BLOG - Porandudas políticas

postado às 08h30 | 21 de junho de 2022

TUDO É PERMITIDO

O poder invisível se expande no Brasil. Trata-se da força descomunal de máfias e grupos que se entranham nas malhas do poder para navegar nas águas das administrações federal, estadual e municipal. Máfias que acabam de perpetrar o mais escabroso assassinato desses tempos turbulentos, a eliminação do indigenista Bruno e do jornalista inglês Dom Phillips.

A Sólon, o legislador grego, foi perguntado se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores. Respondeu: “Dei-lhes as melhores que eles podiam suportar”. E o caso do Brasil? Os nossos legisladores dirão que as leis até são boas, mas o nosso território é uma terra sem leis.

Generaliza-se a sensação de que o País, cuja população armada se expande nas ondas do apoio e benevolência do mandatário-mor, navega nas ondas da impunidade. Madeireiros, mercadores de drogas, seringueiros, devassadores da floresta amazônica, ladrões do asfalto, milícias que dominam morros e favelas, enfim, sanguessugas e trânsfugas de todas as espécies, se espalham.  

Alguns, flagrados com a mão na massa, continuam leves e soltos, a confirmar a tese de que o Brasil é, por excelência, o território da desobediência explícita. Nada mais surpreende. O esculacho chegou a tal ponto que uma facção criminosa passou a participar do sistema de transporte privado na capital paulista. E o escritório desse núcleo está dentro do cárcere. Certa vez, ouviu-se uma assertiva do comandante desse império do crime: ora, parlamentares também roubam.

Infere-se que o poder invisível, confortável com a barbárie que consome o País, não tem mais escrúpulos nem receio de mostrar a cara. Coloca-se no mesmo nível do poder do Estado. Para lapidar a pedra bruta do estado de inação em que vive o país, basta as máfias da violência mobilizarem seus exércitos nas ruas e forças de ocupação nos cárceres. Não é de assustar se parcela significativa da população começar a aplaudir a bandidagem da quadra de baixo contra a turma que faz zoeira no andar de cima. Afinal de contas, a passarela da criminalidade e o desfile de impunidade nas antecâmaras do Poder assumem dimensões grandiosas e formas escandalosas.

Corruptos e facínoras, se condenados, ganham o mesmo status perante a lei. A anomia toma conta do País. Vem de longe. Desde os idos da colônia e do Império, fomos afeitos ao regime de permissividade, apesar da rigidez dos códigos. Tomé de Souza, primeiro governador-geral, chegou botando banca. Os crimes proliferavam. Avocou a si a imposição da lei, tirando o poder das capitanias. Um índio que assassinara um colono foi amarrado na boca de um canhão.

Ordenou o tiro para tupinambás e colonos entrarem nos eixos. Mas em 1553 uma borracha foi passada na criminalidade, com exceção dos crimes de heresia, sodomia, traição e moeda falsa. Depois chegaram as Ordenações do Reino (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas), que vigoraram até 1830. Severas, estabeleceram a pena de morte para a maioria das infrações, espantando até Frederico, o Grande, da Prússia que, ao ler Livro das Ordenações, chegou a indagar: “Há ainda gente viva em Portugal?”

O fato é que, hoje, entre tensões e panos quentes, o Brasil semeia a cultura do faz-de-conta na aplicação das leis. Uma historinha ilustra nossa cultura: há quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, onde tudo é permitido, salvo o que for proibido; a segunda é a alemã, onde tudo é proibido, salvo que for permitido; a terceira é a sociedade que vive sob as ditaduras, onde tudo é proibido, mesmo o que for permitido; e a quarta é a brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que for proibido. A propósito, os candidatos não estão quebrando a legislação eleitoral, ao promoverem e participarem nesse momento de comícios?

O descalabro se escancara: menos de 5% dos indiciados em inquéritos criminais chegam a cumprir sentença condenatória. De milhares de roubos que ocorrem, por exemplo, na Grande São Paulo, poucos assaltantes são presos na ocasião do delito. Sob esse tecido costurado com os fios da ilegalidade nasce o poder invisível, cancro das democracias contemporâneas.

A esperança se esvai, a fé se enterra, o sonho se apaga no maremoto das amarguras cotidianas.

Os órgãos de investigação e controle até avançam. A Polícia Federal, urge reconhecer, ganha mais qualidade, bastando ver o esforço para a descoberta dos assassinos do Vale do Jaguari. Mas há um longo caminho a percorrer para que o Brasil chegue a um patamar civilizatório de respeito.



postado às 09h45 | 20 de junho de 2022

Porandudas políticas

Começo com o Papa Francisco numa cadeira de rodas.

O papa e a artrite

O bêbado entrou no ônibus aos tombos. Malvestido, sujo, tossindo, tropeçando, tremendo, com um jornal na mão, sentou-se ao lado de um padre. A cada arranco do ônibus, tombava para o lado do padre, que, irritado, o empurrava sem piedade ou indulgência, e com nojo. O bêbado abriu o jornal, tentou ler, mas não conseguia porque tremia muito, bateu no braço do padre:

– Padre, o que é artrite?

– É uma doença muito ruim, muito triste, muito feia, muito nojenta, que dá nas pessoas que bebem muito.

– E mata, padre?

– Mata, sim, e mata rápido. Ou o doente para de beber ou morre logo.

– Padre, o senhor jura que não está me enganando não?

– Juro por essa cruz que está aqui no meu peito. Não estou enganando. E tem coisa pior. Quem morre de artrite, porque não parou de beber, não vai para o céu, nem mesmo para o purgatório. Vai direto para o fogo do inferno.

– Coitadinho do argentino, padre.

– Dele, quem?

– Do Papa, padre. O jornal está dizendo aqui que o Papa Francisco está com artrite.

O padre se levantou, trocou de lugar, e foi lá pra frente.

(Historinha de Sebastião Nery, adaptada para a atualidade por este escriba).

A imagem do Brasil

No fundo do poço. O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês, Dom Philips, no Vale do Javari, Amazonas, devasta ainda mais a imagem do Brasil na paisagem internacional. Soma-se ao rol de coisas ruins que as Nações enxergam em nossas plagas, a partir do desmatamento da floresta, do garimpo ilegal, da exploração de minérios, enfim, do descaso ao qual foi relegada a região amazônica pelo governo.

Infere-se que...

O presidente Bolsonaro se depara com mais um obstáculo a ultrapassar em sua corrida para voltar a sentar na cadeira presidencial. A morte de Bruno e Dom abre mais espaço na mídia nacional (e internacional), com sobras de tiros em direção a um governo que acolhe bárbaros que devassam a região. Sob uma política complacente. Ou seja, esse episódio afasta muitos eleitores que poderiam votar em Bolsonaro. Recuam ante a escalada de violência e brutalidade que assolam o Brasil no atual ciclo político.

A banalização do mal

O mal está banalizado aqui e alhures na esteira das práticas que o alimentam. A famosa tese de Hannah Arendt sobre o tema, com foco no assassinato em massa, comandado pelo coronel nazista Adolf Eichmann ao jogar milhões de judeus nas câmaras de gás dos campos de concentração. O Álbum de Auschwitz mostra a chegada dos trens, o processo de seleção e o lugar para onde eram levados os pertences dos assassinados — conhecido como Canadá... "mulheres, crianças, idosos não sabiam o destino que os esperava; nós, porém, sabemos o que ia acontecer em minutos ou horas: seu destino eram as câmaras de gás... Entre a primavera e o início do verão de 1944, Auschwitz chegou ao limite de sua capacidade de extermínio e o superou no mais horrível e frenético período de assassinatos que o campo viveria". O criminoso cumpria ordens. Sem piedade. Um burocrata dando vazão ao sistema. A banalização do mal.

A natureza do mal

O mal tem origens. Nasce, por exemplo, da inação de governantes que fecham os olhos para práticas imorais, perversas, estúpidas, calamitosas. A semente do mal viceja na seara da ignorância. Massas sem acesso à educação ensejam a multiplicação de grupos, máfias, milícias. Em suma, a morte do indigenista e do jornalista inglês no Amazonas se ancora no desmando de uma administração que deixa a floresta ser devastada por "novos povoadores", os cultores do uso da bala, que emergem como "bandeirantes bárbaros" das reservas indígenas. Sob o olhar de um governo que considera a destruição do espaço amazônico um impulso ao desenvolvimento do país.

Os três macaquinhos

Parcela do eleitorado que votará em Lula deve fazer o gesto dos três macaquinhos - que fecham os olhos, os ouvidos e a boca. Não veem, não ouvem e não sentem o clima que envolverá sua decisão nas urnas. Votarão em Lula para evitar Bolsonaro. Hipótese que também vale para o mandatário-mor. A opção de votar nele é, para muitos, uma tentativa de deixar longe do poder o lulopetismo. Parcela ponderável do eleitorado tenta enxergar luz no fim do túnel. Quem vai segurar o farol?

Programa petista

Volto a lembrar. O programa de Luiz Inácio, vazado pela mídia na semana passada, mostra que o ex-metalúrgico não esquece temas que causam pesadelo junto a segmentos importantes: a revogação da reforma trabalhista, o aborto, a regulação da mídia (com cheiro de censura), a tributação dos endinheirados, entre outros itens. E, ainda, ele concorda com o uso da caneta para definir os rumos da Petrobras e, assim, abrir o ciclo de maior intervenção do Estado na economia.

Lula no meio? Uma ficção

O comandante petista tem se posicionado no meio do arco ideológico. É sua expressão junto aos setores produtivos. Mas, vez ou outra, o velho Lula reaparece em discursos inflamados. Geraldo Alckmin tem sido usado como colchão amortecedor junto aos setores produtivos. Um drible que poderá quebrar as pernas do jogador. O tempo provará essa hipótese. Esperemos.

Em suma

Jair tem apoio de 25% a 30% dos eleitores que consideram seu governo bom ou ótimo. Mesmo não sendo popular, Bolsonaro tem razoável apoio entre os padrões da América Latina. Com esse índice, ainda está na disputa. Já a rejeição a Lula tende a subir, o que tornaria a eleição competitiva. Se Bolsonaro conseguir recuperar popularidade, a eleição será apertada.

Simone Tebet

Toda a expectativa do grupo nem-nem se volta para Simone Tebet. Julho é seu deadline, o fim de linha. Passou o mês sem sinais de subida, será improvável permanecer no páreo. Este analista acha que haverá um pouco de pista para ela decolar.

Doria, adeus

João Doria diz adeus à vida pública. "A ser verdade", este analista registra algumas conclusões: 1. João fez bem à democracia brasileira; 2. O ex-governador paulista deixa marca forte no Estado mais poderoso da Federação; 3. Seu governo não ganhou o reconhecimento que merece; 4. Foi impossível ao ex-governador diminuir índices de rejeição; 5. A rejeição abriga componentes relacionados à índole de João (elite, autossuficiência, representação da cara do poderio paulista (elemento muito rejeitado pelo eleitor), imposição, pouco propenso ao diálogo, entre outros pontos.

Verdade

Este analista escreveu acima – "a ser verdade". A observação é para lembrar que há sempre um caminho de volta. Se as circunstâncias, no dia de amanhã, abrirem espaço para sua volta, quem garante que ele não montará no cavalo selado diante de sua porta? Minha querida e saudosa mãe sempre me dizia: "meu filho, nunca diga – desta água não beberei". Acrescento: aprendi com o filósofo Heráclito, de Éfeso, que a travessia do rio duas vezes no mesmo lugar por uma pessoa não se repete, pois as águas e a própria pessoa estarão modificadas; aprendi, também, que a pessoa pode atravessar o rio noutro momento, sob novas circunstâncias. O rio e a pessoa serão outros.

A menor distância

A propósito, a menor distância entre dois pontos, na geometria euclidiana, é uma reta. Tenho dito e repetido este bordão: Na política, porém, a menor distância entre dois pontos pode ser uma curva. Lembro: Fernando Henrique perdeu a eleição municipal para Jânio Quadros e, a seguir, ganhou a presidência da República.

Queda da bolsa

O mercado financeiro enfrenta momentos nervosos no mundo e por aqui. Bolsas fechando em baixa. O pessimismo é reflexo de preocupações generalizadas com a inflação, que está acelerando sobretudo nos EUA.

Recessão mundial

Anotem a inferência. O mundo deverá entrar, um pouco mais adiante, em um processo de refluxo nas economias. A partir da recessão que deve ocorrer nos Estados Unidos, a maior potência econômica. Senhoras e senhores investidores: refaçam seus prumos...e rumos. Paisagem que desenho a partir de minhas leituras. Um dos movimentos para a desvalorização do real é o estímulo à fuga de investidores do Brasil com a iminente nova elevação dos juros americanos. Os investidores retiram seus recursos da renda variável...

Ucrânia

Está perdendo a guerra. Rússia vitoriosa aumentará as tensões na Europa. A OTAN se dispõe a abrigar novos países. Putin irado. Sinais de paz se apagam.

Os Gomes

Quem deverá voltar à iniciativa privada, no próximo ano, é o presidenciável Ciro Gomes. Um perfil qualificado. Um grande conhecedor do nosso país. A propósito: os irmãos Ferreira Gomes deram um passo adiante no sistema educacional de Sobral, Ceará. Depoimento de uma figura mais que prestigiada....o homem mais rico do Brasil: Jorge Paulo Lemann.

A propósito do Ceará...

Junho é um mês histórico na minha trajetória. Nesse momento em que se fala da indicação de Tasso Jereissati para compor a chapa de Simone Tebet (MDB-MS) talvez seja interessante lembrar os tempos em que Tasso abriu sua jornada política.

O início

Há 36 anos, em 24 de junho de 1986, indicado por Fernando César Mesquita, assessor de imprensa do presidente José Sarney, cheguei à Fortaleza, Ceará, para ajudar na campanha de Tasso Jereissati ao governo do Estado. Do hotel Esplanada, onde me hospedei, fui a uma noite de São João. Tasso Jereissati, convidado por Barros Pinho, deputado estadual do MDB, dirige-se a um clube de bairro popular de Fortaleza. Primeira experiência no meio do povo. Candidato a governador do Ceará, sua missão: presidir um júri que vai julgar fantasias juninas de adolescentes.

Peixe fora d'água...

Estava ao seu lado como conselheiro e profissional de campanhas políticas (hoje chamados de marqueteiros). Tasso circula de mesa em mesa, apresentando-se. Encabulado. A seguir, preside o evento. Não sabe o que fazer. Ou dizer. Era muito conhecido no bairro de classe média alta, Aldeota, mas sem acesso às massas. Na época, tinha 2% de intenção de voto.

"Tô fora"...

Depois do evento, angustiado, ele, Sérgio Machado, na época braço direito, e este escriba, dirigem-se a um restaurante na praia para degustar uma lagosta. Logo no início da conversa, Tasso desabafa : "desisto, amigos; se política for isso, assistir a batizado, casamento, velório, festa junina, não contem comigo. Tô fora". Transtornado e disposto a abandonar a candidatura. No Hotel, dia seguinte, em uma pequena máquina de datilografia, Lettera 22, esbocei o planejamento de sua campanha.

O moderno contra o arcaico

O novo contra o velho. O moderno contra o arcaico. O lema que orientou a campanha. Fui à MPM, em Brasília, para que esta agência criasse o visual. Fizemos a apresentação. Mas a Propeg, de Fernando Barros, Salvador/Bahia, sob o mesmo lema, acabou sendo a agência escolhida. Fui coordenar a campanha de Freitas Neto (PFL-PI). Acompanhando o que ocorria no CE. Resumo: Tasso deu um banho nos três coronéis que comandavam a política cearense, Virgílio Távora, César Cals e Adauto Bezerra. Ganhou de Adauto Bezerra, obtendo quase 1,5 milhão de votos. Fez um governo mudancista. Hoje, senador do PSDB, é um quadro respeitado em todos os segmentos da política.

Fecho com o Ceará.

Com "SEU LUNGA", o famoso casca dura de Juazeiro do Norte, vendedor de sucatas, pai de 13 filhos, quase analfabeto, que ganhou fama pela língua solta e afiada.

No copo?

Seu Lunga descansava na rede. Manda o sobrinho trazer-lhe um pouco de leite. O garoto pergunta:

– No copo?

Ele responde:

– Não. Bota no chão e vem empurrando com o rodo, imbecil.

A promissória

O funcionário do banco veio avisar:

– Seu Lunga, a promissória venceu.

– Meu filho, pra mim podia ter perdido ou empatado. Não torço por nenhuma promissória.

Tá doente?

Seu Lunga vai saindo da farmácia, quando alguém pergunta:

– Tá doente?

– Quer dizer que se eu fosse saindo do cemitério, eu tava morto?

 



postado às 09h30 | 07 de junho de 2022

OS MONSTROS DA POLÍTICA

Governantes das mais diferentes ideologias dão efetiva contribuição à degenerescência da arte de governar, pela qual Saint Just, um dos jacobinos da Revolução Francesa, já expressava, nos meados do século 18, grande desilusão: “Todas as artes produziram maravilhas, menos a arte de governar, que só produziu monstros.” A frase se destinava a mostrar o perfil dos ditadores.

Hoje, a insanidade continua a pavimentar o caminho dos governantes. Canalhice, mediocridade, vaidade, ignorância, hipocrisia, populismo inundam os espaços públicos.

Lembram-se de Silvio Berlusconi, na Itália, flagrado em suas festas “bunga-bunga”, que abrigava a prostituição de 26 garotas a ele levadas por uma rede de quadrilha e prostituição? Berlusconi se prepara para reentrar no cenário político. Lembram-se dos famosos flagrantes de dólares na cueca envolvendo figuras de nossa política?

Vladimir Putin exibe para a comunidade um perfil atlético de esportista e se mostra um denodado defensor da soberania russa, mas há mais de três meses fustiga a Ucrânia, deixando em cinzas o território de um-satélite da ex-URSS. Motivo? Quer integrar partes do país à Rússia. Uma superpotência mundial destruindo um vizinho, sob o olhar perplexo do mundo.

A mais recente cena que causou estupefação no planeta foi o assassinato de Genivaldo de Jesus Santos, um homem negro, detido pela Polícia Rodoviária Federal por não usar capacete, forçado a entrar no porta-malas de um carro, onde os policiais jogaram uma bomba de fumaça. Um ato que lembra a câmara de gás dos campos de concentração nazistas.

Lembram-se de Pedro Aleixo, vice-presidente do marechal Costa e Silva. Referindo-se ao AI-5, dizia: “o problema de uma lei não é o senhor (Costa e Silva), nem os que governam o país com o senhor. O problema é o guarda da esquina”.

O que explica a propensão de homens públicos a assumirem o papel de atores de peças vis, cerimônias vergonhosas e, ainda, abusarem de linguagem chula, incongruente com a posição que ocupam? O que explica a imagem de parlamentares mexendo no orçamento para inundarem com recursos o pleito eleitoral? Governantes cooptando apoio parlamentar com o anzol da grana?

A resposta: a despolitização e a desideologização, o baixo nível de institucionalização do país, a secular cultura política, fatores que, no Brasil, ganham expansão na esteira da deseducação das massas.

Os mecanismos tradicionais da democracia liberal, aqui e alhures, estão degradados. Retomo, aqui, o paradigma do “puro caos”, que o professor Samuel Huntington (Harvard, EUA) identifica como fenômeno contemporâneo e que se ancora na quebra no mundo inteiro da lei e da ordem, nos cartéis de drogas, na destruição das famílias, em ondas de criminalidade, enfim, no declínio da confiança na política.

Os exemplos estão em toda a parte. Como se pode exigir respeito dos cidadãos se os dirigentes não são o melhor espelho para refletir padrões de comportamento? Atravessamos um dos mais conturbados ciclos da política. A imagem de Saint Just, que abre este artigo, cutuca nossa consciência e corrobora o fato de que a arte de governar tem sido um laboratório de monstros.

Como se pode elogiar um grupo de policiais que agiram contra um doente mental? Como é possível alguém, com um mínimo de responsabilidade, vir a público para pregar a violência, a necessidade de armar a população, o escárnio ao Poder Judiciário, entoando um hino de guerra para mobilizar guerreiros?

A esfera pública virou arena de interesses, atraindo pessoas de todos os naipes. Bifurca-se o caminho da Res Publica com a vereda do negócio privado. O diagnóstico é de Hannah Arendt: “A sociedade burguesa, baseada na competição, no consumismo, gerou apatia e hostilidade em relação à vida pública, não somente entre os excluídos, mas também entre elementos da própria burguesia.”

A atividade econômica passou a exercer supremacia sobre a vida pública. Os eleitores se distanciam de partidos, formando núcleos ligados ao trabalho e à vida corporativa – sindicatos, associações, movimentos. Eis a nova face da política. Esses espaços terão importância no processo decisório que vai eleger o novo mandatário-mor.

Infelizmente, teremos de conviver por bom tempo ainda com as rixas:  parlamentares se atracando em plenários, brigas de ruas entre militantes, propinas, apupos e aplausos.

O que fazer para limpar a sujeira que borra a imagem da política? A reengenharia voltada para o resgate da moral é tarefa para mais de uma geração. Primeiro passo: o homem público deve cumprir rigorosamente o papel que lhe cabe. Segundo: os que saem da linha e descumprem a lei serão punidos. Terceiro: revogam-se as disposições em contrário.



postado às 09h15 | 31 de maio de 2022

QUEM É GIORDANO?

Desculpem por usar a primeira pessoa neste artigo. Mas não posso deixar de fazer uma confissão: perguntado sobre o desempenho dos senadores de São Paulo, citei dois. E o terceiro, o Giordano? Quem, quem? Como analista político há cerca de quatro décadas, não podia desconhecer que Giordano, Alexandre Luiz Giordano, um dos três senadores de São Paulo, do PSL, ao lado de José Serra e Mara Gabrilli, ambos do PSDB. O senador assumiu no lugar do major Olímpio, que morreu de Covid-19 em março do ano passado.

Fui fisgado pela teia do desconhecimento criada na esteira de suplentes sem história política, muitos dos quais são empresários, inclusive Giordano, que ganham vagas na chapa majoritária ao Senado, graças ao auxílio/ajuda/apoio financeiro dado ao titular. Uma vista d’olhos no plenário da Câmara Alta vai exibir boa parcela de desconhecidos no conjunto de 81 senadores. Alguns até conseguem entrar no rol de senadores destacados em função de uma ativa participação no plenário e nas Comissões. Muitos se recolhem à redoma, escondendo-se do palco da visibilidade.

O fato é que a figura de suplente de senador merece um reposicionamento. Não pode ser um espaço para negociação entre o candidato a titular e eventuais interessados, principalmente quando estes não têm nenhum contato com eleitores. Ou seja, o suplente pode chegar ao Céu, como se referia o velho cacique udenista Dinarte Mariz (RN) ao Senado, sem ganhar um voto do eleitor. Senador sem voto é, para usar a expressão de Gay Talese, talentoso escritor norte-americano, uma “Ferrari sem gasolina”, analogia que usou para mostrar Frank Sinatra em estado gripal.

A vaga do titular, em caso de morte ou afastamento para assumir outras funções na administração pública, deveria ser ocupada pelo candidato a deputado que ficou na primeira suplência. É o que defende uma corrente de analistas e políticos, ancorados no conceito de que, nesse caso, estaria contemplada uma figura que disputou voto, não se tratando de um paraquedista da política. A tese tem certo fundamento, mas, convenhamos, parece injusta.

Os deputados eleitos tiveram mais votos ou mostraram maior densidade eleitoral que o primeiro suplente. Logo, seria mais justo que o mais votado fosse o escolhido. Tal posicionamento, no entanto, mexerá com as peças do tabuleiro político no Estado que sedia a questão. Cria problemas para siglas que formaram federações, muda a fisionomia partidária, enfim, desarruma a equação política.

Que outras formas poderiam ser discutidas? Em nossa análise, aquelas que contemplam a viabilidade eleitoral. O suplente de senador há de mostrar que passou no teste do eleitor, que foi às ruas, enfim, que não saiu de sua casa ou de seu escritório direto para a cúpula côncava do Senado. E como fechar o argumento? Com uma chapa com o nome do titular e de dois ou três suplentes, que deveriam ser submetidos ao voto. Portanto, entre os nomes dos suplentes, o eleitor escolheria o perfil que julgasse mais adequado.

Alguém poderá objetar: mais burocracia, mais dificuldades para o eleitor, mais demora. Nada disso. Basta clicar o nome desejado. Desse modo, o Estado ganharia senadores legitimados pelo voto em uma chapa que abrigaria perfis entre representantes de qualquer categoria profissional. Ou seja, qualquer cidadão(ã) poderia ocupar essa lista, sem restrição a nomes ou suspeição sobre intenções.

Na verdade, outros critérios podem melhorar o conjunto senatorial. Como se sabe, os senadores representam os Estados e os deputados, o povo. A letra constitucional, ao definir papéis diferentes para as duas casas congressuais, de certa forma sinaliza na direção dos perfis de candidatos. Os senadores olham para os interesses da unidade federativa, enquanto os deputados, as demandas sociais, aspirações e expectativa das populações.

Estes dois eixos sugerem que candidatos a senador tenham uma visão mais abrangente de seus entes federativos, aconselhando a indicação de perfis com mais experiência no trato das questões públicas. E candidatos à Câmara Federal seriam os perfis mais comprometidos com demandas locais e regionais. Um formato que atende a critérios subjetivos, mas parece justo. 

Sabemos que esse ideal político jamais será cumprido no Brasil, onde o rol de questões está atrelado às conveniências político-partidárias.

Ou seja, vamos ter de conviver com Giordanos por muito tempo.



postado às 09h15 | 27 de maio de 2022

UMA LUZINHA NO TÚNEL

A implosão do PSDB, com a dissensão aberta pela Executiva do partido e o ex-governador João Doria que, até o fechamento desta análise, se mantem inflexível na manutenção de sua candidatura à presidência da República, pode se transformar no feixe de luz a iluminar a paisagem social.

Antes, a observação: o ex-governador de São Paulo tem todo o direito de reivindicar a indicação de seu nome, eis que venceu as prévias partidárias, legítimas e acordadas com a própria direção tucana. Ganhou do ex-governador Eduardo Leite, do RS, a vaga como candidato e até já iniciou seu périplo pelo país. O isolamento imposto a Doria, com a decisão do próprio PSDB, MDB e Cidadania de escolha de um candidato de consenso entre eles, que não seja o ex-governador paulista, aponta para a senadora Simone Tebet (MDB-MT), um perfil com maiores chances de crescimento, tendo em vista não ser muito conhecida e com rejeição não tão alta.

O imbróglio está formado e a alternativa que sobra a João é a judicialização, com recursos ao Judiciário. Posto isso, sigamos a vereda das expectativas. Espera-se que Tebet, com ampla visibilidade e um ciclo eleitoral de mais de cerca de quatro meses, possa se fazer conhecida e obtenha um índice competitivo entre os candidatos, quebrando a polarização entre Lula e Bolsonaro. Seria possível?

Sim. Mas a hipótese carece de um denso painel de fatores. Primeiro, consideremos o halo que cerca a imagem de João Doria. Sua rejeição é muito alta. Poderia revertê-la? Em parte, sim, mas também neste caso seriam necessárias condições para que pudesse crescer a ponto de ameaçar os dois candidatos dos extremos. Economia, espírito do tempo, embalo do eleitorado etc.

Em campanha, sabe-se do lema: quando o vento corre para um lado, ninguém segura. Foi o que ocorreu com o próprio Doria quando ganhou a prefeitura de São Paulo contra Fernando Haddad, em 2016, obtendo 53,29% dos votos válidos. E, também,  quando ganhou o governo  de São Paulo para Marcio França, do PSB, por 51,75% dos votos válidos contra 48,25%, em 2018.  Nos últimos dias dos pleitos, o vento bateu forte nos costados de João.

O que teria havido com o empresário, jornalista e tucano que ajudou Mário Covas em tempos idos? O arrojo na política, essa propensão para abocanhar fatias cada vez maiores de poder. Deixou a prefeitura paulistana para Bruno Covas e se candidatou ao governo, deixou o governo para Rodrigo Garcia, que puxou do DEM para o PSDB, dois anos depois, sob a expectativa de que seria o tucano mais qualificado para ser o candidato do partido a presidente.

Essa imagem de “ambicioso” caiu no sistema cognitivo dos eleitores, que perceberam na índole Doriana uma aura que causa espanto e temor. A ideia de um perfil destemido, determinado, um gestor incansável, que chega a trabalhar 18 horas por dia, não vingou.

O cientista político Robert Lane crava a lição: “A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará constantemente os que a apoiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder". Na visão deste analista, esse “desejo ardente” pode ser a causa da tempestade que corrói o perfil de Doria.

E Simone Tebet? Senadora, mulher, fluente, passa a impressão de pessoa corajosa e em condições de entrar na liça. Filha de um grande político, Ramez Tebet, ex-prefeita, ex-secretária de Estado, ex-deputada, Simone exibe assepsia, sob um manto sem manchas na trajetória. Agora, seu crescimento vai depender das circunstâncias ou, noutra imagem, o Senhor Imponderável é quem dará as cartas decisivas.

Digamos que o eleitorado perceba e internalize a imagem de Simone. Digamos que seja favorecida pelos ventos da estação. Digamos que seja a bola da vez, encarnando a ideia de que poderá romper as fronteiras da polarização. Não é de todo improvável. O tempo é o Senhor da Razão, lema muito conhecido dos políticos, velhos e novos.

E, assim, a senadora emedebista poderia se transformar na luzinha que a comunidade política está ansiosa para enxergar, abrindo os horizontes de um novo tempo.

 



postado às 09h30 | 20 de maio de 2022

Porandudas políticas

Brevíssimas....

Por aqui...

- Presidente Jair continua apostando em intensa polarização da campanha eleitoral.

- Artigo de Elio Gaspari, com muita repercussão, diz que o presidente ensaia um golpe, sendo a noite do dia 2 de outubro, uma espécie de prazo fatal para um movimento golpista, caso Bolsonaro perca as eleições.

- Tenho dito e repetido, o fator determinante para a vitória ou derrota do presidente será a equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Dinheiro no bolso significa geladeira cheia, barriga satisfeita, coração (agradecido ou enfurecido), cabeça disposta a eleger ou a mandar o governante para casa.

- Lula terá palanques múltiplos em alguns Estados. Mais do que terá Bolsonaro.

- A propósito, respondendo a uma consulta da coluna, Gilberto Kassab ouve os presidentes do PSD nos Estados, mas adianta que a tendência é a de liberar as bancadas. Eis o que levantou Kassab até o momento:

-RJ: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-BA: coligação com Lula.

-AP: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-PR: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-RS: candidatura própria (se não tiver, liberar).

-AM: coligação com Lula.

-PA: candidatura própria (se não tiver, liberar)

- O Instituto Paraná Pesquisas acaba de fazer sua pesquisa periódica em SP. Murilo Hidalgo manda para a coluna:

- Fernando Haddad, PT; 29,7%; Márcio França, PSB, 18,6% e Tarcísio de Freitas, Republicanos, 15,2%; nenhum, branco/nulo, 19,3%.

- PSDB é um partido que terá de renascer das cinzas de seus rachas internos.

- Tendência de renovação da Câmara, na eleição de outubro, sinaliza mais de 50% do atual corpo parlamentar.

- As manifestações de 1º de maio estiveram bem abaixo das expectativas. Para os dois lados: de Bolsonaro e Lula.

- O pêndulo eleitoral vai ser alvo de especulação até as margens do pleito. Vai ter dados verdadeiros e falsos visitando o sistema cognitivo nacional.

- Interessante nessa campanha: grupos familiares repartindo-se para os dois lados, situação e oposição.

- Bolsonaro usa bem a mídia: faz manchetes com suas tiradas radicais.

- A última: o presidente brasileiro, que não foi convidado mais uma vez a participar do G7, está sugerindo uma comitiva de presidentes de Nações, Brasil na frente, para visitar Putin, em Moscou, e articular com ele o final da guerra na Ucrânia.( P.S. lembrando ao presidente que não fale a palavra guerra para Vladimir Putin, que só admite o termo – operações especiais na Ucrânia.

Por ali...

- A guerra na Ucrânia trará necessariamente uma nova ordem internacional.

- Vladimir Putin, segundo jornalistas amigos dele, que conhecem sua alma, dizem com todas as letras: ele não sairá derrotado. É capaz, para amaciar seu ego, de utilizar seu arsenal nuclear. E apertar um botão, por exemplo, para destruir Berlim, Viena, Paris, enfim, para acionar os mecanismos de uma 3ª Guerra Mundial.

- Este analista, em 50 anos de atividade, considera que avançamos, a cada dia, em direção ao caos.

- A China sinaliza que fecha posição com a c. E ataca o Ocidente. Só não engrossa o discurso por causa dos interesses comerciais.

- Putin estuda com seus generais a melhor alternativa para conter o envio de armas para a Ucrânia pelos países da OTAN. Nada mais óbvio: por meio do ataque balístico. Não se trata de exagero.

- Os bilionários russos começam a sofrer grandes perdas. E acusam Putin., que está lhes dando uma banana. Putin começa a afastar alguns generais e assessores que não mediram bem o custo da guerra para Rússia, que teria perdido mais de um mil tanques e milhares de soldados jovens e sem experiência.

- Joe Biden, devagarinho, começa a impor seu estilo de enfrentamento. Já mandou montanhas de dinheiro e armas para a Ucrânia. E sempre disposto a mandar mais.

- A Alemanha e seu dilema: mandou armas para a Ucrânia, mas continua a comprar o gás da Rússia, que, agora, paga em rublos. Outros países da OTAN enfrentam o mesmo dilema.

- A França de Macron se prepara para um novo período, sob a égide de um governante mais experiente e com vontade de endurecer em algumas áreas.

- A Venezuela saiu do mapa mundi? Ou mesmo do mapa latino-americano? Maduro passou a ser verde em matéria de afastamento midiático.

- Amigos que chegam da Europa estão assombrados com o mal conceito do Brasil nos últimos tempos.

- Em Lisboa, brasileiros invadem praças, museus e restaurantes. Portugal fica ali na esquina. Vai e vem.

E na esfera das ideias?

Tratemos, na coluna, de um tema muito sensível aos candidatos: rejeição.

- Rejeição a candidato é coisa séria. Não se apaga um índice de rejeição da noite para o dia. O maior adversário de certos candidatos é uma rejeição em torno de 30% a 40% dos eleitores.

- Os nossos dois principais candidatos estão com altos índices de rejeição, na margem dos 50%. Um perigo.

- Em um colégio eleitoral de 35 milhões de eleitores, como é o caso do Estado de São Paulo, uma rejeição maior que 30% é uma montanha difícil de escalar. Trata-se de uma barreira que pode derrubar qualquer candidato, principalmente se este for ao segundo turno de uma campanha majoritária.

- Quando um candidato registra um índice de rejeição maior que a taxa de intenção de voto, é bom começar a providenciar a ambulância para entrar na UTI eleitoral. Caso contrário, morrerá logo nas primeiras semanas do segundo turno.

- A rejeição deve ser convenientemente analisada. Trata-se de uma predisposição negativa que o eleitor adquire e conserva em relação a determinados perfis. Para compreendê-la melhor, há de se verificar a intensidade da rejeição dentro da fisiologia de consciência do eleitorado.

- O processo de conscientização leva em consideração um estado de vigília do córtex cerebral, comandado pelo centro regulador da base do cérebro e, ainda, a presença de um conjunto de lembranças (engramas) ligadas à sensibilidade e integradas à imagem do nosso corpo (imagem do Eu) e lembranças perpetuamente evocadas por nossas sensações atuais. Ou seja, a equação aceitação/rejeição se fundamenta na reação emotiva de interesse/desinteresse, simpatia/antipatia. Pavlov se referia a isso como reflexo de orientação.

- A intensidade da rejeição varia de candidato para candidato. Paulo Maluf era (e ainda é) um perfil que sempre teve altos índices de rejeição. Passou a administrar o fenômeno depois de muito esforço. Mudou comportamentos e atitudes. Tornou-se menos arrogante, o nariz levemente arrebitado desceu para uma posição de humildade e começou a conversar humildemente com todos, apesar de não ter conseguido alterar aquela antipática entonação de voz anasalada.

- Orestes Quércia era outro que tinha a rejeição inscrita na testa.

- Os erros e as rejeições dos adversários também contribuíram para atenuar a predisposição negativa contra ele. Purgou-se, também, pelos pecados mortais dos outros. Maluf aprendeu bem a arte de engolir sapos.

- Em regiões administradas pela velha política, a rejeição a determinados candidatos se soma à antipatia ao familismo e ao grupismo. O eleitor quer se libertar das candidaturas impostas ou hereditárias. Mas não se pense que o caciquismo se restringe a grupos familiares. Certos perfis, mesmo não integrantes de grandes famílias políticas, passam a imagem de antipatia, seja pela arrogância pessoal, seja pelo estilo de fazer política ou pelo oportunismo que sua candidatura sugere. Em quase todas as regiões do país, há altos índices de rejeição, comprovando que os eleitores, cada vez mais racionais e críticos, querem passar uma borracha nos domínios perpetuados.

- A rejeição pode ser diminuída quando o candidato, indo a fundo nas causas profundas que maltratam a candidatura, enfrenta o problema sem tergiversação nem firulas. Pesquisas qualitativas, com representantes de todas as classes sociais, indicam as causas. Aparecerão questões de variados tipos: atitudes pessoais, jeito de encarar o eleitor, oportunismo, egomarketing, mandonismo familiar, valores como orgulho, vaidade, arrogância, desleixo nas conversas, cooptação pelo poder econômico, história política negativa, envolvimento em escândalos, ausência de boas propostas, descompromisso com as demandas da sociedade.

- Para enfrentar alguns desses problemas, o candidato há de comer muita grama. Não se equaciona a rejeição de modo abrupto. Ao contrário, quando o candidato demonstra muita pressa para diminuir a rejeição, essa atitude é percebida pelo conjunto de eleitores mais críticos, que é exatamente o grupamento mais afeito à rejeição. E aí ocorre um bumerangue, ou seja, a ação se volta contra o próprio candidato, aumentando ainda mais a predisposição negativa contra ele.

- Trabalhar com a verdade, eis aí um ponto-chave para começar a administrar a taxa de rejeição. O eleitor distingue factoides de fatos políticos, boas intenções de más intenções, propostas sérias de ideias enganosas. O candidato há de montar no cavalo de sua identidade, melhorando as habilidades e procurando atenuar os pontos negativos. É errado querer mudar de imagem por completo, passar uma borracha no passado e cosmetizar em demasia o presente. Mas é também grave erro persistir nos velhos hábitos. Mudar na medida do equilíbrio. Mudar sem riscos.

- Todo cuidado com mudanças constantes e bruscas, de acordo com a sabedoria da velha lição: não ganha força a planta frequentemente transplantada.

 



AUTOR

Gaudêncio Torquato