Porandudas políticas

Postado às 08h45 | 15 setembro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com a solidariedade em Petrópolis.

Sou solidário e não pago

Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo, em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Quando chegava a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Certa eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista:

- Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário.

- Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também.

A montanha pariu...

Eu não diria que a montanha pariu um rato. Pois os ditos expressos pela maior autoridade do país produziram um monstrengo. Coisas como essas: não vai mais obedecer à decisões do STF, principalmente se emanadas pelo ministro Alexandre de Moraes; o presidente Fux deve enquadrar seus os ministros; só sairá do governo se for "morto"; maldiz a urna eletrônica; insufla as massas, induzindo-as à desinformação, enfim, não aceita o debate democrático como balizamento do futuro do país.

Com quem está a bola?

Chutou a bola na direção dos Poderes. Garantiu que iria acionar o Conselho da República, que debate pautas como desordem institucional e quebra da ordem. Diante do fiasco de não ter participantes, desdisse o que disse. Mas as palavras de ordem contra o Supremo estão no ar. Fux deu resposta dura como se previa, mas persistem as dúvidas! O que fazer ante a um ato de desobediência à Corte? Paralisar estradas federais é um ato de antipatia que depõe contra o governo. O mundo está perplexo, não apenas o Brasil. Trata-se de flagrante quebra da ordem normativa. Os presidentes do Senado e da Câmara não têm força para levar adiante a solução do impeachment. Os partidos vão gastar saliva com discursos. E só.

Lira e Ciro longe

Arthur Lira, o presidente tem a prerrogativa de levar adiante a ideia do impeachment. Mas logo ele, que negociou a participação do Centrão no governo? Ciro Nogueira, o presidente do PP, que se impôs a condição de "amortecedor" do governo, estará longe do imbróglio, quase dizendo: afasta-me de mim esse cálice, cheio de um vinho que não entra no meu paladar. Pacheco, o Rodrigo que comanda o Senado, é o menos temeroso, mas tem o cuidado de medir as palavras para não perder a chance de vir a ser candidato de Kassab, do PSD, à presidência. Teria suspendido a pauta do Senado esta semana.

Inevitável?

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), disse que é "inevitável" a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após os atos antidemocráticos de 7 de setembro. Este analista não acredita.

Celso de Mello e Carlos Ayres

O ex-decano do STF, ministro Celso de Mello, chama Jair Bolsonaro de "político medíocre que não está à altura do cargo" e o ex-presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto diz que o presidente está sujeito a penalidades se descumprir decisão judicial.

Tempos de pressão

O ditador vai ao médico:

- E a pressão, doutor?

- O senhor sabe o que faz, meu general. Neste momento, ela é imprescindível para manter a ordem.

Um país à deriva

Do episódio de um 7 de setembro pisoteado, sobra a imagem de um país à deriva, sob as rédeas de uma família sobre a qual pesam denúncias de corrupção. Filhos dando os rumos do que poderá vir a acontecer. Comandando eventos de direita. E o pai, usando frota de aviões e helicópteros, na companhia de ministros, transformando um evento cívico em um comício privado, gastando dinheiro público e colaborando para as aglomerações em momento em que o país flagra a multiplicação da vertente Delta do coronavírus.

Enquanto vai durar?

As ameaças do capitão estão no ar. Deduz-se que seu dito será cumprido. Sob pena de mais bravata na coleção de ditos estapafúrdios. E se assim continuar, a engenharia do golpe continua ganhando peças, situação terrível se contar com o grupo de militares que agem no entorno. Generais, coronéis, capitães, olhem para o Brasil. Não se deixem enganar pelo canto de sereia na travessia de Ulisses. Um golpe hoje jogaria o nosso país dos territórios devassados pela estupidez. Urge dar um basta nessa escalada. Sociedade organizada, é a vez das entidades abrirem o verbo. Produtores e empreendedores, não deixem o Brasil seguir o caminho das trevas.

7 de setembro

O 7 de setembro, para bolsonaristas, foi aquém das expectativas. Contou-se 125 mil pessoas na av. Paulista, 6% do esperado. Não entrarei nessa. O fato é que as falas do presidente em Brasília e em São Paulo plasmaram um monstrengo. O que foi dito é uma afronta à Constituição. Sob o prisma do desrespeito, desobediência, ruptura de princípios. A CF foi jogada na lata de lixo. O que fazer para reentronizá-la? Em 2022, o Brasil comemora 200 anos de independência. Sob que acordes? Liberdade? Opressão?

Voto auditável

Ora, o voto em urna eletrônica é auditável. Quem diz o contrário é ignorante. Querem voltar ao voto do cabresto, quando milicianos entregam envelopes fechados para eleitores ignorantes depositarem em urnas? (Doutor, em que estou votando? O coronel ou miliciano responde - deixe de ser besta, você não sabe que o voto é secreto?)

Expectativa

Este analista acredita nessas hipóteses:

1. Terá início uma reação parlamentar, que vai ter ondas mais altas um pouco mais adiante.

2. Com a soma das crises - sanitária, econômica, política, energética e social (com esgarçamento do tecido social) - é possível um desgarramento dos contingentes bolsonaristas por abril/maio.

3. A crise energética, se implicar apagão, acelerará o processo de desgaste do governo.

4. O auxílio Brasil, a ser lançado pelo governo no lugar do Bolsa Família, poderá aumentar o fôlego do governo por mais alguns meses.

5. A muito custo, Paulo Guedes aguentará ilustrar sua cabeça com o boné de Bolsonaro.

6. Este analista não aposta na candidatura de Lula como contraponto a Bolsonaro.

7. As oposições seguirão divididas até o 1º trimestre do próximo ano.

8. As FFAA deverão se dividir e a parcela profissionalizante predominará.

9. A vacinação em massa veio para ficar. A pandemia será uma constante em nossas vidas.

10. 2022 - Este analista vê como possibilidade a ideia de Bolsonaro não sustentar sua candidatura até o final.

Fecho a coluna com a velha malandragem.

A malandragem

Querem saber a origem da malandragem no Brasil? Veja o finalzinho da Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal.

"E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha."

Um pedido aqui, um trololó acolá e muita bajulação.

Postado às 08h45 | 15 setembro 2021 |

O GOLPE E A RESISTÊNCIA

A escalada de tensões entre os Três poderes, uma economia rota e sem horizontes definidos, reformas encalhadas no Congresso e um presidente que insiste no confronto com ministros do STF e outros ingredientes incandescentes deixam a maioria da sociedade brasileira atônita. Seriam sinais de um golpe à vista para manter Bolsonaro e seus militares amigos no centro do poder, a exemplo de um Hugo Chávez?

Esses sinais são cada vez mais intensos depois da narrativa dos mais altos assessores do presidente, principalmente aqueles com história nas Forças Armadas. O general Heleno é um exímio mensageiro de sinais. Pois acaba de dizer que um golpe não está fora dos horizontes, claro, sob a ressalva de que um evento inusitado como esse carece do manto de alta gravidade. Bolsonaro é recorrente na lembrança da tese.

Falar, lembrar, referir-se ao golpe, sob a alegação de que, em momento como esse, as Forças Armadas estariam cumprindo papel moderador, nos termos que defende o jurista Ives Gandra Martins, ao examinar a letra constitucional em caso de impasse e tensão entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é mais que um simples ensaio interpretativo. É dar voz a um sentimento que corre nas veias de alguns núcleos. Impasse institucional?

Tensão entre os poderes é o que não falta para apimentar o caldo golpista. Mas a pimenta vem da sementeira do presidente. Apesar de se prever arrefecimento em suas investidas, os sinais são de que Bolsonaro pode recuar agora para voltar mais adiante. Há cinco investigações sobre ele em curso.

Difícil é sustentar um duelo verbal até o próximo ano. Bolsonaro vai precisar do Senado e da Câmara para fazer passar sua pauta. Sob esse terreno de dúvidas, entraremos no fim do ano com as pautas reformistas aprovadas parcialmente e todos com o olho (e o bolso) voltados para a economia. Que condição se apontaria para um golpe? Uma estrondosa vitória de Lula e ruas tomadas por grupelhos gritando palavras de ordem não aceitáveis pelas Forças Armadas? Clima de convulsão social ou apenas argumento para pôr tropas nas ruas? O Legislativo daria guarida a uma armação como essa? E o Judiciário ficaria apenas na observação?

Os talibãs do petismo, agora restritos, não teriam condições de voltar com suas bandeiras adornadas com os apetrechos do socialismo clássico. As classes médias têm, sim, condição de sustar um posicionamento radical que implique a tentativa de golpe - profissionais liberais, funcionários públicos, pequenos e médios proprietários, prestadores de serviços, autônomos, setores organizados. As margens carentes não se envolveriam diretamente em mobilizações, mas poderiam engrossar o caldo bolsonarista se o apelo maior for o assistencialismo.

No Brasil, o passado é sempre revisitado, com direito a reviver até seus hábitos pérfidos. É o caso do coronelismo do ciclo agrícola, que castigava o livre exercício dos direitos políticos. A autoridade constituída esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste país urbano, o poder público tem de pedir licença para subir o morro. O império coronelista do princípio do século passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro nas comunidades dominadas por milícias.

Por tudo isso, estamos diante de um novo coronelismo? Os currais eleitorais são comunidades miseráveis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formidável aparato.

Um caldo golpista está cada vez mais claro nas palavras de Bolsonaro. Mas um alento vem com o muro da resistência cada vez mais forte contra esta ameaça, a partir do Judiciário (de ministros que não se curvam aos impropérios do presidente), e de parte da sociedade organizada, como se viu no manifesto de mais de cinco mil empresários, economistas, intelectuais e outros contingentes formadores de opinião.

O fato é que a popularidade de Bolsonaro vai desabando ao longo do tempo. Resta saber se restará força para um segundo mandato em outubro de 2022. Ou então o muro da resistência vai assegurar uma era de paz e prosperidade, sem a participação dos extremistas de esquerda e de direita.

Postado às 08h00 | 07 julho 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do Maranhão.

Em campanha

José Burnet, chefe da Casa Civil do governador do Maranhão, João Castelo, era deputado estadual do PSD. Em 1962 candidatou-se à Câmara Federal e saiu pelo interior fazendo campanha. Chegou à cidade de Santa Helena, foi para o comício:

- Povo de Santa Helena. Eu gosto tanto desta terra, tanto, que se pudesse nascer de novo pediria a Deus para nascer aqui em Santa Helena.

Foi um sucesso. No dia seguinte estava em Pinheiro:

- Povo de Pinheiro. Eu gosto tanto desta terra, tanto, que se pudesse nascer de novo pediria a Deus para nascer aqui em Pinheiro.

Lá de trás, um caboclo, que por acaso tinha assistido ao comício da véspera em Santa Helena, gritou:

- Doutor, e Santa Helena, doutor?

- Santa Helena? Santa Helena? Santa Helena que me perdoe.

Queda de Bolsonaro assusta

A queda do presidente Jair nas pesquisas começa a apavorar parcela do eleitorado, tanto a ala bolsonarista como aquela que não vota no PT de jeito nenhum. Vamos aos dados: o IPEC, de Márcia Cavallari, que este analista conhece bem, atestando sua competência, mostra que mais da metade, 53% dos eleitores de Bolsonaro no segundo turno de 2018, pretendem trocar de candidato ou apertar as teclas de branco e nulo na urna eletrônica em outubro de 2022. E um quarto, 26%, dos votantes no capitão sinalizam o voto em Lula, enquanto 34% dos que o elegeram não votariam nele de jeito nenhum. Os dados abrem muitas projeções, principalmente a de que o ex-metalúrgico, que ainda dá as cartas no PT, poderia chegar ao pódio já no primeiro turno. E isso amedronta.

Imagens em reconstrução I

Uma parcela considerável do eleitorado continua refratário ao lulopetismo. Não vota de jeito nenhum no PT e outra parcela não vota de jeito nenhum em Bolsonaro. O que fazer? Dar tempo ao tempo. Os índices acima podem não se sustentar caso a imagem do presidente seja remodelada com a tintura de uma economia em plena recuperação e uma pandemia em estágio completo de controle. Difícil, mas não impossível. Em política, nada é definitivo.

Imagens em reconstrução II

E a imagem do petismo poderia também ser mais limpa, caso Lula consiga se redimir dos pecados, aproximar-se do centro e formar alianças que ocupem o espaço central. Os dutos da corrupção, a partir da Petrobras, foram escancarados. Difícil, mas também não impossível. Restaria uma parcela menor que, mesmo assim, não votaria em qualquer um deles. O vazio continuaria a esperar um perfil de centro.

A prevaricação

O momento não é tranquilo para Bolsonaro. O depoimento dos irmãos Miranda joga a crise no colo do presidente. A se comprovar crime de prevaricação - o fato de ter conhecimento de aquisição irregular de vacinas, com intermediação de terceiros, sem tomar providências - dispara tensões na sala presidencial. Vamos acompanhar a denúncia a ser feita por senadores da CPI da Covid-19. O centrão, pragmático, terá dificuldades em continuar com seu apoio irrestrito ao presidente, principalmente se o líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros, for envolvido. A PGR e o próprio STF terão papel decisivo nos próximos passos da CPI. Defesa de Bolsonaro: "não tenho como saber o que acontece nos Ministérios". Para que serve a ABIN? A CPI aguarda informações da PF sobre eventual pedido de investigação feito por Bolsonaro sobre corrupção na Pasta da Saúde.

O tirano

Maquiavel conta no Livro III dos Discursos sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio a história de um rico romano que deu comida aos pobres durante uma epidemia de fome e que foi por isso executado por seus concidadãos. Argumentaram que ele pretendia fazer seguidores para se tornar um tirano. Essa reação ilustra a tensão entre moral e política. Mostra que os romanos se preocupavam mais com a liberdade do que com o bem-estar social.

Quebrando a polarização

Pergunta recorrente: como quebrar a polarização entre Bolsonaro e Lula? Este analista tenta expressar uma resposta: 1. Aparecendo um perfil no meio do arco ideológico que atenue a força dos extremos; 2. Tirando Lula do tabuleiro, o que, a essa altura, dependerá dos tribunais. Ou por vontade própria; 3. Tirando Bolsonaro do tabuleiro, o que dependerá do corpo congressual, em caso de aceitação e votação de um pedido de impeachment.

Tumulto

Este analista acredita que se Lula voltar a ser impedido de ser candidato por via judicial, haverá tumulto nas franjas e no meio da sociedade; e se Bolsonaro for impedido pelo impedimento, via Congresso, também haverá tumulto, sob o risco de algum golpe de espada. Há dúvidas, muitas, sobre tal hipótese. As divisões se acentuarão.

Datena candidato?

José Luiz Datena, o apresentador da Band, fechou sua filiação ao PSL. Um dos líderes do partido, o deputado Junior Bozzella diz que Datena chega no partido para entrar nas pesquisas sobre presidenciáveis. Datena chega ao partido depois de sinalizar vontade de ingressar na arena política, desistir e, agora, de se apresentar como candidato de terceira via. Difícil de acreditar, mas o Brasil é um dos sítios mais frequentados pelo Senhor Imponderável.

Leveza

"Ao longo de seu discurso ininterrupto sobre o insustentável peso do viver, Leopardi traduz a felicidade inatingível com imagens de extrema leveza: os pássaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transparência do ar, e sobretudo a lua". (Ítalo Calvino in Seis Propostas para o Próximo Milênio).

A malandragem I

O preconceito etário continua forte. Ter 45, 50, 60 anos hoje é bem diferente do que era em tempos passados. O número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil já é superior ao de crianças com até 9 anos de idade. A população 50+ movimenta mais de R$ 1,8 trilhão, sendo a fatia com maior poder aquisitivo. Mas o etarismo permanece. E ultimamente tem sido muito comentado. A expectativa da vacina contra a Covid-19 despertou faixas etárias. Milhões de pessoas com prioridade avançaram na fila sob a batuta da malandragem brasileira.

A malandragem II

Um pouco da história da malandragem no Brasil. Final da carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal. "E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E, pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha."
Um pedido aqui, um trololó acolá e tome bajulação.

Roçados e feudos

A corrupção não foi extirpada da administração pública. Continua densa. E as máfias agem nas malhas do poder. Como se sabe, a máquina governamental se parece com uma imensa e paquidérmica porca, deitada e alimentando os filhotes. Ou, se quiserem, há roçados e feudos distribuídos a grupos partidários. Aos amigos, tudo; aos adversários, a lei.

Jung e o rei africano

Jung perguntou, uma vez, a um rei africano:

- Qual é a diferença entre o bem e o mal?

O rei meditou, meditou e respondeu às gargalhadas:

- Quando roubo as mulheres do meu inimigo, isso é bom. E quando ele rouba as minhas, isso é muito ruim.

Sommelier de vacinas

A última profissão no país é a de sommelier de vacinas, a pessoa que quer "experimentar" uma vacina em vez de outra. Ora, os infectologistas e imunologistas alertam: vacina boa é vacina no braço. Vacinem-se com as vacinas que estão à disposição. Efeitos colaterais podem (ou não) ocorrer com qualquer vacina, seja AstraZeneca, CoronaVac, Pfizer ou Janssen.

O governo do espetáculo

"O governo do espetáculo, que no presente momento detém todos os meios para falsificar o conjunto da produção tanto quanto da percepção, é senhor absoluto das lembranças, assim como é o senhor incontrolado dos projetos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina por toda a parte e executa seus juízos sumários". (Guy Debord in A Sociedade do Espetáculo).

Xexéo

Deu-nos adeus Artur Xexéo, jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo brasileiro. Deixa sua marca na paisagem da cultura. E os livros: Liberdade de expressão; Janete Clair: A usineira de sonhos; O torcedor acidental; e Hebe: A biografia. Respeitado, comentarista da Globo News e, por muito tempo, da CBN. Com 69 anos, estava internado na Clínica São Vicente, na Zona Sul do Rio. Diagnosticado com um câncer tipo linfoma não-hodgkin de célula T duas semanas atrás, teve uma parada cardiorrespiratória na sexta-feira, 25, e morreu domingo.
Minhas homenagens.

Fecho com o meu RN.

Prócer e líder

Outra historinha contada por Carlos Santos, em seu livro Só Rindo 2.

Auxiliar direto do governador Dinarte Mariz, Grimaldi Ribeiro apresenta-lhe outro político interiorano no Palácio Potengi:

- Este é um prócer político do Trairi - define.

Noutra oportunidade, utiliza vocábulo diferente:

- Governador, esta é uma liderança política da região Oeste.

Intrigado com as constantes distinções, mas sem captar a sutileza da separação, o arguto Dinarte interpela Grimaldi: "Por que uns são próceres e outros lideranças?".

Professoral, Grimaldi justifica:

  • Governador, prócer só tem pose, e liderança é que tem voto.

Postado às 08h00 | 07 julho 2021 |

POVO NA RUA, ECONOMIA E PANDEMIA

O recente pacote de denúncias envolvendo diretores e assessores do Ministério da Saúde, alguns já demitidos, incluindo um eventual pedido de propina de US$ 1 para cada dose da vacina a ser adquirida – no caso a imunizante da Astrazeneca – empareda o governo e estreita a margem de manobra do presidente Bolsonaro para evitar o impeachment. Mesmo assim, é mais que razoável apostar na hipótese de que, nas condições de hoje e permanência de sua base de apoios no Congresso, não haverá impedimento do comandante-mor. E os motivos são claríssimos: não há votos para aprovar uma medida como essa, mais ainda quando se sabe que o impeachment é uma equação política que obedece a um ritual rigoroso.

Sigamos os passos dessa liturgia. Para impedir um governante, há de se ter muito voto, não uma votação por maioria simples. São necessários 342 votos na Câmara (2/3), dos 513 deputados, e 51 senadores, do total de 81. E como se alcançam estes números? Usando a ferramenta, a única, que pode dar o passaporte de casa ao governante: povo na rua. O que não é tarefa das mais fáceis. Povo nas ruas é fermento na massa. Faz o bolo crescer. Faz o deputado sentir a temperatura social. Faz o senador examinar a saúde do presidente. Cria um gigantesco rolo compressor que ameaça as cúpulas côncava e convexa do Congresso Nacional. E põe em risco a volta do próprio parlamentar às casas das leis.

Posto isso, examinemos essa possibilidade. Partamos do conjunto de fatores que se juntam para formar a massa conceitual de um veto popular ao governante. Entre esses, incluem-se as carências sociais, como falta de recursos para viver – alimentar a família, educar os filhos, pagar os transportes, cuidar da saúde, sentir-se seguro nas ruas e em casa. Duas alavancas estão nesse momento sendo usadas pelo governo para atenuar as mazelas sofridas pelo povo: a economia, com um esforço para recuperá-la e aumentar o adjutório social (Bolsas e Auxílios) e a saúde, com a vacinação da população. O que poderá ocorrer nos próximos tempos com essas duas vertentes? Vão melhorar ou piorar? Em suma, o Produto Nacional Bruto da Felicidade aumentará ou diminuirá? Resposta em aberto.

Portanto, o eleitor, o eixo maior da engrenagem social e política, está de olho aberto para a equação. Sua ida às ruas é a  resposta de que a democracia participativa vai bem em nossas paragens. Esse mecanismo tem se fortalecido ao longo do tempo, na Europa, nos Estados Unidos e em outras regiões, sob o fluxo de conscientização política e ações em defesa dos direitos individuais e coletivos. Desenvolve-se o que podemos designar como uma autogestão técnica, que consiste na definição pelos cidadãos dos rumos a seguir e os meios que podem garantir sua caminhada.

A conscientização tem ganhado volume com a crise da democracia representativa, caracterizada por não cumprimento da agenda social pelos conjuntos representativos. O povo tem se distanciado dos políticos, até com indignação, abrindo um vazio na sociedade que está sendo ocupado por milhares de entidades de intermediação – associações, sindicatos, núcleos, grupos, setores, movimentos. Assim, a organicidade social tem sido a resposta às falhas da democracia representativa. Ou, em outros termos, a democracia participativa – que nos deu na CF o referendo, o plebiscito e o projeto de iniciativa popular – é a bola da vez, mas a pelota agora é jogada nas ruas.

 E são cada vez são menos os jogadores (eleitores) que participam de peladas patrocinadas por partidos, bandeiras e cores. A maioria quer entrar em jogos patrocinados por suas necessidades. Pavlov classifica dois grupos de instintos: os de preservação do indivíduo (impulso combativo e impulso nutritivo) e os de perpetuação da espécie (impulso sexual e impulso paternal). Pois bem, as pessoas agem para se defender das ameaças humanas e as da natureza (catástrofes) e, ainda, para garantir a saúde de seu corpo (alimento para suprir o estômago). Os dois primeiros instintos de Pavlov embasarão o caminho a ser seguido pelo povo. Economia e pandemia se cruzarão. Em suma, povo na rua vai depender das coisas boas e ruins que ocorrem ou ocorrerão nos próximos tempos sob a égide da administração pública. Maior ou menor movimentação social decorrerá dessa hipótese. O povo luta por sobrevivência. Lembrando o velho ditado: a necessidade obriga.

Postado às 08h15 | 30 junho 2021 |

Porandudas políticas

Dois "causos" hilários, antes da leitura da conjuntura.

Deu-se o vice-versa

Dr. Dantinhas, deputado da Bahia, elo de todo um clã político do Estado (neto do barão de Geremoabo), foi convidado para padrinho de casamento da filha de um coronel do sertão. No dia de viajar, recebeu telegrama:

- Compadre, não precisa vir. Deu-se o vice-versa. Menina morreu.

Puxa-sacos

Tempos eleitorais. Tempos de fidelidade e infidelidade. Guararé era cabo eleitoral do governador Sebastião Archer, do Maranhão. Convenção do PSD, alguém acusou Guararé de puxa-saco. Guararé argumentou:

- Cada um puxa quem pode. Eu puxo o senhor, governador Archer. O senhor já puxa o senador Vitorino Freire. E o senador puxa o general Dutra. É a lei da fidelidade partidária.

Tópicos sobre a conjuntura

Canalhas

O encontro do presidente Jair com jornalistas, anteontem, em Guaratinguetá/SP, mostrou o capitão nervoso e virulento. Mandou uma jornalista calar a boca, chamou outros de canalhas, fazem um jornalismo porco, atirando na CNN e na TV Globo. A postura presidencial, mesmo que não cause surpresas, sabendo-se como usa a linguagem, chamou a atenção em razão da indignação ter como motivo a manifestação contra ele no sábado último. Bolsonaro ainda tirou a máscara quando falava e arrematou dizendo que o "nove dedos" só ganhará dele em outubro de 2022 se houver fraude.

Por antecipação?

A campanha está nas ruas. Mas nem Bolsonaro nem qualquer analista, por mais arguto que seja, podem dizer quem ganhará o pleito. Veremos muita água a correr por baixo da ponte até outubro do próximo ano. Bolsonaro quer o voto impresso, quando se sabe que esta modalidade favorece fraudes. E sinaliza com uma convulsão social se a comprovação impressa do voto não for aprovada. A Câmara votará nos próximos dias o processo. Pelo que se infere das extravagâncias do mandatário-mor, ele tenta desenhar um cenário de fraudes para tentar reverter o impacto de eventual derrota. P.S. Lembre-se que ele esbravejou contra "fraude" na eleição de 2018, garantindo que ganhou no primeiro turno. A propósito, o corregedor do TSE, ministro Luiz Felipe Salomão, acaba de estipular o prazo de 15 dias para que Bolsonaro apresente provas da fraude.

Condições

Como tenho exaustivamente descrito, a vitória do atual comandante do país dependerá da economia saudável + bolsas e auxílios emergenciais + vacinação em massa da população + garantia de equilíbrio, credibilidade e segurança. Imagem de que poderá virar a mesa causará medo. A economia saudável, por exemplo, é uma variável com raízes na conjuntura internacional. A quantas andará a inflação? E o nosso PIB? O país receberá afluxo de investimentos?

Candidatos de Bolsonaro

Há um grupo, a cada dia ganhando mais corpo, que tentará se abrigar na sombra de Bolsonaro para enfrentar a tempestade eleitoral. E o próprio presidente acredita que sua sombra é como tiro e queda: quem ficar sob sua proteção, chegará ao paraíso. Pura ilusão. O eleitorado de um pleito costuma não repetir o modelo anterior. Se o presidente imagina que tudo será como 2018, quando uma leva de figurantes chegou ao pódio graças a ele, engana-se. Mesmo que consiga vencer - o quadro será bem mais difícil pela vacina ética que oxigena os eleitores - não se repetirá a situação. Tarefa das mais difíceis será eleger um candidato tirado do bolso do colete.

A mosca azul

A nota acima é um lembrete aos atuais ministros e assessores: cuidado com a mosca azul.

Salles

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é persona non grata na paisagem ambiental das Nações. É designado "ministro do desmatamento". Nas redes, o humor: há uma nova dupla caipira no mercado musical, Mata e Desmata. Bolsonaro e Salles.

Luz 15% mais cara

A crise hídrica apertará o bolso, a partir de julho, com um aumento em torno de 15% nas contas. Bandeira vermelha. Aperto no bolso, barriga roncando.

Covax, 1000%

A vacina da Covax foi comprada a um preço 1000% mais alto do que o anunciado pela própria fabricante, Bharat Biotech, seis meses antes da aquisição. De US$ 1,34 a dose, o Ministério da Saúde a adquiriu por US$ 15 por unidade. Teve intermediário. E processo acelerado.

Sonhos que se vão....

Sonhos que se esfumaçam sob o empuxo das crises sanitária e econômica. Dado de arrepiar: quase metade dos jovens brasileiros entre 15 e 29 anos (47%) pensa em sair do país para ter estabilidade e melhores condições de vida. É o que escancara a pesquisa Atlas das Juventudes da FGV Social. A maioria não pertence à classe média alta que vai para o exterior fazer intercâmbio, cursar um MBA ou garantir um diploma internacional de mestrado. Muitos dos jovens estão à procura de uma vaga de trabalho há mais de um ano e acreditam que no exterior é possível juntar dinheiro, conseguir a casa própria, um carro e ter condições financeiras para viajar e comer fora de casa.

A autoestima se esvanece

É triste constatar que a autoestima dos brasileiros está em um dos níveis mais baixos de toda a história. As populações aflitas rogam aos céus. O conceito de Pátria se esvanece. O que vemos não é o anelo comum, a união de ideais, a comunhão da coletividade na mesa da harmonia, da satisfação, das expectativas atendidas, da felicidade. A Nação, que é a congregação de valores, dá lugar ao território, o espaço físico que se torna mero habitat, onde a barbárie se instala e se estende, sob a forma da banalidade da morte, dos milhões de seres que vivem na extrema pobreza, da má gestão da coisa pública, dos precários serviços do Estado, da irresponsabilidade dos governantes. Tristeza e angústia enchem os corações.

Em São Paulo

No Estado mais poderoso da Federação, mais de um milhão de famílias vivem na condição de extrema pobreza.

Bolsonaro na CPI

O vice-presidente da CPI da Covid-19, senador Randolfe Rodrigues (Rede Sustentabilidade-AP), diz que o presidente Jair Bolsonaro será preso. O relator, senador Renan Calheiros(MDB-AL), anuncia que vai tentar inserir o presidente no rol dos depoentes. As duas sinalizações podem dar com os burros n'água. Bolsonaro se mostra um rebelde contra as normas. Como sempre lembra, faz o que quer, vai aonde quiser.

O nó górdio e o ovo de Colombo

Se a paisagem política fosse outra, as alternativas poderiam ser as mesmas que Alexandre, o Grande, e Cristóvão Colombo, escolheram para suas manobras. O oráculo prognosticara que o guerreiro que conseguisse desatar o nó que atava o jugo à lança do carro de Górdio, rei da Frígia, dominaria a Ásia. Muitos tentaram. Desistiram. Alexandre Magno, a quem também foi posto o desafio, tinha duas opções: desfazer o nó, corda a corda, ou cortá-lo com a espada. Foi o que fez. Num lance rápido, cortou o nó. Cristóvão Colombo não ficou horas tentando equilibrar o ovo em posição vertical, que era o desafio imposto. Muitos tentaram e não conseguiram. Colombo chegou, olhou, pensou. Com uma batida na extremidade mais larga, pumba, o ovo fixou-se sobre a mesa. Alexandre e Cristóvão exibiram a capacidade de antever possibilidades, quando a maioria das pessoas só enxerga restrições. Se as circunstâncias políticas assim o permitissem - derrocada da economia, falta de apoio congressual, bombas reveladas pela CPI da Covid - o nó górdio e o ovo seriam o impeachment. Este analista não acredita nesta hipótese. A não ser que o Brasil inteiro fosse para as ruas. Alternativa também complicada. O capitão tem por volta de 25% do eleitorado hoje.

A ponderabilidade

O território da ponderabilidade é vasto. Abriga tudo o que é provável ocorrer, numa escala que abriga situações com forte, média ou tênue previsibilidade. Veja-se o caso das vacinas. Mesmo com a comprovação de delitos, irresponsabilidade, compras superfaturadas, o ambiente político tende a amainar a situação dos implicados. Haverá manifestações de ruas nos próximos tempos? É bem possível, tendo em vista a estampa de indignação e a crescente participação de grupos militantes com interesse em antecipar a campanha eleitoral. A inflação poderá enervar os consumidores da cesta básica e contribuir para a desestabilização eleitoral? Se subir muito, sem dúvida. E uma virada de mesa? Golpe? Ah, coisa bem mais complexa. Terreno da imponderabilidade.

Fecho com um pouco de humor.

Farta feição

José Aparecido chegou à sua Conceição do Mato Dentro/MG, começou a romaria dos amigos. Entrou um coronel, mansos passos e chapéu na mão:

- Bom dia, doutor. Boa viagem?

- Boa. Como vão as coisas?

- Tudo correndo como de costume. Novidade aqui nunca tem e lá pra fora não sei, porque minha televisão está defeituada.

- O que é que aconteceu com ela?

- Não sei não. Às vez, farta prosa, às vez, farta feição.

(José Aparecido foi deputado Federal, ministro da Cultura, governador de Brasília e embaixador em Portugal. Excepcional figura).

Postado às 08h15 | 30 junho 2021 |

DEMOCRACIAS NA GANGORRA

As democracias padecem em ambiente de crise. Uns e outros, aqui e alhures, portando a bandeira do bem da coletividade, fazem pontuações de viés autoritário, sem excluir sinalizações de “convulsão social’, como se as massas estivessem rogando aos protagonistas com mando sobre o poder militar intervenção (um ponto fora da curva) na direção do Estado. Estaria, assim, justificado um “golpe”, um ato de força em pleno início da terceira década do século XXI.

Para não dizer que esse tipo de ameaça ocorre apenas no seio de democracias incipientes, sustentadas por instituições não plenamente consolidadas, como a brasileira, que vagueiam para lá e para cá, sob o empuxo de pressões e contrapressões, o fato ocorre também em outros sistemas. A democracia francesa é considerada uma das mais fortes do planeta, sendo considerada a que acendeu o farol da liberdade no ciclo contemporâneo. Pois bem, em abril passado, mil membros das Forças Armadas da ativa e vinte generais da reserva assinaram uma carta aberta onde afirmavam que a França estava a caminho de uma “guerra civil”, culpando “apoiadores fanáticos” pela divisão social, entre eles, os islamitas que estariam tomando conta de regiões inteiras. O país estaria em perigo. 

Quem diria que isso poderia ocorrer no berço contemporâneo da democracia? Bravata dos generais? Maneira de cutucar a onça com vara curta, melhor dizendo, alertar o presidente Macron para a imigração descontrolada? Voltemos aos nossos trópicos. Por aqui, tem sido usual a resposta da esfera política para amenizar as crises: as instituições estão funcionando. Ora, não é bem assim.

Nunca o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal, foi tão questionado e submetido a um bombardeio incessante. Ministros sendo objeto de ferrenha crítica em redes sociais e em plenário de casas congressuais, alguns considerados “suspeitos” por terem sido nomeados por fulano e sicrano, decisões que seriam de competência do Poder Legislativo, outras inseridas no bornal de recompensa a determinadas figuras.

Os legisladores, por sua vez, por mais que se comprometam em votar de acordo com as demandas sociais, acabam decidindo, por maioria, aprovar pautas do interesse do Poder Executivo, integrados de corpo e espírito ao chamado presidencialismo de coalizão, que se ancora no toma lá, dá cá. Os dribles de um lado e de outro exibem as constantes manobras para viabilizar a governabilidade, como emendas parlamentares, orçamentos “secretos” e quetais. Mesmo assim, são volumosas as tensões entre a comunidade política e o Palácio do Planalto.

As reformas, de vida tão prolongada nas pautas congressuais, ganham camadas de bolor e cores do descrédito. A própria reforma política entrou no índex das coisas imexíveis, só avançando normas defendidas pelo dono da caneta com maior carga de tinta, o presidente da República, defensor, por exemplo, do voto impresso ou coisa assemelhada, como um papel para garantir que o eleitor votou. Um demérito à urna eletrônica, que era, até então, o nosso cartão de modernidade no panorama eleitoral do planeta. Um retrocesso está para ser aprovado. Mais grana e mais burocracia.

Quando teremos apenas nove, oito ou sete partidos? Partido virou empreendimento negocial. Em função do descrédito das entidades partidárias, todas se juntam no pântano das negociações, o que motiva a permanência de 35 siglas e a tentativa de se chegar a 70. Os fundos partidários semeiam os recursos reunidos com boas votações, como se viu no caso do desconhecido PSL, que aparece hoje na linha de frente dos mais ricos. E onde estão os escopos ideológicos ou doutrinários? No baú das coisas esquecidas.

Tendo como pano de fundo esse queijo suíço, de buracos por todos os lados, o mandatário-mor, com sua índole guerreira, de atirador de vanguarda e retaguarda, bola artifícios para sustentar o tempo de seu assento na cadeira presidencial. Ganhará as eleições de 2022, garante ele,  e derrotará o adversário a quem se refere como o “nove dedos”. Por isso, prega o voto impresso, aquele tipo que, na década de 30, era a arma secreta dos “coronéis” da política. (P.S. “Seu coroné, posso abrir o envelope para saber em que tô votando? Tá doido, cabra, ocê não sabe que o voto é secreto?”)

Pergunta de fecho: seria viável um golpe no Brasil? Gasset escreveu que o homem é ele e suas circunstâncias. Eis algumas: apoio social, economia saudável, pandemia controlada, contexto internacional e imagem do Brasil, felicidade nacional líquida e ameaça de divisão extremada na sociedade. 

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