Porandudas políticas

Postado às 09h00 | 25 junho 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma homenagem a um empreendedor que está na galeria dos grandes perfis que construíram o progresso do país e que nos deu adeus. Um orgulho para o Rio Grande do Norte.

Nevaldo Rocha

Um homem simples que enxergava longe. De origem pobre e nascido em pleno semiárido nordestino. Caraúbas, RN. Um visionário. De uma pequena loja de costura, plasmou um império, um dos maiores pilares do varejo do Brasil, as Lojas Riachuelo. Tive a oportunidade de conhecê-lo, uma vez em seu apartamento em São Paulo, onde ouvi seu desencanto com a política. Homem de poucas palavras. Mas preciso nas convicções. Outra vez, vi-o dirigindo seu carrinho elétrico na fábrica Guararapes, sendo aplaudido por uma multidão de costureiras. Controlava tudo e todos. Seu filho Flávio me dizia: fazia questão de ir à loja todos os dias para ver o andamento das coisas. E fazia mudanças até na disposição, que não gostava, de roupas nos manequins. Pontuou sua história com bons exemplos. Não desperdiçava tempo. Vivia cada momento como se fosse o mais importante de sua vida. Sóbrio. Esbanjava simplicidade. E não gastava dinheiro à toa. Bolso fechado. Dava valor às coisas essenciais, descartando o desnecessário. Dizem que tinha dois pares de sapato: um, velho, para o dia a dia; outro, novo, para comparecer a eventos importantes. Nevaldo Rocha. Um sobrenome que indica um inquebrantável caráter.

Agora, minha costumeira introdução hilária.

Onde mora o doutor?

Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte:

 

PAGAMENTO ADIANTADO, HÓSPEDES SEM BAGAGENS E CONFERENCISTAS

Também, em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba, há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando, ao perguntar a Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação engraçada:

  • O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d' "A Noiva".

 

O inverno de nossa desesperança

O inverno chegou, deixando para trás um outono de muito desespero. O título desta nota é do clássico livro de John Steinbeck, publicado em 1961, um ano antes de ele receber o Prêmio Nobel de Literatura, que, por sua vez, puxou a expressão da primeira fase da peça Ricardo III, de Shakespeare. Em sua obra, o magistral escritor norte-americano descreve e interpreta o mundo de um homem atormentado pelos dilemas impostos pelo dinheiro e pela moral, o protagonista Ethan Hawley, empregado de uma mercearia, casado, dois filhos, convivendo em uma comunidade de baleeiros, e atormentado pela ideia de melhorar sua vida e a da família. Até onde vão os escrúpulos e a vida digna e honesta quando se trata de conseguir dinheiro? Um ser humano pode suportar a pressão de seu meio social sem romper com a ética da decência?

A lógica da pecúnia

Façamos outra leitura da ética da decência. A lógica da pecúnia é pontuada em tom de desencanto, a traduzir o dilema entre seguir a trilha da ordem moral ou buscar o conforto material para si e os seus. O tema cai bem nesse momento em que o planeta mergulha em uma catástrofe que já é considerada a maior dos últimos 100 anos. E cai bem por nossas plagas em momentos em que o tema da rachadinha ressurge no palco da polêmica. E também no instante em que avançam as negociações com o Centrão. Afinal, a tal repartição z parte ou não do DNA de nossa política? O balcão de negócios para atender às demandas de partidos que formam o centrão é coisa normal? Tem sentido discutir esse tipo de política no percurso de gigantesca pandemia que já contaminou mais de um milhão de brasileiros e matou mais de 50 mil? E o que dizer da política e de seus conjuntos que disputam assentos nos espaços dos Poderes?

Déficit de ética e pântano da moral

Questões como essas batem em nossa mente nesse início de inverno, a prenunciar tempos de desesperança. O presidente está muito isolado, a tentar administrar a tal rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, no RJ. Fabrício Queiroz, que comandava o esquema, foi encontrado na casa do advogado que até então defendia a causa do atual senador. O presidente ainda teve de se desdobrar para resolver o pepino com nome de Abraham Weintraub, já nos EUA, onde irá ser diretor-executivo do Banco Mundial. Só conseguiu entrar no país com o drible do passaporte diplomático. Comprimido entre muitas paredes, Bolsonaro negocia apoio do centrão para construir uma fortaleza de apoio em caso de pedido de impeachment. Em suma, estampam-se o déficit de ética e o pântano da moral.

Na política, um costume

Pagar a um funcionário registrado apenas uma fração e alguém ficar com o restante é crime. Roubo. Mesmo que o funcionário aceite essa maneira torta de receber seu ganho. E mesmo que a justificativa seja para formar um fundo para a próxima campanha ou ainda ajudar uma organização beneficente, de caridade. Não disponho de dados para dizer que essa falcatrua é realizada por muitos. Mas, conhecendo como são nossos padrões de política, é razoável garantir que essa prática se desenvolve em muitos lugares.

Rachadão I

Assíduo leitor dessa coluna, ante o farto noticiário sobre a rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e dando ênfase à ideia de que não quer "passar o pano" na sujeira que ali teria sido cometida no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, envia sua explicação para rachadinha ou ao que também chamo de rachadão: "Você cria um programa do governo e intitula com um nome, MAIS MÉDICOS. E aí o governo contrata médicos de Cuba ao custo mensal de R$ 11.000,00 para cada um, aproximadamente.

Rachadão II

Desse valor o governo paga ao médico apenas R$ 3.000,00, o que constitui exploração de mão de obra análoga à escrava, repassando R$ 8.000,00 ao governo cubano, a quem se subordinam esses médicos. Chegando a Cuba o dinheiro é dividido com outros protagonistas servindo para alimentar a corrupção. O programa tinha 12.240 médicos, totalizando 135 milhões por mês. Era o que podemos chamar de "rachadão", o maior do país durante anos".

E o Wassef, hein?

Frederick Wassef desistiu da causa do senador Flávio Bolsonaro. Disse que querem "destruir" a imagem dele. Fabrício Queiroz foi encontrado na casa do advogado em Atibaia. Alega que não conversava com ele. Mas confessou que o abrigou por "questões humanitárias". O presidente se queixou que o advogado "falava demais". Teme ser a bola da vez. Essa história vai rolar. Leio que os Bolsonaros estão com medo. A verdade (ou parte dela) virá à tona. Interrogações multiplicam-se. E o Centrão está de olho nas expectativas.

Desânimo?

Paulo Guedes dá ares de desânimo. Rodrigo Maia, em suas falas, expressa um tom queixoso. O melhor quadro da área técnica, Mansueto Almeida, está de saída do governo. Alcolumbre parece cansado. Tenta ser ponte de diálogo, não consegue. STF parece incomodado com os recados do governo. Os ministros não vão transigir. Alexandre de Moraes está demonstrando firmeza. Os processos que afligem e incomodam Bolsonaro dão sinais de que seguirão adiante. O Centrão tem um olho à direita e outro à esquerda. As massas estão cansadas de ouvir lorotas, briguinhas e conflitos entre alas. Seu bolso está quase vazio. O presidente demonstra aborrecimento. Parece cansado da mesmice. Trump falou para seis mil pessoas em Tulsa, Oklahoma, EUA, no primeiro comício de campanha. Fracasso. Seis mil pessoas. Leio que Trump tem dito: se eu perder farei as coisas que sempre fiz e gosto de fazer. Sinal de conformismo. E uma eventual derrota em novembro aumentará o desânimo por aqui no verão de fim de ano.

A força da palavra

Não subestimem o poder da palavra. Certa feita, um amigo do poeta Olavo Bilac queria vender uma propriedade, que considerava um sítio que dava muito trabalho e despesa. Reclamava ser um homem sem sorte. Suas propriedades davam-lhe dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do sítio. Acreditava que se ele descrevesse sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la. Olavo Bilac, que conhecia bem o sítio, redigiu o seguinte texto: "Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda." Meses depois, o poeta encontrou o amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade. "Nem pensei mais nisso. Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía". Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.

Os generais

A imagem das Forças Armadas, principalmente a do Exército, com a maior visibilidade, está em descenso. É oportuno que a cúpula dessa Força analise com acuidade a questão e reforce o conceito: sua missão é a favor do Estado, não a favor de governos. Manter a segurança, a harmonia, a paz social e a defesa do país. Deveriam ter pensado em comedimento, razoabilidade. Locupletar as estruturas com quantidade exagerada de militares é um desatino.

Os prefeitos

Muitos devem permanecer, principalmente aqueles que administraram com eficiência o combate ao novo coronavírus. Mas a revoada será grande. O sentimento de renovação grassa por toda a parte.

As mulheres

O gênero feminino está ascendendo na política. As mulheres estarão em alta no próximo pleito. Centenas serão candidatas com boas possibilidades de eleição. E muitas serão convidadas a compor a chapa como vice. Em São Paulo, o nome de uma mulher para vice de Bruno Covas (PSDB) está sendo procurado. Marta Suplicy cairia como uma luva. Mas é provável que ela venha compor uma chapa de oposição.

Nome para 2020

Ainda não apareceu um nome altamente competitivo para enfrentar Bolsonaro em 2022. Os que desfilam na passarela estão muito desgastados. E alguns são inexperientes.

O bolsonarismo

Tende a decrescer. Os bolsonaristas de raiz - firmes na ponta direita do reacionarismo conservador - continuarão firmes. Algo como 10%. Os bolsonaristas por conveniência – que votaram no atual presidente por ojeriza ao PT – tendem a procurar outro nome para enfrentar o lulopetismo. Algo como 15%. Os bolsonaristas que viram em Bolsonaro a possibilidade de corrigir certos padrões da política estão decepcionados e tendem a caminhar numa linha de independência, buscando um nome limpo, que encarne a nova realidade brasileira. Algo como 10%. São os racionais. Se as crises sanitária, econômica e política projetarem seus danos sobre o eleitorado até margens do pleito de outubro de 2022, nem candidato de extrema direita nem perfil de extrema esquerda terão chance. A polarização já deu o que tinha que dar.

O livro de John Bolton

Ontem foi lançado nos EUA o livro do ex-assessor de Segurança de Donald Trump, John Bolton, aquele do bigodão que foi recebido por Bolsonaro num café da manhã em sua casa, onde degustaram pão com doce de leite. O livro - The Room Where It Happened – coloca o Brasil no papel de coadjuvante de segunda classe. E fala mal do caráter do presidente. Deverá ter impacto (não tão forte) na campanha americana. Pequeno trecho: "O presidente elogiou Xi pela construção de campos de concentração em Xinjiang – vimos Trump fazer algo semelhante em relação à covid-19, elogiando muito a atuação de Xi, provavelmente, na esperança de preservar seu acordo comercial. Bolton descreve Trump "negociando com Xi para garantir sua reeleição".

Postado às 08h00 | 23 junho 2020 |

O GOVERNO NA CORDA BAMBA

A administração de um governo passa por cinco fases: a do lançamento, quando o governante toma posse e apresenta seus quadros; a do crescimento, quando os governos formam e ajustam suas estruturas, começam a apresentar programas e ações, em um espaço de seis meses; a de consolidação da imagem, quando os níveis de confiança ganham um patamar de respeito e credibilidade, merecendo os aplausos da sociedade; a do clímax, quando os governos sobem ao cume da louvação, com um grau de avaliação positiva que chega a beirar 70%; por último, a fase do declínio, que mostra administrações sem rumo, desestruturadas, vivendo crises e descendo pelo precipício. O ideal é que um candidato ou governante – em caso de reeleição – viva seu clímax às vésperas do pleito a se realizar, jamais antecipando o momento de declínio.

Desse traçado, advém a questão: em que estágio se encontra o governo Bolsonaro, com um ano e seis meses de vida? Deixemos que o leitor, ao final, encontre a resposta. De antemão, uma observação pertinente na ciência e na arte da política: um protagonista, a depender de habilidades e circunstâncias, pode recuperar seu vetor de peso. Dito isto, vamos às considerações.

O governo Bolsonaro está na corda bamba: enfrenta uma das maiores crises sanitárias da história do país, com o Brasil ingressando no pódio do maior número de mortos em 24 horas; na economia, a projeção para a queda do PIB este ano é de 9,7%; a crise política é aguda, tanto pelas dificuldades na formação de uma base parlamentar de apoio quanto nas tensões geradas pelo estilo intempestivo do presidente; na frente administrativa, a instabilidade se expande com a troca de ministros e tensões geradas pelo palavreado obtuso de figuras desastradas como Abraham Weintraub.

Esse quadro é ainda agravado pela agenda negativa que se desenvolve no STF. Que levará adiante o inquérito das fake news, enquanto prossegue o inquérito para apurar “a grave crise institucional”, aberta com ameaças à independência dos ministros do Supremo e a seus familiares, palavras pesadas e de baixo calão, disparos de fogos contra a sede da Alta Corte. Na esfera policial, a prisão de Fabrício Queiroz aproxima a fogueira da família Bolsonaro. Para o presidente, mexer com seus filhos é questão de vida ou morte. Atordoa sua alma.

Na paisagem da saúde, o caos está à vista. O ministro interino, Eduardo Pazuello, parece sem rumo. O ministério da Economia acaba de perder um quadro de alta referência, Mansueto Almeida, que se mostra esgotado. Os graves efeitos nessas duas linhas de ação do governo – saúde e economia – não sinalizam melhorias no curto prazo, sendo bem provável que os danos se estendam por 2021, após o clamor político que sairá da garganta dos 5.570 prefeitos, eleitos para comandar estruturas falidas e execradas pelo eleitor.

Há mais um cenário desesperador para a administração Bolsonaro. Eventual derrota de Trump na eleição presidencial de novembro deste ano pegará Bolsonaro “caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento no sol de quase dezembro” e sem saber para onde irá. O Brasil passou a ser extensão do trumpismo no mundo. O que Donald diz e quer, o chanceler Ernesto Araújo chancela e o presidente diz “amém”. Afinal “são amigos”. A ponto de Trump ter implodido o candidato do Brasil, escolhido por Paulo Guedes, Rodrigo Xavier, para dirigir o BID, geralmente comandado por um latino-americano. Será desta feita um norte-americano. O Brasil vai enfrentar a China como fazem os EUA?

E mais uma nota negativa: cai o apoio aos militares, segundo as pesquisas. Os generais, até meses atrás, encarnavam o valor do profissionalismo. Desde a saída do general Santos Cruz do governo, os que continuam no entorno presidencial endureceram o discurso. Passaram a acrescentar um viés político às falas. São extensores da linguagem desabrida do presidente. Em maio, o percentual de publicações negativas nas redes subiu para 55% e as positivas desceram para 45%. No ano passado, as positivas sobre os militares eram e 69% e as negativas, de 31%.

Voltemos à pergunta inicial: em que estágio se encontra o governo? Terá condições de resgatar seus vetores de peso nas esferas da pandemia, da economia e da política? Nos EUA, um dos fatores que derrubam Trump - com 13 pontos percentuais atrás de Joe Biden, o candidato democrata – é a má condução no combate à pandemia. Teremos até outubro de 2022 muita água a rolar por baixo dos palácios e das cúpulas côncava e convexa do Congresso. A índole de Jair Bolsonaro é um fator de conforto ou de desconforto?

Postado às 10h00 | 25 maio 2020 |

Porandudas políticas

Nesses dias de pandemia, abro a coluna com uma historinha hilária de Sergipe.

Morra tranquila, mamãe

Nas dobras do passado, Fernando Leite, filho do senador Júlio Leite, presidia a Assembleia Legislativa de Sergipe, quando Seixas Dória era governador. Seixas teve de viajar ao Rio de Janeiro, enquanto o vice-governador Celso Carvalho estava no Rio Grande do Norte, onde foi ao enterro da sogra. Fernando Leite, presidente da AL, assumiu o governo por dois dias. Passou telegrama para Deus e o mundo, para as embaixadas, federações, partidos políticos, comunicando a sua governança. Como bom filho, orgulhoso, telegrafou à mãe, internada e gravemente enferma, em um hospital do Rio:

- Mamãe, pode morrer tranquila. Seu filho é governador. Beijos, Fernando.

O estado da Nação

O termômetro social marca alta temperatura. A angústia se acumula. O medo se espraia. O uso de máscara se expande, mesmo sob a descrença e o desleixo de muitos, que costumam deixá-la sob o queixo. Os dias passados em casa puxam uma certa dormência coletiva, a trazer desânimo. O desemprego sobe. O empobrecimento é geral com perdas sentidas principalmente nas camadas da base da pirâmide. O número de mortes cresce exponencialmente. O Brasil já chega no ranking dos mais afetados pela pandemia. SP, 324 mortos em 24 horas. O estado geral da Nação é de gigantesca dúvida sobre o amanhã.

Isolamento social

O isolamento social se estreita. Mesmo sob as estatísticas mais altas, a índole nacional carrega um DNA regado pela fonte da rebeldia e pelo vento da fuga à ordem estabelecida. "Fulano, não saia porque ali adiante você vai enfrentar um tiroteio". O fulano, curioso, acaba pensando: "vou ver para crer". E escapa. Sai sorrateiramente. Ademais, a imensa desigualdade propicia mais rupturas. Afinal, os pobres e carentes têm que se virar. Como pedir para não sair de casa a alguém que não tem suprimentos, em um barraco onde habita a carência de tudo? Uma coisa é isolamento na Alemanha, no Reino Unido ou em países desenvolvidos, outra coisa é pedir para ficar em casa no Brasil.

A revelação de Marinho

O empresário e consultor Paulo Marinho jogou a bomba: a PF antecipou para Flávio Bolsonaro a operação que faria para investigar eventuais ilícitos que teriam sido cometidos pelo seu então assessor, Fabrício Queiroz. A operação foi adiada para após a eleição em 2º turno, decisão tomada para não prejudicar a campanha do candidato Jair Bolsonaro em outubro de 2018. Por que Marinho só abriu o bico agora? Por que não fez essa revelação antes? Não teria prevaricado?

Questões no ar

São perguntas que se fazem. Respostas óbvias: o empresário rompeu com a família Bolsonaro, mesmo sendo suplente do senador Flávio. Filiou-se ao PSDB de João Doria. É candidato a prefeito do Rio de Janeiro. Portanto, é evidente que a informação tem caráter político e estará no palanque eleitoral do pleito municipal. Nem por isso deve deixar de ser investigada, incluindo ilícito eventualmente praticado por Marinho por ter escondido o fato até hoje.

Centrão toma assento

O Centrão, onde estão os partidos fisiológicos (há algum que não seja?), começa a tomar assento nas cadeiras do governo. Não se acomodam nas cadeiras da primeira fila, urge reconhecer, mas em cadeiras de fileiras mais ao fundo. Mas esses cargos de segundo e terceiro escalões, nas mãos de um hábil artesão da política, costumam se transformar em balcão de oportunidades. Por isso, é do interesse de siglas que rezam pela cartilha franciscana do "é dando que se recebe". Até no espaço da Educação, mesmo sob o escudo do raivoso e contestado Abraham Weintraub, os centristas estão chegando.

Covas e o feriadão

Teste polêmico. O prefeito tucano Bruno Covas, de São Paulo, vai antecipar os feriados de Corpus Christi e do dia da Consciência Negra para hoje, quarta, e concedendo sexta como ponto facultativo. O feriadão tem o objetivo de esvaziar as ruas da capital. Será um teste para ver se essa decisão se transforma em um lockdown. Apostam, ele e Doria, na hipótese de que muito poucos viajarão nesta semana. Tenho a impressão de que pode haver refluxo de carros, mas não nos níveis desejados.

Baleia: 2 bilhões para saúde

O projeto relatado pelo deputado Baleia Rossi, MDB-SP, que garante o repasse de R$ 2 bilhões para Santas Casas e hospitais filantrópicos foi sancionado pelo governo Federal. A nova lei determina que o auxílio financeiro emergencial seja destinado para o combate à pandemia do Covid-19 nas instituições que atendem pelo SUS. Iniciativa digna de aplausos.

Incrível

Que o novo ministro da Saúde seja um médico ou uma médica, é coisa previsível e perfeitamente condizente com a praxe. Mas incluir entre os candidatos um ´youtuber´ é uma piada de péssimo gosto. Pois não é que as redes bolsonaristas estão indicando o nome de Ítalo Marsili como ministro da Saúde! É médico, sim, mas sua atividade mais importante é a de youtuber. Um médico influenciador nas redes?

Cloroquina e Heparina

Constata-se uma queda de braço entre a cloroquina e o anticoagulante heparina no combate ao novo coronavírus. Quem está levando a melhor, por enquanto, é a cloroquina, que tem como seu principal defensor o próprio presidente Bolsonaro. Trata-se de uma guerra onde as principais armas são escassas: falta de respiradores, leitos em UTI, etc. Mas a guerrilha química é a que vale. Agora é o presidente dos EUA, Donald Trump, quem diz que passou a tomar uma pílula de cloroquina por dia como medida preventiva. A ciência não dá esse endosso. O Conselho Federal de Medicina, do Brasil, discute a questão. E seu presidente, Mauro Luiz de Brito Ribeiro, aponta a heparina como mais eficaz do que a cloroquina.

Vacina

O laboratório Moderna, dos EUA, anuncia resultados promissores nos primeiros testes feitos em humanos para a vacina contra o Covid-19. Suas ações na Bolsa tiveram um salto de 241%.

Mais guerra química

Os EUA e mais alguns países iniciaram uma guerra química contra a China: estão deixando de comprar remédios naquele país, na esteira da politização que tomou conta do debate sobre o Covid-19. E se a China descobrir, antes que outros, a vacina? Os países por pirraça deixarão da adquiri-la? E assim bestamente caminha a Humanidade. É claro que nessa guerra há muito interesse - $$$$$$$$$ - em jogo.

Bolsonaro sobrevive

Este analista não acredita em impeachment do presidente Bolsonaro, mesmo que ele continue com o pavio aceso e tocando fogo na floresta. Decidiu falar para suas bases. Não quer governar para todos os brasileiros. É um direito que tem de escolher sua plateia. Mas é um erro que, mais cedo ou mais tarde, pagará. Impeachment no meio de uma pandemia seria um processo caótico. Ampliaria o volume das crises. E não haverá clima para se debater um afastamento do presidente. A impressão é a de que ele seguirá, claudicante, o seu caminho. Pode até não querer se candidatar. A depender da sua avaliação mais adiante. As perspectivas não são boas.

Mourão mais solto

O vice-presidente, general Mourão, parece ter voltado à velha forma: lépido e faceiro, dá entrevistas a torto e a direito. Conta com a simpatia de parcelas substantivas da sociedade, a partir de núcleos do empresariado.

Guedes mais contrito

Paulo Guedes, o mandão da Economia, está mais contrito, mesmo continuando com a verve azeitada. Está diante de uma projeção que o incomoda: queda de 5% do PIB este ano. Desemprego aumenta. Guedes tem afirmado que o país "foi atingido por um meteoro" se referindo ao impacto do coronavírus nas intenções econômicas do governo. Frente à crise, reformas que estavam em avaliação, como a tributária, ficaram em segundo plano. O esforço da União e dos poderes Legislativo e Judiciário se concentram em combater a epidemia.

O frio aperto de mão

Fecho a coluna com uma historinha da Bahia.

Um deputado baiano mandou cartão de Natal para uma mulher que morrera há muito tempo. A família, irritada, retribuiu com outro cartão: "Prezado amigo, embora jamais o tenha conhecido durante os meus 78 anos de vida terrena, daqui de além túmulo, onde me encontro, agradeço o seu gentil cartão de boas festas, esperando encontrá-lo muito em breve nessas paragens para um frio aperto de mão.

Purgatório, Natal de 2005.

O deputado leu a mensagem. Espera, angustiado e insone, pelo aperto de mão.

 

Postado às 10h00 | 25 maio 2020 |

O INVERNO DE NOSSA DESESPERANÇA

O título acima não é meu. É do clássico livro de John Steinbeck, publicado em 1961, um ano antes de ele receber o Prêmio Nobel de Literatura. Que, por sua vez, puxou a expressão da primeira fase da peça Ricardo III, de Shakespeare. Em sua obra, o magistral escritor norte-americano descreve e interpreta o mundo de um homem atormentado pelos dilemas impostos pelo dinheiro e pela moral, o protagonista Ethan Hawley, empregado de uma mercearia, casado, dois filhos, convivendo em uma comunidade de baleeiros, e atormentado pela ideia de melhorar sua vida e a da família. Até onde vão os escrúpulos e a vida digna e honesta quando se trata de conseguir dinheiro? Um ser humano pode suportar a pressão de seu meio social sem romper com a ética da decência?

A lógica da pecúnia é pontuada em tom de desencanto, a traduzir o dilema entre seguir a trilha da ordem moral ou buscar o conforto material para si e os seus. O tema cai bem nesse momento em que o planeta mergulha em uma catástrofe que já é considerada a maior dos últimos cem anos. Vive-se um momento em que os valores que permeiam modos e costumes da vida contemporânea são todos submetidos ao confessionário de nossas consciências.

Afinal, têm sentido a competição desvairada entre as grandes Nações, cada qual lutando vorazmente para liderar o ranking dos bens materiais, quando nenhuma delas, com seus arsenais de guerra, consegue vencer um bichinho microscópico, de nome Covid-19? Que adianta angariar grandeza se o poder estratosférico por ela propiciado não consegue sustar a corrente de milhões de pessoas infectadas e dar um paradeiro aos milhares de mortos que enchem os cemitérios? E o que dizer da política e de seus conjuntos que disputam assentos nos espaços dos Poderes?

Questões como essas batem em nossa mente nesse tormentoso outono, a prenunciar um inverno tomado pela desesperança e provavelmente pleno de interrogações. A tão aguardada vacina está chegando ou demorará um ano, dois e até cinco como se lê na mídia? O arsenal científico das Nações não consegue ter resposta convincente? Quanta fragilidade em um mundo dominado por aparatos de poder.

Ante uma paisagem deserta de respostas positivas, fenecem as esperanças. A angústia enche os corações de amargura quando nos deparamos com estatísticas de mortos, valas abertas nos cemitérios, pessoas portando máscaras nas ruas, flagrantes de um jeito esquisito de viver, coisa sui-generis para as três gerações. Mais uma imagem desenhada em nossas cabeças: a de um portentoso transatlântico que perdeu o comando no meio da borrasca, tentando se equilibrar nas ondas do mar revolto.

Por nossas águas, a sensação é da falta de rumos. Nossa bússola perdeu o norte. Na área sanitária, o desastre ocorre todos os dias, com falta de equipamentos para atender as filas gigantescas de contaminados; as UTIs estão esgotadas; os heróis do cotidiano – médicos e profissionais de enfermagem – confessam não dar conta da multiplicada demanda.

Na frente da economia, o pandemônio se instala, enquanto o paradoxo emerge com força. Desde o final dos anos 80, com a débâcle do comunismo liderado pela URSS, alinhou-se a régua econômica do planeta pelo traçado do liberalismo, com as lições de Friedrich Hayek (economista e filósofo austríaco, depois naturalizado britânico) e de Milton Friedman. Eles pregam o Estado mínimo, permitindo maior mobilidade econômica, sem centralização excessiva de decisões. Estado que zelaria pelo bom funcionamento do mercado, na esteira de leis de proteção à iniciativa privada. O monetarismo se desenvolve com força a partir da Universidade de Chicago, onde nosso atual guru da economia, Paulo Guedes, fez seus estudos.

E quando pensávamos ter um governo pautado nessa régua, com a promessa de privatizar cerca de 600 braços do Estado (criou-se até uma Secretaria de Desestatização), eis que estamos na iminência de alçar ao altar da economia John Maynard Keynes, o economista britânico (1883-1946), que pontuou sobre a necessidade de forte intervenção econômica do Estado com o objetivo de garantir pleno emprego e controle da inflação. Nessa direção, tateia um designado plano Pró-Brasil. Qual será o porte do Estado brasileiro, sob mando de um ex-capitão do Exército e cercado de generais?

Afinal, onde estamos, para onde vamos? À nossa frente, o risco de queda de 5% do PIB para este ano, com aumento desenfreado do desemprego. E há quem diga que essa pandemia tão cedo não desaparecerá.

Daí nossa desesperança. Tememos que o vento frio do inverno apague a chama bruxuleante de nossa lamparina.

Postado às 10h00 | 25 maio 2020 |

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Coisa inédita: teremos eleições este ano para as prefeituras e câmaras de vereadores e o grande evento parece coisa sem importância. Compreensível. O Covid-19, esse bichinho invisível, joga todos os outros temas no baú do esquecimento. É claro que, um pouco mais adiante, o pleito estará na mesa dos candidatos, eis que se trata de construir a base do edifício político, composta por 5.570 prefeituras e cerca de quase 60 mil vereadores.

Que não haja dúvidas. As eleições se darão este ano, mas não na data marcada de 4 de outubro, pois os candidatos e seus cabos eleitorais ainda estarão se recuperando do caos pandêmico, sendo mais provável pensar em 15 de novembro. Será uma campanha mais rígida em muitos aspectos, a começar pelo fim das coligações proporcionais. Ou seja, não veremos vereador sendo puxado pela força dos votos somados de parcerias entre siglas.

O termo rigidez se aplica a outros aspectos. No campo dos recursos financeiros, por exemplo. O dinheiro mais curto exigirá campanhas objetivas, sem rodeios, equipes restritas, sem a parafernália das mobilizações do passado. A campanha encontrará um eleitor com posicionamentos diferentes da moldura tradicional.

Qual seu perfil? Difícil apontar todos os componentes que influenciarão o sistema cognitivo das pessoas, mas é possível pinçar valores que permearão as escolhas. A começar pela carga de sentimentos sofridos no desenrolar da pandemia que assolou o país, cuja extensão poderá chegar ao final do ano. Esse danado de vírus veio para ficar. Todos, uns mais, outros menos, carregarão as marcas do susto, do medo, da angústia, da depressão, cujos efeitos impregnarão o nosso modus vivendi. Até nossas crianças continuarão a recordar os angustiantes tempos em que tinham de usar máscaras.

Como esta bagagem emotiva se fará presente no instante em que eleitoras e eleitores estarão diante da urna eletrônica? Provável resposta: escolher o perfil que melhor traduza o resultado da equação Custo x Benefício. Resultado que não significa dinheiro, bens materiais, apesar de ainda abrigarmos um contingente que vota sob esta teia. Refiro-me a outro tipo de valor: qualidade, seriedade, zelo, preparo, disposição, compromisso, inovação, despojamento, simplicidade, modéstia, coragem, contra os velhos padrões, avanço. P. S. O capitão Bolsonaro foi eleito com essas bandeiras e está mostrando ser da velha guarda. Até sua conduta no comando da luta contra a pandemia será lembrada.

Quem pode encarnar esse acervo? Qualquer cidadã ou cidadão que, sob a equação Custo x Benefício, seja a(o) mais próxima(o) do eleitor. Este posicionamento valerá tanto para o voto no prefeito(a) ou no vereador(a). Constatação: é forte a impressão de que as mulheres serão bem votadas. Ganharam bom espaço na expressão de dor em corredores de hospitais e filas nas ruas. Mas o mais endinheirado não será necessariamente o eleito ou o mais votado. Pobres, ricos, feios e bonitos, jovens e maduros, homens e mulheres estarão no tabuleiro, jogando com as pedras da mesma oportunidade.

O que pretendo dizer é que, na campanha municipal deste ano, as desigualdades diminuem, elevando a probabilidade de vermos uma limpeza geral na galeria dos retratos que ali se veem há décadas.

E o que dizer? Primeiro, evitar o óbvio ululante, do tipo de promessas mirabolantes de grandes obras, essa tradição que sai de maneira artificial da boca de candidatos. O momento exigirá criatividade. Que significa encontrar formas simples, diretas, críveis, objetivas, para dizer as coisas. Governar juntos, por exemplo, mas isso não pode ser transmitido com a carcomida locução. O candidato deve ter uma plataforma de conselhos de bairros e comunidades, maneiras de acionar frequentemente esse mecanismo (via agenda de encontros), enfim, demonstrar que efetivamente quer administrar sob o princípio da democracia participativa.

No mais, ouvir o vento do tempo. Ele passa todos os dias por nós. Traz recados. Suave ou forte, exibe em nossos sentidos o retrato da emoção e da razão do povo. Meu saudoso pai, todos os dias, da calçada onde se sentava para conversar com os amigos, às 19 horas, aprumava o faro para sentir o jeitão do tempo. Olhava para o Nascente, via barras de cores nas nuvens, jogava sua impressão para os ouvintes e arrematava: “amanhã, não, mas depois de amanhã vai chover. E fulano não é bom de voto”. 

Postado às 10h00 | 25 maio 2020 |

OS NOVOS POLOS DE PODER

As crises não se esgotam em tempo marcado. Constituem um fenômeno que perpassa a linha do tempo. Como a água corrente, que descobre as entrâncias e reentrâncias das rochas até encontrar o mar, as crises fluem ao correr das circunstâncias, gerando efeitos maiores ou menores, abrindo rumos, redefinindo caminhos. A crise sanitária, provocada pela pandemia do Covid-19, impulsionará a ação dos governos na trilha da saúde. A crise econômica provocará sequelas sobre os conjuntos sociais, abaixando o índice do Produto Nacional Bruto da Felicidade. Servirá de alerta. E a crise política já começa a deixar nossos representantes de “barba no molho”.

Se há uma consequência que soma os componentes das três crises em curso, esta é o avanço da participação social no processo político. Saturada de promessas não cumpridas, indignada com a má qualidade dos serviços públicos, descrente com as figuras que, periodicamente, aparecem no cenário como “salvadores da Pátria”, a sociedade dá um passo adiante no sentido de criticar, exigir, cobrar, querer mudar. Quer dizer, decide participar com mais força do sistema de decisões.

Em alguns países, principalmente na Europa, este direcionamento é bem desenvolvido, ganhando a designação de “auto-gestão” técnica, pela qual as pessoas escolhem seus objetivos e os meios para alcançá-los, não aceitando mais a tutela dos políticos. O sentimento é de que a água transbordou no copo. Tal tendência exibe maior organicidade social. Grupos, núcleos, setores, desencantados com os obsoletos e tradicionais padrões de operar a política, querem, eles mesmos, definir suas ações. A taxa de cidadania ganha força.

Aliás, a crítica que se faz à democracia representativa já vem de décadas. Bobbio, em seu clássico O Futuro da Democracia, descreve as promessas não cumpridas por ela, entre as quais, a educação para a cidadania, o combate ao poder invisível, as oligarquias, a falta de transparência dos governos, o acesso de todos à justiça. Estes fenômenos se somam a outros, convergindo para o distanciamento entre sociedade e representação política.

Como podemos dar outra interpretação a esse novo estado? Significa que a sociedade se organiza em entidades de referência, como sindicatos, associações, federações, grupos e movimentos. Esses são os novos núcleos de poder. Uma força que nasce nas margens, ensejando o que podemos chamar de “poder centrípeto”, em contraposição ao “poder centrífugo”, este formado pelas instituições centrais, os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, nas instâncias federais, estaduais e municipais.

Essa modelagem passa a agir como um rolo compressor sobre os Poderes constitucionais. Assim raciocina o eleitor: se meu representante ou o governante não conseguem atender as necessidades, vou bater na porta de minha entidade. Sob tal configuração, desenvolver-se-á a ação da política no Brasil, com alteração de comportamentos, mudança na feição dos protagonistas, redefinição dos pacotes sociais, redimensionamento dos recursos, reordenamento de meios e compensações para os programas regionais, etc.

Os novos horizontes, sob tal panorama, são promissores. A democracia participativa finca estacas profundas na seara social. O que vai reforçar os três instrumentos que, hoje, a ancoram: o referendo, o plebiscito e o projeto de lei de iniciativa popular. Redesenha-se, assim, uma paisagem mais fértil no campo democrático, corroborando um dos significados da expressão japonesa para a palavra crise: oportunidade. Ou seja, vamos extrair das crises a oportunidade para o país refazer o seu modus faciendi de operar a política.

Pano de fundo: o Brasil é um país de dimensão continental, com imensas riquezas naturais, não registra as catástrofes naturais que ocorrem em diversas regiões do mundo, abriga o maior e mais qualificado agronegócio do planeta, tem sol o ano inteiro na região Nordeste e um dos maiores potenciais turísticos do mundo. O que falta, por aqui, é uma taxa menor do que podemos chamar de Produto Nacional Bruto da Corrupção (PNBC).

Há outros componentes que devem entrar no jogo. A política não é selva para praticar tiro ao alvo contra animais. As disputas precisam entrar no foro do respeito e da seriedade. Os compromissos hão de ser executados. Urge deixar de lado as promessas mirabolantes, as emboscadas, a radicalização, o ódio, o terraplanismo, os ideários ultrapassados. O lema a guiar nossos passos: cada um cumpra o seu dever.

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