BLOG - Porandudas políticas

postado às 08h45 | 15 de fevereiro de 2022

O COMÉRCIO DA FÉ 

Os evangélicos exercem forte influência sobre o pensamento nacional. Trata-se de um dado que passa ao largo da análise política. Quando muito merecem a lembrança bíblica: “dai a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César. No mais das vezes, emerge o replicado dito constitucional sobre o Estado laico, que não deve se misturar à igreja, condição que separa as coisas da religião da esfera estatal.

Portanto, é claríssima a ideia de que a religião integra a vida privada não adotando o Estado brasileiro de religião oficial nem privilegiando seitas. Aos cidadãos, garante-se inteira liberdade de escolha de crenças, diferentemente dos tempos do absolutismo, quando monarcas se investiam do poder divino para justificar seus atos.

Na prática, porém, a teoria parece dar voltas em torno de seus eixos. Pois os credos evangélicos assumem declaradamente posicionamentos inerentes ao Estado, inclusive reivindicando poder material, seja por meio de domínio de feudos na administração pública, seja trabalhando abertamente pela indicação de ministros evangélicos para as Cortes, como ficou comprovado com a nomeação de um ministro “terrivelmente evangélico”, André Mendonça, para compor o quadro de 11 ministros da Suprema Corte.

Ora, esse fato, tão banalizado que deixou de ser algo extraordinário e, em tempos outros, condenado pela imensa maioria da comunidade social, torna-se coisa trivial, a ponto de vermos, hoje, correntes evangélicas postulando a nomeação de uns e queimando as chances de outros. A eleição para as Cortes da Justiça passa, hoje, pelo crivo de pastores famosos, alguns sem pejo de patrocinar abertamente perfis e grupos. O pastor Malafaia, como se sabe, é interlocutor permanente do presidente nessa matéria.

A continuar a tendência de imbricação entre as coisas de Deus e as de César, a barafunda tomará de conta da paisagem institucional. O IBGE calcula termos mais de 42,3 milhões de evangélicos no país (dados de 2010), representando, na época, 22,2 da população brasileira. No final de 2014, a projeção apontava que os protestantes seriam 29% da população. Em 2020, pesquisa Datafolha mostrou que os evangélicos já seriam 31% da população ou 65,4 milhões de pessoas. O maior credo é o das Assembleias de Deus, cerca de 30% do total, seguido pelas Igrejas Batistas, Congregação Cristã no Brasil e Igreja Universal do Reino de Deus. Esta, aliás, tem vasta estrutura de comunicação, com seu apoio bem disputado pelos políticos.

É preocupante o fato de que tais frentes religiosas usam o povo em sua peregrinação para dominar o Estado brasileiro, bastando ver como algumas delas usam o poder midiático para arrebanhar fiéis e manter os cofres cheios. Pelas madrugadas, os cenários de catarse social eram comuns e hoje tais espetáculos, com sua liturgia centrada nos milagres que “curam” doentes, podem ser vistos até em horários noturnos, alguns bem cedo. A fé, nesse caso, em vez de remover montanhas, serve como pá para arrecadar montes de dinheiro que obreiros e assistentes recolhem em suas andanças pelos gigantescos espaços dos cultos.

As massas, tão perdidas nesses tempos de pandemia, não hesitam em pagar o “ingresso” para adentrar o reino dos Céus, E tome grana, o, agora facilmente captada por cartões de débito/crédito, e ainda por esse mecanismo criado pelo Banco Central, o PIX. Na África, a Igreja Universal luta para não ser banida de Angola, após ser investigada por desvio de dinheiro, discriminação e práticas contra a integridade de religiosos angolanos. Até o bispo Marcelo Crivella não recebeu agrément para exercer as funções de embaixador na África do Sul, por suspeitas de que poderia ser uma alavanca para preservar em Angola a Igreja Universal. E o bispo Macedo faz périplo internacional com o intuito de esticar os braços de sua religião.

O fato é que o evangelismo no Brasil assumiu uma feição política, puxando credos para a vala comum do oportunismo e do mercado da fé. Os governantes, preocupados em manter boas relações com as Igrejas, por ver no eleitorado evangélico rebanhos eleitorais, deixa a situação correr solta. Por isso, Brasília e o entorno do Palácio do Planalto, antes um território frequentado exclusivamente por políticos e suas equipes, agora é uma passarela da fé.

As igrejas evangélicas, portanto, em vez de se constituírem em redutos sagrados para elevar as preces dos crentes ao Senhor da Criação, se assemelham a sucursais de grandes favores, muitos voltados para perpetuar o poder terreno de grupos jamais preocupados com a salvação das almas. Tio Patinhas é uma inocente figura do passado.



postado às 08h45 | 15 de fevereiro de 2022

A CADA UM O QUE MERECE

A inferência se ancora em boa lógica: as águas do São Francisco podem ser fator preponderante para Bolsonaro sair bem das urnas no Nordeste. Já entraram no Rio Grande do Norte, propiciando grande comício em Jardim de Piranhas, na região do Seridó, e um levantar de braços para os céus como só se viu, segundo depoimentos de insuspeitos, na passagem de frei Damião em tempos idos.

Expliquemos o projeto. O Rio São Francisco, o Velho o Chico, possui aproximadamente 2.830 quilômetros de extensão, com sua nascente localizada na Serra da Canastra, em MG, e um curso natural que percorre os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, atingindo sua foz no Oceano Atlântico.

O projeto de transposição interfere no trajeto do rio, fato que tem gerado discussões. Trata-se de puxar as águas do São Francisco, a partir de Juazeiro, na Bahia, e trazê-las até 390 municípios de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, proporcionando segurança hídrica a 12 milhões de nordestinos.

As obras abarcam a construção de dois grandes canais (um Eixo Norte e um Eixo Leste, totalizando 477 km em obras), levando as águas para as regiões do Polígono das Secas. A previsão, ao fim das obras, é abastecer 4, 5 milhões no Eixo Leste e 8 milhões no Eixo Norte).

Uma façanha, sem dúvida, principalmente quando se olha o Nordeste, com 28% da população brasileira, atravessar ciclos de intensas carências, assolado pelas secas. Meu pai conta que na seca de 1915, ele, com 20 anos, viu famílias assando sapatos em fogueiras para comer. Este escriba viu as agruras da seca de 1958, quando milhares de famílias faziam fila para pegar alimentos nas barracas do DNOCS. 

Dito isto, abramos a história. Conta Marco Antônio Villa, no livro “Vida e Morte no Sertão” que a proposta de levar água do São Francisco para a bacia do rio Jaguaribe, no Ceará, “foi lançada em 1818, no governo de d. João 6º, pelo 1º ouvidor do Crato (CE) José Raimundo de Passos Barbosa”. E prossegue lembrando que, em 1847, Marcos Antônio de Macedo, intendente do Crato, “retomou a ideia e encaminhou um esboço do projeto ao imperador. Em 1852, d. Pedro 2º contratou o engenheiro Henrique Guilherme Fernando Halfeld para estudar o São Francisco. Em 1860, ele defendeu a transposição e citou Cabrobó como local de retirada da água”.

Em 1909, surgiu a Inspetoria Federal de Obras contra a Seca e, em 1920, o presidente Epitácio Pessoa realizou as primeiras obras de utilização das águas do São Francisco, com a criação de 205 açudes e 220 poços alimentados pelo rio.

Nos anos de chumbo, o ministro Mário Andreazza apresentou proposta para a transposição, incluindo os rios Parnaíba, São Francisco e Tocantins. Ficou no papel. Chegamos ao governo Itamar Franco, que substituiu Fernando Collor.

Aluízio Alves, no comando do Ministério da Integração Nacional, em 1994, desenterrou o pacote de Andreazza, convocou um empresário, Abelírio (Bira) Rocha, que, em 7 meses, apresentou o projeto de engenharia da transposição, contando com a participação de 300 técnicos. Havia interesse contrário dos proprietários do polígono da maconha. Na Bahia, argumentos acirravam a questão: a transposição iria matar o rio e não haveria água para mover as turbinas de Paulo Afonso.

O presidente Fernando Henrique, depois de prometer em campanha (1994 e 1998), desistiu de realizar a transposição. Motivos: relatório de impacto ambiental encomendado pela Integração Nacional anunciava que a obra derrubaria até 10% a produção de energia da Chesf (a central hidrelétrica que utiliza as águas do rio) entre os reservatórios de Itaparica e Xingó. Seria um efeito colateral politicamente indefensável em tempos de racionamento de energia.

Durante o governo de Luiz Inácio, a transposição foi o maior projeto de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A obra teve início em 2007, com a meta de construir 720 mil metros de canais para trazer a água para abastecer açudes e rios intermitentes de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Foi alvo de muitas críticas, envolvendo até o bispo de Barra (Bahia), dom Luís Flávio Cappio, que fez duas greves de fome, isso em 2005 e 2007. Tinha o apoio de parcela importante da opinião pública e setores organizados. Diziam que os custos eram altos e a transposição iria beneficiar apenas grandes proprietários. E o rio acabaria morrendo. Obras foram retomadas, sob o comando do ministro da Integração Nacional do governo Lula, Ciro Gomes.

Em março de 2017, Michel Temer inaugurou o trecho leste da transposição, na cidade de Monteiro (PB), dando continuidade ao projeto.

Do que se narrou, desponta a pergunta: é justo que ele, Bolsonaro, leve todas as glórias desse feito? A resposta é não. Justiça, na visão dos filósofos, é dar a cada um o que cada um merece.  Protagonistas dividem com Bolsonaro o mérito da transposição.   



postado às 08h45 | 14 de outubro de 2021

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha que me foi contada pelo ex-senador Ramez Tebet, saudoso amigo.

Por ocasião da criação do Estado do MS, em 1979, a população de Campo Grande ficava assombrada com a caravana dos 17 grandes carrões pretos dos deputados estaduais que paravam diante da Assembleia Legislativa. Os carros ganharam logo o nome de "besourão" e, ao passarem pelas ruas, as pessoas logo faziam o sinal da cruz, na tentativa de afastar o medo daqueles carros que mais pareciam transporte de defunto. Ninguém se atrevia a andar num carro daqueles. Até que um dia, ao comparecer ao velório de um correligionário, numa cidade do interior, dirigindo um desses carros, o então deputado Ramez Tebet teve que atender ao pedido da família do defunto. Queriam por que queriam que o defunto fosse levado naquele carro. Nessa hora, não dá para negar. E lá vai o deputado carregando o caixão de defunto em seu "besourão". A história se espalhou por todo o Estado. Assim a fama negativa do carrão preto foi dissipada. O "besourão" passou a ser visto com outros olhos. A boa fama só veio, por incrível que pareça, depois de ter conduzido um defunto.

Panorama geral

Comecemos a coluna com um breve olhar sobre a política e seus contornos. Quem esperava um novo estilo Bolsonaro de ser acabou vendo o mesmo governante. Na ONU, fez um discurso com foco nos simpatizantes. Foi um périplo péssimo para a imagem do país. Na esfera parlamentar, o vai que vai à moda maria-fumaça. Muita fumaça e pouco fogo. Acomodação geral, com pautas que se perpetuam. Arthur Lira trabalha com um olho na reeleição para a presidência da Câmara. E parece enguia ensaboada quando se trata de matéria de interesse governista. Augusto Aras voltou à PGR, com jeitão independente, mas voltando ao estilo de bater continência ao constatar que pode ser o plano B de Bolsonaro para o STF, caso André Mendonça não emplaque. Impressão geral: tudo d'antes no quartel d'Abrantes.

Pergunta recorrente

O relatório da CPI da Covid-19, a cargo do relator senador Renan Calheiros, será encaminhado ao PGR, Augusto Aras, que, segundo o presidente Omar Aziz, de tão substancioso, não terá o destino da gaveta. Alguma providência será tomada, incluindo o presidente Jair Bolsonaro. Será encaminhado também ao STF e, segundo alguns juristas, ao Tribunal Internacional de Haia. Se metade das expectativas se confirmarem, o restante do ano terá esse tema como um dos pilares centrais da política. Quem acredita em punição do presidente da República, levante a mão: um, dois, cinco, sete.......só?

Aras com cara de paisagem

A dúvida começa com o PGR, Augusto Aras. Dará andamento ao relatório?

Insatisfação cresce

Some-se a avalanche das crises - a econômica, sanitária (que deve furar o ano novo), política e energética - e veremos o impacto sobre a população. O Auxílio Brasil poderá atenuar efeitos, mas a alta de alimentos e o preço da gasolina são combustíveis de fácil explosão. O presidente vai correr o país para comemorar seus mil dias de governo. Ouvirá impropérios mais que aplausos. Deus é brasileiro, mas nessa hora manda seus arcanjos tocarem a trombeta anunciando tempos de vacas magras. A conferir.

Fusão DEM-PSL

A fusão do DEM e do PSL poderá resultar no maior partido de direita do país. ACM Neto é o pai da ideia. E sua intenção é direcionar o partido na direção de Bolsonaro. O Brasil está mudando de feição e índole, mas Neto mais parece um barão das antigas, cioso dos limites de sua propriedade. Quer tomar o lugar do Centrão no latifúndio governamental. Há interesse de muita gente, mas essa fusão tende a ser uma grande confusão.

Pacheco e Alckmin

Rodrigo Pacheco tem um pé dentro do PSD de Kassab, que lhe prometeu a condição de vir a ser o candidato do partido à presidência da República em 2022. Geraldo Alckmin está também com um pé dentro do PSD. Seria candidato de Gilberto Kassab ao governo de São Paulo. Tem boas condições de se eleger. Sabe costurar tecidos esgarçados. Mas é precavido. Quer tomar mais pulso antes de uma decisão. P.S. Pacheco agregaria o adjetivo de "novo" e Alckmin simbolizaria o "experimentado".

André Mendonça

O "terrivelmente evangélico" André Mendonça deverá ser sabatinado nas próximas duas semanas. Davi Alcolumbre, o presidente da CCJ, a quem cabe a prerrogativa de convocar a sabatina está sendo vencido pela pressão de colegas. E garante que Mendonça não passa em plenário. Sei não. O governo conta com mil e um instrumentos de cooptação. Despertaria muita curiosidade o desempenho do pastor junto às dez cobras criadas do Supremo.

Relatório CPI no arquivo

Se o relatório da CPI da Covid-19 for para o arquivo, o que poderia acontecer? Muito palavrório com tendência à acomodação.

Vacina primeira-dama

A primeira-dama Michele Bolsonaro tomou vacina nos Estados Unidos. Uma estocada no SUS. Vir com a desculpa de que foi por insistência das autoridades norte-americanas não colou. Vacina no Brasil ganha marca de descrédito?

FFAS não cumpririam ordens?

Em entrevista à Revista Veja, Bolsonaro diz que possibilidade de golpe tem chance zero. E que as Forças Armadas não cumpririam uma ordem que destoasse da Constituição. Uma confissão ancorada em bases reais ou intenção de embaralhar o jogo? As Forças Armadas estão, sim, profissionalizadas. Mas há contingentes que rezam a cartilha bolsonarista. Quanto a golpe, só mesmo se o povo for em massa às ruas.

Prévias tucanas

João Doria corre o Brasil fazendo sua campanha para as prévias. Tem condições de levar a maioria dos diretórios. Eduardo Leite, governador do RS, é o azarão. E pode surpreender. Corre um certo sentimento de mudança nas veias dos participantes. Mas Doria é determinado e persistente, além de contar com a competente consultoria de perfis de primeira grandeza, como Antônio Imbassahy, ex-prefeito, ex-governador da Bahia, ex-ministro e ex-deputado. Um perfil admirado e respeitado.

Carta aos Brasileiros I

Há 44 anos, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., falecido no dia 27 de junho de 2009, dando vazão ao sentimento da sociedade brasileira, foi convidado para ler a Carta aos Brasileiros. O país abria as portas da redemocratização. Hoje, o Brasil vive sob o Estado de Direito, mas vegeta sob o Estado da ética e da moral, com um mandatário-mor que nega a ciência, é responsável pela pior gestão da pandemia de coronavírus 19 do planeta, e faz um vergonhoso discurso na abertura da ONU, privilégio que, historicamente, cabe ao Brasil desde 1947. Anos depois o professor Goffredo confessava ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cidadãos votem em ideários, não em fulanos, beltranos e sicranos.

Carta aos Brasileiros II

Em setembro de 1993, na segunda Carta aos Brasileiros, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonhava. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Em 2022, Lula da Silva também leu sua Carta aos Brasileiros, onde pregava uma nova prática política e a instalação de uma base moral. Sabem qual a primeira palavra do discurso de Lula na posse? Mudança. Nada disso foi cumprido. O país continua ser um deserto de ideias. Um renomado homem de letras, imortal da ABL, sugere que os protagonistas do momento - todos os pré-candidatos à presidência - assinem uma nova Carta aos Brasileiros, explicitando seu compromisso com o rol de temas alinhados. É uma boa ideia.

Covid-19 dominada?

Há um vago sentimento de que a Covid-19 foi dominada e vive seus últimos momentos. Será? Os números apresentados diariamente pelo consórcio de mídia confundem e impõem muitas dúvidas.

Seca e nuvens de terra

O país vive um dos mais secos tempos de sua história. Correntes de terra nascem e sobem aos céus de nossas cidades, em um prenúncio de que teremos encontros com apagões logo mais. Cidades turvadas por nuvens de terra emolduram cartões postais de nossas plagas.

Petrobras

Bolsonaro diz que se reuniu com o ministro das Minas e Energia para discutir fórmulas que pudessem baratear o preço da gasolina. Imaginou o presidente algo em torno de R$ 4. Pois bem. Logo a seguir, o presidente Luna, da Petrobras, disse que nada iria mudar. Conversa e desconversa.

A forca mais alta

"Canuto, Rei dos Vândalos, mandando justiçar uma quadrilha, e pondo um deles embargos de que era parente del-Rei, respondeu: Pois se provar ser nosso parente razão é que lhe façam a forca mais alta." Padre Manuel Bernardes.

 



postado às 08h45 | 14 de outubro de 2021

NÃO HÁ BELEZA NA MISÉRIA

Não há nenhuma beleza na miséria. A frase é do angolano José Eduardo Agualusa e cai bem para o momento.  A fome que ataca milhões de seres humanos no planeta, principalmente no continente africano, é um espetáculo horripilante. As massas sofridas que habitam as áreas de lama e esgoto, nas margens das grandes e médias cidades do nosso país, mais de 50 milhões de pessoas, formam pelotões avançados de sofrimento e dor. Os 15 milhões de brasileiros desempregados habitam o universo da desesperança. A miséria é um cancro que se espalha pelo corpo da Humanidade, devastando seres e a natureza, corroendo os valores que, certo dia, não faz tempo, semeávamos com amor no jardim dos nossos corações: a amizade, a solidariedade, a harmonia, o respeito ao outro, o carinho, o companheirismo, a humildade.

Hoje, as coisas estão ficando feias. Até os monumentos que tanto admirávamos. Os belos cartões postais passam rápidos por nosso olhar, perdendo o encanto e a magia que nos fazia sonhar. Que adianta contemplar o Pão de Açúcar dentro de um cercado de miséria, violência e morte? Que adianta tecer loas à grandeza e à beleza da floresta amazônica, se ali, o que vemos são imensos espaços de fogo e destruição? Para onde se contemple, nossa vista é levada, mesmo sem querer, para as tochas da destruição, geralmente acesas pela ambição humana ou pela cegueira que fecha as portas do bom senso.

A miséria habita tudo e ameaça chegar a cada um. Não se conforma com a territorialidade física, pedaços da natureza dividida, mas inicia sua depredação por mentes e corações. São sentimentos de ódio e vingança, que tomam o lugar da bondade, são maquinações urdidas com astúcia para vencer disposições e vontades adversárias, são emboscadas tramadas para subjugar oponentes nesse jogo sujo e maldoso que faz girar a humanidade em uma arena de lutas e mortandade. A Humanidade dá adeus aos princípios morais e éticos que, por séculos, edificaram os pilares de seu pensamento.

O respeito às leis da ciência agora ganha mais uma expressão: negacionismo. O prazer de muitos que detêm o poder é negar, é tentar abolir os avanços e as descobertas que os vários campos científicos conseguiram, graças aos esforços de pessoas geniais, gente que cultivava o prazer de fazer o bem da coletividade. Quantas vidas foram salvas com as descobertas das vacinas e dos remédios. Quanto a Humanidade ganhou com o passo a passo de seus criadores e inventores. Hoje, negar todo esse aparato do bem transformou-se, até em negócio, envolvendo, vejam só, pessoas que até cultivam saber e conhecimento.

Ganhar dinheiro, fazer fortuna, até com a miséria dos outros, virou o leit motiv desta terceira década do século. Você teve um bom dia? A pergunta é mais para saber se o interlocutor fez algum negócio, avançou em seus empreendimentos, entrou dinheiro no cofre. E menos se a paz guiou os passos da pessoa, se os afazeres foram todos cumpridos, sob a certeza de que esses alimentos do espírito nos trazem bons sonhos e um despertar com disposição para a labuta.

A palavra perde força. Nossos pais faziam seus negócios, muitas vezes escudados sob a certeza de que bastava a palavra para assumir um compromisso. Hoje, o negócio só vale se for validado em cartório, com firma reconhecida, carimbos e testemunhas. Tempos insólitos. Tempos estranhos. Tempos de incertezas. De muita conversa que se perde pelo excesso de expressões jogadas ao vento. Tempos em que até a morte se torna um ato banal. Hoje, morreram mil, ontem, 800. Passamos o patamar de 20 milhões de contaminados. Antigamente era assim: fulano morreu. Morreu? Não diga. Era uma tristeza imensa com sentimento de dor e perda.

A Humanidade cumpre seu roteiro. Escritórios e fábricas trabalham arduamente, milhões entopem trens e ônibus para chegar ao trabalho, lugares de comer e beber, restaurantes e bares, ficam abarrotados, principalmente nesse ciclo de domínio da pandemia do coronavírus 19. Mas não há como negar que muitas coisas mudaram. E a miséria entra em novos habitats. Antes, referíamo-nos ao campo físico para tratar do feio, do bonito, do belo e do horrível. Hoje, a feiura assumiu novos contornos.

Sob o verso de Manuel Bandeira: “que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? O que vejo é o beco.”



postado às 08h45 | 15 de setembro de 2021

Porandudas políticas

Abro a coluna com a solidariedade em Petrópolis.

Sou solidário e não pago

Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo, em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Quando chegava a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Certa eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista:

- Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário.

- Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também.

A montanha pariu...

Eu não diria que a montanha pariu um rato. Pois os ditos expressos pela maior autoridade do país produziram um monstrengo. Coisas como essas: não vai mais obedecer à decisões do STF, principalmente se emanadas pelo ministro Alexandre de Moraes; o presidente Fux deve enquadrar seus os ministros; só sairá do governo se for "morto"; maldiz a urna eletrônica; insufla as massas, induzindo-as à desinformação, enfim, não aceita o debate democrático como balizamento do futuro do país.

Com quem está a bola?

Chutou a bola na direção dos Poderes. Garantiu que iria acionar o Conselho da República, que debate pautas como desordem institucional e quebra da ordem. Diante do fiasco de não ter participantes, desdisse o que disse. Mas as palavras de ordem contra o Supremo estão no ar. Fux deu resposta dura como se previa, mas persistem as dúvidas! O que fazer ante a um ato de desobediência à Corte? Paralisar estradas federais é um ato de antipatia que depõe contra o governo. O mundo está perplexo, não apenas o Brasil. Trata-se de flagrante quebra da ordem normativa. Os presidentes do Senado e da Câmara não têm força para levar adiante a solução do impeachment. Os partidos vão gastar saliva com discursos. E só.

Lira e Ciro longe

Arthur Lira, o presidente tem a prerrogativa de levar adiante a ideia do impeachment. Mas logo ele, que negociou a participação do Centrão no governo? Ciro Nogueira, o presidente do PP, que se impôs a condição de "amortecedor" do governo, estará longe do imbróglio, quase dizendo: afasta-me de mim esse cálice, cheio de um vinho que não entra no meu paladar. Pacheco, o Rodrigo que comanda o Senado, é o menos temeroso, mas tem o cuidado de medir as palavras para não perder a chance de vir a ser candidato de Kassab, do PSD, à presidência. Teria suspendido a pauta do Senado esta semana.

Inevitável?

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), disse que é "inevitável" a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após os atos antidemocráticos de 7 de setembro. Este analista não acredita.

Celso de Mello e Carlos Ayres

O ex-decano do STF, ministro Celso de Mello, chama Jair Bolsonaro de "político medíocre que não está à altura do cargo" e o ex-presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto diz que o presidente está sujeito a penalidades se descumprir decisão judicial.

Tempos de pressão

O ditador vai ao médico:

- E a pressão, doutor?

- O senhor sabe o que faz, meu general. Neste momento, ela é imprescindível para manter a ordem.

Um país à deriva

Do episódio de um 7 de setembro pisoteado, sobra a imagem de um país à deriva, sob as rédeas de uma família sobre a qual pesam denúncias de corrupção. Filhos dando os rumos do que poderá vir a acontecer. Comandando eventos de direita. E o pai, usando frota de aviões e helicópteros, na companhia de ministros, transformando um evento cívico em um comício privado, gastando dinheiro público e colaborando para as aglomerações em momento em que o país flagra a multiplicação da vertente Delta do coronavírus.

Enquanto vai durar?

As ameaças do capitão estão no ar. Deduz-se que seu dito será cumprido. Sob pena de mais bravata na coleção de ditos estapafúrdios. E se assim continuar, a engenharia do golpe continua ganhando peças, situação terrível se contar com o grupo de militares que agem no entorno. Generais, coronéis, capitães, olhem para o Brasil. Não se deixem enganar pelo canto de sereia na travessia de Ulisses. Um golpe hoje jogaria o nosso país dos territórios devassados pela estupidez. Urge dar um basta nessa escalada. Sociedade organizada, é a vez das entidades abrirem o verbo. Produtores e empreendedores, não deixem o Brasil seguir o caminho das trevas.

7 de setembro

O 7 de setembro, para bolsonaristas, foi aquém das expectativas. Contou-se 125 mil pessoas na av. Paulista, 6% do esperado. Não entrarei nessa. O fato é que as falas do presidente em Brasília e em São Paulo plasmaram um monstrengo. O que foi dito é uma afronta à Constituição. Sob o prisma do desrespeito, desobediência, ruptura de princípios. A CF foi jogada na lata de lixo. O que fazer para reentronizá-la? Em 2022, o Brasil comemora 200 anos de independência. Sob que acordes? Liberdade? Opressão?

Voto auditável

Ora, o voto em urna eletrônica é auditável. Quem diz o contrário é ignorante. Querem voltar ao voto do cabresto, quando milicianos entregam envelopes fechados para eleitores ignorantes depositarem em urnas? (Doutor, em que estou votando? O coronel ou miliciano responde - deixe de ser besta, você não sabe que o voto é secreto?)

Expectativa

Este analista acredita nessas hipóteses:

1. Terá início uma reação parlamentar, que vai ter ondas mais altas um pouco mais adiante.

2. Com a soma das crises - sanitária, econômica, política, energética e social (com esgarçamento do tecido social) - é possível um desgarramento dos contingentes bolsonaristas por abril/maio.

3. A crise energética, se implicar apagão, acelerará o processo de desgaste do governo.

4. O auxílio Brasil, a ser lançado pelo governo no lugar do Bolsa Família, poderá aumentar o fôlego do governo por mais alguns meses.

5. A muito custo, Paulo Guedes aguentará ilustrar sua cabeça com o boné de Bolsonaro.

6. Este analista não aposta na candidatura de Lula como contraponto a Bolsonaro.

7. As oposições seguirão divididas até o 1º trimestre do próximo ano.

8. As FFAA deverão se dividir e a parcela profissionalizante predominará.

9. A vacinação em massa veio para ficar. A pandemia será uma constante em nossas vidas.

10. 2022 - Este analista vê como possibilidade a ideia de Bolsonaro não sustentar sua candidatura até o final.

Fecho a coluna com a velha malandragem.

A malandragem

Querem saber a origem da malandragem no Brasil? Veja o finalzinho da Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal.

"E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha."

Um pedido aqui, um trololó acolá e muita bajulação.



postado às 08h45 | 15 de setembro de 2021

O GOLPE E A RESISTÊNCIA

A escalada de tensões entre os Três poderes, uma economia rota e sem horizontes definidos, reformas encalhadas no Congresso e um presidente que insiste no confronto com ministros do STF e outros ingredientes incandescentes deixam a maioria da sociedade brasileira atônita. Seriam sinais de um golpe à vista para manter Bolsonaro e seus militares amigos no centro do poder, a exemplo de um Hugo Chávez?

Esses sinais são cada vez mais intensos depois da narrativa dos mais altos assessores do presidente, principalmente aqueles com história nas Forças Armadas. O general Heleno é um exímio mensageiro de sinais. Pois acaba de dizer que um golpe não está fora dos horizontes, claro, sob a ressalva de que um evento inusitado como esse carece do manto de alta gravidade. Bolsonaro é recorrente na lembrança da tese.

Falar, lembrar, referir-se ao golpe, sob a alegação de que, em momento como esse, as Forças Armadas estariam cumprindo papel moderador, nos termos que defende o jurista Ives Gandra Martins, ao examinar a letra constitucional em caso de impasse e tensão entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é mais que um simples ensaio interpretativo. É dar voz a um sentimento que corre nas veias de alguns núcleos. Impasse institucional?

Tensão entre os poderes é o que não falta para apimentar o caldo golpista. Mas a pimenta vem da sementeira do presidente. Apesar de se prever arrefecimento em suas investidas, os sinais são de que Bolsonaro pode recuar agora para voltar mais adiante. Há cinco investigações sobre ele em curso.

Difícil é sustentar um duelo verbal até o próximo ano. Bolsonaro vai precisar do Senado e da Câmara para fazer passar sua pauta. Sob esse terreno de dúvidas, entraremos no fim do ano com as pautas reformistas aprovadas parcialmente e todos com o olho (e o bolso) voltados para a economia. Que condição se apontaria para um golpe? Uma estrondosa vitória de Lula e ruas tomadas por grupelhos gritando palavras de ordem não aceitáveis pelas Forças Armadas? Clima de convulsão social ou apenas argumento para pôr tropas nas ruas? O Legislativo daria guarida a uma armação como essa? E o Judiciário ficaria apenas na observação?

Os talibãs do petismo, agora restritos, não teriam condições de voltar com suas bandeiras adornadas com os apetrechos do socialismo clássico. As classes médias têm, sim, condição de sustar um posicionamento radical que implique a tentativa de golpe - profissionais liberais, funcionários públicos, pequenos e médios proprietários, prestadores de serviços, autônomos, setores organizados. As margens carentes não se envolveriam diretamente em mobilizações, mas poderiam engrossar o caldo bolsonarista se o apelo maior for o assistencialismo.

No Brasil, o passado é sempre revisitado, com direito a reviver até seus hábitos pérfidos. É o caso do coronelismo do ciclo agrícola, que castigava o livre exercício dos direitos políticos. A autoridade constituída esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste país urbano, o poder público tem de pedir licença para subir o morro. O império coronelista do princípio do século passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro nas comunidades dominadas por milícias.

Por tudo isso, estamos diante de um novo coronelismo? Os currais eleitorais são comunidades miseráveis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formidável aparato.

Um caldo golpista está cada vez mais claro nas palavras de Bolsonaro. Mas um alento vem com o muro da resistência cada vez mais forte contra esta ameaça, a partir do Judiciário (de ministros que não se curvam aos impropérios do presidente), e de parte da sociedade organizada, como se viu no manifesto de mais de cinco mil empresários, economistas, intelectuais e outros contingentes formadores de opinião.

O fato é que a popularidade de Bolsonaro vai desabando ao longo do tempo. Resta saber se restará força para um segundo mandato em outubro de 2022. Ou então o muro da resistência vai assegurar uma era de paz e prosperidade, sem a participação dos extremistas de esquerda e de direita.



AUTOR

Gaudêncio Torquato