essa revisão de posicionamento, portanto, ocorreu 350 anos após a morte do cientista italiano.

O negacionismo

O boato é uma lebre. A verdade, uma tartaruga. E que nem sempre, mesmo andando devagar, chega ao destino. É sufocada pela mentira, pelas falsas crenças. Quanta gente continua a acreditar que a Covid-19 não carece de tantos cuidados; que o isolamento social não freia a pandemia. Olhem a segunda onda do vírus que se espalha pela Itália, França, Inglaterra. Nos EUA, a maior democracia do planeta, os negacionistas se multiplicam e morrem às pencas. O Trump de lá e o Bolsonaro daqui, e um bom número de seus assessores, foram pegos pelo bicho. E ainda há quem não acredite que o homem pisou na lua. É barra aguentar a carga de ignorância que fecha a mente dos radicais empedernidos.

Lavanderia

Do ex-doleiro Vinícius Claret, mais conhecido como Juca Bala, ex-sócio do doleiro Dario Messer: "O Brasil é a maior lavanderia de dinheiro do mundo. Enquanto não sair uma lei proibindo o pagamento de boletos por terceiros, a lavanderia vai continuar solta". Em suma, o Brasil é sui generis: mistura as características de paraíso fiscal com as intempéries de inferno tropical. P.S. Em tempo: paraíso fiscal possui regras extremamente flexíveis, que vão contra à aplicação das normas de Direito Internacional que coíbem crimes financeiros e combatem a evasão fiscal, sonegação de impostos e a lavagem de dinheiro. Já inferno tropical, deixo que cada um expresse seu conceito.

Gregos e romanos

O escritor Kenneth Minogue compara: "enquanto os gregos foram retóricos brilhantes, inovadores, os romanos foram agricultores, guerreiros sérios e prudentes, menos sujeitos que seus antecessores a se deixarem levar por uma ideia". Herdamos nosso ideário dos gregos, mas nossas práticas dos romanos... O vocabulário político dos gregos - democracia, tirania, polícia, a própria política - e o vocabulário cívico dos romanos - civilidade, cidadão, civilização.

A lógica de Sócrates

O filosofo Sócrates andava por Atenas pregando a lógica. Quando ouvia alguém falando, perguntava se realmente sabia o que estava dizendo. Certo dia, ouviu um eminente estadista, aproximou-se dele e indagou:

- Perdoe-me a intromissão, mas o que vem a ser para o senhor a coragem?

- Coragem é permanecermos no nosso posto em perigo - respondeu o orador.

- Mas suponhamos que a boa estratégia exigisse a retirada? - replicou Sócrates.

- Bem, isso é diferente. Está claro que, nesse caso, não haveria necessidade de permanecer no posto.

- Então coragem não é permanecer no nosso posto, nem retirar, não é verdade? Pergunto, então, o que é coragem?

O orador franzia a testa:

- Confesso o meu embaraço. Creio que realmente não sei.

- Eu tampouco - arrematou Sócrates - mas será que se trata de algo que difere do uso da cabeça, pura e simplesmente? Isto é, fazer o que seja razoável, independente do perigo?

- Isso parece mais acertado- observou alguém entre o grupo.

Sócrates finalizou:

- Concordaremos, então, apenas para argumentar, é claro, pois é uma questão difícil, que a coragem se resume em sólido bom senso? A coragem é presença de espírito. E o oposto, nesse caso, seria a presença em tal intensidade que perturbaria a mente?

Postado às 08h45 | 27 outubro 2020 |

O NEGACIONISMO

"A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” A frase do velho Karl Marx tornou-se um resistente refrão para ancorar textos, análises e comentários de palestrantes e analistas políticos. Muitos não concordam com a expressão, preferindo o conhecido pensamento de Heráclito de Éfeso, desenvolvido há mais de 2.500 anos: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”. A razão: tudo se transforma de maneira constante e permanente. Na segunda tentativa, o homem está modificado e as águas não serão as mesmas.

O que pode se registrar, em determinado ciclo, principalmente na esfera da política, é a ocorrência de um fato, um incidente, uma confissão de cunho ideológico que conserva semelhanças com casos ou ditos do passado. Exemplo que sobe à tona: a revolta da vacina.

O caso ocorreu em meados de 1904, quando 1.800 internados no hospital São Sebastião, no RJ, levantaram o ânimo da população pobre para evitar tomar a vacina contra a varíola, produzida na época com o líquido de pústulas de vacas doentes. O uso para crianças tornou-se obrigatório em 1837 e para adultos em 1846. Oswaldo Cruz, nosso cientista, teve de lutar para motivar o governo a enviar ao Congresso o projeto de obrigatoriedade.

E o que estava também por trás da revolta? Questões políticas. Arrumava-se um pretexto para as forças políticas (principalmente monarquistas, militares, republicanos radicais e operários) forçarem a deposição do presidente Rodrigues Alves. Dito isto, pulemos para os dias de hoje.

A revolta contra a obrigatoriedade da vacina, patrocinada pelo presidente da República, mais parece uma jogada no tabuleiro do xadrez político. A conotação é clara: trata-se de um remédio chinês, ou em tradução que agrada as bases bolsonaristas, é uma “vacina comunista”. Se chegarmos a esmiuçar o argumento, emergirá o complô do QAnon, aquela maluquice difundida nos EUA, que embala o pacote de domínio comunista: pedofilia, tráfico de crianças e outras coisas estapafúrdias.

O que diz a lógica em um mundo que enfrenta a pandemia? Que vacina não tem cor ideológica e qualquer uma das 130 vacinas que estão sendo testadas pode ser aplicada, contanto que seja eficaz e aprovada pelos organismos de controle dos países. É incrível que alguns políticos e governantes (e até astronautas), vestindo-se de médicos, continuem a receitar a hidroxicloroquina e até vermífugos, quando organismos da ciência mundial batem na tecla: essas drogas não são eficazes contra o Covid-19.

O fato é que o negacionismo, que tanto resistiu no passado, tenta reaparecer sob o véu da ignorância. Mas, agora, em nosso planeta a ciência é bem mais avançada que no passado. Existe um núcleo forte no governo que tenta puxar o cabo de guerra para os tempos de Galileu Galilei. Condenado à prisão por defender a tese de Copérnico de que a terra não ficava no centro do universo, e sim orbitava em torno do sol, Galileu foi obrigado a negar sua pregação e a viver confinado em prisão domiciliar.

Até que, em 31 de outubro de 1992, o papa João Paulo II reconheceu os enganos cometidos pelo tribunal eclesiástico que condenou Galileu à prisão. Essa revisão de posicionamento, portanto, ocorreu 350 anos após a morte do cientista italiano.

Os olhos dos negacionistas, a partir do presidente Jair, parecem tapados. Para eles, o isolamento social é besteira. Não enxergam uma segunda onda do vírus na Europa, espalhando-se pela Itália, França, Inglaterra e Alemanha, entre outros. Nos EUA, a maior democracia do planeta, os negacionistas também espalham versões, mas morrem às pencas.

Trump, que comanda a maior democracia do mundo, e Bolsonaro, que não perde a oportunidade de fazer loas ao magnata de uma cadeia de negócios, eles e seus assessores foram pegos pelo bicho. Mas se acham super-heróis. E parcela de seu eleitorado também assim se considera. Há como mudar a mente de um radical empedernido? Como fazê-los acreditar que, se uma parcela da população não tomar a vacina, poderá contaminar outras pessoas? Como provar a eles que a ciência não tem ideologia?

Governantes, governem para todos. Não apenas para apoiadores e simpatizantes. Sejam justos e magnânimos. Querem saber o que é isso? Eis a explicação de Platão: “o homem justo é aquele cuja alma racional impõe à alma desejante (prazeres e leviandade) a virtude da temperança e à alma colérica, a virtude da coragem, que deve controlar a raiva.” Eleitores radicais de qualquer lado: aceitem o jogo dos contrários, que faz parte da democracia.

Tentem aliviar o verbo cheio de ódio, a cara enfezada, a atitude de quem está sempre chamando para a briga. Levantem a bandeira branca da Paz.

Postado às 09h15 | 23 setembro 2020 |

NOSSAS VIDAS NO AMANHÃ

Um exercício de paciência. Missão de persistência. Uma vida de mais renúncias. Essas três frases servem para circunscrever nossas vidas no amanhã. O biólogo e pesquisador Átila Iamarino dá a dica: “não tem volta mágica para 2019 sem vírus. É uma adaptação pragmática para 2021 com ele.” Portanto, devemos já começar a gigantesca tarefa de fazer as mudanças que se fizerem necessárias para convivermos com os dias futuros. Urge termos consciência dessa necessidade. Não se espere pela volta pura e simples aos dias de ontem, com a manutenção de velhas regras, padrões de comportamento, atitudes e gostos.

A reforma na área dos costumes é uma das mais árduas. Afinal, costume faz parte da tradição, carrega o dna de todo um processo civilizatório. Mas há de se compreender que a vida segue seu curso e avança na esteira das descobertas e inovações resultantes das pesquisas nas áreas da biologia, biomedicina, inteligência artificial etc. Portanto, qualquer arranjo no sentido de salvaguardar a integridade da vida é e será bem-vinda, principalmente se olharmos um pano de fundo cheio de ameaças.

Como lembram os cientistas, o nosso foco será sempre o dos impulsos inatos aos seres vivos. Analisando as reações do comportamento, Pavlov se vale do exemplo da ameba para explicar os reflexos do ser humano. A ameba foge do perigo, absorve alimentos, multiplica-se, forma quistos dentro dos quais se multiplica em um enxame de pequenas amebas. Por aí, podemos ter a primeira resposta para a questão da metáfora de guerra, tão do gosto dos indivíduos. As pessoas, como as amebas, procuram evitar o perigo e preservar sua espécie. Se um vírus, um Covid qualquer, aparece de repente ameaçando o fluxo vital, o ser vivo tenta dele se afastar, matando-o ou tomando as precauções para que ele desapareça.

A natureza procura conservar a vida, de acordo com dois grandes princípios: o do soma e o do gérmen. O primeiro, o indivíduo, conduz o segundo, a espécie; o primeiro é mortal, descontínuo, e o segundo é imortal, contínuo. Para preservar o indivíduo do aniquilamento, antes que tenha cumprido a tarefa de transmitir o gérmen da espécie, a natureza o dotou de dois mecanismos especiais; e da mesma forma, para a preservação da espécie, proporcionou dois mecanismos. Os primeiros são os impulsos combativo e nutritivo; os segundos, sexual e paternal. Eis a base do argumento que sustenta a tese de que haveremos de adotar o pragmatismo para prolongar nossa preservação. A adaptação à realidade dos ciclos de vida é condição sine qua non.

Dito isto, emergem as questões: que mudanças, que novos costumes adotar, quais as esferas que deverão ser mais impactadas, a individual ou a coletiva? Com perdão dos amigos da área biomédica, arrisco a inferir que o rol de adaptações assumirá uma proporção circular, sistêmica, abrangente, na medida em que os elos da cadeia da saúde de um povo abrigam mudanças nos padrões e normas governamentais, atitudes pessoais e comportamentos coletivos. Entidades e pessoas físicas deverão entrar na composição, operando as políticas de saúde, com maior controle de cuidados sanitários, programas intensivos de prevenção, inserção de uma visão interdisciplinar, capaz de contemplar o Todo e não apenas as partes.

É claro que uma eficaz revolução de costumes depende da chave da porta do futuro: a educação. Por isso, o sistema educacional, a partir do ensino de base até os níveis superiores, haverá de focar as políticas de prevenção e mudança de hábitos, o que implicará modelagem inovadora nas áreas dos divertimentos, conservação ambiental, educação, mobilidade urbana, segurança pública, manifestações coletivas, como eventos de massa. A grita será barulhenta, prevendo-se, desde já, um discurso crítico aos governantes, que estariam fazendo censura, opressão à liberdade de manifestação etc. Mas não se faz reforma sem ponto e contraponto.

Como fortaleza de defesa de uma nova ordem mundial no campo sanitário, será necessária a chegada ao poder de um núcleo com novas visões, olhar de estadista, empreendedorismo e coragem para enfrentar os infortúnios. Só assim a Humanidade será capaz de implantar um regramento que garanta a sobrevivência da espécie, com destaque para a vida saudável do planeta, o que exigirá forte intervenção nas políticas preservacionistas e de melhor distribuição de renda. A continuar a imensa disparidade de classes, os grupos mais poderosos haverão de dar o tom maior e, nesse caso, a orquestra mundial ameaça continuar bastante desafinada.

Postado às 09h15 | 23 setembro 2020 |

DESDEMOCRATIZAÇÃO

A democracia desce a escada que permitiu sua ascensão desde os idos da ágora, em Atenas, onde os cidadãos exerciam seu dever de servir à polis. Em alguns momentos, travou gloriosas lutas contra os sistemas autoritários, batendo forte nos bastiões de ditadores, ganhando algumas vezes, perdendo outras.

Balançando na gangorra das Nações, adentrou no século XXI, e, nesse instante, passadas apenas duas décadas, enfrenta retrocessos, submissão às visões autoritárias, quebra de suas estacas, como as liberdades de manifestação e de associação, direitos das minorias, discriminação étnica, de raça e cor. Conflitos por todas as partes ameaçam seu ideário.

No panteão das democracias, bandeiras são trocadas. A maior democracia do mundo já não é a da Índia. Um estudo conhecido pelo nome de DeMax, feito na Alemanha, insere esse país de 1,366 bilhão de habitantes na categoria de regime híbrido, após acurada análise de 200 fatores, a partir de liberdade política, igualdade e sistema legal. A Índia e outras Nações atravessam, digamos assim, o status de desdemocratização, um passo atrás na roda civilizatória.

O estudo mostra que um grupo de 13 países sujou sua bandeira democrática em 2019, em função de perda de liberdade religiosa, repressão a protestos, violação de direitos humanos, colisão com Judiciário etc. E poucos, apenas três, teriam deixado sua posição de autocracia (governo controlado pela visão de uma só pessoa): Maldivas, República Centro-Africana e República Dominicana. A Hungria é outro exemplo de desdemocratização. Mais de 100 países, porém, sofreram perdas em suas qualidades democráticas, enquanto 69 registraram pequenos avanços.

E por que essa volta aos tempos autoritários? Um amplo e denso conjunto pode explicar. Lembrarei uns poucos. A democracia representativa vive uma crise crônica em face do arrefecimento ideológico, pasteurização partidária, fragilidade dos Parlamentos, desideologização das oposições, liberalismo, socialismo ou social-democracia sem respostas adequadas às demandas, mudança de paradigmas (luta de classes abre diálogo entre o patronato e o setor laboral), formação de novos polos de poder, organicidade social. Ou seja, face ao descrédito da política, a sociedade cria núcleos e movimentos para fazer pressão.

A globalização, por sua vez, acirra tensões entre países. A imbricação das fronteiras, permitindo maior fluxo de mercadorias, gera como contrapartida a ascensão de um neo-nacionalismo e de movimentos em defesa das produções nacionais. À vista de todos, o Brexit, o acirramento das relações entre China e EUA etc. O populismo também ganha musculatura no tabuleiro do poder, o que expõe o dilema: como fortalecer o colchão social sem recursos apropriados? As economias cavam seu próprio buraco. Conflitos étnicos e religiosos explodem, elevando tensões e guerras entre alas.

E para onde convergem essas forças dispersas? O estudo alemão mostra que se forma uma convergência em direção ao centro do espectro político com expansão dos regimes híbridos. Um caso que conhecemos bem é o nosso. O Brasil, ao lado da Hungria, Turquia e Sérvia, aparece de forma emblemática no DeMax. A pontuação brasileira caiu 32% na última década, passando de 79,6 (numa escala de 0 a 100) em 2010 para 60,2 em 2019.
Sabemos as causas: corrupção, administrações mal conduzidas, descontroles, discriminação, tensões entre os Poderes, fisiologismo, visões radicais e conservadoras, filhotismo político nas três instâncias, ausência de reformas vitais, ataque aos meios de comunicação, fake news, negação da ciência, defesa de ditaduras, enfim, uma lista que se faz presente ao nosso cotidiano.

desdemocratização pega até os EUA, país que deixou o nível superior das democracias, sendo hoje considerado pela Economist como uma democracia falha. Quem diria, hein? A maior democracia do mundo suja sua posição. Haverá conserto lá e aqui? Sim. Basta que o ideário democrático faça parte de nossas vivências. Pela sua grandeza territorial, por suas riquezas, pela índole ordeira de um povo alegre e acolhedor e, claro, com a diminuição do índice do PNBC (Produto Nacional Bruto da Corrupção), poderemos aparecer na galeria das grandes democracias.

Postado às 09h00 | 17 setembro 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com um "causo" que me foi enviado do Paraná. Com minhas escusas se alguma leitora ou algum leitor achar a historinha politicamente incorreta. Como estamos em ano eleitoral, cai bem.

Promessas de campanha

Candidatos de duas famílias disputavam a prefeitura de pequena cidade. Final de campanha. Combinou-se que os dois candidatos e seus familiares teriam de ir ao mesmo palanque. Discursou, primeiro, o candidato com 70% de preferência dos votos:

- Povo da minha amada terra, povo ordeiro, trabalhador, religioso e cumpridor de suas obrigações. Eleito, irei resolver o problema de falta de água e de coleta de esgoto. Farei das nossas escolas as melhores da região, educação em tempo integral. Vou construir uma escola técnica do município...

E arrematou:

- E tem mais, meus amigos, ordeiros, religiosos e cumpridores de seus deveres morais, vocês não devem votar no meu adversário. Ele não respeita nossa gente, nossas famílias, nossos costumes! Ele desrespeita nossa igreja. Ele nem se dá ao respeito. Vocês não devem votar nele. Porque ele tem duas mulheres.

O adversário, com 20% de intenção de voto, quase enfartou quando viu a mulher, ao seu lado, cair no palanque. Ela não aguentara ouvir a denúncia do adversário de que o marido tinha uma amante. A desordem ganhou o palanque. A multidão aplaudia o candidato favorito e vaiava o adversário. Cabos eleitorais começaram a se engalfinhar. Passado o susto, com muita dificuldade, o estonteado candidato acusado de ter duas mulheres começa seu discurso, depois de constatar que a esposa estava melhor:

- Meu amado povo, de bons costumes e moral ilibada, religioso e cumpridor de seus deveres morais, éticos e religiosos. Quero dizer aos senhores e senhoras aqui presentes, que, se agraciado com seus votos me tornar o prefeito desta cidade, farei uma mudança de verdade. Não só resolverei o problema da falta de água, como farei também o tratamento de todo o esgoto do município, construirei uma escola técnica e um novo hospital!

A massa caçoava do coitado e de sua mulher. Foi em frente:

- Vou melhorar o salário dos professores, a merenda das crianças e ainda vou instituir o Bolsa Cidadão. Agora, prestem bem atenção. Se os amigos acharem que não podem votar em mim porque tenho duas mulheres, votem no meu adversário. Mas saibam que a mulher dele tem dois maridos.

A galera veio abaixo. O pau comeu. Brigalhada geral. Urnas abertas. O candidato chamado de corno perdeu feio para o adúltero.

Tomando o pulso

Cada semana, esta coluna tenta tomar o pulso do país: os índices do clima político, a temperatura social, os graus da governabilidade, coisas que dependem, frequentemente, dos humores do mandatário-mor. Pois bem. A esfera política se apresenta cercada de dúvidas. Particularmente no que se refere à construção e consolidação da base governista, a escalada que começa em direção à nova presidência da Câmara, as probabilidades que cercam a reforma tributária, ainda este ano, os números que recuam e avançam mostrando que a pandemia não está domada. Portanto, estamos ainda sem rumo e prumo. Para complicar, o ponto morto que o presidente Bolsonaro colocou em sua engrenagem expressiva voltou à marcha de corrida. E o destempero voltou com força com a declaração de que gostaria de "encher de porrada" a boca de um repórter de O Globo que lhe fizera uma pergunta sobre recursos destinados à sua mulher.

A pandemia ainda dá o tom

Apesar de certo alívio registrado nas áreas produtivas do país, em início de reabertura de negócios, o clima geral ainda é fruto da barreira imposta pela pandemia. Teme-se que os ainda não contaminados, de maneira gradual e sucessiva, sejam apanhados pela Covid-19, que já começa a dar sinais de poder reinfectar uma pessoa já infectada e curada. Portanto, muito cuidado com o andor. O alívio que se espraia por Estados e municípios pode dar lugar à angústia. Cuidado.

Esfera política

Começo com aplausos ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que surpreende com o bom senso externado. Virou guia eficiente nesse momento de tantos desvarios. Decidiu bloquear qualquer projeto voltado para aumento dos planos de saúde, que almejavam aumentos de mais de 20%. Seria mais um peso no bolso da já empobrecida classe média. Rodrigo merece também reconhecimento pela maneira como segura os passos de candidatos à presidência da Casa, a partir de fevereiro do próximo ano. Arthur Lira anda rápido, mas pode queimar suas chances. Seria o nome ideal para comandar uma Câmara tão dividida?

Estados quebrados

Os Estados estão de pires na mão. Por isso, o dilema é o de esperar por uma reforma tributária que lhes dê alívio, minorando a calamidade financeira. SP, MG, RS e PR projetam rombo de cerca de 40 bilhões, um dado ainda muito preliminar. Suspensão de reajustes a servidores, eliminação de empresas, redução de incentivos fiscais e elevação de impostos estão na pauta de 2021. A economia ainda estará em compasso de espera, sendo um imenso desafio equilibrar receitas e despesas.

Índice Hauly

Na torcida pelo desfecho da reforma tributária, vejo o meu amigo Luís Carlos Hauly, em torno do qual giram os seguintes índices: 316 palestras; mais de 700 reuniões técnicas; 77.700 páginas no Google "Hauly Tributária" e no Hauly 245 mil páginas. Um craque.

Reeleição nas duas Casas?

Davi Alcolumbre sonha de olhos acordados com decisão do STF que permita concorrer à reeleição no Senado. Já não é caso de Rodrigo Maia, que já manifestou não pleitear mudança regimental. Ocorre que Luiz Fux, que toma posse como presidente do Supremo em 10 de setembro, não gostaria que esse abacaxi caísse em suas mãos. Gostaria que o tema seja decidido pelo STF ainda no mandato de Dias Toffoli, que se encerra daqui a pouco mais de duas semanas. Há quem defenda ser essa uma questão "interna corporis", a ser resolvida, portanto, pelos próprios corpos parlamentares do Senado e Câmara. E há quem defenda que a reeleição poderia valer para o Senado, não para a Câmara, eis que o mandato de senador é de oito anos.

Bolha, bolha, bolha

O alerta vem de grandes investidores. Calma lá com essa euforia nas Bolsas. Warren Buffett, um dos maiores, está se voltando para o ouro. O presidente do Bank of America no Brasil, Eduardo Alcalay, teme que os investidores mais afoitos sejam "machucados".

A campanha eleitoral I

A essa altura, tem muito candidato a prefeito querendo descobrir como fazer sua campanha. Que discurso, o que querem ouvir os eleitores, que meios usar, qual o timing para avançar etc. Pequenos conselhos: 1. Não prometer coisas que não possa fazer; 2. Escolher muito bem os eixos da identidade que precisa ser reconhecida pelo eleitor; 3. Considerar que o discurso será feito em ambiente e audiências ainda tocadas e sob o medo da pandemia; 4. Conhecer muito bem as demandas de setores, categorias profissionais e classes.

A campanha eleitoral II

5. Quando houver condições visitar bairros e regiões, sempre acompanhados de pessoas e candidatos a vereador que conheçam o bairro como a palma de sua mão; 6. Ter muito cuidado com abraços, beijos e movimentos que possam gerar contaminação; 7. Sempre que possível, fazer-se acompanhar por profissionais de saúde; 8. Deixar com o eleitor um programa de trabalho objetivo, claro, com ideias centrais fortes, e não em grande número; 9. Aproveitar bem o dia, acordar cedo, ver a agenda, reunir-se com a equipe, distribuir tarefas, conversar com candidatos a vereador, mapear lideranças e entidades com força nas regiões e gastar muita sola se sapato; 10. Usar de maneira interativa as redes sociais, evitando autoelogios.

Bolsonaro vai e vem

Pergunta recorrente: a melhoria na avaliação da imagem de Bolsonaro veio para ficar? A que se deve? Vamos à análise. O gráfico que aponta a avaliação de um perfil obedece a estes fluxos: 1. Lançamento do nome – índice alto, eis que passa a ganhar visibilidade logo após a eleição; 2. Crescimento – com a elevação gradual da visibilidade – meta que ocorre durante cerca de seis meses; 3. Consolidação, meta a ser alcançada entre segundo e terceiro anos de governo; 4. Clímax – quando o governo alcança seus melhores índices de avaliação – quando o governo vai chegando ao fim e tem um vasto e denso programa de obras e ações a mostrar e 5. Declínio – ocorre para muitos após o mandato, mas, para outros, em momentos tensos do governo. Na minha percepção, a avaliação de Bolsonaro obedece à ciclotimia. Vai e vem.

Auxílio emergencial

O auxílio emergencial é o fator mais forte para elevação da taxa positiva de Bolsonaro, principalmente na região Nordeste, onde recebeu menor número de votos na campanha de 2018. Lula, a essa altura, perde grandes contingentes eleitorais na região, pois o auxílio emergencial, futuro Renda Brasil, mesmo se baixar hoje para R$ 300,00, canibalizará o Bolsa Família. Ou seja, o programa de Bolsonaro comerá o de Lula.

Estilo popular

Por outro lado, Bolsonaro, a cada dia, veste mais a roupa do brasileiro comum. Cai nos braços do povo, põe chapéu de couro, monta em cavalo, abraça crianças, beija bebês e as toma no colo, come o que lhe dão. Ora, torna-se uma pessoa como Joaquim, Pedro, João, Mané. E sob o grito de mito, mito, mito, vai puxando a multidão para perto, mexendo com o psiquismo das massas, ativando reflexos condicionados, avolumando os contatos grupais e interpessoais. O estilo é o homem, como ensina a teoria da mistificação das massas. Abriga, ainda, uma linguagem estrambótica, agressiva, que cai bem no sistema cognitivo do eleitorado, que se identifica com ele no verbo do carão, da agressão, da porrada. Particularmente as margens. Já setores do meio da pirâmide tendem a criticá-lo.

A economia

A respeito da continuidade das avaliações positivas, costumo lembrar sempre sobre o Produto Nacional Bruto da Felicidade, o PNBF, que resulta de um ar mais tranquilo nas margens e no centro da sociedade, menos violência nas grandes e médias cidades e o bolso contendo grana suficiente para abastecer a geladeira e "encher o bucho". Tudo isso dependerá da economia, a locomotiva do Trem Brasil. As perguntas que se fazem a Bolsonaro sobre recursos que teriam sido fornecidos à primeira-dama Michele continuarão a promover querelas entre alas. E troca de disparos nas redes sociais. Mas os danos poderão ser minorados pelos efeitos eventualmente positivos da economia. A conferir.

E a pandemia?

Se a evolução da pandemia entrar em curva descendente e, mais adiante, se a vacina contra a Covid 19 chegar no fim do ano ou no início de 2021, com vacinação em massa da população, a gestão da crise, considerada desastrosa, acabará sendo canibalizada pelo fato mais recente, a vacinação. Uso muito o termo canibalização para significar um processo de amortecimento/enfraquecimento de uma situação anterior (negativa) pelo fato mais recente (positivo). O aplauso de hoje acaba fazendo esquecer a vaia de ontem. Só os setores mais racionais – classes médias – é que sabem distinguir o certo do errado, o bem do mal, a ruindade da bondade.

 

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