BLOG - Porandudas políticas

postado às 08h45 | 14 de abril de 2021

Porandudas políticas

Hoje, a coluna está muito pretensiosa. Tentará explicar o fenômeno Brasil. O motivo: a razão pela qual os brasileiros tentam se desviar do manual de combate à epidemia. Arrisco-me a desvendar esse mistério, ou melhor, essa índole. Faça uma leitura, mesmo por cima. Antes, porém, notinhas de abertura.

Kit Covid-19

Bolsonaro insiste em defender a cloroquina. Hoje, foi a Chapecó, levando a tiracolo o ministro da Saúde, Queiroga. P.S. Chapecó está com 100% dos leitos hospitalares ocupados, segundo o Estadão. Os catarinenses usaram muito a cloroquina. SC é motivo de visitas constantes do presidente.

Empresariado

Bolsonaro participará, hoje à noite, de jantar na casa do empresário Washington Cinel, da área de segurança. Cerca de 20 empresários devem estar presentes. Sua Excelência faz esforço para atrair o empresariado, que se mostra desconfiado. Cinel recebe regularmente governantes e políticos e sua casa é uma espécie de consulado de articulação política.

Nunes Marques

O ministro Kassio Nunes Marques, recém-escolhido por Bolsonaro para integrar o STF, mostra-se a cada dia afinado com o bolsonarismo. A liberação de cultos e missas nesse momento da pandemia é um soco na cara da sociedade. O dízimo, o dízimo, o dízimo, gritam os pastores. Silas Malafaia e Edir Macedo agradecem. O voto de Gilmar, proibindo os eventos em liminar para julgar decretos do governo de São Paulo, jogou a questão em plenário.

Lula seria vice?

Ciro Gomes pede a Lula que seja mais humilde e aceite dar um passo atrás. E mostra o caso da Argentina, onde Christina Kirchner entrou como vice na chapa de Alberto Fernandez. Lula como vice? O PT no bastidor: nem a pau, Juvenal.

5 mil

A continuar o país com medidas meia-boca para combater a pandemia, chegaremos em julho com o índice de cinco mil mortos por dia.

Covas distante de Doria?

Bruno Covas tenta estabelecer cronograma de vacinação diferente do esquema organizado pelo governador João Doria, em São Paulo. Prefeito e governador parecem estar de birra. Mas sempre voltam às boas.

Análise do fenômeno Brasil

Crise de liderança

A crise política, que se arrasta há décadas no país, decorre de nossa precária institucionalização. Não temos instituições sólidas, fincadas com firmeza no território, eis que nosso sistema democrático vive altos e baixos, intermediando tempos de autoritarismo com tempos de liberdade. Que lideranças novas podemos contar cenário? Os que sobraram são extensões dos tempos do golpe de 64, com destaque para Luiz Inácio, ainda gozando algum prestígio junto às massas. Fernando Henrique é um schollar, José Serra é um perfil forjado nas lides universitárias. Ciro Gomes teve vida na antiga Arena, João Doria é protagonista da atualidade. A crise de liderança no país está por trás de nossas mazelas.

Sísifo e o eterno retorno

O Brasil se parece com Sísifo. Como é sabido, em decorrência dos pecados que cometeu, os deuses aplicaram em Sísifo, que foi rei em Corinto, um castigo para jamais ser esquecido: carregar uma imensa pedra sobre os ombros até o cume da montanha. Tarefa que jamais conseguiria completar. Prestes a cumprir a missão, a pedra resvala dos ombros e rola ao sopé da montanha. Exercício que Sísifo repetirá por toda a eternidade. O Brasil tem semelhança com a execrável figura. A metáfora aponta para as mazelas que herdamos do nosso berço civilizatório, condenando-nos ao eterno retorno. Quando achamos que a coisa vai dar certo, tudo vai por água abaixo, e temos de recomeçar o que foi construído com sacrifício.

As coisas não dão certo

Para melhor compreensão de nossa vivência nesses tempos da Covid-19, relembro a historinha que diz haver quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, a mais civilizada, onde tudo é permitido, salvo o que é proibido. A segunda é a alemã, sob rígidos controles, onde tudo é proibido, salvo o que é permitido. A terceira é a totalitária, pertinente às ditaduras, na qual tudo é proibido, mesmo o que é permitido. E, coroando a tipologia, a sociedade brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que é proibido. Como se explica o fato de o Brasil ser um país tão caricatura? Por quê, sob lockdown e mil recomendações sobre os cuidados que devemos ter, os jovens se juntam em festas de arromba no fim de semana?

Nosso jeito de ser

A explicação pode ser encontrada na composição do ethos nacional. A engenharia social brasileira, assentada sobre a miscigenação de raças (colonizadores portugueses, índios e negros), expressa heterogênea coleção de valores. Conservamos, porém, uma unidade étnica básica, apesar da confluência de variados matizes formadores, que poderiam, na visão de Darcy Ribeiro, resultar numa sociedade multiétnica, "dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis". Complementa o nosso famoso antropólogo e ex-senador em seu livro "O Povo Brasileiro": "Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um Povo-Nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Somos o contrário da Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na América, por exemplo, que são sociedades multiétnicas regidas por Estados unitários".

homo brasiliensis

A adjetivação para qualificar o homo brasiliensis é vasta e, frequentemente, dicotômica: cordial, alegre, trabalhador, preguiçoso, verdadeiro, desconfiado, improvisado. Afonso Celso, em "Porque me Ufano do meu País", divide as características psicológicas do brasileiro entre positivas e negativas, dentre elas a independência, a hospitalidade, a afeição à paz, caridade, acessibilidade, tolerância, falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente. Gilberto Freyre, em "Casa Grande & Senzala", pontifica: "Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo".

O primeiro mito

Três mitos formam o pano de fundo sobre o qual se teceu nosso tecido valorativo. Primeiro, o mito do Éden. Ao aportarem, os nossos colonizadores se depararam com a exuberância da natureza e seus habitantes, rudes e inocentes, índios sem vestes, uma paisagem deslumbrante, o jardim do paraíso, tão bem emoldurados por Sérgio Buarque de Holanda, no clássico Visão do Paraíso, ao mostrar a atmosfera mágica que as novas descobertas proporcionaram ao europeu: "o enlevo ante a vegetação sempre muito verde, o colorido, a variedade e estranheza da fauna, a bondade dos ares, a simplicidade e inocências das gentes", como, aliás, já escrevera Pero Vaz de Caminha. Sob essa primeira visão, a seara valorativa produziu seus primeiros frutos: o ócio, a indolência, a sensualidade, a voluptuosidade, a glutonaria, a improvisação, a festa, a dança, o eterno carnaval.

O segundo mito

O segundo mito abriga o Eldorado. As riquezas apareciam ao longo das descobertas do ouro e das pedras preciosas. Na esteira da exploração predatória, outro conjunto de valores tomou corpo: a cobiça, a ganância, a traição, a destruição da natureza, a ambição, a disputa, a guerra entre grupos, os conflitos.

O terceiro mito

O inferno verde é o terceiro mito. A cobiça levou os colonizadores ao interior profundo. A floresta despontava como ambiente inóspito, selvagem, agressivo. As doenças debilitaram corpos, fustigando as mentes. Claude Lévi-Strauss, em seu celebrado Tristes Trópicos, radiografava o Brasil como o lugar mais inabitável do planeta, onde seria impossível a um homem sobreviver. Na paisagem da conquista do interior do país, outro feixe de características aparece: a miséria, a desorganização, a improvisação, a sujeira, a marginalidade, o desleixo.

A dubiedade

Ao lado dos três mitos, outros conjuntos valorativos surgiam, frutos da miscigenação. Quem não conhece o perfil individualista e de grandeza do brasileiro? "Você sabe com quem está falando?". E a nossa propensão para a imprecisão, para a ausência de objetividade? "Quantas horas você trabalha por semana?". Eis a previsível resposta: "trabalho mais ou menos 40 horas". O mais ou menos é coisa muito nossa. O fingimento é outro traço. O político, ao cumprimentar o interlocutor, pisca para alguém que está ao lado. Quem não já se defrontou com a expressão catastrofista ou o complexo de grandeza, comuns em nossa interlocução diária? Somos os melhores e os piores do mundo em matéria disso e daquilo; temos os maiores potenciais, as maiores riquezas ou a mais degradante miséria. Não somos um povo do imediatismo. Mas treinados na arte da protelação.

Traços de anarquia

Cultivamos a semente da anarquia. Ou, como bem o diz Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil: "os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir". Gostamos de adiar atos e decisões. Apreciamos o apadrinhamento, o patrocínio dos favores, o ludismo. Somos o país do futebol. E um vulcão de explosões emotivas. Trocamos com facilidade o riso pelo choro. Na festa de arromba, costuma-se haver balbúrdia, briga.

A árvore do patrimonialismo

Para agravar, herdamos valores que plasmaram nosso caráter. A fonte inicial é o patrimonialismo, que alimenta o fisiologismo, mazela central do nosso sistema político, o qual remonta aos primórdios de nossa história. Diz-se, em tom de piada, que o primeiro índio a receber espelhos de Pedro Álvares Cabral, em 1500, na Bahia, emprestou o DNA às tribos políticas festejadas, hoje, com "pacotes mais substantivos" do Palácio do Planalto. Quem duvida que os presentinhos do início da colonização estejam na origem do troca-troca de hoje, apoios e benefícios, convênios entre Ministérios e organizações não governamentais?

Capitanias

Quando Dom João III dividiu o Brasil em 15 capitanias hereditárias, em 1534, semeava a cultura patrimonialista. Hoje, semente que se espalhou pelo território. A semente patrimonialista resultou na mistura entre o público e o privado, gerando os "ismos" (caciquismo, mandonismo, paternalismo, nepotismo, familismo, grupismo), que invadem a esfera política. Não há como deixar de registrar as profundas marcas deixadas pelo sistema de colonização do país, a partir do feudalismo indígena, gerado espontaneamente, segundo a expressão de Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, pela conjunção das mesmas circunstâncias que produziram o europeu. "Feudalismo renascido na América, renovação da velha árvore multissecular portuguesa. O quadro teórico daria consistência, conteúdo e inteligência ao mundo nostálgico de colonos e senhores de engenho, opulentos, arbitrários, desdenhosos da burocracia com a palavra desafiadora à flor dos lábios, rodeados de vassalos prontos a obedecer-lhes ao grito de rebeldia. Senhores de terras e senhores de homens, altivos, independentes, atrevidos - redivivas imagens dos barões antigos".

As tetas do Estado

Sob essa "herança maldita", descortina-se a fonte de egocentrismo, que se impregna nas instâncias da Federação. Temas transcendentais, como reestruturação produtiva da economia, reestruturação do Estado, inovações tecnológicas, relações de trabalho, segurança pública, pobreza e desigualdade social e até programas sociais acabam contaminados por visões personalistas, corporativistas, circunstanciais e eleitoreiras. Vejam-se os programas assistencialistas, como Bolsa Família, Auxílio Emergencial etc. Vão se perpetuar. Aqui, o maná cai do céu. Milhões esperam mamar nas tetas do Estado.

Estadania, a inversão da lógica de Marshall

Analisemos nossa modelagem política. José Murilo de Carvalho observa que, entre nós, a cultura do Estado prevalece sobre a cultura da sociedade. Os direitos políticos apareceram antes dos direitos sociais, gerando uma sobrevalorização do Estado. Ou seja, houve uma inversão da lógica descrita por Thomas Marshall, em Cidadania, Classe Social e Status. As nações democráticas, a partir da Inglaterra, implantaram, primeiro, as liberdades civis, a seguir, os direitos políticos e, por último, os direitos sociais. Por aqui, o Poder Executivo, operando as ações públicas, aparece como a salvaguarda das 'benesses'. Direitos são vistos como concessões, e não como prerrogativas da sociedade, criando uma 'estadania' que sufoca a cidadania. Tudo depende do Estado. Um processo de tutela amortece o ânimo social, dificultando sua emancipação política. Não por acaso, critica-se a força avassaladora do nosso presidencialismo de cunho imperial.

Centrão, centrinho e otras cositas

Não a toa, o nosso presidencialismo de coalizão agasalha muito bem os grupamentos que se formam na área parlamentar. Centrão, com sua bocarra, abocanha nacos de poder. E há centrinhos, aqui e ali, pegando as sobras. Sem estes grupamentos, é difícil governar. Para uns, impossível. A governabilidade é, assim, uma biruta de aeroporto, que muda de posição conforme o vento.

Pergunta

Deu para entender alguma coisa sobre o homo brasiliensis?

Um pouco de humor.

5 minutos de silêncio

A onda de um minuto de silêncio faz parte da liturgia do poder. Surfam nessa onda políticos de todos os espectros. Vereador, então, usa a onda para capturar todos os votos da família do morto. Vejam este caso que ocorreu na Vila São José, bairro periférico de Macaíba/RN. O ex-vereador e candidato Moacir Gomes, ao usar a palavra, inicia a oração rogando aos assistentes do comício um minuto de silêncio pelo falecimento de um morador do bairro. Seu assessor e cabo eleitoral, ao lado, pensando no tamanho da família do falecido, sopra no ouvido de Moacir:

- Um minuto é pouco. Peça cinco. Tem muito voto lá!

(Historinha de Valério Mesquita, ótimo contador de causos)



postado às 08h45 | 14 de abril de 2021

REORGANIZANDO NOSSAS VIDAS

Imaginem a aflição de um náufrago à procura de uma tábua de salvação, qualquer coisa para agarrar no meio do oceano. O desespero de famílias que perdem, nesses dias de pandemônio, entes queridos. Ou a angústia trazida por desastres ambientais, como o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em Minas Gerais, no dia 25 de janeiro de 2019, que deixou um rastro de destruição e mortes.

Estamos vivendo momentos de aflição e angústia. A ansiedade cai sobre nós com seus reflexos sobre o cotidiano, paralisando projetos iniciados, afastando outros que ainda estavam na prancheta do planejamento e, acima de tudo, injetando em nosso espírito a incerteza, a dúvida, o medo. Por mais planejada que seja uma pessoa, ela se junta ao gigantesco cordão dos desvalidos que se sentem perdidos por ter suas vidas desorganizadas.

É certo que a resiliência e a coragem de enfrentar os mais terríveis males fazem parte do roteiro da sobrevivência humana. Por isso, vemos perfilados na arena do combate gente de todos os calibres, homens e mulheres, jovens e velhos, dispostos a afastar ameaças e a lutar pelo bem-estar. Mas o fato é que esse vírus que contamina nossos corpos e atormenta nosso espírito causa mudanças em nosso dia a dia. Na vida de uns, produz profunda alteração, em outros, provoca o reordenamento de tarefas cotidianas, introduzindo novos hábitos, determinando rotas diferentes dos traçados originais. Nossas vidas foram, sim, desarrumadas.

Por mais que o empresário, o executivo de um grande grupo, quadros tarimbados e experimentados na arte de enfrentar desafios, acreditem que pouca coisa mudará em suas vidas, o amanhã não será o mesmo. O trabalho assume nova modelagem com o enxugamento de estruturas, o home office, a simplificação da papelada, o redimensionamento de budgets, a procura incessante de inovação, o uso da internet, enfim, as redes sociais funcionando como extensões de nosso cérebro e nossos braços.

Mas as mudanças de ordem material, em pleno curso, terão infinitamente menor impacto do que as forjadas por nossa mente. A começar pelo conceito de tempo, morte e vida. Sêneca (4.aC – 65) já pregava: “Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é que não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores”. 

A cada dia dos recordes de mortos, somos levados a enxergar que a eternidade está ali, a um palmo. Os dribles mentais que às vezes costumamos fazer, pensando que temos ainda o vigor da adolescência, a capacidade de saborear as coisas boas da vida, fenecem.

O translúcido espelho da realidade está ali adiante de nós. Como ia dizendo, no plano espiritual o facho das mudanças será bem luminoso. A solidariedade, por exemplo, é uma das sementes a germinar na seara dos valores. Viveremos com mais intensidade a virtude da amizade, que é a cola da fraternidade. Os amigos serão inseridos no círculo do compartilhamento, característica de uma sociedade convivencial. Bem sabemos que a rotina do cotidiano forma oceanos entre amigos, os laços vão se desmanchando, o tecido social se esgarça na poeira do tempo. Por isso, teremos de batalhar para que o distanciamento não maltrate a integração espiritual, procurando retomar os caminhos encruzilhados do passado, evitando a competitividade leonina do presente, reconhecendo que o viver sob intenso sufoco corrói a humanidade que nos habita.

Teremos de recolocar a vida e toda sua intensidade no mais alto pedestal dos valores. Hoje, de tanto ouvirmos a numerologia da morte, este ato final da espécie torna-se banalizado. A imaginar “um tanto faz, tanto fez”, como se a vida não fosse o sagrado dom que Deus nos deu.

Poderemos, sim, ser competidores, ambiciosos, heróis de grandes empreendimentos, sem esquecer, porém, nossa identidade humana. Pinço Confúcio: “a humanidade é mais essencial para o povo do que água e fogo. Vi homens perderem sua vida por se entregarem à água ou ao fogo; nunca vi alguém perder a vida por se entregar à humanidade”.



postado às 10h15 | 01 de abril de 2021

Porandudas políticas

Abro a coluna com "causos" do Pará. Um pouco de humor para adoçar nossa amargura nesses tempos turbulentos.

E as crianças?

O Pará já teve políticos muito engraçados. Um deles, João Botelho, foi interventor, deputado e constituinte. Certo dia encontra um cabo eleitoral:

- Como vai? E a senhora sua esposa? E as crianças?

- Tudo bem, deputado. Minha mulher está ótima. Mas, por enquanto, é só um menino, certo?

- E eu não sei que é um filho só? Mas é um menino que vale por muitos. Então, como vão os meninos?

Outra figura folclórica do Pará foi Magalhães Barata, revolucionário em 1924 e 1930, interventor, constituinte em 46, senador e governador. Tinha ele um candidato a prefeito de Santarém. Mas o diretório local do PSD queria outro. Ia perder. Foi lá, conversou, pediu votos. Não teve jeito. Perdeu a eleição no diretório: 15 a 5. Pegou o microfone:

- Meus senhores, pela primeira vez a minoria vai ganhar. Está escolhido o candidato que perdeu.

A plateia bateu palmas. O velho Barata encerrou os trabalhos:

- E, pela primeira vez, a minoria ganhou por unanimidade.

Sinais de distância

Tudo de acordo com o esperado. O Centrão começa a dar mostras que não é um bloco tão firme como alguns imaginam. É como um iceberg imenso descolando de uma geleira. Afasta-se suavemente do lugar e, ao sabor de ventos e vendavais, procura um lugar no oceano, agarrando-se a outros imensos pedaços de gelo. O Centrão não está muito contente com o governo Bolsonaro. O presidente da Câmara não conseguiu que sua indicada, dra. Ludhmila Hajjar, fosse escolhida para o Ministério da Saúde. A pandemia avoluma caixões nos cemitérios todos os dias. Cerca de três mil mortos por dia. Lula dá sinais de que ambiciona voltar ao Palácio do Planalto. E o Centrão passa a peneira em todos esses eventos. Para complicar, aparece Lula com seu discurso moderado, uma nova modalidade de Carta aos Brasileiros, expediente usado em tempos passados, quando cooptou o empresariado.

E as fatias de poder?

Alguém poderá objetar: e as fatias de poder já entregues aos partidos que compõem o Centrão? E as conversas intermitentes que o líder do Centrão, senador Ciro Nogueira, mantêm com o presidente Bolsonaro? Mas outros começam a raciocinar: que adianta acumular poder hoje se amanhã tudo poderá virar pó? O Centrão olha à direita, à esquerda, e avalia o espaço que ocupa. Seguirá em 2022 a onda do vento, a dinâmica da política. Vê, por exemplo, que o presidente cede pouco aos apelos para amainar o discurso radical e tomar decisões mais duras para dominar o diabo que poderá matar 500 mil brasileiros em curto espaço de tempo. O Centrão não é suicida. Pragmático, será parceiro do protagonista que melhores condições reúna para chegar ao pódio em 2022.

Guedes mais fraco

Paulo Guedes, comandante da economia, vê seus quadros voltando ao mercado: mais de 15. E essa debandada significa frustração de economistas de proa, insatisfeitos com o andamento da carruagem, decepcionados com o fato de que é difícil ganhar batalhas na arena de um governo que parece tatear na escuridão. Some-se a tudo isso o fato de que o tom do governo mostra desafinamento com os toques da banda de música das faixas sociais, à espera de avanços. As margens aguardam o auxílio emergencial. E haverá muita grita quando perceberem que seus bolsos continuarão vazios, mesmo com as parcelas do adjutório.

Articulação capenga

É evidente o esforço do ministro da Articulação, general Luiz Eduardo Ramos, para limpar os entulhos do caminho entre as Casas Congressuais e o Palácio do Planalto. A articulação é frágil por se saber que o presidente é de veneta: compromissos são desfeitos, a palavra que vale é a dele, não se subordina às pressões. "Vamos que vamos". Parece ser o refrão governamental, o que dá a entender um estilo improvisado de governar, empurrar de barriga, tampar buracos aqui e ali, sem saber quais os buracos rasos e fundos. Os basistas (que integram as bases do governo) desconfiam do prometido. Ou confiam com um pé atrás.

Desaparecidos

Há ministérios de peso, como o da Educação. Como é mesmo o nome do ministro da Educação? Um picolé de assaí para quem souber. O ministro do Meio Ambiente, por onde anda? O teor polêmico que saía das trombetas de alguns ministros arrefeceu. E se concentrou no protagonista que habita o 3º andar do Palácio do Planalto.

Terceira via

As pesquisas deixam ver um amplo espaço para uma terceira via, um candidato que possa quebrar a polarização entre os protagonistas das margens. Quem, quem, quem? Os atuais que poderiam disputar o lugar da terceira via criaram muitas arestas.

Trajano

A empresária Luiza Trajano, do conglomerado Magazine Luiza, tem mais vocação para estilingue que vidraça. Este analista teve oportunidade de conhecer Luiza em eventos empresariais. Tem a língua bem afiada. Sabe ir ao ponto, o centro da questão. Grande líder. Tirocínio. Não lhe convém entrar na liça de baixarias, truques e emboscadas. Por isso, é crível quando ela arreda a hipótese de compor chapas presidenciais. Seria um trunfo: mulher, bem-sucedida e articulada.

Ciro

Ciro Gomes é uma metralhadora ambulante. Atira bem. Mas seu estilo amedronta. Pode ser um nome a crescer nas margens esquerda e direita do centro.

Vacinação

As vacinas chegam a conta-gotas. Virão, não no ritmo que se espera. Mas milhares de brasileiros ainda morrerão por conta de um cronograma capenga.

O pior

De Jamil Chade, no UOL: "Na pior semana da pandemia no Brasil e sem um cenário de queda no número de novos casos, o país somou 25% das mortes no mundo no período entre 15 e 21 de março. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, no total, 60,2 mil pessoas foram vítimas da Covid-19 no planeta nesse período -15,6 mil delas apenas no Brasil, país que representa apenas 2,7% da população mundial".

Brasil invade EUA

Desculpe se você se assustou. A variante brasileira da Covid-19 chegou aos EUA sem avisar. Uma invasão não detectada. Desembarcou em Nova Iorque. O caso foi identificado por cientistas do Hospital Mount Sinai, Nova York, e verificado pelo Departamento de Saúde do Wadsworth Center Laboratory. P.S: invasão brasileira nos EUA? Jamais. Só mesmo por meio de doenças.

Efeitos

Resultados projetados para os próximos tempos.

1. Queda no número de mortos e contaminados

2. Tombo nas atividades econômicas

3. Frustração das margens com o auxílio emergencial, pois será bem menor e não dará para pagar nem um terço da cesta básica. Entre R$ 150 e R$ 375 - durante quatro meses; no ano passado, foram pagas cinco parcelas de R$ 600 e quatro de R$ 300.

4. 48 milhões de pessoas serão atendidas pelo auxílio emergencial, contra 68 milhões no ano passado

5. Crescimento do PIB de 3,2%.

Renda básica e vacinas

O Movimento Convergência, que agrega importantes figuras da área econômica, lança ofensiva junto aos Poderes Executivo e Legislativo para viabilizar um programa de renda básica. Os recursos viriam das privatizações e da reforma administrativa, considerada central para reduzir gastos com recursos humanos do Estado. Outro Movimento, reunindo banqueiros e economistas, faz uma Carta Aberta aos Poderes da República cobrando a adoção de medidas efetivas contra a Covid-19. As lideranças parecem despertar da letargia. Estão apavoradas. A carta dos economistas foi rechaçada pelo presidente.

PT e PSDB

Minha querida mãe sempre me dizia: "nunca diga - desta água não beberei". Aprendi o ditado e não me surpreendo com a gangorra da política. Para derrotar Bolsonaro, o PT abre diálogo com o PSDB. Sabemos que, nos últimos tempos, tucanos de alta plumagem fizeram intenso bombardeio sobre Lula e o petismo. Se há certa trégua, hoje, é porque as oposições, dispersas, perceberam que o todo é maior que as partes. A conferir o que ocorrerá na temporada de emboscadas que vai se estender até outubro de 2022.

Visibilidade

O governador do Rio Grande do Sul é destaque entre tucanos. Ganhou boa visibilidade com o recrudescimento da pandemia no Estado. Expressa uma linguagem de bom senso. João Doria continua no marco da visibilidade como "o senhor da vacina brasileira". O governo Federal teve de engolir a realidade da imunização liderada pela vacina Coronavac/Butantã.

10 dias de lazer?

Essa decisão de governantes de juntar os feriados e formar um calendário com 10 dias de folga é considerada uma estratégia para diminuir a circulação de pessoas, evitando aglomerações. O RJ determinou que vai adotar um feriado de dez dias a partir da próxima sexta, 26. Os prefeitos do Rio e de Niterói endurecem medidas. Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas faz o mesmo. Será que vai funcionar? E o ethos do homus brasiliensis, voltado para a farra e a quebra da ordem?

Cena

Hospitais do DF têm corpos armazenados no chão e fila de 400 pessoas esperando leitos de UTI. O Sistema de saúde no Distrito Federal vive situação de calamidade pública. Outros Estados também registram o colapso.

Lei de Segurança

A Lei de Segurança Nacional está defasada. Vem lá de trás. Não condiz com a contemporaneidade. Merece passar pelos filtros dos direitos e deveres. Uma adaptação à realidade fará bem.

Alerta ao Brasil

A pandemia do novo coronavírus somada a uma grave crise institucional fez com que indicadores da Turquia entrassem em pane, alertando para os riscos que grandes interferências podem ter na saúde econômica. A interferência do presidente brasileiro na Petrobras e no BB também deixa os agentes do tal "mercado" com a pulga atrás da orelha.

 



postado às 10h15 | 01 de abril de 2021

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ENTRA EM CAMPO

O vírus mutante da Covid 19, esse diabo que tenta jogar o planeta no inferno, instiga uma bateria de interrogações: as vacinas já desenvolvidas e outras em estágio de testes poderão enfrentar as novas cepas que estão surgindo, aqui e ali, sabendo-se que sua letalidade é bem maior que a do atual coronavírus? A Humanidade estará preparada para debelar pandemias mais intensas e cruéis, como preveem cientistas e patrocinadores da ciência, como Bill Gates? O fato é que o mundo está com medo, muito medo, e essa constatação, por si só, causa profunda marca na espécie humana. A marca da dor, do desalento, do descrédito nos governantes, da morte.

A resposta da ciência, até o momento, gera esperança. Em praticamente um ano, o abnegado corpo de pesquisadores, em seus institutos e laboratórios, conseguem responder ao clamor da Humanidade, por meio de uma coleção de vacinas que deverá se multiplicar. Trata-se de um dos maiores avanços da pesquisa científica em todos os tempos, o que nos leva a inferir que o ser humano ganhará a guerra, mesmo que algumas batalhas sejam perdidas para o inimigo.

Estamos avançando celeremente no campo da Inteligência Artificial. Que poderá ajudar o planeta a alcançar imensas conquistas em importantes setores da ciência, como prevê o escritor israelense Yuval Harari, em sua conhecida obra (Homo Sapiens, Homo Deus, 21 Lições para o Século XXI). O homem, diz ele, possui duas habilidades fundamentais e inigualáveis, a conectividade e a atualização, isto é, a capacidade de se conectar com outras redes neurais e continuar aprendendo, e a habilidade de se atualizar.

A inteligência artificial já começa a fazer presença em nossas vidas, bastando lembrar o reconhecimento da pessoa pela voz e pelos traços, algoritmos que orientam os empreendimentos e sistemas de vendas, enfim, como “o principal impulsionador de tecnologias emergentes, como Big Data, Robótica e IoT “(Internet das Coisas)” nos termos usados pelo blog Brasil Westcon. Os carros elétricos já são uma realidade, integrando o esforço para diminuir a expansão do gás carbono, apesar de não ter se descoberto ainda um processo menos poluidor de fabricação de baterias. Logo mais, teremos os carros autônomos, e com eles, a possibilidade de menor índice de acidentes nas estradas.

No vasto campo da robótica, o progresso é extraordinário, a partir da implantação no chão de fábricas de robôs que operam na montagem e empilhamento, a par de modernos sistemas de controle de produtos nas lojas. Um grande grupo de varejo brasileiro controla todas as peças das gondolas de suas lojas, de forma que, saindo uma, outra entrará no lugar pouco tempo depois. Na medicina, a varredura no corpo humano permite ao corpo médico saber rapidamente o que está ocorrendo com o paciente. O próprio pode olhar seu relógio e saber de imediato como estão os indicadores gerais de sua saúde. E constatar o complexo vitamínico de seu corpo, com as necessidades. A enfermagem atenderá de maneira virtual.

Na educação, a tutoria virtual estará em pauta, detectando as deficiências de cada aluno. No atendimento aos clientes, de acordo com o blog Brasil Westcon, em curto prazo, a inteligência artificial estará, a semelhança de humanos, marcando consultas no salão de cabeleireiro do bairro. Mas eliminará milhões de empregos - motoristas, radiologistas, avaliadores de seguros. Para onde irão esses contingentes? Os horizontes tecnológicos terão condições de abrigá-los? É o drama que nos espera.

Entremos na pauta de minha análise rotineira: a política. Que impactos ocorrerão na frente da política, onde estão os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário? Serão fortes. A instantaneidade já é característica da atualidade, a denotar a interação de emissores e receptores de mensagens. A transparência plena também será um valor de uma era de cobranças e de maior participação social no processo político. A moral e a ética permearão o foro de debates. Governantes e representantes serão passados a limpo todo tempo. Viveremos em tempos mais abertos, onde minorias subirão ao palanque do discurso político.

Ora, esse repertório sinaliza para constante remoção de quadros considerados desafinados com a orquestra social e a respectiva seleção de perfis comprometidos com demandas sociais e compromissos. Este analista desenha um horizonte menos tenebroso, pintado com as cores da solidariedade e harmonia. Urge acreditar na primeira lei da robótica de Asimov: “um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja prejudicado”. 



postado às 10h15 | 01 de abril de 2021

Porandudas políticas

Coisas do Brasil

Um sujeito comprou uma geladeira nova e para se livrar da velha, colocou-a em frente a casa com o aviso: "De graça. Se quiser, pode levar". A geladeira ficou três dias sem receber um olhar dos passantes. Ele chegou à conclusão: ninguém acredita na oferta. Parecia bom demais pra ser verdade. Mudou o aviso: "geladeira à venda por R$ 50,00". No dia seguinte, a geladeira foi roubada!

(Historinha enviada por Álvaro Lopes)

Azevedo abrindo tensões

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, pediu o boné. Maneira de dizer que foi demitido. Surpresa. Não se esperava sua saída. Abrupta. Nota do Ministério: "Agradeço ao presidente da República, a quem dediquei total lealdade ao longo desses mais de dois anos, a oportunidade de ter servido ao País, como ministro de Estado da Defesa. Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituição de Estado. O meu reconhecimento e gratidão aos Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, e suas respectivas forças, que nunca mediram esforços para atender às necessidades e emergências da população brasileira". Ontem no fim da manhã, o Ministério da Defesa soltou uma nota dizendo que os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica serão substituídos. O comunicado dá a entender que a ordem veio de cima. Mas vale ainda a hipótese de terem pedido demissão. Os substitutos serão mais alinhados ao bolsonarismo? Vamos acompanhar sua trajetória.

A mexida

Mexer no Ministério nesse momento crítico que o país atravessa exige cautela, leitura adequada da moldura político-institucional, sensibilidade. E, sobretudo, consciência dos impactos da mexida em cada setor. No ambiente das Forças Armadas, a saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa, seguida da saída dos três comandantes das Forças, azedou o ambiente. E a eventual confirmação dos motivos abrirão pontos de tensão. Comenta-se que o ministro não teria demitido o comandante Edson Pujol, do Exército, pois não estaria fazendo uma gestão ao gosto do presidente Bolsonaro. Pujol sempre se manifestou contrário ao papel político das Forças.

Centrão com força

A escolha da deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a área da articulação é um gol do Centrão. Emplaca mais um dos seus quadros. A deputada é casada com o ex-governador do DF, José Roberto Arruda. Vai ser questionada. Mas tem a proteção de Arthur Lira, presidente da Câmara. André Mendonça desce de posto, deixando o Ministério da Justiça para a Advocacia-Geral da União, de onde saiu. Mas poderá subir mais adiante, chegando ao Supremo. Anderson Flores, da PF, ascende ao Ministério da Justiça. Teria o apoio da "bancada da bala". O general Braga Neto, na Defesa, seria uma forma de harmonizar o ambiente conturbado. E a entrega da Casa Civil ao seu colega de turma na AMAN, general Luiz Eduardo Ramos, Bolsonaro tenta deixar no entorno gente de confiança. Mas a marca dessa mexida sinaliza para as bases. O presidente Jair dá guarida ao seu clamor. Esse ministério estará no olho do furacão quando a campanha pré-eleitoral se iniciar.

Ernesto e sua ideologia

A saída do ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro significa um baque da ideologia de extrema direita que tenta fincar estacas no país e que tem no então chanceler um de seus pilares. Ernesto Araújo fechou fronteiras do multilateralismo, desdenhou das vacinas, isolou o Brasil da modelagem diplomática internacional e, como fecho de sua desastrada atuação no MRE, brigou com a área política. Sua saída era previsível a partir dos recados dados pelos presidentes da Câmara e do Senado. Há dias cerca de 300 diplomatas, em carta, pediam sua demissão. A tarefa do novo chanceler, mesmo que seja identificado com o bolsonarismo, será a de recompor as pontes destruídas no campo das relações internacionais. O novo chanceler, embaixador Carlos Alberto França, é comedido.

Saúde

O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tem reuniões diárias com entidades e políticos. Muitas falas e pouca ação. Deveria, sim, estar na linha de frente, em hospitais, nas UPAs, vendo a tragédia que se espraia.

De fora

Triste notícia: o Brasil fica de fora de pacto internacional contra a epidemia.

Sem rumo

O governo Bolsonaro parece um dândi na escuridão. Procura um rumo. Guedes defronta-se com a questão do orçamento, inflação que sobe, perda de quadros. Auxílio emergencial abaixo das expectativas. Mesmo assim, mostra ainda certa esperança. Mas está angustiado com a situação. Pandemia no pico. Clamor da população sobe o tom. Bolsonaro preocupado com o Congresso. Perdeu a narrativa na frente da pandemia. Nomeou um Comitê, do qual não é o coordenador. A nau parece sem rumo. À procura de uma bússola.

O jogo vai começar

Os jogadores ainda estão no campo de treinamento. E os times começam a providenciar chuteiras e novos uniformes. Alguns começam a treinar imaginando que serão selecionados pelo técnico para compor o time. Outros já sabem que estarão no banco de reserva. E ainda um grupo de jogadores já sabe que só entrarão no jogo de final de campeonato se houver contusão de parceiros. O jogo é o campeonato eleitoral brasileiro, cujo final será disputado em outubro de 2022. Analisemos o panorama.

Calendário I

O jogo eleitoral tem um calendário, que nem a crise sanitária tem força para mudar, eis que tem data fixa para terminar. Sabemos que, por aqui, o processo eleitoral é ininterrupto. Termina um pleito e, no dia seguinte, começa outro. Esse fenômeno acaba deixando o país amarrado no tronco do patrimonialismo, pois os protagonistas só pensam em chegar ao poder central, desprezando agendas prioritárias e fechando os olhos para as grandes carências sociais.

Calendário II

Por isso, pode-se aduzir que estamos no estágio de pré-campanha, quando os nomes aparecem, alguns como balão de ensaio, para se conferir sua receptividade na opinião pública. As primeiras articulações se iniciam, prevendo-se interlocução que vai se fechando ao correr do ano até se compor a moldura com os mais prováveis jogadores. No final do ano, o corpo político, sondando suas bases, firma suas ideias, confirma ou desfaz impressões, compromete-se com alianças, enfim, junta os elementos para finalizar, até abril/maio de 2022, sua visão. A campanha terá início nesse tempo.

Lula

Este analista tem caminhado na direção oposta ao de vários comentaristas de política. Por exemplo, minha leitura sobre Lula é esta: só será candidato se houver uma forte e insuperável mobilização social. Articulações, alianças e compromissos, novas Cartas aos Brasileiros e outras ferramentas do arsenal da política não serão suficientes para tornar Lula candidato. Há um conjunto de fatores que ancoram esta hipótese, a saber: o espírito do tempo; a sombra do passado; a mesmice expressiva; a divisão do país.

O espírito do tempo

Cada ciclo tem sua identidade. Os fatos do presente podem até ter semelhança com o passado, mas o espírito do tempo respira os ares do hoje. O espírito do tempo, que acolheu Lula no passado, compunha-se de um conjunto de circunstâncias que empurravam o poder para seu colo. Depois de Lula e de Dilma, 13 anos, o país entrou em uma nova rota. Ares renovados, escândalos vindos à tona, vísceras expostas de líderes e partidos, versões dando lugar à verdade. Ninguém atravessa um rio duas vezes no mesmo lugar.

Sombra do passado

O passado tem duas facetas: a de saudades, dos entes queridos que se foram, do bucolismo e do atavismo que nos levam às pracinhas de nossa infância, do cheiro de terra molhada pela chuva, das brincadeiras e das músicas que nos embalavam. O passado que não volta mais. Mas há outra faceta: o tempo das coisas nefastas, dos grandes escândalos, da corrupção perversa, dos crimes, das traições e emboscadas, enfim, da maldade instalada nos espaços do nosso território. Esse passado é repelido. "Sai pra lá, peste". Pois bem, esse passado abriga os protagonistas que participaram dos acontecimentos. Não serão assépticos, limpos, em pouco espaço de tempo. O perfil de Lula estará sob a sombra do passado. Aristóteles pontuava: "pode-se considerar o caráter de uma pessoa como o mais eficiente meio de persuasão de que se dispõe".

Mesmice expressiva

O nosso sistema cognitivo é dotado de alavancas para aceitar ou rejeitar o discurso. Clyde Miller designa-as de alavancas psíquicas. A primeira é a adesão, fazendo que as pessoas aceitem ideias, por associá-las a coisas consideradas. Democracia, pátria, cidadania, liberdade, justiça estão nesta lista. Estamos falando de conceitos considerados positivos e bons. A segunda é a alavanca da rejeição, o contraponto, que procura convencer a massa a rejeitar pessoas, coisas, associando-as a símbolos negativos, como guerra, morte, fome, imoralidade, corrupção. A terceira é a autoridade, que traduz valores da experiência, conhecimento, sabedoria, domínio. Deus é a síntese desse escopo. Outros exemplos: Gandhi, Jânio Quadros. Por último, a alavanca da conformização, cujo apelo se volta para a solidariedade, a união, a irmandade. "A união faz a força". Procurem, agora, associar a voz rouca de Lula em palanque com algo. Identifica-se mais com aspectos positivos ou negativos?

A divisão do país

Lula é sempre lembrado pela divisão do país em duas bandas: nós e eles, mocinhos e bandidos. Essa imagem é muito ruim. Destrói a alavanca da unidade, da solidariedade, da harmonia social. E estamos vivenciando um momento em que o lema deve ser suprapartidário, acima das ideologias. Será muito difícil ao PT eliminar os vestígios dos tempos em que pregava "a luta contra a zelite".

A favor de Lula

Há um argumento que as margens podem correr na direção de Lula. Trata-se da hipótese que, há tempos, é inafastável de meus comentários: a equação BO+BA+CO+CA. Ou seja, o uso de instintos em campanhas eleitorais: combativo, nutritivo, sexual e paternal. Destaco o instinto nutritivo. Minha hipótese para explicar o processo de decisão de voto parte do cinturão econômico, ciclicamente usado por governos para afrouxar ou apertar a barriga do eleitor. O xis da questão resume-se na equação: bolso (BO) cheio enche a geladeira, satisfaz a barriga (BA), emociona o coração (CO) e induz a cabeça (CA) dos bem alimentados a recompensar os patrocinadores do pão sobre a mesa. E o troco, a recompensa? O voto na urna. A recíproca é verdadeira. Bolso vazio é reviravolta eleitoral. As massas podem fazer associação com Lula abrindo os dutos do consumo. Mesmo assim, este analista não crê em sua candidatura.

Fecho a coluna com mais um pouco de humor.

Idôneo, o comandante

Em certa cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado:

- Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo.

O coronelão relaxou e gritou para a galera que o ouvia:

- Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo.

(Historinha contada por Leonardo Mota, em seu livro Sertão Alegre)



postado às 08h45 | 18 de março de 2021

Porandudas políticas

Como os leitores sabem, abro a coluna com uma historinha engraçada e pitoresca, antes de fazer a leitura da política, do clima social e das circunstâncias. Um aperitivo.

Vi, segunda-feira, a entrevista do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que tinha ao lado o assessor Airton Soligo, mais conhecido como Cascavel. Paranaense de Capanema/PR, em 1985 estabeleceu-se em Roraima, em virtude da expansão das linhas de ônibus da empresa paranaense União Cascavel de Transporte e Turismo (Eucatur), na qual trabalhava como assessor da direção. Conheci Cascavel em Boa Vista/Roraima, onde coordenei o marketing de quatro campanhas eleitorais. Cascavel foi eleito vice-governado na chapa de Neudo Campos. Foi também prefeito de Mucajaí e presidiu a Assembleia Legislativa.

Agora, a historinha relembrada por um jornalista amigo.

Povo de Roraima

Comício no bairro popular, zona do meretrício. Chegara a vez de Cascavel dar seu recado.

- Povo de 13 de setembro.

Olhou para o lado, olhou para o outro, encarou a multidão e tascou:

- Meu povo de 13 de setembro.

- Heróis de 13 de setembro.

Não satisfeito, continuou:

- Meu povão de 13 de setembro.

Parou. Faltava verbo. Na fila da frente do palanque, um bebum gritou:

- Desembucha, Cascavel. Que danado de cobra você é. Foi você que pegou minha 86?

Cascavel não perdeu a deixa:

-Tá aí esse filho de uma égua que prova o próprio veneno. Vá se lascar, desgraçado.

O fato é que a cachaça 86 era considerada a pior cachaça do mundo. Hoje, Cascavel é um próspero empresário do norte do país. Assessorava o então ministro Pazuello, a quem ajudou na tarefa de administrar a imigração de venezuelanos em RR. É simpático e tem veia política.

A vida política

A vida de um governo é uma gangorra. Vai ao alto e desce. Chega ao pico da montanha e ao fundo do poço. Lá e cá. Os ciclos obedecem ao espírito do tempo. Em início de gestão, os governantes estão no alto. Vivem a ressaca da vitória, as placas tectônicas da política vão se acomodando com a composição de ministérios e autarquias, o cobertor social é estendido para acolher as margens sociais e a locomotiva do governo - a economia - ajusta seus eixos. Noutra simbologia, podemos dizer que o carro dá partida. Ou, ainda, é a fase do lançamento do governo, quando todos os olhos se voltam para o protagonista principal do jogo.

As visões se clareando

Geraldo Vandré compôs Disparada, sua mais famosa música, que diz: "E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando, as visões se clareando, até que um dia acordei". Pois bem, ao completar um ano de administração, as visões começam a se clarear. E o eleitor a acordar. O carro está na segunda marcha, esperando a terceira, mas já dá para perceber como o motorista dirige, seu jeito, a maneira como pega a direção e avança na estrada. Percebe-se a identidade do governo. Identidade significa a coluna vertebral, o estilo, a substância governativa - programas, ações, fraseado, como se comporta ante elogios e críticas. É a etapa de crescimento.

A terceira marcha

O carro roda e ronca, pedindo mais velocidade. Terceira marcha, que permite saber a real performance do automóvel. Bom de subida, estável em descida e em curvas, respondendo bem ao que dele se espera. Essa fase abre oportunidade para que os consumidores, conhecendo as condições do carro, possam ou não comprá-lo ou recomendá-lo a um amigo. O carro ganha a chance de ser bem ou mal avaliado. Estamos no ciclo da maturidade. A opinião pública forma a imagem do governo, a percepção cognitiva do eleitorado. Imagem, portanto, é projeção da identidade, desenvolvida pela bateria de comunicação.

O clímax

A última fase é a do clímax, quando o carro, em quarta ou quinta marcha (se tiver), chega ao ápice da montanha, demonstrando todo o seu potencial e avançando terreno de maneira rápida e segura. Paremos, aqui, e puxemos essas fases para o governo Bolsonaro.

O lançamento

O governo saiu-se bem no lançamento, na esteira de amplo apoio social, depois de vencer uma guerra contra o PT, seu adversário, e em atendimento a uma poderosa visão crítica da sociedade, saturada com o lema "nós e eles". Esse fraseado foi martelado durante muito tempo, em clara divisão do Brasil em duas alas, a dos mocinhos e a dos bandidos. Ante os estrondosos escândalos que arrebentaram com a imagem do petismo-lulismo e que desbocaram na operação Lava Jato, o "nós e eles" perdeu sentido, até porque as tão combatidas elites, execradas por Lula e o PT, acabaram inseridas nos dutos da corrupção. Juntas com o PT.

O crescimento

O governo Bolsonaro, eleito com o apoio de milhões de brasileiros, de todas as classes, prometia renovação da política. Não fez e não faz isso. A decepção passou a forjar o espírito nacional. O presidente, confiante no antipetismo que se alastrou pelo território, passou a fazer um governo com as mesmas ferramentas que lapidaram os governos petistas, instalando um "eles e nós", eles, os bandidos, nós, os mocinhos. E passou a jogar no prato de suas bases simpatizantes o caldo apimentado de ódio, da vingança e da ferocidade. A identidade - conservadora nos costumes, dúbia no liberalismo, franciscana na política ("é dando que se recebe") - plasmou uma imagem desgastada, tosca, plena de versões e desmentidos.

A pandemia

Para coroar esse leque de situações desencontradas, apareceu a Covid-19, com seu poder mortífero, porém, desacreditada pelo presidente e seus ministros, abrindo a maior crise sanitária vivida pelo país em toda a sua história. A má gestão do governo na pandemia disparou gigantesca teia de críticas, deixando perplexa a comunidade internacional. A indecisão e a má vontade para a aquisição de vacinas se mostraram por meio de uma embalagem ideológica, como se vacina tivesse ideologia, religião, cor. O país está doente, sai mais um ministro da Saúde, a vacinação é lenta e o governo, mesmo a contragosto, teve de encarar a realidade, topando comprar vacinas antes rejeitadas e a apertar, repito, mesmo a contragosto, as mãos da ciência. Mudança de ministro sem mudança de comportamento de Bolsonaro é o mesmo que trocar seis por meia dúzia.

E agora, José?

Estamos, ainda, na fase três. A quarta marcha só será usada em 2022. Temos, agora, uma triste paisagem dos corpos político, econômico e social. Na política, fez-se um arranjo com o Centrão. Na economia, as interrogações aumentam: o bolso do consumidor continuará a esvaziar? A inflação sobe. Os preços dos alimentos, idem. Paulo Guedes engole sapos. O programa de privatizações emperra. Brasil é visto com desconfiança pelo mercado internacional. O pacote social será apertado ou suficiente? E agora, José? O Produto Nacional Bruto da Felicidade baixa, continuará na mesma ou sobe?

Saúde

O Ministério da Saúde é o calcanhar-de-Aquiles do governo. O general da área de logística que sai não mostrou competência para gerir a bagunça que toma conta da saúde no país. O general deveria ter pedido o boné bem antes. O que dizem seus companheiros? A médica Ludhmila Abrahão Hajjar, convidada, declinou do convite. Foi ameaçada de morte. Um grupo de ódio teria ameaçado, até, invadir o hotel onde se hospedou em Brasília. Milícias? De onde vêm ameaças desse tipo? Ao que se infere, o novo ministro Marcelo Queiroga, respeitado, já deu o aviso: governo define a política e Ministério da Saúde executa. Péssimo começo. A lógica recomenda que a Pasta especializada em saúde deve definir a política sobre saúde.

Alternativa

Os governadores e os líderes do Congresso podem avocar a gestão do combate à epidemia e constituir um grupo de comando. Chegou-se ao limite. Sob essa tempestade, aparece Lula como a bonança. Após seus processos terem sido anulados na vara de Curitiba pelo ministro Edson Fachin fez um grande discurso moderado e se posicionando como a virtude para esses tempos nebulosos. Lula prega uma frente ampla. Na visão deste analista, não será candidato, mas protagonista de proa na batalha eleitoral de 2022.

Mais fogo

A quebra de sigilos bancário e fiscal de pessoas e empresas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) revela indícios de que o esquema da rachadinha também ocorria nos gabinetes do pai, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quando este era deputado Federal, e do irmão, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). A Ordem no Planalto é tratar rachadinhas como assunto "de fora do governo. O tema continua na mídia.

O custo da descontinuidade

Fecho a coluna com um alerta sobre o custo da descontinuidade administrativa. No Brasil, o custo atinge bilhões e bilhões de reais. Os sucessores na administração pública costumam apagar as ideias, mesmo ótimos programas, de seus antecessores. Dou um exemplo: o caso da EMPARN, dirigida no início dos anos 80 pelo prof. Benedito Vasconcelos Mendes. Ali, ele fez extraordinário trabalho de inovação da pesquisa agropecuária no Nordeste. Hoje, o professor Benedito dirige o Museu do Sertão, empreendimento exemplar, em Mossoró/RN.

Importação de animais

Na época, criou o Projeto de Introdução de Animais de Desertos, financiado pela FINEP e EMBRAPA e, na época, o mais arrojado para a ser implantado nos Estados nordestinos. Era proibido importar animais da África em razão de uma endemia, a doença do sono, transmitida pela mosca tsé-tsé. Daí ter se decidido pela compra junto a criadores americanos. O mestre conta: "tivemos de pagar ao Departamento de Agricultura Americano para fazer a quarentena e todas as imunizações necessárias para evitar introduzir novas doenças no Brasil. Foram 60 dias de quarentena nos Estados Unidos. Os 12 Elandes (10 fêmeas e 2 machos) e os 12 Órix-de-cimitarra vieram em avião fretado de Dallas para o aeroporto de Natal. Eu mesmo fui escolher os animais nos EUA, mas toda a transação comercial foi feita pela EMBRAPA".

Adaptação

Os animais foram introduzidos para pesquisa de adaptação, para saber se eles iriam se adaptar as condições edafoclimáticas do semiárido nordestino. Mas as pesquisas foram interrompidas depois que o professor deixou de dirigir a empresa. Tudo foi por água abaixo. Um desmonte. Inveja, despeito, apagar o sucesso da administração. Ora, seria muito útil ao semiárido se soubéssemos como estes animais se comportam nas condições do Nordeste. Curiosidades: o elande consome ramas espinhentas (como a rama da jurema), característica que lhe garantiria sobrevivência por ocasião das secas. Benedito arremata: "a jurema não é caducifólia e sim perenifólia, ou seja, não perde as folhas no segundo semestre do ano, nem durante as secas. Um copo de leite de elande seria suficiente para manter uma criança no que diz respeito à proteína e gordura".



AUTOR

Gaudêncio Torquato