Porandudas políticas

Postado às 08h45 | 14 outubro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha que me foi contada pelo ex-senador Ramez Tebet, saudoso amigo.

Por ocasião da criação do Estado do MS, em 1979, a população de Campo Grande ficava assombrada com a caravana dos 17 grandes carrões pretos dos deputados estaduais que paravam diante da Assembleia Legislativa. Os carros ganharam logo o nome de "besourão" e, ao passarem pelas ruas, as pessoas logo faziam o sinal da cruz, na tentativa de afastar o medo daqueles carros que mais pareciam transporte de defunto. Ninguém se atrevia a andar num carro daqueles. Até que um dia, ao comparecer ao velório de um correligionário, numa cidade do interior, dirigindo um desses carros, o então deputado Ramez Tebet teve que atender ao pedido da família do defunto. Queriam por que queriam que o defunto fosse levado naquele carro. Nessa hora, não dá para negar. E lá vai o deputado carregando o caixão de defunto em seu "besourão". A história se espalhou por todo o Estado. Assim a fama negativa do carrão preto foi dissipada. O "besourão" passou a ser visto com outros olhos. A boa fama só veio, por incrível que pareça, depois de ter conduzido um defunto.

Panorama geral

Comecemos a coluna com um breve olhar sobre a política e seus contornos. Quem esperava um novo estilo Bolsonaro de ser acabou vendo o mesmo governante. Na ONU, fez um discurso com foco nos simpatizantes. Foi um périplo péssimo para a imagem do país. Na esfera parlamentar, o vai que vai à moda maria-fumaça. Muita fumaça e pouco fogo. Acomodação geral, com pautas que se perpetuam. Arthur Lira trabalha com um olho na reeleição para a presidência da Câmara. E parece enguia ensaboada quando se trata de matéria de interesse governista. Augusto Aras voltou à PGR, com jeitão independente, mas voltando ao estilo de bater continência ao constatar que pode ser o plano B de Bolsonaro para o STF, caso André Mendonça não emplaque. Impressão geral: tudo d'antes no quartel d'Abrantes.

Pergunta recorrente

O relatório da CPI da Covid-19, a cargo do relator senador Renan Calheiros, será encaminhado ao PGR, Augusto Aras, que, segundo o presidente Omar Aziz, de tão substancioso, não terá o destino da gaveta. Alguma providência será tomada, incluindo o presidente Jair Bolsonaro. Será encaminhado também ao STF e, segundo alguns juristas, ao Tribunal Internacional de Haia. Se metade das expectativas se confirmarem, o restante do ano terá esse tema como um dos pilares centrais da política. Quem acredita em punição do presidente da República, levante a mão: um, dois, cinco, sete.......só?

Aras com cara de paisagem

A dúvida começa com o PGR, Augusto Aras. Dará andamento ao relatório?

Insatisfação cresce

Some-se a avalanche das crises - a econômica, sanitária (que deve furar o ano novo), política e energética - e veremos o impacto sobre a população. O Auxílio Brasil poderá atenuar efeitos, mas a alta de alimentos e o preço da gasolina são combustíveis de fácil explosão. O presidente vai correr o país para comemorar seus mil dias de governo. Ouvirá impropérios mais que aplausos. Deus é brasileiro, mas nessa hora manda seus arcanjos tocarem a trombeta anunciando tempos de vacas magras. A conferir.

Fusão DEM-PSL

A fusão do DEM e do PSL poderá resultar no maior partido de direita do país. ACM Neto é o pai da ideia. E sua intenção é direcionar o partido na direção de Bolsonaro. O Brasil está mudando de feição e índole, mas Neto mais parece um barão das antigas, cioso dos limites de sua propriedade. Quer tomar o lugar do Centrão no latifúndio governamental. Há interesse de muita gente, mas essa fusão tende a ser uma grande confusão.

Pacheco e Alckmin

Rodrigo Pacheco tem um pé dentro do PSD de Kassab, que lhe prometeu a condição de vir a ser o candidato do partido à presidência da República em 2022. Geraldo Alckmin está também com um pé dentro do PSD. Seria candidato de Gilberto Kassab ao governo de São Paulo. Tem boas condições de se eleger. Sabe costurar tecidos esgarçados. Mas é precavido. Quer tomar mais pulso antes de uma decisão. P.S. Pacheco agregaria o adjetivo de "novo" e Alckmin simbolizaria o "experimentado".

André Mendonça

O "terrivelmente evangélico" André Mendonça deverá ser sabatinado nas próximas duas semanas. Davi Alcolumbre, o presidente da CCJ, a quem cabe a prerrogativa de convocar a sabatina está sendo vencido pela pressão de colegas. E garante que Mendonça não passa em plenário. Sei não. O governo conta com mil e um instrumentos de cooptação. Despertaria muita curiosidade o desempenho do pastor junto às dez cobras criadas do Supremo.

Relatório CPI no arquivo

Se o relatório da CPI da Covid-19 for para o arquivo, o que poderia acontecer? Muito palavrório com tendência à acomodação.

Vacina primeira-dama

A primeira-dama Michele Bolsonaro tomou vacina nos Estados Unidos. Uma estocada no SUS. Vir com a desculpa de que foi por insistência das autoridades norte-americanas não colou. Vacina no Brasil ganha marca de descrédito?

FFAS não cumpririam ordens?

Em entrevista à Revista Veja, Bolsonaro diz que possibilidade de golpe tem chance zero. E que as Forças Armadas não cumpririam uma ordem que destoasse da Constituição. Uma confissão ancorada em bases reais ou intenção de embaralhar o jogo? As Forças Armadas estão, sim, profissionalizadas. Mas há contingentes que rezam a cartilha bolsonarista. Quanto a golpe, só mesmo se o povo for em massa às ruas.

Prévias tucanas

João Doria corre o Brasil fazendo sua campanha para as prévias. Tem condições de levar a maioria dos diretórios. Eduardo Leite, governador do RS, é o azarão. E pode surpreender. Corre um certo sentimento de mudança nas veias dos participantes. Mas Doria é determinado e persistente, além de contar com a competente consultoria de perfis de primeira grandeza, como Antônio Imbassahy, ex-prefeito, ex-governador da Bahia, ex-ministro e ex-deputado. Um perfil admirado e respeitado.

Carta aos Brasileiros I

Há 44 anos, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., falecido no dia 27 de junho de 2009, dando vazão ao sentimento da sociedade brasileira, foi convidado para ler a Carta aos Brasileiros. O país abria as portas da redemocratização. Hoje, o Brasil vive sob o Estado de Direito, mas vegeta sob o Estado da ética e da moral, com um mandatário-mor que nega a ciência, é responsável pela pior gestão da pandemia de coronavírus 19 do planeta, e faz um vergonhoso discurso na abertura da ONU, privilégio que, historicamente, cabe ao Brasil desde 1947. Anos depois o professor Goffredo confessava ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cidadãos votem em ideários, não em fulanos, beltranos e sicranos.

Carta aos Brasileiros II

Em setembro de 1993, na segunda Carta aos Brasileiros, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonhava. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Em 2022, Lula da Silva também leu sua Carta aos Brasileiros, onde pregava uma nova prática política e a instalação de uma base moral. Sabem qual a primeira palavra do discurso de Lula na posse? Mudança. Nada disso foi cumprido. O país continua ser um deserto de ideias. Um renomado homem de letras, imortal da ABL, sugere que os protagonistas do momento - todos os pré-candidatos à presidência - assinem uma nova Carta aos Brasileiros, explicitando seu compromisso com o rol de temas alinhados. É uma boa ideia.

Covid-19 dominada?

Há um vago sentimento de que a Covid-19 foi dominada e vive seus últimos momentos. Será? Os números apresentados diariamente pelo consórcio de mídia confundem e impõem muitas dúvidas.

Seca e nuvens de terra

O país vive um dos mais secos tempos de sua história. Correntes de terra nascem e sobem aos céus de nossas cidades, em um prenúncio de que teremos encontros com apagões logo mais. Cidades turvadas por nuvens de terra emolduram cartões postais de nossas plagas.

Petrobras

Bolsonaro diz que se reuniu com o ministro das Minas e Energia para discutir fórmulas que pudessem baratear o preço da gasolina. Imaginou o presidente algo em torno de R$ 4. Pois bem. Logo a seguir, o presidente Luna, da Petrobras, disse que nada iria mudar. Conversa e desconversa.

A forca mais alta

"Canuto, Rei dos Vândalos, mandando justiçar uma quadrilha, e pondo um deles embargos de que era parente del-Rei, respondeu: Pois se provar ser nosso parente razão é que lhe façam a forca mais alta." Padre Manuel Bernardes.

 

Postado às 08h45 | 14 outubro 2021 |

NÃO HÁ BELEZA NA MISÉRIA

Não há nenhuma beleza na miséria. A frase é do angolano José Eduardo Agualusa e cai bem para o momento.  A fome que ataca milhões de seres humanos no planeta, principalmente no continente africano, é um espetáculo horripilante. As massas sofridas que habitam as áreas de lama e esgoto, nas margens das grandes e médias cidades do nosso país, mais de 50 milhões de pessoas, formam pelotões avançados de sofrimento e dor. Os 15 milhões de brasileiros desempregados habitam o universo da desesperança. A miséria é um cancro que se espalha pelo corpo da Humanidade, devastando seres e a natureza, corroendo os valores que, certo dia, não faz tempo, semeávamos com amor no jardim dos nossos corações: a amizade, a solidariedade, a harmonia, o respeito ao outro, o carinho, o companheirismo, a humildade.

Hoje, as coisas estão ficando feias. Até os monumentos que tanto admirávamos. Os belos cartões postais passam rápidos por nosso olhar, perdendo o encanto e a magia que nos fazia sonhar. Que adianta contemplar o Pão de Açúcar dentro de um cercado de miséria, violência e morte? Que adianta tecer loas à grandeza e à beleza da floresta amazônica, se ali, o que vemos são imensos espaços de fogo e destruição? Para onde se contemple, nossa vista é levada, mesmo sem querer, para as tochas da destruição, geralmente acesas pela ambição humana ou pela cegueira que fecha as portas do bom senso.

A miséria habita tudo e ameaça chegar a cada um. Não se conforma com a territorialidade física, pedaços da natureza dividida, mas inicia sua depredação por mentes e corações. São sentimentos de ódio e vingança, que tomam o lugar da bondade, são maquinações urdidas com astúcia para vencer disposições e vontades adversárias, são emboscadas tramadas para subjugar oponentes nesse jogo sujo e maldoso que faz girar a humanidade em uma arena de lutas e mortandade. A Humanidade dá adeus aos princípios morais e éticos que, por séculos, edificaram os pilares de seu pensamento.

O respeito às leis da ciência agora ganha mais uma expressão: negacionismo. O prazer de muitos que detêm o poder é negar, é tentar abolir os avanços e as descobertas que os vários campos científicos conseguiram, graças aos esforços de pessoas geniais, gente que cultivava o prazer de fazer o bem da coletividade. Quantas vidas foram salvas com as descobertas das vacinas e dos remédios. Quanto a Humanidade ganhou com o passo a passo de seus criadores e inventores. Hoje, negar todo esse aparato do bem transformou-se, até em negócio, envolvendo, vejam só, pessoas que até cultivam saber e conhecimento.

Ganhar dinheiro, fazer fortuna, até com a miséria dos outros, virou o leit motiv desta terceira década do século. Você teve um bom dia? A pergunta é mais para saber se o interlocutor fez algum negócio, avançou em seus empreendimentos, entrou dinheiro no cofre. E menos se a paz guiou os passos da pessoa, se os afazeres foram todos cumpridos, sob a certeza de que esses alimentos do espírito nos trazem bons sonhos e um despertar com disposição para a labuta.

A palavra perde força. Nossos pais faziam seus negócios, muitas vezes escudados sob a certeza de que bastava a palavra para assumir um compromisso. Hoje, o negócio só vale se for validado em cartório, com firma reconhecida, carimbos e testemunhas. Tempos insólitos. Tempos estranhos. Tempos de incertezas. De muita conversa que se perde pelo excesso de expressões jogadas ao vento. Tempos em que até a morte se torna um ato banal. Hoje, morreram mil, ontem, 800. Passamos o patamar de 20 milhões de contaminados. Antigamente era assim: fulano morreu. Morreu? Não diga. Era uma tristeza imensa com sentimento de dor e perda.

A Humanidade cumpre seu roteiro. Escritórios e fábricas trabalham arduamente, milhões entopem trens e ônibus para chegar ao trabalho, lugares de comer e beber, restaurantes e bares, ficam abarrotados, principalmente nesse ciclo de domínio da pandemia do coronavírus 19. Mas não há como negar que muitas coisas mudaram. E a miséria entra em novos habitats. Antes, referíamo-nos ao campo físico para tratar do feio, do bonito, do belo e do horrível. Hoje, a feiura assumiu novos contornos.

Sob o verso de Manuel Bandeira: “que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? O que vejo é o beco.”

Postado às 08h45 | 15 setembro 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com a solidariedade em Petrópolis.

Sou solidário e não pago

Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo, em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Quando chegava a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Certa eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista:

- Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário.

- Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também.

A montanha pariu...

Eu não diria que a montanha pariu um rato. Pois os ditos expressos pela maior autoridade do país produziram um monstrengo. Coisas como essas: não vai mais obedecer à decisões do STF, principalmente se emanadas pelo ministro Alexandre de Moraes; o presidente Fux deve enquadrar seus os ministros; só sairá do governo se for "morto"; maldiz a urna eletrônica; insufla as massas, induzindo-as à desinformação, enfim, não aceita o debate democrático como balizamento do futuro do país.

Com quem está a bola?

Chutou a bola na direção dos Poderes. Garantiu que iria acionar o Conselho da República, que debate pautas como desordem institucional e quebra da ordem. Diante do fiasco de não ter participantes, desdisse o que disse. Mas as palavras de ordem contra o Supremo estão no ar. Fux deu resposta dura como se previa, mas persistem as dúvidas! O que fazer ante a um ato de desobediência à Corte? Paralisar estradas federais é um ato de antipatia que depõe contra o governo. O mundo está perplexo, não apenas o Brasil. Trata-se de flagrante quebra da ordem normativa. Os presidentes do Senado e da Câmara não têm força para levar adiante a solução do impeachment. Os partidos vão gastar saliva com discursos. E só.

Lira e Ciro longe

Arthur Lira, o presidente tem a prerrogativa de levar adiante a ideia do impeachment. Mas logo ele, que negociou a participação do Centrão no governo? Ciro Nogueira, o presidente do PP, que se impôs a condição de "amortecedor" do governo, estará longe do imbróglio, quase dizendo: afasta-me de mim esse cálice, cheio de um vinho que não entra no meu paladar. Pacheco, o Rodrigo que comanda o Senado, é o menos temeroso, mas tem o cuidado de medir as palavras para não perder a chance de vir a ser candidato de Kassab, do PSD, à presidência. Teria suspendido a pauta do Senado esta semana.

Inevitável?

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), disse que é "inevitável" a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após os atos antidemocráticos de 7 de setembro. Este analista não acredita.

Celso de Mello e Carlos Ayres

O ex-decano do STF, ministro Celso de Mello, chama Jair Bolsonaro de "político medíocre que não está à altura do cargo" e o ex-presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto diz que o presidente está sujeito a penalidades se descumprir decisão judicial.

Tempos de pressão

O ditador vai ao médico:

- E a pressão, doutor?

- O senhor sabe o que faz, meu general. Neste momento, ela é imprescindível para manter a ordem.

Um país à deriva

Do episódio de um 7 de setembro pisoteado, sobra a imagem de um país à deriva, sob as rédeas de uma família sobre a qual pesam denúncias de corrupção. Filhos dando os rumos do que poderá vir a acontecer. Comandando eventos de direita. E o pai, usando frota de aviões e helicópteros, na companhia de ministros, transformando um evento cívico em um comício privado, gastando dinheiro público e colaborando para as aglomerações em momento em que o país flagra a multiplicação da vertente Delta do coronavírus.

Enquanto vai durar?

As ameaças do capitão estão no ar. Deduz-se que seu dito será cumprido. Sob pena de mais bravata na coleção de ditos estapafúrdios. E se assim continuar, a engenharia do golpe continua ganhando peças, situação terrível se contar com o grupo de militares que agem no entorno. Generais, coronéis, capitães, olhem para o Brasil. Não se deixem enganar pelo canto de sereia na travessia de Ulisses. Um golpe hoje jogaria o nosso país dos territórios devassados pela estupidez. Urge dar um basta nessa escalada. Sociedade organizada, é a vez das entidades abrirem o verbo. Produtores e empreendedores, não deixem o Brasil seguir o caminho das trevas.

7 de setembro

O 7 de setembro, para bolsonaristas, foi aquém das expectativas. Contou-se 125 mil pessoas na av. Paulista, 6% do esperado. Não entrarei nessa. O fato é que as falas do presidente em Brasília e em São Paulo plasmaram um monstrengo. O que foi dito é uma afronta à Constituição. Sob o prisma do desrespeito, desobediência, ruptura de princípios. A CF foi jogada na lata de lixo. O que fazer para reentronizá-la? Em 2022, o Brasil comemora 200 anos de independência. Sob que acordes? Liberdade? Opressão?

Voto auditável

Ora, o voto em urna eletrônica é auditável. Quem diz o contrário é ignorante. Querem voltar ao voto do cabresto, quando milicianos entregam envelopes fechados para eleitores ignorantes depositarem em urnas? (Doutor, em que estou votando? O coronel ou miliciano responde - deixe de ser besta, você não sabe que o voto é secreto?)

Expectativa

Este analista acredita nessas hipóteses:

1. Terá início uma reação parlamentar, que vai ter ondas mais altas um pouco mais adiante.

2. Com a soma das crises - sanitária, econômica, política, energética e social (com esgarçamento do tecido social) - é possível um desgarramento dos contingentes bolsonaristas por abril/maio.

3. A crise energética, se implicar apagão, acelerará o processo de desgaste do governo.

4. O auxílio Brasil, a ser lançado pelo governo no lugar do Bolsa Família, poderá aumentar o fôlego do governo por mais alguns meses.

5. A muito custo, Paulo Guedes aguentará ilustrar sua cabeça com o boné de Bolsonaro.

6. Este analista não aposta na candidatura de Lula como contraponto a Bolsonaro.

7. As oposições seguirão divididas até o 1º trimestre do próximo ano.

8. As FFAA deverão se dividir e a parcela profissionalizante predominará.

9. A vacinação em massa veio para ficar. A pandemia será uma constante em nossas vidas.

10. 2022 - Este analista vê como possibilidade a ideia de Bolsonaro não sustentar sua candidatura até o final.

Fecho a coluna com a velha malandragem.

A malandragem

Querem saber a origem da malandragem no Brasil? Veja o finalzinho da Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal.

"E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha."

Um pedido aqui, um trololó acolá e muita bajulação.

Postado às 08h45 | 15 setembro 2021 |

O GOLPE E A RESISTÊNCIA

A escalada de tensões entre os Três poderes, uma economia rota e sem horizontes definidos, reformas encalhadas no Congresso e um presidente que insiste no confronto com ministros do STF e outros ingredientes incandescentes deixam a maioria da sociedade brasileira atônita. Seriam sinais de um golpe à vista para manter Bolsonaro e seus militares amigos no centro do poder, a exemplo de um Hugo Chávez?

Esses sinais são cada vez mais intensos depois da narrativa dos mais altos assessores do presidente, principalmente aqueles com história nas Forças Armadas. O general Heleno é um exímio mensageiro de sinais. Pois acaba de dizer que um golpe não está fora dos horizontes, claro, sob a ressalva de que um evento inusitado como esse carece do manto de alta gravidade. Bolsonaro é recorrente na lembrança da tese.

Falar, lembrar, referir-se ao golpe, sob a alegação de que, em momento como esse, as Forças Armadas estariam cumprindo papel moderador, nos termos que defende o jurista Ives Gandra Martins, ao examinar a letra constitucional em caso de impasse e tensão entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é mais que um simples ensaio interpretativo. É dar voz a um sentimento que corre nas veias de alguns núcleos. Impasse institucional?

Tensão entre os poderes é o que não falta para apimentar o caldo golpista. Mas a pimenta vem da sementeira do presidente. Apesar de se prever arrefecimento em suas investidas, os sinais são de que Bolsonaro pode recuar agora para voltar mais adiante. Há cinco investigações sobre ele em curso.

Difícil é sustentar um duelo verbal até o próximo ano. Bolsonaro vai precisar do Senado e da Câmara para fazer passar sua pauta. Sob esse terreno de dúvidas, entraremos no fim do ano com as pautas reformistas aprovadas parcialmente e todos com o olho (e o bolso) voltados para a economia. Que condição se apontaria para um golpe? Uma estrondosa vitória de Lula e ruas tomadas por grupelhos gritando palavras de ordem não aceitáveis pelas Forças Armadas? Clima de convulsão social ou apenas argumento para pôr tropas nas ruas? O Legislativo daria guarida a uma armação como essa? E o Judiciário ficaria apenas na observação?

Os talibãs do petismo, agora restritos, não teriam condições de voltar com suas bandeiras adornadas com os apetrechos do socialismo clássico. As classes médias têm, sim, condição de sustar um posicionamento radical que implique a tentativa de golpe - profissionais liberais, funcionários públicos, pequenos e médios proprietários, prestadores de serviços, autônomos, setores organizados. As margens carentes não se envolveriam diretamente em mobilizações, mas poderiam engrossar o caldo bolsonarista se o apelo maior for o assistencialismo.

No Brasil, o passado é sempre revisitado, com direito a reviver até seus hábitos pérfidos. É o caso do coronelismo do ciclo agrícola, que castigava o livre exercício dos direitos políticos. A autoridade constituída esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste país urbano, o poder público tem de pedir licença para subir o morro. O império coronelista do princípio do século passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro nas comunidades dominadas por milícias.

Por tudo isso, estamos diante de um novo coronelismo? Os currais eleitorais são comunidades miseráveis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formidável aparato.

Um caldo golpista está cada vez mais claro nas palavras de Bolsonaro. Mas um alento vem com o muro da resistência cada vez mais forte contra esta ameaça, a partir do Judiciário (de ministros que não se curvam aos impropérios do presidente), e de parte da sociedade organizada, como se viu no manifesto de mais de cinco mil empresários, economistas, intelectuais e outros contingentes formadores de opinião.

O fato é que a popularidade de Bolsonaro vai desabando ao longo do tempo. Resta saber se restará força para um segundo mandato em outubro de 2022. Ou então o muro da resistência vai assegurar uma era de paz e prosperidade, sem a participação dos extremistas de esquerda e de direita.

Postado às 08h00 | 07 julho 2021 |

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do Maranhão.

Em campanha

José Burnet, chefe da Casa Civil do governador do Maranhão, João Castelo, era deputado estadual do PSD. Em 1962 candidatou-se à Câmara Federal e saiu pelo interior fazendo campanha. Chegou à cidade de Santa Helena, foi para o comício:

- Povo de Santa Helena. Eu gosto tanto desta terra, tanto, que se pudesse nascer de novo pediria a Deus para nascer aqui em Santa Helena.

Foi um sucesso. No dia seguinte estava em Pinheiro:

- Povo de Pinheiro. Eu gosto tanto desta terra, tanto, que se pudesse nascer de novo pediria a Deus para nascer aqui em Pinheiro.

Lá de trás, um caboclo, que por acaso tinha assistido ao comício da véspera em Santa Helena, gritou:

- Doutor, e Santa Helena, doutor?

- Santa Helena? Santa Helena? Santa Helena que me perdoe.

Queda de Bolsonaro assusta

A queda do presidente Jair nas pesquisas começa a apavorar parcela do eleitorado, tanto a ala bolsonarista como aquela que não vota no PT de jeito nenhum. Vamos aos dados: o IPEC, de Márcia Cavallari, que este analista conhece bem, atestando sua competência, mostra que mais da metade, 53% dos eleitores de Bolsonaro no segundo turno de 2018, pretendem trocar de candidato ou apertar as teclas de branco e nulo na urna eletrônica em outubro de 2022. E um quarto, 26%, dos votantes no capitão sinalizam o voto em Lula, enquanto 34% dos que o elegeram não votariam nele de jeito nenhum. Os dados abrem muitas projeções, principalmente a de que o ex-metalúrgico, que ainda dá as cartas no PT, poderia chegar ao pódio já no primeiro turno. E isso amedronta.

Imagens em reconstrução I

Uma parcela considerável do eleitorado continua refratário ao lulopetismo. Não vota de jeito nenhum no PT e outra parcela não vota de jeito nenhum em Bolsonaro. O que fazer? Dar tempo ao tempo. Os índices acima podem não se sustentar caso a imagem do presidente seja remodelada com a tintura de uma economia em plena recuperação e uma pandemia em estágio completo de controle. Difícil, mas não impossível. Em política, nada é definitivo.

Imagens em reconstrução II

E a imagem do petismo poderia também ser mais limpa, caso Lula consiga se redimir dos pecados, aproximar-se do centro e formar alianças que ocupem o espaço central. Os dutos da corrupção, a partir da Petrobras, foram escancarados. Difícil, mas também não impossível. Restaria uma parcela menor que, mesmo assim, não votaria em qualquer um deles. O vazio continuaria a esperar um perfil de centro.

A prevaricação

O momento não é tranquilo para Bolsonaro. O depoimento dos irmãos Miranda joga a crise no colo do presidente. A se comprovar crime de prevaricação - o fato de ter conhecimento de aquisição irregular de vacinas, com intermediação de terceiros, sem tomar providências - dispara tensões na sala presidencial. Vamos acompanhar a denúncia a ser feita por senadores da CPI da Covid-19. O centrão, pragmático, terá dificuldades em continuar com seu apoio irrestrito ao presidente, principalmente se o líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros, for envolvido. A PGR e o próprio STF terão papel decisivo nos próximos passos da CPI. Defesa de Bolsonaro: "não tenho como saber o que acontece nos Ministérios". Para que serve a ABIN? A CPI aguarda informações da PF sobre eventual pedido de investigação feito por Bolsonaro sobre corrupção na Pasta da Saúde.

O tirano

Maquiavel conta no Livro III dos Discursos sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio a história de um rico romano que deu comida aos pobres durante uma epidemia de fome e que foi por isso executado por seus concidadãos. Argumentaram que ele pretendia fazer seguidores para se tornar um tirano. Essa reação ilustra a tensão entre moral e política. Mostra que os romanos se preocupavam mais com a liberdade do que com o bem-estar social.

Quebrando a polarização

Pergunta recorrente: como quebrar a polarização entre Bolsonaro e Lula? Este analista tenta expressar uma resposta: 1. Aparecendo um perfil no meio do arco ideológico que atenue a força dos extremos; 2. Tirando Lula do tabuleiro, o que, a essa altura, dependerá dos tribunais. Ou por vontade própria; 3. Tirando Bolsonaro do tabuleiro, o que dependerá do corpo congressual, em caso de aceitação e votação de um pedido de impeachment.

Tumulto

Este analista acredita que se Lula voltar a ser impedido de ser candidato por via judicial, haverá tumulto nas franjas e no meio da sociedade; e se Bolsonaro for impedido pelo impedimento, via Congresso, também haverá tumulto, sob o risco de algum golpe de espada. Há dúvidas, muitas, sobre tal hipótese. As divisões se acentuarão.

Datena candidato?

José Luiz Datena, o apresentador da Band, fechou sua filiação ao PSL. Um dos líderes do partido, o deputado Junior Bozzella diz que Datena chega no partido para entrar nas pesquisas sobre presidenciáveis. Datena chega ao partido depois de sinalizar vontade de ingressar na arena política, desistir e, agora, de se apresentar como candidato de terceira via. Difícil de acreditar, mas o Brasil é um dos sítios mais frequentados pelo Senhor Imponderável.

Leveza

"Ao longo de seu discurso ininterrupto sobre o insustentável peso do viver, Leopardi traduz a felicidade inatingível com imagens de extrema leveza: os pássaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transparência do ar, e sobretudo a lua". (Ítalo Calvino in Seis Propostas para o Próximo Milênio).

A malandragem I

O preconceito etário continua forte. Ter 45, 50, 60 anos hoje é bem diferente do que era em tempos passados. O número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil já é superior ao de crianças com até 9 anos de idade. A população 50+ movimenta mais de R$ 1,8 trilhão, sendo a fatia com maior poder aquisitivo. Mas o etarismo permanece. E ultimamente tem sido muito comentado. A expectativa da vacina contra a Covid-19 despertou faixas etárias. Milhões de pessoas com prioridade avançaram na fila sob a batuta da malandragem brasileira.

A malandragem II

Um pouco da história da malandragem no Brasil. Final da carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal. "E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E, pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha."
Um pedido aqui, um trololó acolá e tome bajulação.

Roçados e feudos

A corrupção não foi extirpada da administração pública. Continua densa. E as máfias agem nas malhas do poder. Como se sabe, a máquina governamental se parece com uma imensa e paquidérmica porca, deitada e alimentando os filhotes. Ou, se quiserem, há roçados e feudos distribuídos a grupos partidários. Aos amigos, tudo; aos adversários, a lei.

Jung e o rei africano

Jung perguntou, uma vez, a um rei africano:

- Qual é a diferença entre o bem e o mal?

O rei meditou, meditou e respondeu às gargalhadas:

- Quando roubo as mulheres do meu inimigo, isso é bom. E quando ele rouba as minhas, isso é muito ruim.

Sommelier de vacinas

A última profissão no país é a de sommelier de vacinas, a pessoa que quer "experimentar" uma vacina em vez de outra. Ora, os infectologistas e imunologistas alertam: vacina boa é vacina no braço. Vacinem-se com as vacinas que estão à disposição. Efeitos colaterais podem (ou não) ocorrer com qualquer vacina, seja AstraZeneca, CoronaVac, Pfizer ou Janssen.

O governo do espetáculo

"O governo do espetáculo, que no presente momento detém todos os meios para falsificar o conjunto da produção tanto quanto da percepção, é senhor absoluto das lembranças, assim como é o senhor incontrolado dos projetos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina por toda a parte e executa seus juízos sumários". (Guy Debord in A Sociedade do Espetáculo).

Xexéo

Deu-nos adeus Artur Xexéo, jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo brasileiro. Deixa sua marca na paisagem da cultura. E os livros: Liberdade de expressão; Janete Clair: A usineira de sonhos; O torcedor acidental; e Hebe: A biografia. Respeitado, comentarista da Globo News e, por muito tempo, da CBN. Com 69 anos, estava internado na Clínica São Vicente, na Zona Sul do Rio. Diagnosticado com um câncer tipo linfoma não-hodgkin de célula T duas semanas atrás, teve uma parada cardiorrespiratória na sexta-feira, 25, e morreu domingo.
Minhas homenagens.

Fecho com o meu RN.

Prócer e líder

Outra historinha contada por Carlos Santos, em seu livro Só Rindo 2.

Auxiliar direto do governador Dinarte Mariz, Grimaldi Ribeiro apresenta-lhe outro político interiorano no Palácio Potengi:

- Este é um prócer político do Trairi - define.

Noutra oportunidade, utiliza vocábulo diferente:

- Governador, esta é uma liderança política da região Oeste.

Intrigado com as constantes distinções, mas sem captar a sutileza da separação, o arguto Dinarte interpela Grimaldi: "Por que uns são próceres e outros lideranças?".

Professoral, Grimaldi justifica:

  • Governador, prócer só tem pose, e liderança é que tem voto.

Postado às 08h00 | 07 julho 2021 |

POVO NA RUA, ECONOMIA E PANDEMIA

O recente pacote de denúncias envolvendo diretores e assessores do Ministério da Saúde, alguns já demitidos, incluindo um eventual pedido de propina de US$ 1 para cada dose da vacina a ser adquirida – no caso a imunizante da Astrazeneca – empareda o governo e estreita a margem de manobra do presidente Bolsonaro para evitar o impeachment. Mesmo assim, é mais que razoável apostar na hipótese de que, nas condições de hoje e permanência de sua base de apoios no Congresso, não haverá impedimento do comandante-mor. E os motivos são claríssimos: não há votos para aprovar uma medida como essa, mais ainda quando se sabe que o impeachment é uma equação política que obedece a um ritual rigoroso.

Sigamos os passos dessa liturgia. Para impedir um governante, há de se ter muito voto, não uma votação por maioria simples. São necessários 342 votos na Câmara (2/3), dos 513 deputados, e 51 senadores, do total de 81. E como se alcançam estes números? Usando a ferramenta, a única, que pode dar o passaporte de casa ao governante: povo na rua. O que não é tarefa das mais fáceis. Povo nas ruas é fermento na massa. Faz o bolo crescer. Faz o deputado sentir a temperatura social. Faz o senador examinar a saúde do presidente. Cria um gigantesco rolo compressor que ameaça as cúpulas côncava e convexa do Congresso Nacional. E põe em risco a volta do próprio parlamentar às casas das leis.

Posto isso, examinemos essa possibilidade. Partamos do conjunto de fatores que se juntam para formar a massa conceitual de um veto popular ao governante. Entre esses, incluem-se as carências sociais, como falta de recursos para viver – alimentar a família, educar os filhos, pagar os transportes, cuidar da saúde, sentir-se seguro nas ruas e em casa. Duas alavancas estão nesse momento sendo usadas pelo governo para atenuar as mazelas sofridas pelo povo: a economia, com um esforço para recuperá-la e aumentar o adjutório social (Bolsas e Auxílios) e a saúde, com a vacinação da população. O que poderá ocorrer nos próximos tempos com essas duas vertentes? Vão melhorar ou piorar? Em suma, o Produto Nacional Bruto da Felicidade aumentará ou diminuirá? Resposta em aberto.

Portanto, o eleitor, o eixo maior da engrenagem social e política, está de olho aberto para a equação. Sua ida às ruas é a  resposta de que a democracia participativa vai bem em nossas paragens. Esse mecanismo tem se fortalecido ao longo do tempo, na Europa, nos Estados Unidos e em outras regiões, sob o fluxo de conscientização política e ações em defesa dos direitos individuais e coletivos. Desenvolve-se o que podemos designar como uma autogestão técnica, que consiste na definição pelos cidadãos dos rumos a seguir e os meios que podem garantir sua caminhada.

A conscientização tem ganhado volume com a crise da democracia representativa, caracterizada por não cumprimento da agenda social pelos conjuntos representativos. O povo tem se distanciado dos políticos, até com indignação, abrindo um vazio na sociedade que está sendo ocupado por milhares de entidades de intermediação – associações, sindicatos, núcleos, grupos, setores, movimentos. Assim, a organicidade social tem sido a resposta às falhas da democracia representativa. Ou, em outros termos, a democracia participativa – que nos deu na CF o referendo, o plebiscito e o projeto de iniciativa popular – é a bola da vez, mas a pelota agora é jogada nas ruas.

 E são cada vez são menos os jogadores (eleitores) que participam de peladas patrocinadas por partidos, bandeiras e cores. A maioria quer entrar em jogos patrocinados por suas necessidades. Pavlov classifica dois grupos de instintos: os de preservação do indivíduo (impulso combativo e impulso nutritivo) e os de perpetuação da espécie (impulso sexual e impulso paternal). Pois bem, as pessoas agem para se defender das ameaças humanas e as da natureza (catástrofes) e, ainda, para garantir a saúde de seu corpo (alimento para suprir o estômago). Os dois primeiros instintos de Pavlov embasarão o caminho a ser seguido pelo povo. Economia e pandemia se cruzarão. Em suma, povo na rua vai depender das coisas boas e ruins que ocorrem ou ocorrerão nos próximos tempos sob a égide da administração pública. Maior ou menor movimentação social decorrerá dessa hipótese. O povo luta por sobrevivência. Lembrando o velho ditado: a necessidade obriga.

​ ​