Porandudas políticas

Postado às 08h15 | 03 abril 2020 |

O JOGO DO CAPITÃO

   A politização da pandemia era bastante previsível por esses nossos trópicos. Afinal, a tensão que alimenta as correntes pró e contra o governo Bolsonaro é detectada no radar da política desde os idos eleitorais de 2018, e o comportamento açodado do chefe do Estado, nos últimos tempos, tem funcionado como lenha na fogueira. A esta altura, não há arquitetura diplomática que consiga conciliar as duas visões que impregnam o pensamento nacional.

   De um lado, a banda da intelligentzia, liderada por cientistas e especialistas, que recomenda a rígida quarentena com ênfase nas pessoas com mais de 60 anos, e, de outro, a ideia de abrir o portão travado da economia, com a volta ao trabalho daqueles que não estão na área de risco, pressupondo, ainda, a abertura das escolas e das atividades produtivas.

   A primeira linha é compartilhada pelas principais lideranças mundiais, governos e instituições, a partir da Organização Mundial da Saúde; a segunda tem na vanguarda de defesa o nosso presidente Jair Bolsonaro. Que quer jogar um jogo usando suas próprias regras. Até sua fonte de inspiração e exemplo, Donald Trump, teve que recuar de sua posição inicial – de considerar passageiros os efeitos do Covid-19, e aceitar o regime de quarentena nos Estados Unidos, que agora se transformam em epicentro da pandemia.

   A tese de que a economia fechada pode ser pior que fechar a população em suas casas é polêmica, mas a maior parte dos pensadores, incluindo os economistas, aponta como absoluta prioridade a luta para "salvar vidas". Deixemos a discussão para os especialistas e vejamos o que poderá ocorrer ao país na roça da política, a partir das duas correntes que continuarão a pelejar na arena da disputa político-eleitoral.

 Primeiro, é fato que o presidente Bolsonaro perde razoável parcela de seu vetor de forças. Os governadores fazem um cerco a ele. Os seus 30% de votos dão sinais de arrefecimento. Já não teria hoje 57 milhões de eleitores. Seus exércitos nas redes sociais já não mostram o sentido aguerrido dos primeiros meses de governo. Segundo, fortes parcelas das classes médias, que nele votaram, se distanciam de um discurso cada vez mais assombrador. Terceiro, o Congresso, mesmo disposto a aprovar as pautas de interesse do Executivo, sob a sombra aterradora do coronavírus, tende a agir com independência. Os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, fizeram duros pronunciamentos sobre a manifestação presidencial tratando da crise pandêmica.

O capitão não dá sinais de que vai mudar de ação ou de expressão. Os generais que o cercam com ele se alinham, mesmo com imenso esforço para interpretar o que ele disse. O vice Mourão até tentou dizer que ele teria se comunicado mal ao ser contra a quarentena. Ora, é contra mesmo. O ministro da Saúde, Henrique Mandetta, também tentou driblar o verbo para não desdizer o chefe. O chamado gabinete do ódio, com presença dos olavistas e do filho Carlos, é quem dá o tom do discurso presidencial.

O nó está feito. Quem poderá desatá-lo? Apenas o desfecho da crise contém a resposta. Se a curva da morte continuar a subir em escala progressiva e acelerada, os defensores de rígida quarentena elevarão sua expressão. A recíproca é verdadeira. Portanto, o resguardo da imagem presidencial está a depender da evolução – negativa ou positiva – da crise.

Os governadores, unidos na guerra contra a pandemia, poderão se transformar em grandes cabos eleitorais das eleições de outubro ( se não forem adiadas sob o calor de uma luta que deixará marcas profundas no corpo nacional). A esfera política tenderá a agir com pragmatismo. Nesse caso, mais adiante, levarão para a balança os pesos a favor e contra Bolsonaro. E se este continuar a acirrar a animosidade, terá contra ele a maioria do Parlamento. Será muito difícil ao presidente subir ao pódio de 2022 caso continue a apostar no confronto com alas contrárias e a repudiar as pressões dos conjuntos parlamentares. Claro, 2021 poderá apresentar um PIB de índice mais elevado. Esta será a esperança do capitão. Que já pode inserir 2020 em seu arquivo de tempos perdidos. Mesmo com o jogo ainda no primeiro tempo, sua posição já está reservada na galeria dos líderes mais estrambóticos do planeta.

Postado às 08h00 | 03 abril 2020 |

VAMOS VENCER A BATALHA? DEPENDE

   Deu a louca no presidente Jair Bolsonaro. A entrevista coletiva para a qual convocou 9 ministros nada mais foi do que uma de suas tentativas para transmitir a ideia de que o país tem piloto, que não está a deriva,  e é ele quem manda em matéria de ataque ao Covid-19, e não o ministro da Saúde, Luiz Mandetta. Foram hilariantes as cenas da máscara, que sempre escapulia das orelhas quando Sua Excelência tentava recolocá-las depois de tirá-las para falar. Contrariou as indicações médicas para sua manipulação. O que revela apenas a intenção de convencer plateias de que é uma pessoa prevenida.

  As revelações dos ministros, fora uma ou outra informação do ministro Paulo Guedes, planaram sobre as nuvens das generalidades. O evento, enfim, foi uma peça circense mal ensaiada. Uma pantomima. E não contribuiu para a maré de improvisação que assola pedaços do território, às voltas com carência de equipamentos essenciais para enfrentamento do coronavírus. Merece consideração o esforço do ministro Mandetta para pôr em ordem  a estrutura da saúde, mas o porte do país e a agilidade como o vírus se propaga atrapalham a eficácia das ações.

  A mensagem desesperadora de uma brasileira chegando no aeroporto de Guarulhos, vinda de Verona, resume a situação: “guarda, acabo de chegar da Itália, país que é o centro da epidemia na Europa e vocês nem medem nossa temperatura”? “Não, senhora, não temos equipamento para fazer isso”. Projeções de consultorias apontam que o Brasil, logo, logo, chegará aos 20 mil contaminados. Meados de abril.

  Temos de considerar, para efeito de combate à pandemia, a precária situação das margens sociais, cercadas de carências: saneamento básico, proximidade de barracos e favelas, transportes abarrotados, estabelecimentos hospitalares sem equipamentos e condições de atendimento às demandas, entre outros fatores. Mas a questão de fundo, a permear a boa ou a má aplicação das orientações, é o ethos nacional, a maneira de ser, pensar e agir do brasileiro.

  Por nossas plagas  grassa a desconfiança, estiola-se a crença nas autoridades, quebram-se a todo o momento os elos da cadeia normativa. “É para fazer isso conforme prescreve a lei?” Mesmo tendo um olho no malfeito, o transgressor não quer saber. Pratica o que acha mais conveniente. E o bom senso não é respeitado? Apenas quando não fere o que a pessoa acha seu direito. Por isso mesmo, o advérbio talvez é mais apreciado do que a certeza impressa na cultura anglo saxã: sim, sim ou não, não. (Experimente perguntar a um brasileiro quantas horas trabalha por semana. Resposta tende a ser: “trabalho mais ou menos 40 horas”).

  Em suma, há um mais ou menos induzindo a execução das orientações dadas para combate ao coronavírus. A margem de manobra exibe uma curva entre 30% a 50% ao que deve ser feito de acordo com as recomendações. Ora, se o presidente da República, no mais alto pedestal das autoridades do país, é o primeiro a descumprir regras, por que eu, simples cidadão, devo ser reto como uma régua? Esse argumento circula no sistema cognitivo nacional. (Lembrando: Bolsonaro se referiu ao coronavírus como “histeria”, “exagero da mídia”, “fantasia” e enxergou até uma luta clandestina de grupos que querem desestabilizar seu governo).

  Dessa forma, a flexibilidade, nata no ethos nacional, como podemos ler em grandes autores, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, poderá ser um empecilho para o governo Jair Bolsonaro chegar a bom termo. As relações com o Congresso continuam tensas e não há no horizonte sinais de melhora. O entorno presidencial foi acometido da doença da onisciência que baixa nas cortes. Tudo que emana do pensamento do soberano vem adornado com o véu divino. Não pode ser contestado.

  Pergunta de pé de página: “mas o Brasil poderá ser eficaz no combate ao coronavírus, mesmo sob o estardalhaço da linguagem bolsonariana?” Resposta: a depender do grau de conscientização da população. Para tanto, devemos nos livrar do enquadramento a que fomos jogados na moldura dos quatro tipos de sociedade no mundo: o primeiro é a sociedade inglesa, onde tudo é permitido, salvo o que for proibido; o segundo é a sociedade alemã, onde tudo é proibido, salvo o que for permitido; o terceiro é a totalitária, ditatorial, onde tudo é proibido, mesmo o que for permitido; e o quarto tipo é a brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que for proibido.

Postado às 08h00 | 03 abril 2020 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com algumas questões que estarão no ar nos próximos tempos:

 

1. Quais são as grandes lições trazidas pela pandemia do covid-19?

2. Como serão as relações internacionais nos tempos do amanhã?

3. A globalização tende a ceder espaços ao nacionalismo e fechamento de fronteiras?

4. Como serão tratados os refugiados?

5. Que ferramentas da democracia serão aperfeiçoadas?

6. A família, como célula mater, ganhará destaque na nova paisagem?

7. Quanto tempo o mundo terá para recuperar perdas nos PIBs das Nações?

8. O mundo do trabalho será bem diferente do que temos hoje?

9. A China tomará o lugar dos EUA como primeira potência econômica?

10. E quais as áreas das ciências e da tecnologia ganharão grandes avanços?

Diego e o mar

"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava frente a seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!

(Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços)

Crise dentro da crise

Alastra-se uma crise dentro da crise da pandemia. E o presidente da República é o fator gerador. Ele defende o isolamento vertical - apenas dos idosos – e volta às atividades das pessoas abaixo de 60 anos. Seu ministro da Saúde, Luiz Mandetta, seguindo recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), defende o isolamento social, afastamento de todos das ruas, forma que tem sido adotada pelas Nações mais poderosas do mundo. Como um ministro tem visão diferente? Por usar critérios científicos e racionais. Como um presidente vai na onda contrária? Por temer, diz ele, uma convulsão social, com saques a supermercados e lojas, se houver desabastecimento do mercado.

Moro e Guedes

E o que pensam os dois ministros mais afamados (antes do Mandetta), Sergio Moro, da Justiça e Segurança, e Paulo Guedes, da Economia? Mostram-se favoráveis ao isolamento social, na linha divergente da defendida por Bolsonaro. Já o entorno militar, conforme se pode depreender da nota feita pelo assessor do GSI, general Vilas Bôas, ex-comandante do Exército, apoia a abordagem de Bolsonaro. O empresariado está dividido. As redes sociais, idem, mas o teor crítico ao presidente tem se mostrado mais forte. As bases bolsonaristas se agitam para responder à onda negativa. Uma questão levantada: se até o ídolo Donald Trump teve que recuar e estender o isolamento social até 30 de abril, porque seu pupilo, Jair, não faz o mesmo? Birra.

Encurralado

O fato é que o presidente parece um animal acuado. E como é previsível numa fera cercada por outros animais, tende a atacar. Agirá com a síndrome do touro: pensa com o coração e ataca com a cabeça. Quem levará a melhor? Ele tem a arma capaz de matar: a caneta. Pode simplesmente dizer: "quem manda sou eu. Vocês estão fora". Fácil, não? Difícil. Muito difícil. Tirar um ou dois ministros nesse momento seria jogar um tonel de pólvora na fogueira. Mesmo sem clima para impeachment, o tema agitaria a esfera congressual. O país, já tenso, veria o fogo aumentar. E não espere Bolsonaro que as massas acorrerão para salvá-lo. Movimentos pequenos, certamente.

Para onde vamos?

Eis o X do problema. Uma linha com o mínimo consenso tem de ser encontrada. Bolsonaro pode simplesmente lavar as mãos se continuar com as perdas que seu governo registra no Judiciário, onde o STF tende a dar ganho de causa a governadores e prefeitos, entendendo que cabe a essas esferas o poder de decidir sobre isolamento, a partir da área técnica federal, concentrada no Ministério da Saúde. Temos duas, no máximo, três semanas para vermos o desfecho dessa pendenga. O pano de fundo para a vitória dessas linhas de ação será o próprio cenário nacional e internacional da pandemia. Bolsonaro, a essa altura, surge na paisagem das Nações como o governante mais destrambelhado da atualidade. Não será fácil redecorar sua imagem.

E a economia?

Há uma parcela ponderável de pensadores – empresários, economistas, comerciantes – que sinalizam a necessidade de se cuidar da economia. Não deixar que o remédio se transforme em veneno. Daí a urgência em amparar os setores mais frágeis, os trabalhadores informais, o pequeno comércio, os prestadores de serviços. Sem produtos essenciais no mercado, os consumidores poderão criar uma rebelião. Uma catástrofe dentro da catástrofe. Daí a necessidade de adotar o bom senso. As duas vertentes – saúde do povo e saúde da economia - podem ser trabalhadas simultaneamente. Não são excludentes. O importante é que o STF e o Congresso já deram sinal verde para se gastar o que for necessário, saindo da Lei da Responsabilidade Fiscal.

São Paulo

O governador João Doria, de São Paulo, está praticamente voltado para administrar a pandemia no Estado. Todos os dias, em regime de mutirão permanente, faz reuniões, libera recursos, inspeciona hospitais de campanha que estão sendo instalados sob a ordem de urgência, dá entrevistas coletivas, em total transparência. Tem sido bastante elogiado por sua agilidade e conjunto de medidas adotadas. Trabalha em consonância com o prefeito Bruno Covas, que já transferiu sua cama para o próprio gabinete na prefeitura. O que provoca por parte dos adversários ataques com a sordidez das emboscadas. Cenas ocorridas há muitos, do tempo em que Doria dirigia a Embratur, mentiras e versões maldosas. A fábrica de destruição de reputações, alimentada por figuras plantadas no centro do poder, trabalha as 24 horas do dia.

Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel também lidera o exército de combate à epidemia. Inclusive, mostra-se disposto a estender a quarentena. Vê-se ali uma clara divergência entre o prefeito Marcelo Crivella e o governador. O prefeito alia-se ao presidente Bolsonaro e a seus filhos.

Minas Gerais

Uma dúvida é sobre o que pensa o governador de MG, Romeu Zema. Foi o único do Sudeste que não assinou um documento encaminhado ao governo Federal. Nos últimos dias, deu sinais de recuo e tende a concordar com o isolamento social.

Nordeste

Já os governadores do Nordeste estão unidos nas estratégias e ações. Fecharam posição a favor do isolamento social e pleiteiam recursos do governo Federal. A poderosa bancada nordestina oferece respaldo ao conjunto de governadores.

Bruno, sensível aos empregos

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, decidiu manter os serviços de limpeza na cidade, por entender que eles propiciam enorme contribuição ao combate à disseminação da pandemia do novo coronavírus, além de manter a empregabilidade e a renda de milhares de pessoas das classes sociais menos favorecidas. Por isso, o SEAC (Sindicato das Empresas de Asseio e Conservação no Estado de São Paulo), ao lembrar que o setor é o maior fomentador de emprego e renda do país, encaminhou um documento com os agradecimentos à sensibilidade do chefe da municipalidade.

Fantasma do desemprego

Diz o texto, assinado por Rui Monteiro e Carlos Guimarães, respectivamente presidente e vice-presidente do sindicato: "a atividade tem enfrentado dificuldades severas para a manutenção do emprego e renda de seus colaboradores em decorrência da decretação de confinamento da população, que vive um isolamento social jamais presenciado. Reconhece que esse isolamento é indispensável para o combate à pandemia e causa danos severos à população paulista, não apenas pela contaminação e suas consequências à saúde, mas também pelo fantasma do desemprego e ausência de renda para o sustento das famílias". Ressalta que o prefeito determinou a manutenção regular dos pagamentos dos contratos, como medida a contribuir para a manutenção do maior volume de empregos, evitando demissões em larga escala.

Postado às 08h15 | 17 março 2020 |

O PÂNICO SE INSTALA

A vida é um eterno recomeço. Fosse escolher a lenda que mais se assemelha à sua vida, provavelmente o povo brasileiro colocaria a história do castigo de Sísifo entre as preferidas. Sísifo, que viveu vida solerte e audaciosa, conseguiu livrar-se da morte por duas vezes, sempre blefando. Rei de Corinto, não cumpria a palavra empenhada, até que Tânatos veio buscá-lo em definitivo. Como castigo, os deuses o condenaram impiedosamente a rolar montanha acima um grande bloco de pedra. Quase chegando ao cume, o bloco desaba montanha abaixo.

A maldição de Sísifo é recomeçar tudo de novo, tarefa que há de durar eternamente.

O povo se sente no estado de eterno recomeço. Padece das previsíveis tragédias provocadas por chuvas, com mortes que sobem no ranking das catástrofes; angustia-se nas filas do INSS; vê o dinheiro sumindo do bolso com a economia em recuo; e, agora, passa a temer com a foice da morte, que aparece aqui e ali escondida na forma de um vírus, de nome coronavírus, que não escolhe vítimas, atacando ricos e pobres. O mundo todo está tomado de pavor.

O pânico que começa a se alastrar deflagra uma cadeia de eventos e situações inesperadas. O corpo social é ferido de todos os lados. Suspensão de aulas, com efeitos sérios sobre o cronograma da vida escolar; diminuição de aglomerados e mobilizações de ruas e ambientes fechados, apesar de grupos com a síndrome do touro (arremetem com a cabeça e pensam com coração) não se incomodarem com isso; isolamento em casa ou em estabelecimentos hospitalares em quarentena, com semanas perdidas de trabalho; paralisação parcial de setores vitais da produção e dos serviços, perdas monumentais para a economia; débâcle das bolsas mundiais e da brasileira, que já perdeu cerca de 1 trilhão de reais com a desvalorização das companhias ali presentes; falta adequada de respostas à pandemia, seja por insuficiência das estruturas de saúde governamentais e privadas, seja por ausência de planejamento para enfrentar a crise.

Ao fundo desse panorama de desolação, enxergam-se paisagens de destruição, pequenas e grandes catástrofes: afundamento de barcos nos rios, quedas de barreiras nas rodovias e desabamento de casas; escândalos envolvendo governantes, políticos e empresários; ameaça de novos impostos; tensões acirradas entre os três Poderes; politicagem que se acentua em ano eleitoral, entre outros.

Os efeitos são catastróficos, pois o sistema de vasos comunicantes acaba contaminando os poros da alma nacional, inviabilizando aquele espírito público, fonte primária do fervor pátrio, que Alexis de Tocqueville, há quase 200 anos, constatou no clássico A Democracia na América: “existe um amor à pátria que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível que liga o coração do homem aos lugares onde o homem nasceu. Confunde-se esse amor instintivo com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado; aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que se tem à casa paterna”.

Que amor à Pátria pode existir em espíritos tomados pelo pavor, pela violência de tiros a esmo, mortes por balas perdidas, marginalidade comandada de dentro das prisões? Que espírito público pode vingar no seio das massas quando grupos polarizados teimam em querer dividir o país em duas bandas, impulsionando os eixos da discriminação e bradando contra a liberdade de imprensa?

Brasileiros motivados a emigrar para realizar o sonho de uma vida melhor na América do Norte voltam à terra,  expulsos, algemados, estampando frustração. Emigrar foi para eles a opção de milhares nesses tempos bicudos. Hoje, retornam à casa sob  angustiante interrogação: o que vou fazer?

Onde e quando chegaremos ao andar da estabilidade? Por que a economia não melhora o nosso viver? Um fato: as margens embolsam seu dinheirinho no início de cada mês e, ao final, contam migalhas. Para piorar, com esta crise nas bolsas, viver sob a ilusão de ganhos inflacionários já não mais faz a cabeça do poupador.

A verdade é que o fator econômico dá o tom das nossas vidas. Consequentemente, os serviços sociais ficam com poucos recursos. O processo de reformas nunca chega ao fim. Mudanças na política? Quem sabe? Poderemos ver mais um levante em outubro próximo. Parecido com o que vimos em 2018.

Postado às 08h00 | 12 março 2020 |

Porandudas políticas

Antes das notas sobre a gravidade do nosso momento, um pouco de humor.

Ô jardineira...

Na cidadezinha do norte do Rio de Janeiro, a procissão de Senhor Morto caminhava lenta e piedosa, na sexta-feira da Paixão, com o povo cantando, de maneira compungida, os hinos sacros. O velho padre na frente, o sacristão ao lado e os fiéis atrás, cantando as músicas que o vigário puxava. De repente um pequeno ônibus, que na região chamam de "jardineira", passou perto e começou a subir a íngreme ladeira da igreja, bem em frente da procissão. No meio da ladeira, a "jardineira" afogou, encrencou, parou, deu aceleradas fortes e inúteis e começou a dar marcha-ré. Os fiéis não viram, mas o padre, atento, ficou apavorado. A "jardineira" já despencava numa grande velocidade. O padre gritou:

– Olha a jardineira!

E os fiéis começaram a cantar, em ritmo de samba:

– Ô jardineira, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.

A "jardineira" descambou ladeira abaixo, até que parou. Não atropelou ninguém. Sob o olhar do Senhor Morto! Mas os fiéis não aguentavam de tanto rir.

Chegando ao pico da gravidade

A situação é mais grave do que os fatos aparentes indicam. Os fatos: uma denúncia feita pelo presidente Jair Bolsonaro em sua viagem última aos Estados Unidos. Disse de maneira clara, sem meios termos, que foi eleito no primeiro turno das eleições de outubro de 2018. Portanto, o pleito foi fraudado. Antes de sair do Brasil, em Boa Vista, Roraima, convocou o povo a ir às ruas em 15 de março. Intenção: mobilizar suas bases. E mais: a pandemia do coronavírus é mais uma fantasia. A crise das bolsas? Ah, para ele é coisa normal. P.S. Vejam a normalidade: entre 23 de janeiro e o pregão de segunda-feira, as companhias listadas no Ibovespa perderam R$ 1 trilhão em valor de mercado.

Militares incentivando

Os círculos militares, ao que se parece, incentivam o acirramento. Ontem, terça, o presidente do Clube Militar, general da reserva Eduardo José Barbosa criticou o que designou de "parlamentarismo branco", afirmando que o Congresso está tentando desempenhar uma função atribuída ao Executivo. Na segunda-feira, a associação divulgara um comunicado de "solidariedade" aos atos convocados para o dia 15 de março em apoio ao governo do presidente.

General Heleno

O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, aparecia na abertura do governo como o conselheiro-mor, a voz do bom senso, a balança da moderação. Depois da desastrada fala em que disse que os parlamentares "chantageiam", o general passou a ser visto de maneira atravessada pela esfera congressual. Os fatos estão a mostrar que interessa ao Executivo, a partir de seu núcleo duro, o acirramento da polarização, o que abre algumas linhas de pensamento.

A economia na ladeira

O primeiro argumento que se põe sobre a régua da análise é o fator econômico. Se a economia continuar a não dar os resultados tão esperados, e a falta de dinheiro no bolso apertar os estômagos, seria do interesse do Executivo pôr a culpa no Congresso. As bases bolsonaristas tomariam as ruas e a campanha de 2022, com o prelúdio de outubro deste ano, seria antecipada. Especula-se, até, com a saída de Paulo Guedes, que resultaria em caos político.

O coronavírus

Ao dizer que o coronavírus é mais fantasia, Bolsonaro aposta na administração da pandemia, com efeitos positivos no curto prazo. Uma aposta e tanto. E se recrudescer em nível internacional, poderá fazer a comparação com o Brasil. Se recrudescer por aqui, apontará novamente culpados na área política. Pelo visto e revisto, o capitão segue rigidamente a cartilha militar, com olhos no endurecimento, combate às esquerdas, eliminação das oposições. O quadro é tétrico. Quando se imagina que o mandatário-mor da Nação vai expressar uma palavra de paz, harmonia, equilíbrio, lá vem ele com mensagem de guerra.

TSE refuta, mas e daí?

O Tribunal Superior Eleitoral rebate a declaração do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que a eleição de 2018 foi fraudada e reafirma que o sistema de urnas eletrônicas é confiável e auditável. "Ante a recente notícia, replicada em diversas mídias e plataformas digitais, quanto a suspeitas sobre a lisura das eleições 2018, em particular o resultado da votação no 1º turno, o Tribunal Superior Eleitoral reafirma a absoluta confiabilidade e segurança do sistema eletrônico de votação e, sobretudo, a sua auditabilidade, a permitir a apuração de eventuais denúncias e suspeitas, sem que jamais tenha sido comprovado um caso de fraude, ao longo de mais de 20 anos de sua utilização", afirma o TSE, presidido pela ministra Rosa Weber. O texto tem também a autoria do ministro Luís Roberto Barroso, que assume o posto em maio. Os dois defenderam pessoalmente a segurança do sistema eleitoral brasileiro. Mas isso adianta alguma coisa? Onde estão as provas? E o que dizem as entidades de renome da sociedade civil?

Para onde vamos?

A repetição de expressões que provocam polêmica e geram tensões não vai parar. A índole presidencial não é de paz. E o capitão parece disposto a prosseguir nessa rota de tensões e rompimento de barreiras diplomáticas entre os três Poderes. Se o Congresso não avançar no capítulo das reformas, ficará com a pecha de ser contra o Brasil. Bolsonaro entraria de vez na vestimenta do embate, iria às ruas comandando suas tropas e algum impasse institucional ficaria à vista no horizonte. Onde está o bom senso das tropas?

O parlamento

Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, pisam em ovos. Qualquer votação que possa ser considerada derrota do governo será fatalmente usada como argumento de que o Congresso atrapalha, dando vazão a essa última acusação feita pelo presidente do Clube Militar. Paulo Guedes perdeu força junto aos parlamentares. O general Luiz Eduardo Ramos, da articulação política, ainda não tomou rumo. O general Walter Braga Netto, que assumiu a função de coordenação dos ministérios, toma pé no terreno espinhoso.

O trunfo é paus

A frase mete medo, mas é necessária. Thomas Hobbes dizia: "Quando nada mais se apresenta, o trunfo é paus".

Maquiavel

"Um príncipe precisa usar bem a natureza do animal; deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos". Conselho do velho Maquiavel, que arremata: "não é necessário ter todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las."

Efeitos no meio da pirâmide

Que efeitos a estratégia de Bolsonaro e seu entorno terá junto a alguns estratos sociais? Vejamos. Quem acompanha de maneira mais atenta os fluxos e refluxos da política são os grupamentos que integram o meio da pirâmide. Aí estão as classes médias. O núcleo mais expressivo é formado pela intelligentzia, professores, acadêmicos, comunicadores, profissionais liberais, estes repartidos em uma miríade de constelações. As mais progressistas circulam no campo da produção e disseminação de ideias. Núcleos mais contrários ao governo de direita conservadora, que tendem a expandir sua indignação.

Setores conservadores

Mas há um forte nicho conservador no meio da pirâmide, particularmente representado por proprietários rurais, pequenos e médios comerciantes, empresários do setor urbano, redutos tradicionais que anseiam por ordem e disciplina, entre outros. É evidente que exercem influência em seu entorno. Tendem a reforçar o discurso autoritário do capitão. E, claro, há os ativistas e militantes que voltaram a circular no roçado da política. As pesquisas mostram que cerca de 30% do eleitorado estão na órbita do bolsonarismo. Mas contingentes que nele votaram se afastaram. O mandatário perdeu parcela de seu núcleo.

As margens

As margens periféricas são pragmáticas. Se o bolso puder arcar - e bem –com as despesas, Bolsonaro será prestigiado, com amplas possibilidades de vir a ser contemplado com o voto mais adiante. A recíproca é verdadeira. Fatores de influência: desemprego, economia na ladeira, fila do Bolsa Família, fila do INSS, renovação do Fundeb, endemias e pandemias. O governo e os políticos tendem a ser o alvo das coisas ruins que ocorrem no terreno das massas.

Coisas ruins? Fantasia

Em suma, o presidente Jair Bolsonaro acha que tudo vai às mil maravilhas; que seu governo é o melhor de todos os tempos (Lula também dizia a mesma coisa de seu governo); que o Congresso e o Judiciário atrapalham; que a imprensa é mentirosa; que os jornalistas são uns pândegos; enfim, que as coisas ruins não passam de ficção. Guerra do petróleo? Besteira. Coronavírus? Fantasia. Baque das bolsas? Exagero. E tome fala desembestada.

Fecho com uma pequena lição.

Esmagando o passarinho

Inflamado, o candidato eleva a fala no palanque. Argumentava que o povo livre sabe escolher seus governantes. Para entusiasmar a multidão, levou um passarinho numa gaiola, que deveria ser solto no clímax do discurso. No momento certo, tirou o pássaro e com ele, na mão direita, tascou: "a liberdade do homem é o sonho, o desejo de construir seu espaço, sua vida, com orgulho, sem subserviência. Deus (citar Deus é sempre bom) nos deu a liberdade para fazermos dela o instrumento de nossa dignidade; quero que todos, hoje, aqui e agora, comprometam-se com o ideal da liberdade. Para simbolizar esse compromisso, vamos aplaudir a soltura desse passarinho, que vai ganhar os céus". Ao abrir a mão, viu que esmagara o passarinho. A frustração por ter matado o bichinho foi um anticlímax. Vaias substituíram os aplausos. Foi um desastre. Assim é o fim de candidatos que não controlam a emoção.

 

Postado às 08h00 | 27 fevereiro 2020 |

A vaca, o vampiro e o pinóquio

   No momento em que o Brasil entra de corpo e alma na folia carnavalesca, vêm à mente três seres que resumem o repertório de conceitos, mazelas e problemas que devastam as esferas da gestão, da política e da economia. São eles: a vaca, o vampiro e o Pinóquio. A vaca é a Grande Mãe, a deusa que, para o homem primitivo, se repartia nos rios, nas árvores, nos fenômenos naturais e que, entre nós, assume também a posição de entidade que encobre, abriga, defende, acalenta, aconchega.  A vaca é o próprio Estado, que acaba oferecendo suas tetas para milhares de brasileiros sugarem o leite. Muitos até que merecem, pois são exemplos de bons profissionais. Bolsonaro tenta cortar o acesso dos políticos às tetas do bovino, mas a lei de São Francisco é mais forte.

   O Estado brasileiro jamais deixou de ser considerado por parcela significativa da elite política “cosa nostra”, núcleo do domínio da Grande Família, dos donos do poder, que cultivam o filhotismo, o nepotismo e o familismo, transformando a função pública em patrimônio pessoal. O país ainda é capenga em matéria de gestão do Estado, cujos pilares repousam em critérios de mérito, racionalidade, controles, transparência, qualidade de serviços e descentralização. São milhões de servidores públicos – mais de 10 milhões - nas três instâncias federativas.

   A mamãezada, que, segundo Antônio Houaiss, é o “descaso ou conivência dos responsáveis que dão cobertura a subordinados, em caso de imoralidade no serviço público”, constitui a base da muralha que esconde desvios e atos ilícitos, parte dos quais apareceu na mesa da Lava Jato. Eliminar essa chupeta com os instrumentos da modernização do Estado, implicando nova metodologia para composição dos quadros públicos, é desafio permanente dos governos. Não adianta apenas fundir ou enxugar estruturas sem que esse gesto leve a um profundo corte nos 10% do PIB consumidos na administração pública. A vaca precisa evitar que bezerros estranhos invadam seu curral.

   O segundo ente a ser eliminado é o vampiro. O sugador de sangue só aparece na calada da noite, quando a escuridão profunda invade os espaços. O país, de norte a sul, é povoado de vampiros. São encontros na surdina para conluios, emboscadas, negociatas, tramoias contra o Estado. E assim o sangue da Nação é sugado. A receita para eliminar a vampiragem é única: raio de sol. Maços de alho e crucifixos não são suficientes para afugentar vampiros. Com luz na cara, eles correm para suas tumbas e caixões, não se aventurando a arreganhar os dentes. Em suma, escancarar as administrações. Dar transparência aos atos. 

   Por último, resta cortar o enorme nariz de Pinóquio, o boneco que domina os palcos da política. Pinóquio é a encarnação do Estado-Espetáculo. Da autoglorificação e também da mentira. Essa concepção deriva do conceito de política como teatro. Remonta aos tempos antigos, mas ganhou força a partir dos meados do século passado, com as campanhas políticas norte-americanas. Hitler recebia aulas de declamação. Mussolini inflava seu personagem. Considerava-se um perfeito ator.

   No Brasil, a oratória ensinada pelo marketing é um exercício de prestidigitação. O importante é a versão, não a verdade. E hoje as fake news invadem as redes sociais.  A palavra é usada para encobrir o pensamento, driblar a intenção. Hordas de radicais, pagos, incluindo empresas especializadas em difundir mentiras, se expandem. A verdade pouco aparece em locuções encadeadas com sujeito, verbo e complemento. O reino do Pinóquio ocupa todos os espaços.  Arabescos, cosméticas exageradas, jargãos, discursos retumbantes e mentiras repetidas – esse é o dicionário usado por Pinóquio. O serrote para cortar o nariz de Pinóquio é a consciência. Façamos uso dela. 

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