BLOG - Porandudas políticas

postado às 09h15 | 12 de abril de 2022

A GANGORRA DEMOCRÁTICA

Duas notícias alvissareiras. A primeira é a da aprovação pelo Senado americano da primeira juíza negra na Suprema Corte do país, Ketanji Brown Jackson, por indicação do presidente Joe Biden, no lugar do magistrado Stephen Bryer, que vai sair em breve. A segunda boa informação é a suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos pela maioria dos membros da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ambas estão ancoradas nos valores do Estado Democrático de Direito, a primeira com realce para o conceito de direitos e justiça para todos, sem preconceito de gêneros, cores e raças, e a segunda estimulada pela cruel mortandade em Butcha, cidade da Ucrânia, onde a Rússia teria cometido um massacre contra civis em fuga no conflito que ali se desenvolve há quase dois meses.

A democracia estaria ganhando de lavada não fossem os contrapontos que se formam no interior das próprias decisões que denotam avanço dos sistemas democráticos. A começar pela derrota de Donald Trump, que lutou de maneira desbravada na justiça americana para provar ter havido fraude nas eleições. Quando imaginávamos que Trump significasse um furacão fora de estação, não é que ele, refugiado em suas magnificas propriedades na Flórida, continua a atirar a torto e a direito, sob os índices de queda de popularidade de Joe Biden, de quem se esperava ser a estrela brilhante no horizonte da democracia americana? O fato é que o ricaço não abandonou a política e mais parece um guerrilheiro ensaiando a nova batalha que travará em 2024.

Significa intuir que o conservadorismo está longe de ser banido dos vãos da democracia. Aqui e ali, sinais, mesmo não tão próximos, transmitem a impressão de que os conservadores estão fincando estacas fortes nos férteis terrenos democráticos. O presidente francês, Emmanuel Macron, cai quatro pontos na pesquisa e vê se aproximar dele a deputada Marine Le Pen, de 53 anos, que deve chegar ao segundo turno, neste domingo.

A vitória, mais que expressiva, de Viktor Orbán, para ser o premier da Hungria, é mais um exemplo de como o conservadorismo vai enxertando as hortas da democracia pelo continente europeu. Orbán é um dos amigos de Vladimir Putin. Se formos dar uma olhada no nosso continente, poderemos até comentar que a vitória de Gabriel Boric, de 36 anos, no Chile, é sinal de renovação.

No Peru, protestos contra o governo de Pedro Castilho são respondidos com repressão e toque de recolher. Bolhas de insatisfação explodem em diversos recantos do planeta, a comprovar que os sistemas democráticos padecem por conta de demandas reprimidas das massas. Os liberais tampouco têm conseguido atender aos reclamos e expectativas das populações, razão pela qual o ambiente geral de indignação dá guarida aos governos autoritários.

Aliás, é sensível essa guinada autoritária, segundo reconhece a historiadora Lilia Schwarcz, ao lembrar que o mundo “está reagindo às crises recessivas com governos populistas”, que mais sensibilizam as populações. Para ela, no caso brasileiro, o PT e o PSDB fizeram um pacto por mais de 30 anos, cujo objetivo era se perpetuarem no poder, deixando de olhar para setores que estavam desgostosos com a política.

Entre as questões polêmicas entre os dois partidos está a do meio ambiente, que bate de frente com o setor do agronegócio, a par das políticas de inclusão social pela educação. Os setores mais progressistas enfrentam os núcleos mais autoritários, faltando uma intermediação que faça confluir o jogo de interesses. Este será um tema na mesa do debate eleitoral. Donde emerge a interrogação: como reagirão as massas carentes ante temáticas que muito as afligem, como o alimento barato, o transporte rápido e eficiente, o sistema hospitalar bem desenvolvido?

Teremos uma campanha onde o vetor autoritário será tão forte quando o pensamento progressista. E o populismo dos programas de auxílio será fundamental para a decisão sobre o voto. Vivemos, por enquanto, um clima ainda ameno. Que tende a esquentar a partir de agosto. A especulação grassará intensa. Mas ninguém pode se considerar vencedor. Nem mesmo franco favorito. O verso, por estas plagas, às vezes é lido pelo reverso.



postado às 08h30 | 07 de abril de 2022

Porandudas políticas

Um final surpreendente.

Freyre com y

Abro a coluna com a lembrança de Gilberto Freyre (com Y), um nome que se eleva no panteão da sociologia brasileira. Final de 1963. Festa de Formatura da turma do 3º colegial do Colégio Americano Batista, na rua Dom Bosco. Paraninfo escolhido: Gilberto Freyre, que havia estudado no colégio durante seus primeiros anos. Este escriba foi escolhido orador da turma. Também era presidente do Diretório Estudantil, que tinha como secretário o amigo e grande escritor (falecido) Marcus Accioly. Fomos, em um pequeno grupo, até Apipucos (bairro longínquo), entregar a carta-convite. Subimos a bela escadaria. Um gostoso licor de pitanga nos foi servido, enquanto, ansiosos, esperávamos a chegada do mestre. Sentou-se numa espreguiçadeira e iniciamos a fala. Entreguei a carta por mim assinada. Olhou o envelope, abriu a carta e, para nossa imensa surpresa, disse:

- Meus jovens, estou muito honrado com o convite. Até porque foi no Colégio Americano Batista que adquiri meus primeiros saberes. Mas vou devolver a carta. E esperarei que, na próxima semana, vocês a tragam, agora corrigida. Meu pai, Alfredo Freyre, quando recebia alguma correspondência como seu sobrenome grafado com I, ele a devolvia e pedia que os remetentes a corrigissem com o Y. Dessa forma, conservo a tradição.

Surpresos e frustrados, saímos de fininho e nunca mais grafei um Freyre sem perguntar, antes, se o destinatário é com Y ou com I.

Fiz o discurso de saudação. Recebi loas do paraninfo, que deixou o palco sob aplausos. É pena que não tenha mais esse discurso. P.S. A seguir, assistimos a um memorável show de Zé Vasconcelos e Lúcio Mauro, comediantes, que iniciavam sua trajetória profissional por Recife.

Brevíssimas

- Mais de 130 parlamentares, aproveitando a janela partidária, trocaram de siglas.

- Lula promete demitir, caso seja eleito, cerca de oito mil militares.

- Sergio Moro saiu arranhado do Podemos.

- Eduardo Leite não descarta ser vice de Simone Tebet.

- A reviravolta da Covid, na China, volta a causar medo no planeta.

- Putin ganha a batalha, mas perde a Guerra de versões para a Ucrânia.

- A jogada de João Doria, de ameaçar desistir, foi mais um tiro no pé.

- O conservadorismo está levando a melhor nas candidaturas vitoriosas por alguns redutos.

- Uma nova ordem mundial é o prenúncio de novos conflitos.

- China é a pedra que pode desequilibrar o jogo.

- Petrobras continuará a ser o calcanhar de Aquiles.

- As eleições serão tumultuadas. Ante os cenários que se desenham.

- A cada dia, fica mais difícil Lula levar no primeiro turno.

Homo brasiliensis

Nesse ano de eleições, não faltarão adjetivos para qualificar o homo brasiliensis, o nosso homem portador de vícios e costumes. A adjetivação para qualificar o homo brasiliensis é vasta e, frequentemente, dicotômica: cordial, alegre, trabalhador, preguiçoso, verdadeiro, desconfiado, improvisado. Afonso Celso, em seu Porque me Ufano do meu País, divide as características psicológicas do brasileiro entre positivas e negativas, dentre elas a independência, a hospitalidade, a afeição à paz, caridade, acessibilidade, tolerância, falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente.

Resumo de Freyre

Nessa linha, Gilberto Freyre (com Y, conforme vocês leram na abertura) em Casa Grande & Senzala, pontifica: "Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo".

As mulheres na política

A participação das mulheres na política vem de longe. Mais precisamente de 1928, quando a potiguar Alzira Soriano foi eleita prefeita do pequeno município de Lajes. Mas o sufrágio feminino só viria a ser promulgado por Getúlio Vargas em 1934. Portanto, foi uma pioneira. Bem como a primeira deputada eleita no Brasil e na América Latina, a paulistana Carlota Pereira de Queirós (São Paulo, 13 de fevereiro de 1892 — São Paulo, 14 de abril de 1982), médica, escritora, pedagoga e política.

Madame Trudeau

Uma curiosidade: a mãe do atual primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, também esteve da linha de frente da batalha da mulher pela emancipação política. Margareth Trudeau, então com 27 anos, calça jeans e uma t-shirt, por ocasião da visita do seu marido, o então primeiro ministro Pierre Trudeau à Cuba e Venezuela, dizia: "Não fiz nada de errado (pelo fato de ter voluntariamente se internado numa clínica para fazer psicoterapia). Se faço as coisas de modo autômato, sou considerada um robô. Não vou deixar que me distancie como acontecia no passado. Quero ser algo mais que uma rosa na lapela do meu marido". Outra mulher de político, Lady Bird Johnson, dizia: "o político deveria nascer enjeitado e permanecer solteiro".

Uma pessoa

"Não me considero uma mulher, e sim uma pessoa a exercer um ofício". (Indira Gandhi)

O eleitorado feminino

Na análise que faço sobre o eleitorado feminino, permito-me traçar algumas hipóteses, fruto das observações que venho fazendo ao longo de 40 anos de análise política. O pleito de outubro próximo será o mais racional para o eleitorado feminino, em outras palavras, será o pleito no qual a eleitora dará seu voto com maior convicção. Lembro que esse fenômeno advém do processo de organização da sociedade, em curso há alguns anos, e que tem na mulher um dos seus eixos. A mulher é quem mais sente o peso das carências nas áreas da saúde, educação, alimentos, transporte. Tende a buscar o perfil que mais se encaixe em sua moldura de necessidades. Escolherá o perfil independente do partido. A mulher lidera com 53% o voto no Brasil.

O jovem

Já o voto jovem, principalmente o do jovem com 16, 17 anos, será mais difícil de consegui-lo. O jovem descrê na política, a quem se refere como politicagem. Os políticos, regra geral, são ladrões. O desemprego que os afeta tem a ver com a irresponsabilidade dos governantes. Portanto, só mesmo um perfil que chame sua atenção poderá convencê-lo a ir às urnas. Nesse caso, vão buscar a figura que mais se identifique com os sinais de modernidade e inovação.

Os cinturões do governo

Avalia-se o desempenho de uma administração pela somatória de quatro campos de viabilidade: o político, o econômico, o social e o organizativo. O território social não passa de paisagem devastada pela improvisação. Medidas como as de combate à pandemia foram frouxas. Onde estão os pilares da política de saúde? Onde estão as políticas públicas para equacionar o déficit de seis milhões de unidades habitacionais para abrigar os 30 milhões de brasileiros sem teto? E o cinturão da gestão, da organização administrativa? Temos um ministério sem identidade.

Colcha de retalhos

Que eficiência se pode esperar de um ministério que é uma colcha de retalhos, com partes esburacadas, como as que abrigam ministros sob suspeita, envolvidos em escândalos, gente sem competência gerencial, quadros que vivem em torno de uma Torre de Babel? Como um país se dá ao luxo de ver 3% de sua safra perdida por causa da péssima condição das estradas? O cinturão econômico, esse também está mal ajustado. Trata-se de uma área que navega pelo piloto automático. O desemprego ultrapassa 15 milhões de brasileiros. O arrocho tributário alcança patamar nunca visto.

A maldade é dos outros

Certa feita, Carl Jung perguntou a um rei africano sobre a diferença entre o bem e o mal. Às gargalhadas, o soba respondeu: "Quando roubo as mulheres de meu inimigo, isso é bom. Quando me rouba ele as minhas, isso é ruim". Nessa mesma linha, Alexander von Humboldt indagou a índios da Amazônia a razão para não comerem os colegas. Os índios responderam: "O senhor tem razão. Não podemos compreender que mal há nisso, pois os homens que comemos não são nossos parentes. Quando pertencem a tribos inimigas, canibalismo neles". É o Brasil.

Ainda sobre maldade

Ainda sobre canibalismo. Um turco se encontrou um dia com um canibal. "Sois muito cruéis, pois comeis os cativos que fazeis na guerra", disse o maometano. "E o que fazeis dos vossos?", indagou o canibal. "Ah, nós os matamos, mas depois que estão mortos não os comemos". Montesquieu assim arremata a passagem contada no livro Meus Pensamentos: "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular". P.S. Uma olhada nas cenas de guerra entre Rússia e Ucrânia atualiza a crença.

Homem de papel

No montinho de livros que esperam por minha leitura, o destaque vai para "Homem de Papel", de um dos mais celebrados autores da literatura brasileira, o potiguar e diplomata que honra Mossoró/RN, onde nasceu: João Almino. Ansioso para fruir a imaginação do João, que escolheu o conselheiro Aires, dos romances de Machado de Assis, como protagonista e narrador deste seu último romance. Apenas para lembrar, João Almino foi aclamado por suas obras, entre as quais, Ideias para onde passar o fim do mundo, Samba-enredoAs cinco estações do amor, O livro das emoçõesCidade LivreEnigmas da Primavera e Entre facas, algodão. Seus livros foram publicados na Argentina, Espanha, EUA, França, Holanda, Itália e México, entre outros países. Desde 2017, João integra a Academia Brasileira de Letras. Editora Record. Orelha de Hélio Guimarães., prof. da USP, e posfácio de Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa.



postado às 09h15 | 05 de abril de 2022

UM NOVO CORONELISMO?

No Brasil, o passado é sempre revisitado. E com direito a reviver hábitos, mesmo os pérfidos. É o caso do coronelismo dos anos 30, do ciclo agrícola, que castigava o livre exercício dos direitos políticos. Os velhos coronéis da Primeira República (1889-1930) consideravam os eleitores como súditos, não como cidadãos. Criavam feudos dentro do Estado.

A autoridade constituída esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste País urbano, principalmente em alguns recantos, as autoridades precisam pedir licença para subir morros. O império coronelista do princípio do século passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro. O próprio ex-ministro da Defesa, general Braga Netto, que acaba de deixar o Ministério para se habilitar a ser vice na chapa de Bolsonaro, já chefiou tropas no RJ com o fito de dominar o império miliciano. Pouco conseguiu. entra um, sai outro, e os grupos “donos de votos de cabresto” estão sempre agindo. Nesse ano, a polarização política deve incrementar essa modalidade eleitoral.

As denúncias afloram: comunidades de muitas cidades do segundo maior colégio eleitoral do País chegam a ser dominadas por milícias, quadrilhas comandadas por policiais que ameaçam pessoas que não elegem seus candidatos. E por mais que forças policiais entrem em ação, milicianos posam com seus fuzis e desafiam o poder constituído. O assassinato da vereadora Marielle Franco continua coberto de mistérios.

Em plena segunda década do século XXI, vivemos tempos de um novo coronelismo. Desta feita, até parece que os nossos governantes aprovam a corrente neocoronelista. Para recordar, o  voto de cabresto, prática fraudulenta dos tempos da velha República, transfere-se ao domínio de comandantes de milícias, personagens da urbe violenta que se valem da insegurança para implantar o medo. Os currais eleitorais são comunidades miseráveis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formidável aparato.

 A mudança da identidade nacional pouco tem contribuído para a alteração do mapa político. Nos últimos 70 anos, a população urbana cresceu, no País, de 30% para 80%, agigantando cidades, expandindo demandas, e propiciando a continuação de vícios, dentre eles o voto por encomenda. É verdade que mudanças sociais e políticas, a partir das décadas de 30 e 40, contribuíram para melhorar a participação do povo no processo eleitoral. Mas não se pode negar a imensa distância, hoje muito perceptível, entre a fortaleza econômica e a nossa frágil estrutura política.

O biólogo francês Louis Couty dizia, em 1881, que “o Brasil não tem povo”. Seu argumento era que, dos 12 milhões de habitantes da época, poucos eram os eleitores capazes de impor ao governo uma direção definida. Uma razão para explicar nossa incultura política é a equação que soma componentes como pobreza educacional das massas, perversa disparidade de renda entre classes, sistema político resistente às mudanças, sistema de governo - hiper-presidencialismo de cunho imperial - e patrocínio de mazelas históricas, entre as quais reinam o patrimonialismo e o assistencialismo.

A concentração de forças permanece sob a égide do Estado todo-poderoso, bem duro na função de cobrador de impostos, eixo repressor, distribuidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade. O corolário deste modelo se expressa no conceito de “estadania” em contraposição à “cidadania”, cultura orientada para o Estado e não para a representação política. O brasileiro continua a ser um “cidadão menor” e, sob esta perspectiva, podemos compreender as causas para o ressurgimento de novos coronéis da política, como os quadrilheiros urbanos.

Esse “cidadão precário” integra o maior contingente nacional, sendo a grande maioria dos 150 milhões de eleitores apta a votar. São os aglomerados que se aboletam nas periferias congestionadas do Sudeste, região que abriga quase 50% da população, e os bolsões carentes do Nordeste, onde vivem 27% dos brasileiros. A vassalagem de ontem muda de patrão, mas não de atitude. O drible moral continua a dar as cartas.

Ontem, o coronel rural entregava o voto fechado no envelope para o súdito depositar na urna, sem lhe dar o direito de saber em quem estava votando: “O voto é secreto” Hoje, o coronel miliciano e o chefe da gangue prometem conferir votos dados a seus candidatos. Pior: o comandante em chefe da Nação questiona a urna eletrônica, enxergando nela motivos de fraude.

Não será de admirar se uma nova prática for adotada nas eleições de outubro: o roubo de urnas eletrônicas para driblar o processo eleitoral.



postado às 09h15 | 31 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com pequena aula de política.

Aula de política

Diálogo entre Colbert e Mazarino, durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault:

Colbert: Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, senhor superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.

Mazarino: Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criando outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E sobre os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert : Então como faremos?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos. Cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

  • Parte I

Panorama das candidaturas

1. A estrada aplainada

Os tratores da política aplainam a estrada da política. Abrem os cursos mais estreitos, alargam as margens, limpam a terra no meio do caminho. O Centrão tem os maiores tratores. Mas todos os pré-candidatos usam seus meios e formas. Os mais endinheirados começam a compor suas equipes. E todos pensam em como avançar sem grandes empecilhos. Nenhum deles consegue. A desconfiança é generalizada na política e em seus protagonistas. Façamos uma análise das coisas inconvenientes.

2. Lula - PT

Tem o percurso mais largo, nem por isso o mais fácil. O PT, mesmo com as vitórias de Luiz Inácio nas instâncias da Justiça, continua marcado com o sinal da desconfiança. Para começo de conversa, Lula não foi inocentado. Mas ganha a batalha da comunicação porque o julgamento das Cortes, principalmente, no STF, é que o processo contra ele foi mal conduzido, merecendo começar tudo do zero. Para efeito externo, ele foi inocentado. E mais: com os altos índices nas pesquisas, quem vai condenar Lula? Portanto, a primeira instância de Brasília vai esperar ad aeternum.

3. Costuras desajustadas

As costuras feitas por Lula em torno de sua candidatura não são unanimidade no PT. Parte do petismo duro – as influências tradicionais – não aceitam algumas, nem mesmo a possibilidade de Geraldo Alckmin vir a compor a chama lulista. Marília Arraes, neta de Miguel Arraes, sai do PT para ingressar no partido de Paulinho da Força. E racha alguns partidos, mesmo que venha apoiar Lula. O mercado – o famoso corredor da avenida Faria Lima – ainda vira os olhos com medo do PT. E Lula promete o céu na terra, dizendo, entre outras coisas, que nem José Dirceu, José Genoíno e Dilma Rousseff serão aproveitados em seu eventual governo.

4. Bolsonaro - PL

Recupera alguns pontos na avaliação do governo e no grau de confiança junto a setores que o viam, de modo desconfiado, mas continua o pré-candidato de um olho só: cheio de ódio, uso de termos ácidos, enaltecimento da ditadura, beneficiador de polícias e religiosos, luta do bem (ele mesmo) contra o mal (Lula). Acende todos os dias algumas luzes para o diabo. E acha que os eleitores que não votam nele são metade comunistas ou apaixonados pelo lulopetismo. Olhar completamente enviesado. Ainda por cima, cerca-se de militares sob a ameaça de que ele poderá ser o salvador da Pátria.

5. Moro - Podemos

Sergio Moro entrou na vala comum dos políticos mortais, passando a conviver com as pressões e contrapressões da política. Passa a ser triturado pela máquina destruidora de reputações. Já não porta uma réstia de carisma, coisa que o beneficiava, antes de substituir os ossos do ofício. Não deverá alargar seu caminho, arrumando contingentes eleitorais ou formando frentes partidárias. Será massacrado pelo embate sangrento nas hostes políticas.

6. Ciro - PDT

Ciro Gomes, mesmo com sua costumeira metralhadora giratória, tem dificuldades em se posicionar como alternativa. Atira livremente para todos os lados. E, ao invés de mostrar alto conhecimento do país, como é seu caso, prefere usar balas de canhão. Melhorou o discurso e a postura – obra de João Santana – mas não sai da linha de tiroteio. E o eleitor está saturado de tanto balaço.

7. Doria - PSDB

João Doria faz um bom trabalho no comando do governo de São Paulo, é proativo, trabalhador, incansável. Mas faz o marketing de uma nota só. Até cunhei um nome para isso: egomarketing. O patrocinador número um das vacinas, grande articulador na área dos investimentos, cria rastilhos de pólvora por onde anda e também não é bem visto por alas tucanas. Ganhou as prévias de Eduardo Leite, governador do RS, que tem certo carisma. E poderia vir a ser candidato. Leite, se quiser, terá vida longa na política. Continua no PSDB, após renúncia ao governo do RS.

8. Simone – MDB

Seria ótima opção se viesse a ser candidata de uma frente partidária. É desconhecida no país. Tem fluência ideativa, mas está muito longe das massas.

9. Luiz Felipe D'Ávila – Novo

Desconhecido no país. Sem chances de empolgar as massas.

10. André Janones -Avante

Sem condições - Aproveitamento de oportunidades.

11. Eymael - DC

Sem condições- a musiquinha é antiga: um democrata cristão.

12. Luciano Bivar – União Brasil

Sem condições – Poderá fazer uma grande bancada.

13. Vera Lúcia - PSTU

Sem condições- Marcar presença.

14. Sofia Manzano – PCB

Sem condições- Marcar presença.

  • Parte II

Lições do passado

A morte de Sócrates

Aos discípulos que o visitavam na prisão e o aconselhavam a fugir, Sócrates respondia:

– "Uma das coisas em que acredito é no reinado da lei. Bom cidadão como tantas vezes vos tenho dito, é aquele que obedece às leis de sua cidade. As leis de Atenas condenaram-me à morte, e a inferência lógica é que, como bom cidadão, eu deva morrer."

Narra Max Eastman, em ensaio sobre "O Mais Justo e o Mais Sábio dos Homens", que, ao se aproximar a hora fatal, rodeado de amigos, chega o carcereiro, a quem pergunta:

– "Agora, você que entende dessas coisas, diga-me o que fazer."

– "Beba a cicuta, depois levante-se e ande um pouco até sentir as pernas pesadas. Então, deite-se e o torpor subirá ao coração."

Fez o que foi recomendado. Quando andava, lembrou-se de algo:

- "Crito, devo um galo a Esculápio. Providencie para que a dívida seja paga."

Deitou-se, fechou os olhos e quando Crito lhe perguntou se havia mais recomendações, ele já não respondia.

Confúcio

Quando Confúcio visitou a montanha sagrada de Taishan, encontrou uma mulher cujos parentes haviam sido mortos por tigres. Ele perguntou:

– "Por que não se muda daqui?"

– "Porque os governantes são mais ferozes que os tigres."

Um pouco mais de Confúcio:

"Se você quer ser sábio, aprenda a questionar razoavelmente, a escutar com atenção, a responder serenamente e a calar quando não tiver nada a dizer."

O pensamento de Confúcio gira em torno da educação como fonte de virtudes. Ele prega três virtudes fundamentais: 1) A bondade, que gera alegria e paz interior; 2) A ciência, que permite dissipar as dúvidas, e; 3) A coragem, que afasta todas as formas de medo. Compartilharemos aqui algumas dessas frases de Confúcio que continuam válidas até hoje.

Martin Luther King

Em 28 de agosto de 1963, King discursou para um público de 250 mil pessoas em Washington. O discurso é uma das melhores peças de oratória contemporânea.

Eu tenho um sonho

"Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a história como a maior manifestação pela liberdade na história de nossa nação. Cem anos atrás um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a proclamação da emancipação [dos escravos]. Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana, como exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda. Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho".

Fecho a coluna com pequenas lições de marketing.

Primórdios do marketing político

"Rastreie, vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos". (Quinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, o grande tribuno, em 64. A. C., quando este fazia campanha para o Consulado de Roma).

O marketing de campanha

O marketing político eleitoral abriga duas vertentes: o marketing massivo, voltado para atingir classes sociais e categorias profissionais, indistintamente; e o marketing vertical, segmentado ou diferenciado, voltado para atender agrupamentos especializados: profissionais liberais, donas de casa, formadores de opinião, núcleos religiosos, militares, funcionários públicos, etc. Nas campanhas, o marketing segmentado acaba assumindo tanta importância quanto o marketing massivo. E a razão está na intensa organicidade da sociedade brasileira.

Ciclos da campanha

Orientação para candidatos e assessores: estabelecer adequado cronograma dos ciclos da campanha, que, como se sabe, possui cinco ciclos: lançamento, por ocasião da Convenção; crescimento, entre quatro e cinco semanas após a Convenção; maturidade/consolidação, quando a campanha se firma no sistema cognitivo do eleitor, após ampla visibilidade; clímax, momento em que o candidato alcança seu maior índice de intenção de votos; e declínio, quando o candidato tende a cair nas pesquisas de opinião. Todo esforço se faz necessário para o clímax ocorrer na semana das eleições. A dosagem dos ciclos há de obedecer ao funil da comunicação - jogando-se mais água (volume de comunicação/visibilidade) na segunda quinzena de setembro. Candidato que começa a decair antes do tempo corre o perigo de morrer na praia.

Planejamento de campanhas

Este consultor, ancorado em sua vivência, chama a atenção para o planejamento do marketing das campanhas, que abriga estas metas: 1) priorizar questões regionalizadas, localizadas, na esteira de um bairro a bairro, ou seja, fazer a micropolítica; 2) procurar cria um diferencial de imagem, elemento que será a espinha dorsal da candidatura, facilmente captável pelo sistema cognitivo do eleitor; 3) desenvolver uma agenda que seja capaz de proporcionar "onipresença" ao candidato (presença em todos os locais); 4) organizar uma agenda contemplando as áreas de maior densidade e, concentricamente, chegando às áreas de menor densidade eleitoral; 5) entender que eventos menores e multiplicados são mais decisivos que eventos gigantescos e escassos; 6) atentar para despojamento, simplicidade, agilidade, foco para o essencial, mobilidade, propostas fáceis de compreensão e factíveis. Esse um resumido escopo de planejamento.

Marketing: os cinco eixos

Resgato, aqui, os cinco eixos do marketing eleitoral: pesquisa, formação do discurso (propostas), comunicação (bateria de meios impressos – jornalísticos e publicitários – e eletrônicos), articulação política e social e mobilização (encontros, reuniões, passeatas, carreatas, etc.). A mobilização dá vida às campanhas. Energiza os espaços e ambientes. A articulação com as entidades organizadas e com os candidatos a vereador manterá os exércitos na vanguarda. A comunicação é a moldura da visibilidade. Principalmente em cidades médias e grandes. Sem ideias, programas, projetos, os eleitores rejeitarão a verborragia. E, para mapear as expectativas, anseios e vontade, urge pesquisar o sistema cognitivo do eleitorado.

 



postado às 08h45 | 24 de março de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com historinhas do grande Câmara Cascudo, descritas pelo acadêmico e professor Diógenes da Cunha Lima, em sua magnífica coletânea Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz (Lidador, 3ª ed.)

O poeta João Cabral de Melo Neto insiste em ver Cascudo. Dona Dália adia várias vezes a visita, preocupada com a saúde do marido. Zila Mamede interfere, lembrando que o poeta e embaixador vai dar muitas alegrias a Cascudo. Pontualmente, às 3 da tarde, chega o poeta. Cascudo não se contém. Fica de pé, gesticula, conta casos, relembra fatos durante mais de duas horas. Enquanto recita poesia galega Cascudo desmaia. João Cabral e Zila Mamede evitam a queda. Instala-se o nervosismo, procura-se um cardiologista, telefones que não atendem, João Cabral toma tranquilizantes, Cascudo foi abrindo os olhos, direcionou-os para João Cabral, falou com voz muito triste:

- Estou preocupado..... com ele... E apontou para o poeta.

No Rio de Janeiro, uma senhora da alta sociedade, que não gostava de Cascudo, encontra-se com ele num elevador. Cascudo lhe fez as devidas vênias. Ela, imperiosa:

- Sabe que eu nunca li um livro seu?

E Cascudo incisivo:

- Nem eu

Cascudo deixou o curso da Faculdade de Medicina, que havia iniciado na Bahia, para se formar em Direito, em 1928. Perguntado porque tinha abandonado o curso médico, ele disse, sem hesitar:

- A pedido dos doentes.

Panorama visto de perto

Um vice

O ministro Walter Braga Netto, ministro da Defesa, deverá ser o vice na chapa de Bolsonaro. O general Mourão, o atual vice, se conforma com a eleição para senador pelo RS ou mesmo a vice-governador numa chapa sulista. Bolsonaro disse, este fim de semana, que seu escolhido para a vaga "é de Belo Horizonte e fez escola militar", perfil ao qual o ministro se encaixa. O movimento é visto como uma tentativa do presidente de se blindar contra processos de impeachment. As credenciais que levaram o general Braga Netto ao governo de Bolsonaro eram a de um militar experiente que executou a árdua missão de ser o interventor da segurança pública no Rio, em 2018, por designação de Michel Temer.

Procura-se um nome

Gilberto Kassab está à procura de um nome para ser o candidato a presidente pelo PSD. Era Rodrigo Pacheco. Passou a ser Eduardo Leite, mas as forças do PSDB pressionam para que o governador tucano do RS não saia do partido. Ventila-se, agora, com o nome do ex-governador do ES, Paulo Hartung. A dúvida persiste, Kassab não quer aderir logo ao Lula.

A saída de Marília Arraes

A eventual saída da deputada Marília Arraes, do PT, é um golpe para as pretensões do lulismo no Nordeste. A deputada não dialoga bem com a ala do senador Humberto Costa, do PT pernambucano. Mas Marília estará com Lula.

Rejeição

Há um Senhor Eleitor que está sendo desdenhado, menosprezado. É o Senhor Eleitor chamado Rejeição. Com mais de 30 de rejeição, um candidato fica na beira do precipício, e tem uns com mais de 50% de rejeição, que significa: "eu não voto nessa pessoa de jeito nenhum". Tanto Bolsonaro quanto Lula registram mais de 50% de rejeição.

Jacques Wagner

Foi um bom governador da Bahia. Recusa-se a entrar outra vez no páreo. Quem faz objeção forte é a ex-primeira dama, dona Fátima Mendonça, que conhece o sacrifício de ser político, ainda mais para um cargo no Executivo em tempos de vacas magras, Estados sem recursos. Faz bem.

Rodrigo Garcia

O vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, está bem atrás nas pesquisas. Fernando Haddad lidera a corrida com muitos pontos na frente. Este analista lembra o alto índice de rejeição do petismo em São Paulo. E ainda acredita nas chances de Garcia.

Máscaras

As máscaras têm sido abolidas do território nacional. Na China, a covid-19 voltou com força. Temo uma nova onda. Sugiro a linha do bom senso.

A onda petista

O PT tem condições de fazer a maior bancada de deputados Federais e estaduais. Posição que já foi do MDB. O PT virou um partidão de centro.

O assistencialismo

Outro grande eleitor de outubro próximo será o assistencialismo populista. Anotem e cobrem.

"O que faz os atores medíocres é a extrema sensibilidade... e é a ausência absoluta de sensibilidade que prepara os atores sublimes. As lágrimas do comediante escorrem de seu cérebro; as lágrimas do homem sensível descem de seu coração. Diz-se que o orador é sempre melhor quando se inflama, quando irritado. Nada disso. É quando se finge de encolerizado. Os comediantes impressionam o público, não quando estão furiosos e sim quando representam bem o furor". (Denis Diderot in Paradoxe sur le comédien)

Panorama visto de longe

Tirando a camada de exageros do bolo expressivo, o armagedom, como lembra o sábio professor Ivan Maciel, deixa de ser uma quimera, algo difícil a acontecer. Basta que um dos Senhores da Guerra aperte um botãozinho. Este fim de semana, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, chegou a alertar: se não formos capazes de acertar nossa conversa, a III Guerra Mundial torna-se um cenário à vista.

O Centro

É uma repetição impressionante. Por que a Ucrânia, um país de médio porte de 40 milhões de pessoas no extremo leste da Europa, esteve no epicentro da guerra não uma, não duas, mas três vezes?

Respostas

Parte da resposta tem a ver com geografia. Situada entre a Rússia e a Alemanha, há muito tempo é vista como o local da luta pela dominação do continente. Mas as razões mais profundas são de natureza histórica. A Ucrânia, com sua origem comum com a Rússia, desenvolveu-se de maneira diferente ao longo dos séculos, divergindo de maneira crucial de seu vizinho do leste.

Um só país

O presidente Vladimir Putin gosta de afirmar que a Ucrânia e a Rússia são de fato um país. O que é errado. Mas ele está certo em pensar que a história contém uma chave para entender o presente. Em 1904, um geógrafo inglês chamado Halford John Mackinder fez uma previsão ousada. Em um artigo intitulado "O pivô geográfico da história", ele sugeriu que quem controlasse o Leste Europeu controlaria o mundo. Em ambos os lados dessa vasta região estavam a Rússia e a Alemanha, prontas para a batalha. E no meio estava a Ucrânia, com seus ricos recursos de grãos, carvão e petróleo.

Ponto de confluência

Não há necessidade de entrar em detalhes. Mas a Ucrânia provou ser extremamente influente após a Primeira Guerra Mundial, sendo o centro dos conflitos. Graças ao geopolítico nazista Karl Haushofer, o conceito migrou para o "Minha Luta" de Hitler. A Ucrânia era a ponte que levaria a Revolução Russa para o oeste até a Alemanha, tornando-a uma revolução mundial. O caminho para o conflito novamente passa pela Ucrânia. A guerra, quando ocorreu, foi catastrófica: na Ucrânia, cerca de sete milhões pereceram. Na sequência, a Ucrânia foi anexada à União Soviética por um tempo. Com o colapso do comunismo, muitos acreditavam que as profecias do geógrafo Mackinder estavam ultrapassadas e o futuro pertencia a Estados independentes e soberanos, livres das ambições de vizinhos maiores. Hoje, a posição da Ucrânia no mapa mundial é crucial para os desdobramentos dos conflitos na Europa e no mundo.

De História

Historinha de Sócrates

Quando ouvia alguém falando, perguntava se realmente sabia o que estava dizendo. Certa vez, ouviu um eminente estadista, aproximou-se dele e indagou:

– "Perdoe-me a intromissão, mas o que vem a ser para o senhor a coragem?"

– "Coragem é permanecermos no nosso posto em perigo", respondeu o orador.

– "Mas suponhamos que a boa estratégia exigisse a retirada?", replicou Sócrates.

– "Bem, isso é diferente. Está claro que, nesse caso, não haveria necessidade de permanecer no posto."

– "Então coragem não é permanecer no nosso posto, nem retirar, não é verdade? Pergunto, então, o que é coragem?"

– "Confesso o meu embaraço. Creio que realmente não sei."

– "Eu tampouco", arrematou Sócrates, "mas será que se trata de algo que difere do uso da cabeça, pura e simplesmente. Isto é, fazer o que seja razoável, independente do perigo?"

– "Isso parece mais acertado", observou alguém entre o grupo.

Sócrates finalizou:

– "Concordaremos, então, apenas para argumentar, é claro, pois é uma questão difícil, que a coragem se resume em sólido bom senso? A coragem é presença de espírito. E o oposto, nesse caso, seria a presença de em tal intensidade que perturbaria a mente?"

Winston Churchill, o humor

Há célebres passagens de humor de autoria de Churchill. Aqui, uma pequena seleção:

Abanando minha cabeça

Winston Churchill fazia um discurso mordaz quando um aparteador, saltando do lugar para protestar, só conseguiu emitir sons abafados. Churchill observou:

– "Vossa Excelência devia deixar crescer uma indignação maior do que a que pode suportar."

Em outra ocasião, estava sentado, sacudindo a cabeça de maneira tão vigorosa e perturbadora, que o orador gritou, afinal, exasperado: – "Quero lembrar ao nobre colega que estou apenas exprimindo minha própria opinião."

Ao que Churchill respondeu:

– "E eu quero lembrar ao nobre orador que estou apenas abanando a minha própria cabeça."

Sou o chefe

O General Montgomery estava sendo homenageado, pois vencera Rommel na batalha da África, na 2ª Guerra Mundial. Discurso do General Montgomery:

– "Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói".

Churchill ouviu o discurso e com ciúme, retrucou:

– "Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele."

Se houver...

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto. Convite de Bernard Shaw para Churchill:

– "Tenho o prazer e a honra de convidar o digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver."

Resposta de Churchill:

– "Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver."

Por que não?

Quando Churchill fez 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:

– "Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos."

Resposta de Churchill:

– "Por que não? Você me parece bastante saudável."

Veneno no seu chá

Bate-boca no Parlamento inglês. Aconteceu num dos discursos de Churchill em que estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, conhecida pela chatice, que pediu um aparte (Sabia-se que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos, mas concedeu a palavra à deputada). E ela disse em alto e bom tom:

– "Sr. Ministro, se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!"

Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu toda a plateia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, mandou:

– "Nancy, se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá com prazer!"



postado às 09h30 | 23 de março de 2022

REVIVENDO A SÍNDROME DO TOURO

Abrimos 2022 com a sinalização de que viveremos um ciclo de tensão, envolto no cobertor eleitoral. A par das costumeiras escaramuças que o país costuma abrigar sob a teia de uma guerra pelo poder entre protagonistas que lutam para aumentar sua fatia de bolo, desta feita estaremos diante de uma encruzilhada: à direita, descortina-se uma trilha de curvas e buracos, que dificultam a caminhada dos peregrinos pela régua civilizatória; à esquerda, uma vereda também sinuosa, que impede descortinar horizontes claros. 

O fato é que, mais uma vez, padeceremos da síndrome do touro, caracterizada pela sentença: pensar com o coração e arremeter com a cabeça. Não é novidade. Os ciclos eleitorais são propícios a expandir os níveis de emoção e a enfraquecer as taxas de racionalidade. País tropical, o Brasil lapida a feição de  território emotivo, diferente do modus vivendi de nações que forjaram a identidade no cimento da racionalidade, como os países nórdicos, por exemplo.

Olhemos para o pano de fundo, onde está a lenha que alimentará fogueiras de múltiplos tamanhos: a avaliação de três anos do governo Bolsonaro; a crise sanitária, com a troca de chumbo grosso entre guerreiros da situação e da oposição; a discussão sobre as vacinas, um tema de intensa polêmica; a avaliação dos governos estaduais; as operações espetaculosas da Polícia Federal, como esta recente que teve como alvo o ex-governador de São Paulo, Márcio França, que volta a disputar o governo em outubro próximo pelo PSB; a crise hídrica, com falta de chuva em algumas regiões, rebaixamento do nível dos reservatórios e excesso de água em outras: as inundações na Bahia, Minas Gerais e outros Estados garantindo imagens fortes no espaço eleitoral. 

Os dois principais fogueteiros serão Jair e Luis Inácio. O presidente, como mostra todos os dias, tende a reforçar a condição de vítima, valendo-se do escudo emotivo originado pela facada de um maníaco, Adélio Bispo, cuja recorrência ilustra a expressão do bolsonarismo desde 2018. A recente obstrução intestinal, que interrompeu o périplo do presidente em SC, foi mais um episódio perpetrado pelo Senhor Imponderável, que costuma nos visitar.  

Lula, de seu lado, mostra-se como o benfeitor dos pobres, famintos e distantes do pão sobre a mesa. E mais: sem o rancor verborrágico de outrora; ao contrário, veste o manto da união, sob a bandeira de um pacto super-partidário, com que espera ter apoio de entes à esquerda e ao centro-direita. Sua aliança com Geraldo Alckmin, ex-tucano, possível candidato a vice em sua chapa, está sendo chamada de “estratégia das tesouras, cujas bandas abertas parecem mostrar diferenças. Ambas, porém, cortam apenas para o lado desejado por quem as manuseia. As redes sociais batem bumbo: gato e rato se unem. Até composições musicais viralizam exibindo as “peculiaridades” destes animais.

O lavajatismo será acusado de exorbitâncias. O troco virá na esteira de lembranças sobre o mensalão e o petrolão, a serem tirados do baú e exibidos como trunfo para mostrar a corrupção na era lulista. A questão será: o discurso “pegará”? As massas se incomodarão com o passado ou preferirão ouvir mensagens diferentes que denunciavam os subterrâneos da corrupção? Eis algumas situações que tendem a balizar atitudes e o sistema cognitivo dos eleitores: o estado da economia, falta de dinheiro no bolso, greves controladas ou um cordão de movimentos reivindicatórios, enfim, o Produto Nacional Bruto da Felicidade Social, o PNBF. Entre 0 e 10, que nota ganhará em setembro/outubro?

A insatisfação/satisfação se fará presente nas urnas. As emoções ganharão teor expressivo junto às correntes das margens, mas encontrarão resistência por parte de contingentes do meio da pirâmide. Assistiremos a uma campanha eleitoral paralela, com registros bombásticos nas redes sociais. Será uma guerra de verbos e adjetivos, desfechados principalmente por partidários de Bolsonaro e de Lula.  

Chegaremos esgotados em outubro. Afinal, o país continuará patinando no mesmo lugar ou dará um salto seguro para enfrentar o amanhã? O sentimento deste escriba é de que a crise ensejará oportunidades para o Brasil. Mesmo revivendo a síndrome do touro.



AUTOR

Gaudêncio Torquato