BLOG - Porandudas políticas

postado às 16h00 | 08 de agosto de 2022

CINCO CENÁRIOS

O cotidiano da política é uma gangorra. A tensão sobe e desce. As expectativas fluem ao sabor dos momentos. As dúvidas ganham volume, puxadas pelos protagonistas. Em ano eleitoral, a dois meses das eleições, e tendo em vista que a contenda usará armas nunca d’antes vistas, não é de surpreender que a guerra seja a mais violenta da atualidade.

Trata-se de um pleito que fará o Brasil caminhar, amanhã, pelos caminhos da esquerda ou da direita. A contar com o maior cofre eleitoral de todos os tempos. E a abarcar o maior número de eleitores, cerca de 156 milhões. Na paisagem de fundo, mais de 30 milhões de pessoas sem acesso à mesa do pão, habitantes do território da extrema carência. Mostrando, ainda, classes médias divididas entre dois candidatos e uma parcela, que tende a crescer, ansiosa para achar a saída da dualidade, um perfil identificado com inovação.

Essa moldura pode se alterar nas próximas semanas, a depender da barreira a ser transposta pelos corredores. O obstáculo deverá aparecer no dia em que o país comemorará os 200 anos da independência, 7 de setembro próximo. A muralha a ser ultrapassada tem sido reforçada com a argamassa produzida nos fornos do presidente Bolsonaro, cujos componentes incluem uma parada militar na avenida Atlântica (Copacabana), no Rio de Janeiro, o convite para as massas comparecerem ao evento, ataques reiterados a membros do Poder Judiciário e às urnas eletrônicas e a indignação contra manifestos em favor da democracia.

O que aguarda o país, após 7 de setembro? Paz ou guerra? Que o leitor tire suas conclusões, após tentar extrair os efeitos dos seguintes cenários:

  1. Mar bravio – O desfile de 7 de setembro – militares de diversas categorias e postos, tanques esmagando o asfalto, continência dirigida ao comandante-em-chefe das Forças Armadas, ele mesmo, o presidente da República - tem o condão de mostrar que o capitão Jair é poderoso e tem forças para anunciar medidas de caráter extraordinário. Medidas que disfarcem a imagem de um golpe, fenômeno que desviará o país de sua rota, mas possível de ocorrer, principalmente se a mobilização de rua implicar devastação, quebra-quebra, desordem, conflitos. Hipótese que será viável/inviável, a depender do comportamento das Forças Armadas.
  2. Céu de brigadeiro – O evento de 7 de setembro ocorrerá com tranquilidade, sem açodamento, brigas entre alas, soldados cumprindo sua tarefa de desfilar, votos de paz e harmonia social, expressos pela sociedade civil. O presidente se manteria de boca fechada, sem jogar lenha na fogueira e até jogando água em algum fogo persistente. Desse modo, o céu de brigadeiro seria visto até outubro, mês do primeiro e do segundo turnos.
  3. Horizonte turvo – Nuvens plúmbeas, pesadas, prenunciando raios, trovão e chuva intensa, emergirão em todos os quadrantes, e seus primeiros sinais apareceriam no dia 7 de setembro, com escaramuças desfechadas por alas bolsonaristas e grupos lulopetistas. O prenúncio de guerra, a se travar nas ruas após a comemoração cívica, criaria as condições para o presidente continuar seu discurso belicoso. E preparar o espírito de suas bases para a alteração das regras no tabuleiro democrático, caso o vencedor do pleito seja o candidato das esquerdas. As instituições da República reagirão e a gangorra de tensões voltará à paisagem.
  4. Luz no fim do túnel – A policromia do arco-íris será manchada com borrões e pichações, nos próximos dias, que enfeiarão o desfile de 7 de setembro, abrindo buracos na sociedade, contribuindo para os polos do extremo ideológico acirrarem suas divergências. A polarização chega ao pico da montanha. Mas acende uma luz no fim do túnel. Toma corpo a taxa de racionalidade. E tal impulso viabiliza um terceiro nome, um perfil com um discurso de harmonia e reinserção do país na roda do desenvolvimento. Pode ser utopia. Mas...
  5. Visita do Imponderável – Uma visita do Senhor da Imprevisibilidade também é possível. Para evitar o mau agouro, este analista deixa de lado as hipóteses desse cenário.

Seja qual for o cenário, urge crer no Brasil, com seu território continental, riquezas naturais, belezas incomparáveis, pedaço importante do planeta. E que, um dia, realizará o sonho de uma grande Pátria: a revolução da Educação.

 



postado às 09h45 | 26 de julho de 2022

REJEIÇÃO, VÍRUS MORTAL

A rejeição a candidato pode ser fatal. E o pleito deste ano mostra que os dois candidatos com mais chance de chegar ao segundo turno – Lula e Bolsonaro – têm altos índices de rejeição, o petista em torno de 40% e o presidente perto de 60%. Pesquisa recente da Quaest.

Quando um candidato registra um índice de rejeição maior que a taxa de intenção de voto, é prudente providenciar a ambulância para entrar na UTI eleitoral. Caso contrário, morrerá nas primeiras semanas do 2º turno. A rejeição é uma predisposição negativa que o eleitor adquire e conserva em relação aos perfis.

Para compreendê-la, é compreender suas razões. A equação aceitação/ rejeição se fundamenta na reação emotiva de interesse/desinteresse, simpatia/antipatia, que Pavlov chama de reflexo de orientação. A rejeição tem uma intensidade que varia de candidato para candidato.

Em São Paulo, Paulo Maluf e Orestes Quércia são inseridos na moldura de alta rejeição, resultante do estigma de corrupção com que foram brindados ao longo de décadas. Quércia, em 1990, foi amarrado ao conceito: “quebramos o Banespa, mas elegeremos o Luiz Antônio Fleury.” Frase que ele e o próprio Fleury sempre negaram ter sido feita. Mas o lema pegou.

Maluf passou a administrar a rejeição depois de muito esforço. Tentou mudar comportamentos, tornou-se menos arrogante, deixou o nariz menos arrebitado, descendo-o para uma posição de humildade e começando a conversar humildemente com todos. Mas a voz anasalada o prendia na cadeia da antipatia.

Erros e rejeições de adversários contribuíram para atenuar a predisposição negativa contra ele, purgando-se, então, por pecados de outros. “Ruim por ruim, vou votar em mim”, lema de Tiririca (PL-SP) para agarrar os eleitores. Em regiões administradas pela velha política, a rejeição a determinados candidatos se soma ao familismo. Em alguns Estados, sobrenomes tradicionais acabam saturando perfis.

Em quase todas as regiões, há altos índices de rejeição, comprovando que os eleitores, mais racionais e críticos, querem passar uma borracha em domínios perpetuados. O voto, mesmo de maneira lenta, sobe do coração para a cabeça.

A rejeição pode ser atenuada, quando o candidato vai à fundo nas causas que corroem seu nome. Pesquisas qualitativas indicam certos fatores: atitudes, jeito de encarar o eleitor, oportunismo, mandonismo, orgulho, vaidade, arrogância, desleixo, compra do voto, história política negativa, envolvimento em escândalos, ausência de boas propostas, descompromisso com demandas sociais.

Não se equaciona a rejeição da noite para o dia. Quando o candidato demonstra muita pressa para diminuí-la ou entra na malha do populismo, a atitude será percebida. Nesse caso, pode ocorrer bumerangue, a ação se voltando contra o populista.  Ganha força a predisposição contra ele.

Trabalhar com a verdade, eis um ponto-chave para diminuir a rejeição. O eleitor distingue factoides de fatos políticos, boas de más intenções, propostas sérias de coisas mirabolantes.

A rejeição de Luiz Inácio e Jair Bolsonaro tem causas conhecidas. Lula leva consigo a imagem da divisão no País, pobres contra ricos, a luta de classes, Nós contra Eles. Por mais que tente escorregar, hoje, para chegar ao centro do corrimão, continua causando medo. O temor de que possa alterar as regras de nossa democracia. O petismo ainda não se livrou da carga pesada de ter erigido uma “catedral ética”, desmoronada com as águas da Operação Lava Jato.

Bolsonaro carrega a identidade da direita radical, ameaçando se escudar nas forças armadas para assegurar o poder por anos a fio. O autoritarismo por ele encarnado se faz presente na expressão virulenta com que atira contra adversários, manchando a liturgia governamental e emporcalhando a imagem das instituições. Exemplo foi esse encontro com embaixadores, no Palácio da Alvorada, para escrachar as urnas eletrônicas e denunciar, sem provas, a fraude nas eleições brasileiras. São ações destemperadas para mobilizar as bases.

Menos de 70 dias para o pleito serão suficientes para diminuir a rejeição? Um terceiro nome poderia se viabilizar? O eleitor deixará de votar ou votará em branco caso não tenha opção? P.S. É possível o registro de abstenção, votos brancos e nulos ultrapassando a casa dos 30%. A conferir.

 



postado às 09h00 | 21 de julho de 2022

O LIMBO

No Além, há quatro universos: céu, purgatório, inferno e limbo. É o que prega a Igreja Católica. Fiquemos neste último. O limbo é “a fronteira do inferno”, o lugar de almas que não merecem subir ao céu. E que, segundo a Igreja de Roma, também não são condenadas a padecer o fogo do inferno. O conceito original se voltava para crianças não batizadas, designadas de pagãs.

Usando o simbolismo, puxemos a ideia para o campo da política. O governo de Jair Bolsonaro não é criança pagã, mas sua índole, sua identidade, seu modus operandi nos fazem pensar que ele está no limbo, na fronteira com o inferno, haja visto o estrago que tem feito ao tecido institucional. 

Que estrago, indagam alguns? O afrontamento à Corte Suprema, em desafio aberto ao Poder Judiciário, o patrocínio de Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que possibilitará o montante de mais de R$ 40 bilhões para cooptar votos, a intervenção na Petrobras, entre outras ações arbitrárias. O argumento é de que os mais pobres carecem de proteção, daí a mão forte do Estado na costura do cobertor social, a diminuição do preço de combustíveis, o combate ao STF por “judicializar” as políticas públicas, entre outras ações.

O presidente Jair, com sua verve prolífera, põe lenha na fogueira nacional, que tende a causar mais e mais estragos. Parece querer acender o pavio do caos, preparando terreno para eventual intervenção, algo como um golpe. A depender do resultado das eleições de 2 de outubro.

O governo é um ente à procura de um rumo. Sem ideias, ou melhor, com uma única ideia: desenhar o ambiente social e político para permitir que o presidente se reeleja. Para tanto, o pacotão de bondades(?) foi para o colo do Centrão, mobilizando partidos de todo o espectro ideológico para aprovar a PEC Kamikaze (suicida por furar o teto de gastos). 

Qual é o eixo que movimenta a engrenagem governativa? Qual é a política de desenvolvimento? Inexiste.   Lembrando.  Fernando Henrique garantiu dois mandatos montado no cavalo da estabilidade econômica e amparado em reformas fundamentais no aparelho do Estado, cujos efeitos positivos foram se esgarçando ante a emergência de novas expectativas sociais. 

Lula da Silva e seu PT chegaram ao centro do poder, depois de costurar por décadas e com muita intransigência os fios de seus particularismos. Aí chegando, embriagados com o sumo do poder, na esteira da verticalização de cargos no governo (coisa que o próprio presidente Lula chegou a reconhecer), desfizeram os traços que davam nitidez a seus perfis, particularmente no que diz respeito à bandeira ética, brandida nos palcos iluminados da política. 

As oposições intensificaram uma locução de teor crítico cujo fundamento era menos um escopo programático e mais o comportamento de atores principais e secundários do palco governamental. O embate de uns contra outros.

Trata-se de uma disputa de rua. São tempos do “embaciamento” do jogo político, ou, como denomina Roger-Gérard Schwartzenberg, uma “uniformização no cinzento”. O posicionamento dos partidos numa zona descolorida, no grande arco central da sociedade, está a demonstrar alto grau de flexibilização, um pragmatismo voltado para resultados. 

Cada vez mais assemelhados, partidos e líderes estão menos preocupados em trabalhar no campo das ideias e mais interessados em conquistar o “poder pelo poder”. 

Parcela do Parlamento substitui os horizontes abertos do desenvolvimento pela visão imediata e ligeira de investigações, agora sob a égide de CPIs. 

Quem tem ideia, por exemplo, do que pensam os maiores partidos, como União Brasil, PP, PSD, PL, PSDB, MDB, a respeito de um projeto para o país? Do PT, sabemos que se desloca para o centro, ocupando flancos da socialdemocracia. É a estratégia de Lula para ganhar maiores contingentes eleitorais.

No fundo, a intenção visível de fortalecer o “centralismo democrático” significa o resgate do Estado gordo, com as funções de intervir fortemente no mercado, calibrar e monitorar os fluxos da locução na mídia massiva. 

Os grupamentos se reúnem nas antessalas do poder, onde se serve o caldo insosso de uma cultura sem discurso com sobremesa de geleia partidária. É bem verdade que o Brasil não é exceção na moldura da banalização da atividade partidária que se observa em praticamente todos os quadrantes mundiais. 

L. de Crescenzo, escritor italiano, ensina: “O poder é como a droga e sempre exige doses maiores”. Vale tudo para ampliar espaços. 



postado às 09h00 | 21 de julho de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com o folclore político de Minas Gerais e fecho com uma historinha do Piauí, onde, em 1986, coordenei a campanha de um candidato ao governo do Estado.

Proibindo eclipses

O coronel Zé Azul, chefe político de São Gonçalo do Abaeté, em Minas, era candidato a prefeito pela UDN. O calendário marcava: vésperas de um eclipse do sol que a imprensa vinha prevendo para começo do ano seguinte, como o mais forte já visto no Brasil. O medo generalizou-se. Espraiavam-se relatos de crianças que iam nascer defeituosas, galinhas que deixariam de pôr ovos, cabritos que não mais berrariam e a cachaça que ficaria envenenada. No dia 1º de outubro, o coronel Zé Azul fez o último comício da campanha e acabou com um juramento sagrado:

– Pode ser que, na prefeitura, a partir de janeiro, eu não consiga fazer tudo que pretendo por esta terra. Mas juro para vocês que meu primeiro decreto será proibir definitivamente eclipses em São Gonçalo do Abaeté.

Ganhou a campanha. No Brasil, candidatos ainda continuam com coisas desse gênero.

Panorama

O estuprador

Um crime que desafia os compêndios da criminalidade. Um médico, um profissional que jura defender a honra, a ética e a moral, comete um ato de barbárie contra uma parturiente. O anestesista exagerava nas doses de sedação. E foi flagrado em uma cena horripilante. Pena de 15 anos de prisão? É pouco, muito pouco, se for essa a condenação.

Bilhões de sóis e estrelas

O terrível acontecimento no Paraná ocorre no momento em que a sociedade mundial contempla, embasbacada, a visão de outras galáxias, captada pelo telescópio James Webb, da Nasa, o mais poderoso que já se construiu. Bilhões de sóis e estrelas esperam ser descobertos. Um longo passeio por outros espaços será iniciado. O futuro começa a se mostrar sob a sombra gigantesca da barbaridade que assola nosso planeta.

A tensão aumenta

A polarização ganha volume com o impulso expressivo do presidente Jair. Para quem o duelo das ruas, os tiros e emboscadas farão bem à campanha eleitoral que já está nas ruas. O assassinato de um policial no Paraná é o primeiro ato de uma peça que se estenderá para além de 2 de outubro. O dirigente do PT, apoiador de Lula, morto por um bolsonarista, é o chamariz para uma luta que tende a incendiar o país, se não for contida a tempo.

O bolsonarismo pegou

Não se enganem, leitores (as). A semente da árvore bolsonarista foi plantada e começa a vicejar. Vai se espalhar por aqui e ali, sob o empuxo de grupos radicais que destilarão ódio e violência. Jair Bolsonaro pode, até, perder as eleições, mas seu pensamento vingará. A extrema direita, que se mantinha calada nas últimas décadas, encontrou um ícone, ou como chama, "o mito". As bancadas das extremidades do arco ideológico engrossarão o caldo na próxima legislatura. A conferir.

Nome ainda indefinido

Este analista diverge da maioria dos intérpretes da política, que apostam na eleição de Lula, no primeiro ou no segundo turno. A campanha não está decidida. Temos o restante de julho, e dois meses fatais – agosto e setembro. As águas tumultuadas de 7 de setembro podem servir de pretexto para arrombamento de barragens. Lula e o PT ainda não diminuíram seus altos índices de rejeição.

A cooptação

Bolsonaro também tem alta rejeição. Com desaprovação maior que aprovação. Mas detém o poder da caneta. O Auxílio Brasil será aumentado com mais R$ 200. E cerca de mais dois milhões de pessoas deverão ser incorporados ao programa. A cooptação será intensa. A vantagem de Lula tem diminuído. Algumas pesquisas mostram uma vantagem de menos de 10 pontos. O ar está muito embaçado. Horizontes turvos.

Triângulo das Bermudas

Minha hipótese é de que o vencedor no Triângulo das Bermudas será o comedor das batatas. Sentará na cadeira presidencial. O Triângulo é formado por São Paulo, com cerca de 35 milhões de eleitores; Minas Gerais, cerca de 16 milhões e Rio de Janeiro, cerca de 13 milhões. O total do eleitorado é de aproximadamente de 150.000.000 dos quais 79.224.596 são mulheres e outros 78.444.900 são homens.

O Nordeste

A região tem cerca de 40 milhões de eleitores, assim distribuídos: Alagoas: 2.121.081; Bahia: 10.531.439; Ceará: 6.325.143; Maranhão: 4.583.402; Paraíba: 2.887.698; Pernambuco: 6.515.670; Piauí: 2.388.725; Rio Grande do Norte: 2.401.415; Sergipe: 1.528.448. Luis Inácio detém, hoje, maioria na região. Mas uma incógnita está no ar: como se comportará a base da pirâmide com o Auxílio Brasil? Ao que se sabe, o eleitor das margens carentes ainda atribui a Lula o patrocínio e o mérito do assistencialismo.

Centro-Oeste/Norte/Sul

São as regiões onde Bolsonaro poderá obter vantagem. Hoje.

O mundo revirado

A guerra entre Ucrânia x Rússia está aprofundando um novo eixo geopolítico. Rússia + China x Oeste da Europa + EUA. O mundo dá voltas. O clima de tensão e de desconfiança tende a permanecer. E os conflitos, a ganharem intensidade. Uma nova ordem mundial se apresenta.

Vai e volta

O ex-governador e ex-senador José Roberto Arruda está dando a volta por cima. Deve ressurgir no pleito deste ano. A política é também a arte da ressurreição.

O IMREA

Por trás dessa sigla está um empreendimento dos mais importantes para a vida nacional: O Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IMREA HC FMUSP. Trata-se de uma entidade do governo do Estado, que objetiva servir às pessoas com deficiência física, transitória ou definitiva, necessitadas de receber atendimento de reabilitação, desenvolvendo seu potencial físico, psicológico, social, profissional e educacional. Centro e referência em reabilitação. Nasceu em 1975.

Linamara

Em 2009, ganhou o status de hoje. conhecido por integrar a Rede Lucy Montoro de Reabilitação. Conta com 11 unidades em funcionamento. Comandado pela experiência e visão empreendedora da professora Linamara Rizzo Battistella. Linamara, para termos melhor ideia de seu conceito, é membro efetivo da National Academy of Medicine dos EUA. Este analista conhece a Instituição e constata a abnegação e o zelo de seus profissionais.

Fecho com a historinha do Piauí.

Que espetáculo de comício

1986. Comício de encerramento da campanha de Freitas Neto (PFL) ao governo do Piauí. Os carros de som anunciavam, desde cedo, o monumental comício de fechamento da campanha. Um espetáculo com showmício da grande cantora Elba Ramalho na praça do Marquês. Na época, as carretas com imensos aparelhos de som saíram do Rio de Janeiro, dez dias antes da data. Mas as fortes chuvas na região atrapalharam o transporte. A lama nas estradas atrasou a chegada. O som chegou quase em cima da hora do comício. Coordenador da campanha do candidato, cheguei ao local um pouco antes para ver o ambiente.

O toró...

Os técnicos se esforçavam para instalar os aparelhos e arrumar os grossos cabos. 18 horas. Um toró (como se diz no Nordeste) começa a cair. A chuva torrencial começou a fazer a festa. Praça lotada. Três mil piauienses pulavam entusiasmados sob a água que caía. As garrafas de cachaça corriam de mão a mão. De repente, um estrondo, seguido de outros. Fogo e fumaça nos cabos. Corre corre dos técnicos e o aviso: "Acabou o som. Não há condição". Não havia aquele tipo de cabo. Elba Ramalho foi logo avisando:

- Está aqui meu contrato. Sem som, não canto.

Conversa daqui, conversa dali, aflição por todos os lados. Depois de muita insistência, ela admite:

- Cantarei uma música, só, e me arranjem um acompanhamento.

Encontraram um cara com um banjo. O povão urrava:

- Elba, Elba, Elba, cadê a Elba ?

Bate, bate, bate, coração...

A cantora saiu de trás. A multidão explodiu. E lá vem a música:

- Bate, bate, bate, coração!

Nem bem terminou a estrofe, Elba parou. Presenciei, ali, uma das maiores aflições de minha vida, um esculacho na multidão:

- Seus imbecis, seus loucos, covardes, miseráveis. Como podem fazer uma coisa dessas?

O que era aquilo? Por que aquele carão? Olhei para o meio da multidão. E vi a cena: um sujeito abrindo a boca de um jumento, enquanto outro despejava nela uma garrafa de cachaça. Foi o toque que faltava para o anticlímax. Quanto mais Elba xingava a multidão, mais apupos, mais vaias. No dia seguinte, Teresina respirava um ar de gozação. O showmício de Freitas Neto foi um desastre. Senti o ar pesado. Pesquisas nos davam 3% de maioria sobre Alberto Silva, candidato do PMDB. Perdemos a campanha por 1%. O desastre virou o clima. Quando faço palestras sobre Marketing Político, costumam me perguntar:

- Professor, qual é o fator imponderável em campanha eleitoral?

Respondo:

- Um jumento bêbado no Piauí.



postado às 09h45 | 19 de julho de 2022

NÃO SOMOS AINDA UMA NAÇÃO

A imensa maré de lama que envolve políticos na recém aprovada PEC dos Benefícios, a violência policial estampada pelas telas de TV, a partir do horripilante estupro de parturientes vulneráveis, as negociações que jogam candidatos em negociações escandalosas, a gestão sem rumo, a administração federal entregue à volúpia dos donos do poder, fazem parte do mesmo tecido institucional: o do Brasil das trevas, o Brasil sob máscara, o Brasil das milícias.

A PEC dos Benefícios contém um estratagema: a aprovação de estado de emergência. Em outras palavras, será permitido ao governante adotar medidas extremas para ajudar as massas carentes, significando isso orçamentos extraordinários, inserção de milhões de famílias nos pacotes assistenciais, estouro das contas públicas. Não se pode deixar à mingua populações famintas, hoje somando quase 50 milhões de brasileiros. Mas, por que só agora a pouco menos de três meses das eleições? Cooptar eleitor com a sopa do assistencialismo é crime. Daí a necessidade de se aprovar uma PEC para driblar a ordem constitucional.

Desse modo, realizaremos uma eleição com artifícios e ferramentas de pressão. O Brasil mascarado irá às urnas. E em sua caminhada, carregará, a par de gente séria (temos de admitir que ainda dispomos dessa espécie), usurpadores, criminosos, pilantras, cínicos, vivaldinos e laranjas, categoria em expansão, essa gente que fornece o óleo para lubrificação dos esquemas de apropriação ilícita do dinheiro público.

O poder invisível está estocando seus arsenais. Mais de 40 bilhões de reais encherão os dutos eleitorais. Mas a estratégia de combate aos poderes invisíveis, voltados para a arbitrariedade e a rapinagem, requer a força da pressão coletiva, mais que simples castigos aos criminosos. Pois toda mudança de cultura se ampara na vontade geral. E sabemos que para limpar a cara do Brasil que dá vergonha, é preciso que os sentimentos do povo se irmanem aos poderes normativos. Sob esse prisma, vemos a sociedade ainda estagnada, observando a paisagem, mesmo com organizações fazendo questionamentos. O Judiciário, por sua vez, é questionado. Jogam sujeira em sua imagem.

No campo do Brasil Arbitrário e Violento, o campeonato é disputado, entre outros, por contingentes das extremidades do arco ideológico, que inserem o país numa disputa de cabo de guerra. O que um lado fará se ganhar a eleição? Pôr lenha na fogueira? Convocar militares para reverter os resultados do pleito?

O fato é que um véu de incerteza teima em cobrir o espírito nacional, adensando as expectativas, aumentando as angústias e diminuindo a crença nas instituições políticas e sociais. Em quase todos os aspectos da vida nacional, impera a dúvida. Não sabemos até onde irão os limites da Constituição ou como serão as formas para se chegar ao consenso sobre questões centrais. Ignoramos o intrincado jogo de poder. O que se sabe é que a desconfiança no processo eleitoral está disseminada. Um dano à democracia.

Vive-se em um ambiente de caos. Ninguém sabe, mas todos se aventuram a garantir suas verdades. Versões e fofocas se espalham. As Forças Armadas parecem ter tomado gosto pelo poder. Foram embora o respeito, a disciplina, a ordem, a ética, a força do compromisso, a dignidade. A improvisação campeia. Poucos se lembram dos hinos pátrios. Desprezamos ou não damos o devido valor ao conceito de Nação. O que nos importa é um pedaço de terra, uma propina, um alto salário, um feudo na área pública. Felizmente, na área privada, os empreendedores se dedicam ao labor.

Ora, Nação é um conjunto de valores, que reúne amor ao espaço físico e espiritual, solidariedade, orgulho pelo país, civismo e atavismo. Onde estão as bandeiras brasileiras nas portas das casas? Onde e quando se canta o hino nacional? Quem sabe contar histórias sobre os nossos antepassados?

Só é notícia o que é deslize. O torto, o errado, o inusitado vence a coisa certa. A violência nivela a cultura por baixo. Sem rumo, o povo banaliza a criminalidade. Morreu fulano, beltrano? Ah, uma briga de rua.

É triste. Não somos, ainda, uma Nação.



postado às 09h15 | 29 de junho de 2022

Porandudas políticas

Abro a coluna com um caso hilário da velha Bahia.

Grande prole...

Da Bahia, vem a historinha. José de Almeida, contador do Banco do Brasil, fazia o cadastro da agência. Um dia, chega Heroíno Pita, fazendeiro, que responde na bucha o formulário: nome, idade, imóveis, renda anual, dívidas. Aí vem a pergunta:

– Quantos filhos o sr. tem?

– 8 filhos

– Tudo isso? O senhor tem uma prole grande.

Heroíno, entre sorridente e cabreiro, abre o gesto com as duas mãos:

– Não, senhor. É normal. Normal.

Agora, respire e leia minha análise da conjuntura.

A crise I – O golpe

A crise amplia seus contornos a cada semana. Olhemos para os lados de nosso amanhã. A ameaça sobre um golpe a ser desferido pelo presidente Bolsonaro, caso perca as eleições, vem ganhando volume. O receio se alastra nos estratos do meio da pirâmide para cima. O leit motiv, que faz o pano de fundo desse risco, é o processo de votação, sujeito a fraudes, na concepção do bolsonarismo.

A crise II – As Forças Armadas

As Forças Armadas, historicamente discretas e distantes do tiroteio eleitoral, entram na arena dispostas à briga. Dizem com todas as letras que farão o seu sistema, próprio e intransferível, de auditoria, politizando a questão e praticamente desafiando o TSE a um duelo. Na última reunião da Comissão de Transparência Virtual presidida pelo ministro Edson Fachin, o representante das Forças Armadas, o general Heber Portella manteve-se calado e com a câmera desligada. Sinal de que o clima está mais que tenso.

A crise III – As urnas eletrônicas

O presidente Bolsonaro, por sua vez, se esforça para adensar a tese de fraude nas urnas eletrônicas, alimentando a base bolsonarista e tentando influenciar segmentos de todos os espaços do eleitorado. A campanha já está mostrando que será uma corrida de brutos desembestados em direção ao pódio. As Forças Armadas podem, até, com sua disposição de questionar o processo eleitoral, despertar grupos militares contrários ao seu rompante.

A crise IV – A Petrobras

A fogueira da crise sobe com mais algumas estacas. No centro da fornalha, a Petrobras. O governo decidiu nomear o quarto presidente da estatal na atual administração. O valor de mercado da empresa caiu em mais de R$ 100 bilhões nos últimos dias. Grana pesada. A CPI da Petrobras jogará a crise no cume da montanha. A intenção de Bolsonaro: atribuir à estatal a alta no preço dos combustíveis. A mão do Estado quer ser mais forte na definição dos rumos. O fato é que o presidente atual e o ex-presidente Lula defendem o que chamam de "abrasileiramento" da política de preços dos combustíveis.

A crise V – O intervencionismo

Lula pula no ringue, tentando escapar do adversário, mas na questão da Petrobras é francamente contrário à privatização. Tem dificuldade em ficar calado. A voz do Estado, com Lula ou Bolsonaro, será mais alta. Intervencionismo. E essa tendência assusta os pilares dos edifícios da av. Faria Lima. Os investidores ficam com um olho na bocarra do Estado e outro olhando para os limites da economia de mercado.

A crise VI – Os alimentos

E haja lenha na fogueira. Os juros que, logo, logo, devem chegar aos 15% mensais, fazem disparar o preço dos alimentos. Nos supermercados e feiras livres, os preços sobem aos céus. O programa Auxílio Brasil não enche mais os carrinhos. A carne de porco substitui a carne de boi. Feijão e arroz, sob medida, são os componentes centrais das refeições. A guerra da Rússia x Ucrânia escasseia e encarece os grãos, a partir de trigo e soja. O mundo entra em um ciclo de intensa carência alimentar.

A crise VII – O impacto

Nesse ponto, acende-se o farol vermelho. Está chegando o Dia D. A hora da verdade. 2 de outubro. Eleições. A retração da economia, os juros, as indefinições na área política, Petrobras, a pandemia, o contexto nebuloso que cobre o planeta, todo esse cipoal impactará o sistema de decisões do eleitor, que tende a reagir de acordo com a equação que, há tempos, tento mostrar aos leitores: BO+BA+CO+CA= Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido, Cabeça votando em quem viabilizou esse fluxo. A recíproca é verdadeira. Se a barriga roncar, a raiva, a indignação, o troco do eleitor virão com juros e correção monetária. Porrada nos candidatos identificados com a fome.

A crise VIII – Quem pagará o pato?

A conta começa a multiplicar números. Qual será a estatística dos mortos e contaminados com o coronavírus? Quem diz que os pobres não serão influenciados por isso fala bobagem. Lembro, mais uma vez: os seres humanos agem e lutam para sobreviver e perpetuar a espécie, como ensina Pavlov. Nesse esforço, despertam quatro instintos, dois voltados para a conservação do indivíduo e dois voltados para a preservação da espécie: o impulso combativo contra ameaças à vida; e o de nutrição (satisfação da barriga); e os dois de preservação da espécie são o instinto sexual e o paternal.

A crise IX – As associações

Os instintos são acionados por todos. Não apenas por um estrato social. Pobres e ricos, feios e bonitos, gordos e magros, negros e brancos, todos comem do mesmo prato instintivo. Hoje, a tendência é associar Bolsonaro às coisas ruins – fome, doenças, ameaças ao indivíduo. Porém, ele também será acionado a fatores positivos por alguns núcleos: família, valores etc. Ou seja, instinto paternal. Pátria, acima de todos; Deus, acima de tudo. Lula, aos valores positivos da barriga (acesso ao crédito, alimentos-Bolsa Família) etc. E, também, haverá certa associação com medo – comunismo, Cuba, Venezuela, etc. A corrupção será jogada no colo de ambos.

Paixões tristes I

A individualização de desigualdades toma o lugar da coletivização das desigualdades. Esse é o fenômeno em foco nesses nossos tempos turbulentos. Essa é a tese central de François Dubet, um dos maiores sociólogos da França, exposta em seu livro O Tempo das Paixões Tristes. Dessa hipótese, emergem o ódio, as cóleras, as indignações – um pacote rancoroso que acaba aplainando os caminhos do populismo.

Paixões tristes II

Classes superiores, médias e inferiores, que formavam a modelagem da pirâmide social, agora dão lugar aos grupos singulares e às desigualdades específicas: mulheres contra as discriminações; aglomerações de categorias profissionais nas ruas; jovens descendentes de imigrantes; desocupados e os contingentes sem acesso à saúde, à educação, à cultura, e submetidos aos influenciadores, entre outros. Vivemos tempos de paixões tristes. As desigualdades mudam de natureza.

Pente fino

- Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, pode entrar na chapa de Bolsonaro como candidata à vice-presidente. Mas, parece não querer se arriscar.

- O general Hamilton Mourão tem condição de se eleger senador pelo RS.

- Romeu Zema, de MG, deverá se reeleger.

- Quem ganhar em MG poderá ser eleito presidente em outubro. Minas Gerais representa o universo brasileiro.

- O Nordeste, hoje, mostra Lula ganhando de goleada. Porém, tende a diminuir sua vantagem.

- Em São Paulo, Fernando Haddad encontrará um paredão de resistência ao lulopetismo. Trata-se do Estado mais contrário ao petismo.

- Simone Tebet ainda não saiu do páreo. Pergunta que se faz nos segmentos médios: você vai votar em quem? Tebet surpreende. Muitos apontando para ela o seu voto. O que não aparece nas pesquisas.

- Sérgio Moro, candidato a que no Paraná, senador, governador? A impressão é a de que está sendo boicotado por seu partido, o União Brasil.

- Este partido patrocinou pesquisa mostrando que Sérgio Moro não tem chance de vencer as eleições ao governo do Paraná contra o governador Ratinho Júnior. Daí a ideia de lançar o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro ao Senado. Blog do Metrópoles.

- O Conselho da Petrobras vive o dilema: como sair do imbróglio – entre a cruz e a caldeirinha?

- O TSE, a ser comandado pelo ministro Alexandre de Moraes, a partir de agosto, vai endurecer e punir desafiadores da lei. A conferir.

- José Roberto Arruda, se conseguir viabilizar sua candidatura ao governo do DF, tem chances de voltar a dirigi-lo.

- O PSD, de Gilberto Kassab, avançará bem no pleito, com chances de formar uma grande bancada.

- A morte de Bruno e Dom joga a imagem internacional do Brasil no fundo do poço.

- De meu artigo na Folha de São Paulo, no último domingo: "O beabá para combater a violência deve começar com o desfazimento da cosmética de miséria que se instalou no país. Os cinturões metropolitanos, já saturados de lixões que ofertam um banquete pantagruélico para urubus, crianças e mães famintas, são também palco para a exibição de corpos chacinados em decomposição, vítimas do ciclo de violência desses tempos horripilantes. O que se vê é a expansão dos contingentes das ruas, esmoleres e mendigos, que passam a noite embaixo de pontes e viadutos, cobertos por caixas de papelão.... Sem ânimo, emoções envenenadas, os cidadãos se veem acossados pela violência, entram em um limbo catatônico, assemelhando-se a dândis em passeio macabro e estonteante por um jardim de horrores. A violência suga a vitamina da vida, a alegria de viver. Ao fundo, a sombra do vírus da pandemia em sua quarta visita ao nosso habitat".



AUTOR

Gaudêncio Torquato