BLOG - Porandudas políticas

postado às 09h30 | 20 de maio de 2022

Porandudas políticas

Brevíssimas....

Por aqui...

- Presidente Jair continua apostando em intensa polarização da campanha eleitoral.

- Artigo de Elio Gaspari, com muita repercussão, diz que o presidente ensaia um golpe, sendo a noite do dia 2 de outubro, uma espécie de prazo fatal para um movimento golpista, caso Bolsonaro perca as eleições.

- Tenho dito e repetido, o fator determinante para a vitória ou derrota do presidente será a equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Dinheiro no bolso significa geladeira cheia, barriga satisfeita, coração (agradecido ou enfurecido), cabeça disposta a eleger ou a mandar o governante para casa.

- Lula terá palanques múltiplos em alguns Estados. Mais do que terá Bolsonaro.

- A propósito, respondendo a uma consulta da coluna, Gilberto Kassab ouve os presidentes do PSD nos Estados, mas adianta que a tendência é a de liberar as bancadas. Eis o que levantou Kassab até o momento:

-RJ: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-BA: coligação com Lula.

-AP: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-PR: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-RS: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-AM: coligação com Lula.

-PA: candidatura própria (se não tiver, liberar)

- O Instituto Paraná Pesquisas acaba de fazer sua pesquisa periódica em SP. Murilo Hidalgo manda para a coluna:

- Fernando Haddad, PT; 29,7%; Márcio França, PSB, 18,6% e Tarcísio de Freitas, Republicanos, 15,2%; nenhum, branco/nulo, 19,3%.

- PSDB é um partido que terá de renascer das cinzas de seus rachas internos.

- Tendência de renovação da Câmara, na eleição de outubro, sinaliza mais de 50% do atual corpo parlamentar.

- As manifestações de 1º de maio estiveram bem abaixo das expectativas. Para os dois lados: de Bolsonaro e Lula.

- O pêndulo eleitoral vai ser alvo de especulação até as margens do pleito. Vai ter dados verdadeiros e falsos visitando o sistema cognitivo nacional.

- Interessante nessa campanha: grupos familiares repartindo-se para os dois lados, situação e oposição.

- Bolsonaro usa bem a mídia: faz manchetes com suas tiradas radicais.

- A última: o presidente brasileiro, que não foi convidado mais uma vez a participar do G7, está sugerindo uma comitiva de presidentes de Nações, Brasil na frente, para visitar Putin, em Moscou, e articular com ele o final da guerra na Ucrânia.( P.S. lembrando ao presidente que não fale a palavra guerra para Vladimir Putin, que só admite o termo – operações especiais na Ucrânia.

Por ali...

- A guerra na Ucrânia trará necessariamente uma nova ordem internacional.

- Vladimir Putin, segundo jornalistas amigos dele, que conhecem sua alma, dizem com todas as letras: ele não sairá derrotado. É capaz, para amaciar seu ego, de utilizar seu arsenal nuclear. E apertar um botão, por exemplo, para destruir Berlim, Viena, Paris, enfim, para acionar os mecanismos de uma 3ª Guerra Mundial.

- Este analista, em 50 anos de atividade, considera que avançamos, a cada dia, em direção ao caos.

- A China sinaliza que fecha posição com a c. E ataca o Ocidente. Só não engrossa o discurso por causa dos interesses comerciais.

- Putin estuda com seus generais a melhor alternativa para conter o envio de armas para a Ucrânia pelos países da OTAN. Nada mais óbvio: por meio do ataque balístico. Não se trata de exagero.

- Os bilionários russos começam a sofrer grandes perdas. E acusam Putin., que está lhes dando uma banana. Putin começa a afastar alguns generais e assessores que não mediram bem o custo da guerra para Rússia, que teria perdido mais de um mil tanques e milhares de soldados jovens e sem experiência.

- Joe Biden, devagarinho, começa a impor seu estilo de enfrentamento. Já mandou montanhas de dinheiro e armas para a Ucrânia. E sempre disposto a mandar mais.

- A Alemanha e seu dilema: mandou armas para a Ucrânia, mas continua a comprar o gás da Rússia, que, agora, paga em rublos. Outros países da OTAN enfrentam o mesmo dilema.

- A França de Macron se prepara para um novo período, sob a égide de um governante mais experiente e com vontade de endurecer em algumas áreas.

- A Venezuela saiu do mapa mundi? Ou mesmo do mapa latino-americano? Maduro passou a ser verde em matéria de afastamento midiático.

- Amigos que chegam da Europa estão assombrados com o mal conceito do Brasil nos últimos tempos.

- Em Lisboa, brasileiros invadem praças, museus e restaurantes. Portugal fica ali na esquina. Vai e vem.

E na esfera das ideias?

Tratemos, na coluna, de um tema muito sensível aos candidatos: rejeição.

- Rejeição a candidato é coisa séria. Não se apaga um índice de rejeição da noite para o dia. O maior adversário de certos candidatos é uma rejeição em torno de 30% a 40% dos eleitores.

- Os nossos dois principais candidatos estão com altos índices de rejeição, na margem dos 50%. Um perigo.

- Em um colégio eleitoral de 35 milhões de eleitores, como é o caso do Estado de São Paulo, uma rejeição maior que 30% é uma montanha difícil de escalar. Trata-se de uma barreira que pode derrubar qualquer candidato, principalmente se este for ao segundo turno de uma campanha majoritária.

- Quando um candidato registra um índice de rejeição maior que a taxa de intenção de voto, é bom começar a providenciar a ambulância para entrar na UTI eleitoral. Caso contrário, morrerá logo nas primeiras semanas do segundo turno.

- A rejeição deve ser convenientemente analisada. Trata-se de uma predisposição negativa que o eleitor adquire e conserva em relação a determinados perfis. Para compreendê-la melhor, há de se verificar a intensidade da rejeição dentro da fisiologia de consciência do eleitorado.

- O processo de conscientização leva em consideração um estado de vigília do córtex cerebral, comandado pelo centro regulador da base do cérebro e, ainda, a presença de um conjunto de lembranças (engramas) ligadas à sensibilidade e integradas à imagem do nosso corpo (imagem do Eu) e lembranças perpetuamente evocadas por nossas sensações atuais. Ou seja, a equação aceitação/rejeição se fundamenta na reação emotiva de interesse/desinteresse, simpatia/antipatia. Pavlov se referia a isso como reflexo de orientação.

- A intensidade da rejeição varia de candidato para candidato. Paulo Maluf era (e ainda é) um perfil que sempre teve altos índices de rejeição. Passou a administrar o fenômeno depois de muito esforço. Mudou comportamentos e atitudes. Tornou-se menos arrogante, o nariz levemente arrebitado desceu para uma posição de humildade e começou a conversar humildemente com todos, apesar de não ter conseguido alterar aquela antipática entonação de voz anasalada.

- Orestes Quércia era outro que tinha a rejeição inscrita na testa.

- Os erros e as rejeições dos adversários também contribuíram para atenuar a predisposição negativa contra ele. Purgou-se, também, pelos pecados mortais dos outros. Maluf aprendeu bem a arte de engolir sapos.

- Em regiões administradas pela velha política, a rejeição a determinados candidatos se soma à antipatia ao familismo e ao grupismo. O eleitor quer se libertar das candidaturas impostas ou hereditárias. Mas não se pense que o caciquismo se restringe a grupos familiares. Certos perfis, mesmo não integrantes de grandes famílias políticas, passam a imagem de antipatia, seja pela arrogância pessoal, seja pelo estilo de fazer política ou pelo oportunismo que sua candidatura sugere. Em quase todas as regiões do país, há altos índices de rejeição, comprovando que os eleitores, cada vez mais racionais e críticos, querem passar uma borracha nos domínios perpetuados.

- A rejeição pode ser diminuída quando o candidato, indo a fundo nas causas profundas que maltratam a candidatura, enfrenta o problema sem tergiversação nem firulas. Pesquisas qualitativas, com representantes de todas as classes sociais, indicam as causas. Aparecerão questões de variados tipos: atitudes pessoais, jeito de encarar o eleitor, oportunismo, egomarketing, mandonismo familiar, valores como orgulho, vaidade, arrogância, desleixo nas conversas, cooptação pelo poder econômico, história política negativa, envolvimento em escândalos, ausência de boas propostas, descompromisso com as demandas da sociedade.

- Para enfrentar alguns desses problemas, o candidato há de comer muita grama. Não se equaciona a rejeição de modo abrupto. Ao contrário, quando o candidato demonstra muita pressa para diminuir a rejeição, essa atitude é percebida pelo conjunto de eleitores mais críticos, que é exatamente o grupamento mais afeito à rejeição. E aí ocorre um bumerangue, ou seja, a ação se volta contra o próprio candidato, aumentando ainda mais a predisposição negativa contra ele.

- Trabalhar com a verdade, eis aí um ponto-chave para começar a administrar a taxa de rejeição. O eleitor distingue factoides de fatos políticos, boas intenções de más intenções, propostas sérias de ideias enganosas. O candidato há de montar no cavalo de sua identidade, melhorando as habilidades e procurando atenuar os pontos negativos. É errado querer mudar de imagem por completo, passar uma borracha no passado e cosmetizar em demasia o presente. Mas é também grave erro persistir nos velhos hábitos. Mudar na medida do equilíbrio. Mudar sem riscos.

- Todo cuidado com mudanças constantes e bruscas, de acordo com a sabedoria da velha lição: não ganha força a planta frequentemente transplantada.

 



postado às 09h15 | 19 de maio de 2022

TEMPOS DE INDIGNAÇÃO

Belisco-me, como sempre faço, quando me deparo com uma informação difícil de ser internalizada pelo sistema cognitivo. O beliscão é para saber se estou acordado. Será verdade o que leio ou o que ouço? De tão absurdo o fato registrado não é facilmente assimilável.

Exemplos inundam os espaços midiáticos: números de mortos que passam a habitar os cemitérios da Covid-19; ordem para a polícia atirar nas pernas de pessoas antirracistas que participam de eventos; mortes de adultos e crianças em uma guerra insana, que joga o poderio de uma potência militar contra um país soberano que vê seu território invadido; estupro de uma menina yanomami,  cometido por garimpeiros; o perdão concedido a um deputado após ter sido condenado pela mais Alta Corte do país e o latifúndio informativo-midiático produzido pelo caso, etc.

Os tempos são tensos e plenos de mentiras, falsas versões, expressões estapafúrdias. Um vereador de São Paulo, em conversa, solta essa para o colega: não lavar calçada “é coisa de preto”. O presidente da República garante que a “graça” concedida ao seu amigo e parceiro, deputado Daniel Silveira, apaga todas as condenações feitas pelo STF, inclusive a inelegibilidade do parlamentar. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, indaga em forma de sugestão à um policial que comandava um destacamento numa manifestação antirracista: 'Você não pode simplesmente atirar neles? Atira nas pernas deles ou alguma coisa assim'.

Que tempos! Tempos que o professor Samuel P. Huntington já descrevia em Choque de Civilizações, de 1996: “Quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver”. É o paradigma do caos.

O que estaria ocorrendo com a “banalização do mal”, fenômeno narrado por Hannah Arendt ao explicar a crueldade do extermínio de 6 milhões de judeus por ordem do mais sanguinário perfil da contemporaneidade, Adolf Hitler? O mal reaparece nesses tempos de carências e turbulências, de forma avassaladora em expressões e atos de governantes, nas formas de agir de contingentes políticos, nas guerras modernas que devastam Nações e locupletam cemitérios, banindo as luzes da harmonia social.

O fato é que todos esses fatos, analisados sob a régua do bom senso, estão a indicar que o planeta retrocede em sua caminhada civilizatória. Até imaginamos a cena descrita por Ortega y Gasset ao flagrar o bigodudo Nietsche dando seu grito nos Alpes suíços: “eu vejo subir a preamar do niilismo”. Os niilistas de hoje estendem uma “imensa cortina sobre a realidade para não encará-la”.

No caso do Brasil, a mistificação emerge nas versões estrambóticas de governantes e atores políticos. Veja-se o desfile do “Eu” no episódio envolvendo o deputado Daniel Silveira. A sequência de episódios tem como origem a condenação do parlamentar pela Suprema Corte e a decisão imediata do presidente da República de lhe conceder indulto. Uma prerrogativa presidencial, urge reconhece, mas reservada aos tempos natalinos e usada de forma coletiva.

De lá para cá, o Brasil passou a enaltecer “egos” de uns e outros. Ora, onde está o país que vê seu PIB encolher? Onde está a discussão sobre a mais alta inflação após quase duas décadas? Por que estamos liderando no mundo os índices de devastação de florestas? Por que não somos mais um exemplo de país gerador de energia limpa? Matar um indígena gerava, antigamente, ampla repercussão nacional e internacional. Hoje, é coisa (???) corriqueira.

A invasão de terras indígenas torna-se algo banal. O estupro e a morte de uma criança de 12 anos não mais impactam. Os garimpeiros continuam a desafiar a lei, invadindo e incendiando aldeias e disseminando drogas e álcool para cooptar os indígenas.  As promessas de controle e investigação por parte das forças policiais e do MP parecem lorotas.

Pessoas de bem se revoltam e reagem com suas emoções. Infelizmente, nossas energias não são suficientes para amplificar a reação em cadeia que os ilícitos exigem. A indignação assoma com força, mas fenecem ante o ciclo perverso que espalha seus eixos por toda a parte. Ainda mais nesses tempos de polarização atitudinal e discursiva, quando as alas se agrupam para aplaudir ídolos e apupar adversários. A esperança é que a indignação social faça uma visita à alma brasileira, eliminando as camadas de insensibilidade que teimam em por viseira sobre os nossos olhos.

 



postado às 09h00 | 19 de maio de 2022

Porandudas políticas

Recebi uma saraivada de protestos por não ter inserido a historinha que abre Porandubas. Volto ao modelo.

E, como brinde, mais uma historinha no final. Então, aqui vai.

Está "distituído"

O major José Ferreira, cearense dos bons, amigo do padre Cícero, é quem relata: "Há muito matuto inteligente e sagaz, mas também há muito sujeito burro que se a gente amarrar as mãos dele pra trás das costas, ele não sabe mais qual é o braço direito nem o esquerdo... Eu também conheço matuto que, abrindo a boca, já sabe: ou entra mosca, ou sai besteira". O major continua a conversa: "Quando foi criado o município de Missão Velha, a escolha do primeiro intendente recaiu num velho honrado, benquisto e prestigioso, mas muitíssimo ignorante. Cabia-lhe o encargo de declarar instituído o município. Um dos "língua" do lugar seria o orador oficial. Ele, o chefe do executivo municipal, deveria dizer simplesmente: "Está instituído o município de Missão Velha!". Levou quinze dias decorando a frase, e, na ocasião da solenidade, exclamou: "Está DISTITUÍDO o município de Missão Veia".

(Historinha captada pelo bom Leonardo Mota em Sertão Alegre – poesia e linguagem do sertão nordestino).

A conjuntura

Vamos iniciar a coluna com uma análise sobre o tema mais polêmico da atualidade.

O golpe

Analistas e articulistas de todos os calibres passaram a comentar, nas últimas semanas, sobre eventual golpe a ser desfechado pelo presidente Jair Bolsonaro caso venha a perder o pleito de outubro. Seria possível? Quais as condições objetivas para que isso ocorra? Que forças e recursos estariam ao lado do presidente? Faremos algumas observações.

O argumento

O argumento central de Jair Bolsonaro é a fraude no sistema eletrônico de voto. Nos últimos tempos, uma Comissão Especial do TSE, inclusive, com o apoio das Forças Armadas, tem tomado providências para ampliar a transparência do processo, de forma a sanar quaisquer dúvidas e questionamentos. Mas, pasmem, alguns militares defendem que o sistema de apuração tenha dois dutos: um, do próprio TSE, enquanto o outro correria diretamente para os quartéis. Ou seja, uma apuração paralela pelas FFAAs. P.S. O ministro da Defesa, em ofício, já pediu para ficar com ele a vaga na Comissão que cuida da transparência das eleições. Pediu para retirar daquela Comissão o nome do general Heber Portella. O TSE alega que não há "sala escura" no sistema de apuração de votos. Termo usado pelo presidente Bolsonaro.

Sinais

E onde estão os sinais de golpismo? A insistente peroração do presidente contra o sistema eletrônico de votação, contra o TSE e até contra o STF; o protagonismo assumido pelos militares na frente da apuração eleitoral; as manifestações da base bolsonarista em apoio ao chefe; expressões de uns e outros apoiadores do presidente na esfera política, entre outras sinalizações.

Apoio social

Emerge a questão: Bolsonaro contará com a força das ruas? A essa altura, é possível garantir que a maioria da comunidade nacional não daria endosso a uma escalada autoritária com a ocorrência de um golpe. Sem apoio, qualquer iniciativa golpista tende a ser repudiada. Não é possível fazer comparação com 1964 e muito menos traçar cenários de um Brasil ameaçado pelo comunismo. O mundo é outro, o Brasil é outro, o pensamento nacional mudou muito.

Imagem do país

No planeta globalizado, os países se alinham de acordo com interesses comuns, visões ideológicas, a índole. E a teia de interesses do nosso país abriga, hoje, potências econômicas e comerciais, identidade de propósitos políticos, na esteira de uma interpenetração ideológica. A imagem do Brasil iria ao fundo do poço, ocasionando pressões e contrapressões do mundo civilizado, se houvesse golpe. Não há regime que tenha forte sustentação caso se isole na paisagem internacional.

Alas radicais

É possível afirmar que Bolsonaro, sob o argumento de urnas eletrônicas fraudadas, possa contar com o apoio das alas mais radicais do bolsonarismo. Mas nem todos os grupos bolsonaristas aceitam tal hipótese. Falemos, então, em torno de 15% a 20%, uma minoria. Com a polarização acentuada, é previsível a tensão entre os contingentes que ocupariam as ruas. Não se descarta a hipótese de acidentes/incidentes, inclusive com a ocorrência de vítimas fatais. Ampla mobilização social funcionaria como um paredão de defesa da ordem democrática.

Forças Armadas

O presidente conta com o apoio de uma boa parcela da cúpula militar para realizar seu intento. Sabemos que o esforço de profissionalização das Forças Armadas tem ocorrido de forma gradual, desde o começo da redemocratização, sob a letra da Constituição de 88. Os militares se recolheram à caserna, deixando aos políticos e aos técnicos a missão de administrar a política e a burocracia estatal. Portanto, seria uma forte ingerência a ocupação da seara política pelos militares. Essa inclusão militar na área da política corrói a imagem das Forças.

Ingresso na Administração

Ocorre que o governo bolsonarista encheu os espaços da máquina administrativa com militares de escalões superiores, que deixaram a ativa para receber salários da administração Federal. Tal aproximação produziu uma leva de simpatizantes da continuidade administrativa. Muitos querem continuar com suas tarefas, enquanto outros procuram a própria caminhada eleitoral, tornando-se candidatos em praticamente todos os Estados da Federação. Esse núcleo, que tem assento nas proximidades do presidente no Palácio do Planalto, estará ao lado de Bolsonaro, apoiando suas estratégias.

Cisão na área

Nem todos os membros da cúpula militar topam a aventura golpista. Daí a inferência: haveria uma cisão na caserna. Parte das Forças estaria respaldando o Estado Democrático de Direito. Faltariam, então, condições objetivas para um salto autoritário. Generais e coronéis, aposentados ou na ativa, se alinhariam à ordem social, tentando demover o outro grupo, disposto a uma escalada dura no regime.

A moldura política

Os políticos terão um olho no novo governante e outro, nas ruas. Seguirão os passos da comunidade política. Agirão sob a bússola do pragmatismo. Por isso, se a derrota de Bolsonaro for por larga margem, tomarão posição bem antes da primeira semana de outubro. Entrarão em campo festejando o vitorioso, seja Lula ou outro. Importa saber que ventos do momento sinalizarão o lado em que se postarão os políticos.

Diferenças

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, mostra um discurso menos engajado que o de Arthur Lira, presidente da Câmara. Olha mais para o futuro, sob o compromisso de defesa do Estado Democrático de Direito. Lira olha para o presente, sob o comando de um grupo do Centrão, que caminha conforme sua orientação.

Economia, o pêndulo

Tenho lembrado e relembrado: a política navega nas águas das circunstâncias. E estas, nos meados do próximo semestre, serão balizadas pelos ventos da economia. Dinheiro no bolso, suficiente para alimentar as barrigas, será determinante na medição da temperatura social. Repito a equação BO+BA+CO+CA? (Bolso, Barriga, Coração, Cabeça).

Brevíssimas...

- O PSD deve liberar as bancadas, não fechando posição no primeiro turno. Em Minas Gerais, o candidato do PSD ao governo, Alexandre Kalil, apoia Lula. Outros líderes do partido, inclusive o presidente da sigla no Estado, senador Alexandre Silveira, dão apoio a Bolsonaro.

- Tarcísio de Freitas (PR), candidato bolsonarista ao governo de SP, transferiu título eleitoral para o Estado há pouco tempo. Cumpre maratona de visitas ao Estado.

- Marcio França (PSB) e Fernando Haddad (PT) tendem a ser candidatos por seus partidos ao governo de SP, impossibilitando uma aliança.

- Os rachas regionais propiciarão palanques múltiplos a Lula e a Bolsonaro. O apoio a Jair deverá ocorrer em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Rondônia. Há movimentos de aproximação no Ceará e na Paraíba. Lula teria palanque múltiplo em mais Estados.

- O papa Francisco numa cadeira de rodas integrará a estética do Vaticano nos próximos tempos. Artrose no joelho.

-Putin não se cansa. Espera a hora de apertar o botão de seu arsenal balístico. Faz ameaças quase diárias aos países da OTAN. Mas, na comemoração da Guerra Cívica, segunda, 9, conteve-se. O desfile militar nas muralhas do Kremlin foi pomposo. E o mundo ouviu um discurso tradicional.

- Putin parece mais pesado e menos vigoroso.

- Suécia e Finlândia estão sendo empurrados por Putin para a OTAN.

- O presidente da Ucrânia, V. Zelensky, tomou gosto pelo degrau da fama. Quase todos os dias dá boas-vindas a celebridades. Essa guerra vai longe.

- Os regimes autoritários ganham força no planeta.

- O mundo se prepara para implantar uma Nova Ordem. O realinhamento ideológico de países fará lembrar os anos nervosos da Guerra Fria. A essa altura, é possível enxergar a China e a Rússia liderando uma das bandas do planeta.

Fechando a coluna.

"Você tá morto, cara"

O caso deu-se São Bento do Una/PE, nos idos de 60. O caminhão, entupido de gente, voltava de um jogo de futebol, corria muito, virou na curva da estrada. Foram todos para o hospital. Uma dúzia de mortos. Lívio Valença, médico e na época, deputado estadual do MDB, foi chamado às pressas. Pegou a carona de um cabo eleitoral, entrou na sala de emergência do hospital e foi examinando os corpos:

– Este está morto.

Examinava outro:

– Este também está morto.

O cabo eleitoral se empolgava:

– Já está até frio.

De um em um, passaram de 10. Lá para o fim, Dr. Lívio examinou, reexaminou, decretou:

– Mais um morto.

O morto gritou:

– Não estou morto não, doutor, estou só arrebentado.

O cabo eleitoral, servindo como paramédico, foi taxativo:

- Você está morto, cabra, quer saber mais que o médico?



postado às 08h45 | 28 de abril de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com uma historinha do comandante Idôneo.

Idôneo, o comandante

Em uma cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado:

– Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo. O coronelão relaxou e gritou para a galera que o ouvia:

– Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo.

(Historinha contada por Leonardo Mota, em seu livro Sertão Alegre)

A crise - Breves comentários

(Ideias para um papo entre amigos e adjacências....)

- A quadra pós-carnavalesca não consegue esconder o temor que a crise político-institucional, com o perdão concedido ao deputado Daniel Silveira, chegue ao cume da montanha. Para piorar há outras fontes que alimentam a crise.

- O Ministério da Defesa, comandado pelo general Paulo Sérgio Nogueira, em nota, repudiou a fala do ministro do STF, Luis Roberto Barroso, de que as Forças Armadas estariam orientadas a desacreditar nas eleições, por causa de fraudes na urna eletrônica. Fato que se soma ao episódio do indulto.

- A Alta Corte do Judiciário e a Alta Corte governista estão com a expressão prestes a explodir. Mas o Supremo quer adiar qualquer decisão sobre o indulto, e não responder de imediato às demandas partidárias que chegaram à Casa da Justiça.

- Os generais do Palácio do Planalto, a partir do general Luiz Eduardo Ramos, fizeram coro à nota do ministro da Defesa. Ou seja, a cúpula militar se faz presente à mesa de discussão. E teria se alinhado em bloco ao presidente.

- O presidente Bolsonaro, em fala na Agrishow, em Ribeirão Preto/SP, referindo-se à demarcação de terras indígenas (marco temporal, que está em julgamento), disse que se o ministro Edson Fachin não atender o que o governo defende, teria duas alternativas: a) entregar as chaves do Executivo ao STF e b) não cumprir o que o Supremo determinar. Claro, sugerindo que seria esta sua alternativa.

- O quadro da expressão litigiosa se agrava.

- Não é ficção projetar um cenário de endurecimento, mais cedo ou mais tarde.

- O pano de fundo é nossa própria trajetória. Ao longo de sua história contemporânea, o país tem atravessado ciclos sucessivos de democracia e autoritarismo.

- Na área partidária, desde a Independência, o país já teve sete diferentes regimes partidários.

- Um golpe militar criou o Estado republicano, em 1889, surgindo, em 1891, a primeira Constituição. Tivemos um período democrático até a revolução de 30, quando se constituiu o governo provisório de Vargas.

-Depois, tivemos novos atos de força, que geraram o Estado Novo e a Constituição de 1937. Abrimos mais um ciclo democrático com a Constituição de 1946, interrompido pelo golpe militar de 1964 e o regime ditatorial.

- Em 1985, instaura-se a 4ª República, consolidada pela Constituição de 1988, que passou exprimir a emergência dos grupamentos sociais na composição do poder.

- A ciclotimia que tem balizado o sistema político nacional tem muito a ver com a situação de deterioração do país e o consequente estado de ânimo das elites e das massas.

- O regime militar só pegou, porque o ambiente social, conturbado, abria condições para sua implantação. As classes médias acorreram às ruas em passeatas.

- E o que tem isso com a atual situação do país? Hum, tristes lembranças. Não se pode deixar de ver um certo movimento embrionário, recheado de indignação, que agita bases bolsonaristas.

- Tem um razoável contingente que clama pelo endurecimento do regime.

- Brutamontes capazes de fazer falta, ameaçar juízes, blindar amigos e parceiros, cooptar a classe política com recursos do orçamento, enfim, fazer gols violentos podem ser ovacionados pela torcida.

- As forças democráticas estão de soslaio e com muito receio de que as coisas abram um espaço de caos.

Um herói?

- O Brasil está à procura de um herói. Mas o herói procurado não é aquele capaz de operar milagres, um São Jorge de espadas determinado a matar os dragões da maldade. Quem vestiu esse manto, como um ex-presidente alagoano, acabou sendo eleito presidente da República, mas foi tragado pelo tufão social, que forçou seu impeachment, a partir da maré de denúncias e escândalos vazados pela mídia.

- Até outubro, o eleitor estará à procura de um herói. Será que já o encontrou? Se não encontrou, ainda, o eleitor tem cerca de cinco meses para achá-lo.

- Ele não precisa apostar em heróis com a aura dos santos. Basta escolher um protagonista comprometido com os valores da democracia. O eleitor deve examinar os perfis, avaliar o passado, examinar suas propostas para o presente, compará-los entre si e escolher aquele que mais se afina ao ideal pelo qual luta.

- Cuidado, eleitor: não compre gato por lebre. Há muito lobo querendo se passar por cordeiro. E há muito canalha desejando parecer santo.

Ligeiros sinais dos tempos

- A vitória de Emmanuel Macron, na França, permite aos franceses viver mais uma temporada sob a bandeira da democracia. Mas, aqui pra nós, a direita avançou. Marine Le Pen teve desempenho um pouco melhor que no pleito passado. Ficou menos radical.

- O socialista Jean-Luc Mélenchon tem condição de ser o primeiro-ministro? Se fizer maioria nas eleições legislativas que ocorrerão em 12 de julho... A tendência é que seja escolhida por Macron a ministra do Trabalho, uma mulher, Élisabeth Borne. Macron e seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, estão verificando os registros tributários e potenciais conflitos de interesse entre os cotados para o ministério.

- A direita cresce aqui, ali e acolá. Um pesado sinal dos tempos. A democracia não tem dado respostas suficientes às demandas sociais.

- Trump foi condenado a pagar 10 mil dólares por dia se não entregar documentos autorizados a vir a público pela Justiça.

- Os generais russos, quando vão despachar com Putin, levam as falas por escrito. Temem errar. Ou gaguejar?

- Quem sai com a imagem arranhada nesses tempos turbulentos e de guerra é ele mesmo, Vladimir Putin, que calculou mal os custos para a Rússia. E recebeu péssima consultoria de seus generais.

- Putin pode tomar uma decisão tresloucada por ver os EUA ajudando a Ucrânia com armas e dinheiro. A conferir.

- Por aqui, com exceção do PT, partidos lançaram candidatos oficialmente. Lula não se pronunciou a respeito do indulto de Bolsonaro e ainda não disse que é candidato do PT à presidência da República. Parece, até, que espera por algo. O que seria?

- Este analista tem ligeira desconfiança (incerteza?) sobre a candidatura de Lula. Um mistério cerca seu aviso, ainda não dado, de que será o candidato.

- Bolsonaro, por sua vez, quer esticar a corda até vê-la esgarçada e prestes a se romper. Sua situação vai depender da economia.

- P.S. Paulo Guedes testou positivo no Covid-19. Era muito prevenido.

- O Centrão irá dar apoio ao presidente Jair até quando?

- João Doria irá até o fim? É determinado, mas tem bom senso. O clima no PSDB está mais para um calor intenso.

- João levou um "bolo" de Luciano Bivar e Simone Tebet. Havia um jantar dos três nessa segunda. Mas o presidente do União Brasil e a senadora do Mato Grosso do Sul não toparam jogar os holofotes ao ex-governador de SP e candidato (por enquanto) do PSDB à presidência da República. Mas sabe-se de um almoço apenas com os presidentes de partidos.

- Eduardo Leite dá mostras de que recuou, deixando o terreno livre para João avançar. Mas se este não sair do lugar?

- O general e ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz pôs seu nome à disposição do Podemos, partido ao qual se filiou.

- Sérgio Moro sinaliza que não será candidato a nenhum cargo. Nem a deputado. Foi engolido pelas circunstâncias.

- Simone Tebet tem conversado muito sobre economia e meio ambiente com grandes economistas e ambientalistas. É determinada. Mas irá até o fim? O tempo dirá...

- A vida voltou ao normal? O Brasil voltou à velha rotina. E se tivermos novos surtos? A vida passou a valer menos? Na visão de muitos contingentes, sim.

- Anita é o furacão brasileiro nas paradas musicais do planeta. A moça tem muita sensibilidade para o marketing.

- O cara fez uma oferta: 41 bilhões de dólares. Os donos do Twitter não aceitaram. "Peraí, é assim? Vocês gostam de dinheiro?" Então, coçou os bolsos e mandou: "aqui estão mais 3 bilhões de dólares". Dobrou os donos e comprou o Twitter. Elon Musk, o homem mais rico do mundo, faz o que quer. Até inventou uma viagem espacial.

- O novo dono do Twitter preside quatro empresas das quais ele é o cofundador. São elas a Tesla (montadora), SpaceX (sistemas aeroespaciais), Neuralink (chips cerebrais) e a The Boring Company (infraestrutura).

- O principal negócio do bilionário é a fabricante de carros elétricos Tesla, que tem como missão acelerar a transição mundial para o uso de energias sustentáveis. Já a firma aeroespacial Space X se tornou a primeira empresa privada a enviar astronautas para a órbita terrestre em maio, numa parceria com a Nasa.

- Uma excentricidade. "Desafio Vladimir Putin para um combate individual. A aposta é a Ucrânia", tuitou Musk. O empresário usou o alfabeto cirílico, utilizado pelos russos, para escrever o nome de Putin e alguns trechos da mensagem.

- Até onde Elon Musk irá?

 



postado às 09h00 | 26 de abril de 2022

A TRILHA DA INSENSATEZ

Para começo de conversa, o perdão concedido pelo presidente Jair Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira é um ato de natureza política que não puxará um único voto para o bornal do candidato à reeleição.

A hipótese parte do princípio de que a graça ofertada ao parlamentar tem o condão de agradar as bases bolsonaristas, setores dispersos, grupos que defendem um regime de força, algo que soasse como a expressão: “sou o chefe do Estado, sou o chefe da administração federal, sou o comandante das Forças Armadas, portanto, quem manda nessa joça sou eu”.

Sem adentrar o caminho das tecnicalidades – tarefa que cabe aos juristas – este analista enxerga no ato político a índole autoritária do presidente e de sua família. Lembre-se que o deputado Eduardo Bolsonaro, tempos atrás, já dissera que bastam um soldado e um cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal, resposta que deu a um questionamento sobre possível ação do Exército, caso seu pai fosse impedido de assumir a presidência por alguma decisão da Corte Suprema.

O bolsonarismo oscila entre 20% a 25%, o que, convenhamos, é um índice valioso para dar competitividade a qualquer candidato, mas insuficiente para ganhar uma eleição presidencial. E não agregaria bolsões novos porque o perdão só é bem-visto pelas bases do candidato governista. O que se divisa é uma tomada de posição pelos núcleos ainda indecisos e inclinados a pender para um lado mais adiante, em agosto ou setembro.

As classes médias, como se sabe, detêm a imagem de uma pedra jogada no meio do lago: ela cria pequenas ondas que correm do centro até as margens. Até agora, mantinham-se em estado de observação, olhando para a direita, para o centro e para a esquerda, sem abrir muito o jogo. Pois bem, elas tendem a adensar sua expressão, tomando partido, o que influenciará correntes acima e abaixo da pirâmide social. Por isso, o perdão pode ser um bumerangue, a se voltar contra o próprio presidente.

A repercussão negativa do indulto individual também encherá os balões da Opinião Pública, formando um paredão de contrariedades. Juristas de todos os calibres, mesmo admitindo a prerrogativa presidencial, inserem o ato numa conduta de afronta ao Judiciário, e mais: é inconstitucional por quebrar os eixos da probidade administrativa, a imparcialidade, a conveniência, a oportunidade.

Não houve comoção social, como Bolsonaro leu em seus “considerandos”. O que se viu foi uma interlocução entre participantes da base bolsonarista elogiando a decisão. E, como seria previsível, a solicitação de parlamentares do centrão para que o presidente da Câmara, Arthur Lira, avoque a prerrogativa de anular a perda de mandato de Daniel Silveira, por ser isso função do Poder Legislativo. Significa um enfrentamento contra o STF.

O fato é que a campanha eleitoral, em curso, agora entra na fase de aquecimento, com polarização aguçada e querelas abertas. Quem pode se beneficiar? O antilulismo, a partir de São Paulo, é uma realidade. Possivelmente, Lula agregue uma cesta (pequena) de votos, particularmente dos eleitores que já não temem votar no PT. Mas as velhas teses do comandante petista ainda ecoam em ouvidos atentos: revogação da reforma trabalhista, controle dos meios de comunicação, aborto livre, revogação de teto de gastos etc.

Nesse ponto, cabe a inflexão: o meio poderá ganhar forças, com a entrada em cena de um nome palatável por todas as correntes partidárias do centro (direita/esquerda) do arco ideológico. Essa é a oportunidade para a viabilização do candidato da terceira via. A probabilidade de ocorrência da alternativa leva em conta o argumento de que o indulto de Bolsonaro a Daniel Silveira mexerá com os pilares do edifício político. Quer dizer, abrirá uma chance para a caminhada de um protagonista mais central.

Pergunta recorrente: e o STF vai se pronunciar? Claro, vai.  Será acionado por membros do Parlamento. E tomará posição, convalidando sua prerrogativa de intérprete da Constituição Federal. E é isso que Bolsonaro também quer. Em outros termos, quanto mais alta a fogueira, mais próxima sua intenção de ver o circo pegar fogo. E se o incêndio for de alto grau, ele pode tirar do colete um papel convocando suas forças, e confiando que elas, as Forças Armadas, corram ao seu encontro. A trilha da insensatez foi aberta. E a fervura ambiental é o ambiente em que os insensatos, os impuros, os desleais, os radicais desejam, para arrebentar quem não concordar com seu ideário.



postado às 09h45 | 20 de abril de 2022

O ELEITOR É UMA CAIXA-PRETA

Quem é o eleitor brasileiro? Eis a pergunta sobre a qual, a esta altura, estão debruçados candidatos e assessores. O que os leva à decisão de voto? Quais são os fatores que balizam o processo decisório? Tentemos mostrar nuances.

Cerca de 150 Milhões de eleitores brasileiros deverão ser envolvidos pela “feitiçaria” que a publicização política haverá de construir, nos próximos meses. Como podemos evitar a embrulhada engendrada pela atmosfera criada pela propaganda eleitoral, já em pleno curso, com as inserções partidárias? Primeiro, é oportuno identificar a simulação usada por candidatos, que querem aparecer mascarados, sem sua identidade.

Ora, “nenhum homem, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura”, diz a Bíblia, e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano. Mesmo usando a engenharia de artimanhas do marketing. Há, de fato, cerca de 30 milhões de brasileiros que vivem em estado deplorável. O país mostra sinais de anomia e degeneração de valores. Mas tem uma base sobre a qual se pode navegar com segurança. Usar o acervo de mazelas, sob o artifício de emoções falsas, costuradas na colcha de diagnósticos por demais conhecidos, sem apontar caminhos e soluções para os avanços, é querer instrumentalizar a catarse coletiva.  

Candidato não é sabonete. O eleitor quer um candidato honesto e com experiência administrativa, mas banhado pelo conceito da assepsia, da higienização política. O ideário da inovação e da renovação ganha espaço em meio a nomes carimbados do quadro nacional. Também quer votar em pessoas que passem a ideia de bons controladores do orçamento municipal. Nesse aspecto, as candidatas levam vantagem - a mulher sempre controla o orçamento doméstico e transmite maior confiança. Chega ao fim o “candidato sabonete”, apresentado como um verdadeiro produto para o consumo de massa, cuja imagem era construída por meio da cosmética publicitária.

Outra questão é sobre as redes sociais. A influência da Internet será maior do que nas eleições passadas, mas ela não constitui, ainda, um veículo fundamental. Nada substitui o contato pessoal do candidato com seu eleitorado. Diante da crise social, da desconfiança e da descrença, as pessoas sentem necessidade de ver seus candidatos de perto. Os políticos devem sair às ruas e andar pelas casas e pelos bairros. Mais importante do que os grandes comícios serão os pequenos encontros, como cafés da manhã, visitas, mutirões e carreatas.

A esperteza, a dramatização, os recursos artificiais, a hipocrisia e a insinceridade têm sido a tônica da cultura política. Mais uma questão: “o que faz um eleitor preferir um candidato a outro?” Não há uma resposta fechada para a questão. Dependendo do candidato e da região, certos fatores pesam mais que outros. O primeiro apelo é o do bolso. Relaciona-se à luta pela sobrevivência e à necessidade de se garantir o alimento. Esse é um dos impulsos básicos do ser humano, que age principalmente em épocas de contenção, crise e desemprego.

Tenho escrito bastante sobre o uso de instintos em campanhas eleitorais, com destaque para o instinto nutritivo. Até formei uma hipótese que tenho usado para explicar o processo de decisão de voto. Que parte do cinturão econômico é ciclicamente usado por governos para afrouxar ou apertar a barriga do eleitor. O “xis” da questão resume-se na equação BO+BA+CO+CA: bolso (BO) cheio enche a geladeira, satisfaz a barriga (BA), emociona o coração (CO) e induz a cabeça (CA) dos bem alimentados a recompensar os patrocinadores do pão sobre a mesa. E o troco, a recompensa? O voto na urna. A recíproca é verdadeira. Bolso vazio é reviravolta eleitoral.

Quaisquer propostas para garantir o sustento de pessoas e famílias, quando feitas de maneira crível e objetiva, laçam o interesse das pessoas. Um bom emprego ou a perspectiva de melhorar de vida simbolizam o eixo desse discurso. Outro fator de interesse liga-se à região, ao município, ao bairro, à rua. Trata-se do fator proximidade, que, nos últimos tempos, tem despertado a intenção dos eleitores. O voto está ficando distritalizado, regionalizado.

Mais um elemento emerge com importância: a proximidade psicológica entre eleitor e candidato. Trata-se, no caso, do conhecimento que o eleitor tem do candidato, aí incluídos os contatos, a aproximação, a tradição familiar, o grau de intimidade. É como o eleitor estivesse votando em alguém da família.

Por último, a onda das circunstâncias. Os bons candidatos sempre recebem uma ajudazinha do clima psicológico dos momentos, formado pelos ventos que sopram a seu favor, e que o projetam como a pessoa que melhor cristaliza os sentimentos gerais.



AUTOR

Gaudêncio Torquato